"NAS RUGAS DO TEMPO"[1]: PRESENÇA DO VELHO NA LITERATURA INFANTIL BRASILEIRA

 

PEREIRA, Luci Ruas

UFRJ/UGF

 

Memória - "essa poeira encantada  de outros tempos"...

Roseana Murray

 

Ao escrever e publicar o clássico A velhice, texto que chega ao Brasil em 1970, Simone de Beauvoir tinha por objetivo quebrar a "conspiração do silêncio" que caracteriza o tratamento dado até então a esse tema, já que a velhice "surge aos olhos da sociedade como uma espécie de segredo vergonhoso do qual é indecente falar"[2]. Corajosa iniciativa, num tempo em que, apesar de todo o avanço da ciência e da tecnologia, o velho foi absolutamente ignorado, afastado, nessa nossa sociedade industrial, da vida produtiva, visto como alguém que vai, aos poucos, se despedindo da vida, alquebrado, decadente, decrépito, caduco.

Tratada na Idade Média como uma questão higiênica; no século XVIII como um organismo cujas peças se desgastam pela ação do tempo; no século XIX como patologia; no início do século XX, como objeto da geriatria, que adquire estatuto de ciência, o tema da velhice chega ao século XX como objeto de estudo que procura, por intermédio da gerontologia, entendê-la, não como doença, mas como etapa natural do processo vital.

É verdade que apenas mais tarde os estudos gerontológicos superam os paradigmas deterministas de uma visão de mundo construída pela ótica positivista. Para isso contribuem a psicanálise e a filosofia, com Freud e Bergson. "A memória, entendida como elo intersubjetivo com o passado, faz a senescência ser encarada como o tempo de lembrar, momento em que o idoso pode, através do ritmo interior, reconstruir e reviver passagens significativas da sua mocidade", afirma Carmen Tindó, no importante estudo sobre longevidade e saber na ficção brasileira. A velhice passa a ser vista a partir de dimensões subjetivas e existenciais.

Seguindo o pensamento de Simone de Beauvoir, a autora afirma que o velho é "uma invenção social", sujeita à ação de fatores como o cultural, o político, o social e o econômico, uma vez que "nosso inconsciente ignora a velhice. Alimenta a ilusão da eterna juventude." Discordando de algumas tendências da gerontologia, que vê, na velhice, a idade do cancelamento dos desejos, Carmen Tindó afirma que a "sexualidade não é apenas genital". A libido como pulsão só se extingue com a morte. Velhice não é, portanto, prenúncio da morte, já que, como impulso vital, a libido se aproxima de Eros e não de Tánatos. Os desejos são bloqueados, geralmente, quando os velhos perdem as suas funções sociais[3].

Só é possível pensar a velhice num contexto histórico determinado. O "que define o sentido e o valor da velhice é o sentido atribuído pelos homens à existência, é o seu sistema global de valores [...] Segundo a maneira pela qual se comporta para com os seus velhos, a sociedade desvenda, sem equívocos, a verdade - tantas vezes cuidadosamente mascarada - de seus princípios e seus fins".[4]

Continuo a citar Carmen Tindó, cujo ponto de vista compartilho. A velhice "é um espaço subjetivo da memória, propício a uma reflexão sobre a história, sobre a língua portuguesa e sobre a literatura" - diz-nos na apresentação do seu livro. "Uma sociedade que não valoriza a velhice como depositário das tradições, não alcança uma verdadeira independência, porque, sem memória, permanece culturalmente descaracterizada". Na literatura, "o velho e o novo se recriam dialeticamente, sob as rugas da linguagem". As rugas, "sulcos assinalados em nosso imaginário social, [são] vincos por intermédio dos quais podem vir à tona os mitos, sonhos, paixões e desejos silenciados no passado".

Num tempo em que a arte perde a sua "aura", cedendo espaço à repetição esvaziada de sentido, reproduzindo ad infinitum o que existe no presente, as tradições não se preservam. A memória, para Walter Benjamin a "mais épica das faculdades"[5] humanas, que se relaciona intimamente com o narrar e o aconselhar (o narrador é alguém que , pela experiência acumulada, sabe e pode dar conselhos) esfacela-se. Esfacelar a memória significa impedir o enraizamento da experiência que, então, se perde. Por isso mesmo considera que é preciso reinvestir no velho, já que a ele cabe passar aos mais jovens a experiência acumulada. Resistir implica manter viva a força da memória. A ela cabe a renovação. Cercado por uma espécie de aura cósmica, o narrador benjaminiano, sob o signo de Mnemósine, mantém viva, pela memória, a tradição. Recria o passado, trazendo-o ao presente e com ele estabelecendo uma tensão dialética que permite avaliar, repensar, criticar o estabelecido, não com o olhar passadista de quem acha no passado tudo o que há de melhor, rejeitando o presente, mas com uma espécie de "força rejuvenescedora", que sobrevive na "recordação coletiva", capaz de resgatar a lembrança do vivido, que permanece em latência no inconsciente.

Poeta, narrador, criança, velho: seres discordantes, desviantes, "olhares não automatizados", que "podem captar a poeticidade, a experiência e conservar a acuidade visual que a massa perdeu". São capazes de "viver" a representação do real. Poeta e narrador, "pela ludicidade da linguagem e pelo encanto de narrar". A criança, "pelas brincadeiras recriadoras do vivido".  O velho: afastado da vida produtiva, tem como armas de resistência "a memória emotiva de marcantes cenas pretéritas e o olhar dissonante em relação ao mundo atual". A melancolia, provocada no velho pelo exílio pode, entretanto, provocar, segundo o próprio Benjamin, apresentado aqui por Carmen Tindó, "uma rememoração alegórica, capaz de romper com a linearidade das tradições, porque a fragmentação das lembranças recria o passado pela força imaginante da memória, colocando-o em tensão com o presente. Todos, segundo Benjamin, são capazes de renovar porque "a essência da representação não é fazer como se, mas fazer sempre de novo".[6]

Ainda que muito rapidamente apresentadas, é possível afirmar, a partir das considerações iniciais, que o idoso é hoje um ator que não pode ser excluído da cena social e dos discursos que se produzem.

Meu interesse é, a partir da idéia de que a literatura tem uma de suas forças centradas na idéia de representação (mimesis)[7], coligir os elementos que, a cada texto da literatura para crianças e jovens, vão compondo o perfil do idoso como indivíduo, ao mesmo tempo em que se observa o modo como contracena com outros atores nas cenas vividas. Desta forma, e através da ficção, intento compreender de que modo a presença do idoso nas narrativas se verifica, quer ratificando os paradigmas sociais, quer desarticulando a imagem representativa para apontar um novo caminho e novos paradigmas possíveis.

O que pretendo é refletir sobre o assunto do modo como a mim parece representado na literatura brasileira para crianças e jovens (no caso específico desta comunicação limito-me apenas aos textos em princípio destinados às crianças), ainda que o problema não seja uma questão restrita a nossa cultura.

A escolha dos textos que aqui serão explorados, ainda que de maneira muito superficial, já que a abordagem exigiria tempo e espaço de que não disponho, é assumidamente subjetiva, aleatória. Sigo as trilhas abertas pelo desejo de releitura. Não faço mais que levantar algumas questões com as quais me preocupo faz algum tempo, mais exatamente: desde 1995, quando, em curso de pós-graduação, tratei pela primeira vez do assunto, numa disciplina intitulada Formas de representação da velhice na literatura infantil, experiência narrada no Congresso da ANPPOL realizado em João Pessoa em 1996.

Não tem este estudo uma função hierarquizadora, classificatória. Vou rastreando nos textos a presença do velho e dos olhares sobre a velhice à medida em que os vou apresentando.

Embora, desde Figueiredo Pimentel, o velho seja presença inequívoca na figura da Dona Carochinha, tão impiedosamente tratada por Monteiro Lobato, pela voz de Narizinho, que a transforma numa bruxa, a partir do momento em que chama de corocas as velhas com quem a menina mora, meu olhar detém-se na literatura a partir da década de 70,  quando a voz do escritor, aprisionada por um momento político de silêncio e censura, encontra no texto que tem a criança como alvo, seja como leitor, seja como personagem ou narrador, o lugar de resistência e de denúncia, de resgate da tradição. Poeta, narrador, criança e velho aí se reencontram para compor um fecundo diálogo. Resgata-se o encanto de narrar. Pelas brincadeiras, recria-se o já vivido. Pela afetividade que aproxima avós e netos, presença ainda bastante visível da tradição burguesa, que, segundo Simone de Beauvoir, transforma o velho na metáfora do avô bonachão, cúmplice dos netos, recupera-se a tradição. As lembranças dos velhos, sábios narradores de histórias antigas, contaminam o presente, transformando-se em reminiscências transgressoras. Em plena era da mercadoria, os objetos são deslocados do espaço onde tudo se negocia, para evocar outro tempo, quando eram outras as formas de produzir, de criar.

Voltemos a Lobato. Apesar da briga entre a velha Carochinha, Emília e Narizinho, nas Reinações de Narizinho, o espaço destinado aos velhos, na ficção lobatiana, só é dividido com as crianças. Os adultos estão praticamente excluídos do universo ficcional lobatiano, talvez porque, mais do que em qualquer outro grupo, eles falem a voz do instituído, a fala das cidades com todas as exigências de modernidade, sem a aura mágica que permite o contato com a natureza. 

Em Dona Benta encontramos a voz da autoridade, do saber formal, do velho cujo respeito se deve ao poder que detém, mas que está aberto ao novo, ao mesmo tempo em que se lhe atribui a responsabilidade pela educação das crianças. Em suas mãos estão os valores que se devem transmitir.

Em Tia Nastácia ouve-se a voz da tradição pelas histórias que conta; as crendices, os medos que se atualizam. Não é possível esquecer que é pelas mãos da mulher, preta e velha, presença dos excluídos, síntese da cultura popular, que surge a Emília, a voz da contestação, do inconsciente que aflora em fala, o olhar de retrós que muda de cor e de forma, possibilitando novas maneiras ver e viver a realidade. São as mãos da artesã que recuperam a voz rebelde e atrevida, a que diz tudo o que silenciamos. Novo e velho aí se dialetizam, problematizando o real.

No Tio Barnabé fala a voz da magia, da natureza, capaz de ensinar a caçar um saci, por meio de quem se desvenda a natureza brasileira e com ela a Iara, a Cuca, o Curupira, a Mula-sem-cabeça.

Pela mão dos velhos as crianças caminham pelas trilhas da ciência e da cultura. Pela mão dos velhos, em quem o autoritarismo cede espaço à autoridade, legitimada pela segurança com que fazem e deixam fazer, transgridem-se formalidades. A tradição visita o presente, a ciência convive com a magia, em vez de expulsá-la, pondo em crise o estatuído. As guerras, a política do petróleo, as políticas governamentais, as pequenas corrupções diante das quais o poder cochila por conveniência convivem com as personagens do país das maravilhas.

Tudo acontece e tudo se discute no Sítio. O maravilhoso brasileiro, despido de idealidade romântica, ganha a modernidade na literatura para crianças, despojando-se, também, do caráter de exotismo que contaminou tantos textos no século XIX, principalmente os indianistas[8]. A linguagem de Lobato brasileiriza-se: pela linguagem que transgride os modelos, a literatura para crianças faz-se brasileira. Neste sentido, aproprio-me das palavras de Eduardo Portela:

Literatura brasileira como expressão brasileira de uma vivência brasileira. E para expressar algo brasileiro vivido por brasileiro é necessário o instrumento próprio, o meio adequado. Queremos dizer: a linguagem. A linguagem como pedra de toque de um estilo nacional. Porque a linguagem é meio de apreensão e de expressão da realidade.[9]

Avancemos no tempo, até chegar à década de 70, onde vivem os que seguem a esteira de Lobato: os "filhos de Lobato".

Em 1978, Ruth Rocha, que já tinha posto em questão a convencionalidade do ato de nomear em Marcelo, Marmelo, Martelo, traz a público O reizinho mandão, onde dialogam pelo menos três figuras de velhos: a do avô, que, embora ausente como personagem, tem a sua permanência garantida na voz do novo narrador, que vai contar ao público uma história que esse avô "sempre contava": a do rei de história, velho "de barba branca batendo no pé", representação do rei justo e amado pelo povo, cuja morte significa também a morte da bondade e da justiça, e o acordar da prepotência de legitimidade duvidosa, o que se pode confirmar nas leis promulgadas pelo novo rei, pejorativamente nomeado no diminutivo; e a terceira representação, a do sábio, figura também de um velho que repreende e dá conselhos, que o reizinho, sem outra alternativa, aceita. O velho rei tem a sua respeitabilidade garantida pela nobreza de gestos e pelo poder que tem; o sábio, pela experiência adquirida, pode com certeza aconselhar. Mas é a primeira representação, a do avô, a que mais de perto me interessa, porque é ele que lega ao narrador a magia e o encantamento da narrativa, bem ao gosto benjaminiano.

Em primeiro lugar, é esse avô que conhece a tradição e as histórias que a atualizam. Em segundo lugar, vem desse avô a palavra da resistência contra a teia perigosa dos discursos do poder que silenciam a fala, expressa nos versos que servem de epígrafe à narrativa:

Quando o atrás for na frente,

No dia em que o mar secar,

Quando prego for martelo,

Quando cobra usar chinelo,

Cantador vai se calar.

Em ritmo de poesia cantada, acordando a voz dos velhos jograis, aedos e menestréis, cuja função era levar de vilarejo a vilarejo as façanhas dos heróis da comunidade, bem como seus costumes e tradições, o narrador provocadoramente se apresenta: contra o silêncio, acorda a voz da cantiga; contra o poder que silencia, faz erguer-se a voz da coletividade; contra o presente homogeneizador, faz levantar-se a voz do passado - voz de avô, voz de velho -, voz dissonante de uma irresistível rebeldia. Contra a voz do autoritarismo masculino faz erguer-se a voz de libertação do feminino; contra o estereotipado discurso das leis faz erguer-se a ciranda, a cantiga, que o desenho de Walter Ono representa muito bem. Sem fechar numa única conclusão, ou melhor, deixando em aberto a narrativa, o narrador aponta para um outro conto - O rei sapo - este recuperado da tradição escrita pelos irmãos Grimm, onde o castigo do rei, e não um simples enfeitiçamento, é ser sapo, até que uma princesa lhe dê um beijo, ou o aceite para companheiro.

Está aí o conselho que só o velho narrador, detentor da memória, pode dar às meninas de hoje. A história se atualiza e subverte a ordem estabelecida, ultrapassando o limite que lhe atribuem: de lutar contra o poder autoritário e ditatorial que domina o Brasil da época em que foi escrito. Está aí o mote para Sapo-vira-rei-vira-sapo, atualização do conto tradicional, onde o sapo feito rei - o reizinho mandão que retorna - quer aprisionar a verdade em seu castelo, verdade que se faz palavra e canção e faz ruírem as paredes do aparente sólido edifício. Mais uma vez, cumprindo a palavra do narrador de O reizinho mandão, o poder autoritário se apresenta. Mais uma vez o discurso do poder, o "discurso da arrogância", segundo Roland Barthes, se apresenta sob novo disfarce. Mas o discurso literário, o que "trapaceia com a língua", o que se quer fora do poder[10], realiza-se na linguagem criativa do narrador e na canção popular que afugenta o dominador.

Em 1979 chega-nos o primoroso Apenas um curumim, pela mão mágica de Werner Zotz. Não seria a primeira vez que o velho visitaria a narrativa desse brasileiro de Santa Catarina. Já se tinha apresentado como velho-do-mar, em Barco branco em mar azul. Pela voz do Capitão Tomás, o menino visita o maravilhoso mundo do sonho, aprendendo uma lição de solidariedade humana contra a violência e o preconceito. Mas é Apenas um curumim que nos põe em contato com as nossa raízes, na viagem iniciática empreendida pelo curumim em companhia do velho pajé.

Criado entre brancos, o pequeno curumim e o velho, ambos sobreviventes da mesma tribo dizimada pela cultura branca, empreendem uma viagem de volta à selva. A experiência do velho pajé garante ao menino a possibilidade de uma aprendizagem da origem, ao ensinar-lhe a ouvir a "voz de dentro", ao ensinar-lhe a construir a canoa segundo a tradição da tribo. A voz solitária do velho pajé é sem dúvida a voz da sabedoria que, sem acirrar qualquer tipo de revide contra os destruidores da sua cultura, até mesmo por considerar que a aceitação dos novos modelos, estranhos à cultura original, é responsabilidade dos próprios índios, aí se manifesta. A "rememoração alegórica, capaz de romper com a linearidade das tradições", como queria Benjamin, está aí, sem dúvida, representada. Recolher das ruínas da civilização os "pedaços" de lembranças e transmitir esse conhecimento aos mais novos é, a um tempo, um ato de resistência e de rebeldia. Fazer sempre de novo, novamente contar e viajar, ainda que seja a última viagem.  A alegoria cumpre aí o seu papel renovador e não simplesmente simbolizador do mesmo. Deixemos falar Nelly Novaes Coelho, que, no seu Dicionário Crítico, realiza uma bela leitura dessa narrativa:

A trama novelesca, pondo em confronto o velho e o novo (a experiência e a ingenuidade), fala do grave problema do índio, dentro do atual processo de aculturação e da necessidade de preservar os valores da cultura indígena ameaçada.[...]

Argutamente, não põe em questão essas duas visões antagônicas, através de um possível choque entre índios e brancos. Escolhendo, pois, o contraponto como estrutura narrativa, o autor alterna a fala de um índio velho - o pajé -, representante da sabedoria arcaica; e um índio menino, o curumim, perplexo / curioso em face das diferentes verdades que se ofereciam às suas opções: a do pajé, apontando para o passado, para as origens, e a dos brancos, para o futuro, para a transformação...[11]

Entrecruzam-se na narrativa as vozes do poeta, do narrador, do velho e da criança, num discurso evidentemente poético, onde o velho, detentor das raízes, assume o papel que lhe cabe: o de resistir e o de ser responsável por estabelecer os elos entre as duas gerações, pela memória que se resgata.

Também em 1979, Lygia Bojunga Nunes publica Corda Bamba, a dramática narrativa que tem em Maria a personagem principal. Também aí a questão da memória volta à cena, mas desta vez não é pela sabedoria dos mais velhos. Simbolizada pela corda que se estende por sobre o abismo, a memória, bloqueada pela tragédia em que morrem os pais de Maria, vai aos poucos se ativando, num ir e vir que estabelece uma tensão entre passado / presente / futuro. Cabe à personagem a conquista de um espaço para ser - Maria é uma menina "que não tem onde pôr os pés"- numa narrativa em que o existencial e o ontológico se conjugam, tecendo uma trama em que se alegoriza o jogo da vida: caminhar abrindo portas na memória, tendo no passado o ponto de partida para a construção do futuro. Experiência solitária, dolorosa, mas profundamente construtiva, nessa narrativa em que a participação dos mais velhos está esvaziada de sentido, tanto na presença da avó, cujo nome - Maria Cecília Mendonça de Melo - já denuncia, pela inflexão, a artificialidade de uma vida de riqueza, pautada pela inautenticidade e pela ausência de sensibilidade e afeto.

Maria Cecília é um dos estereótipos de uma sociedade para a qual os bens materiais são mais importantes do que a própria existência (ou são a sua própria razão). Valores são compráveis pelo dinheiro. Não tem a sensibilidade dos mais velhos nem o aspecto bonachão das avós representativas da sociedade burguesa. Memória, nem a da própria vida para contar. Histórias para a neta ficam por conta de uma velha trazida a peso de dinheiro, que aparece no dia do aniversário da menina. Faminta, a velha morre de comer, numa cena patética em que o excluído aparece caricaturado, mas não sem antes contar a história dos casamentos de Maria Cecília, as únicas que conhece. Conta para, logo em seguida, silenciar. O seu papel se cumpre.

Outra é a situação vivida pela "Vó do Vítor", em O sofá estampado. A ruptura do estereótipo da avó ideal, construída pela sociedade burguesa, acontece nessa narrativa em que os bens de consumo dirigem e superficializam as relações sociais e afetivas. Dinâmica, tem uma participação social e política definida. Recupera o papel do narrador benjaminiano, agora para uma personalidade feminina. "Foi ser bandeirante, excursionista, bolsista. Só pra viver pra baixo e pra cima. Voltava para casa com um monte de histórias pra contar. Estudou arqueologia. Viajava cada vez pra mais longe, fazendo escavação, pra ver se descobria placa ou unha ou qualquer coisa de tatu de antigamente" - diz o narrador. Viajante, a personagem traz na sua bagagem - a mala da Vó - as histórias que apaixonam o neto, despertando-lhe o desejo de seguir-lhe os passos. Incansável, participa do mundo, sem isolar-se na condição de velha e inútil. É outro o paradigma que com ela se inicia. Ou melhor: participando da vida, acumulando experiências, essa Vó tem histórias para contar. Tem a sabedoria dos que sofrem a existência e a consciência de que amar não necessita do estar ao lado para dar abrigo. O que transmite ao neto é a positividade de uma vida ativa e criativa, que o peso da idade não pode deter. Morre "em processo" de viver. Mais que a herança do pai - o comércio de carapaças - a Vó lega ao neto a aventura de existir, a aventura de ser. Não é à toa que Vítor, recuperando a mala, segue as pegadas da Vó, ainda que sem a Dalva, mas, sobretudo, sem engasgos.

Já na década de 80, mais exatamente em 1987, Ricardo Azevedo nos acena com Tá vendo uma velhota de óculos, chinelo e vestido azul de bolinha branca, no portão daquela casa? A imagem configurada pelo título (em edição posterior o autor muda o título do livro - a velhota passa a ser velhinha) aponta para uma representação bastante estereotipada, se considerarmos apenas os aspectos exteriores: os óculos, a cabeleira branca (considere-se a ilustração feita pelo autor), os chinelos, o vestido de bolinhas e a referência nominal - velhota - que pode sugerir, pelo diminutivo, uma leitura pejorativa, a confirmar o desprezo de que o velho tem sido objeto, ao longo da história (teria sido essa a razão da mudança de nome?). entretanto, abrir as páginas do livro nos reserva uma grata surpresa: se a primeira tomada de cena aponta para a leitura da aparência, as páginas que se desdobram correspondem à abertura de portões para o interior, da casa e da alma, na tentativa de desvendar o mistério de uma longa existência, indiciada pelos cabelos brancos, pelo esmaecimento da visão, pelas rugas que marcam como cicatrizes deixadas pelo tempo o rosto pintado pelo ilustrador. Na verdade, são três as narrativas, tomadas de pontos de vista diversos, como se dessem entrada a outros olhares, outros "eus", diante dos quais a experiência de vida do outro se perspectiva e se recria. Na primeira perspectiva, a velhota é escritora: "Para mim, ela é uma escritora de histórias para crianças." Na segunda, é personagem misteriosa, feiticeira disfarçada: "Para mim essa velhota, não sei não. Parece que vive escondendo alguma coisa." Na terceira, é artista de teatro, "dessas que sobem no palco e se transformam completamente". Depois, o narrador convida o leitor a entrar na narrativa para, em sua companhia, também imaginar uma história para a velhota.

Em qualquer das três perspectivas, a velhota desperta a atenção porque sai com certa freqüência, porque há em sua vida uma presença masculina que chega nos fins de tarde, porque sai em companhia dessa figura masculina e se dirige à pracinha e porque uma luzinha brilha pela madrugada no andar de cima de sua casa. São esses os índices que inspiram as narrativas.

Em todas as hipóteses, a velhota é um sujeito ativo, que trabalha. Seja como escritora de histórias para crianças, o que repete o paradigma das velhas narradoras que a tradição ocidental nos lega; seja como feiticeira, quando se repete o modelo de exclusão da velhice e de sua estigmatização como representante do mal; seja como atriz, que ainda representa os mais variados papéis.

Em todas as hipóteses, a velhota se faz acompanhar por uma constante figura masculina. Na primeira, é a imagem do marido e companheiro, numa clara confirmação de que o amor não é uma impossibilidade na velhice. Os dois se dão bem porque "trabalham com as mãos: ele, "inventando melodias ao piano"; ela, "inventando histórias na máquina de escrever". Unem-se pelo trabalho criativo, além do companheirismo que os leva a passear e a sentarem-se no banco da praça para esperar o anoitecer. Na segunda, a velhota é mistério de vida. Canta ópera que, na perspectiva do narrador, "não deve ser coisa boa"; se é feiticeira, o companheiro deve ser vampiro; se vão à praça juntos, boa coisa não hão de tramar. Ainda assim, a vida é marcada pela invenção: feitiçarias, mágicas, venenos. Na terceira, representa papéis, inventa personagens, diante do espelho e as leva ao palco. O olhar da atriz é "doce e tranqüilo", como o de quem teve que aprender muito para poder representar. Não casou, não teve filhos, mas construiu uma vida povoada de amigos, entre os quais aquele que a acompanha para assistir ao pôr-do-sol.  

Há, na perspectiva dos três narradores, um traço comum: o desejo de saber quem é essa figura de vida indevassável, mas que, por isso mesmo, aciona o imaginário e permite as histórias. Há, ainda, em cada uma das vozes, a presença das metáforas que o imaginário social reserva para o velho. Mas há sobretudo a certeza de que a velhota esconde um saber acumulado que se revela em invenção. Seja como escritora, como feiticeira ou como atriz, a velhota tem um papel social representativo. É dinâmica, trabalha, produz e ainda pode reservar um espaço e um tempo para o afeto, seja na cumplicidade entre marido e mulher, seja na convivência com a magia, seja no olhar carinhoso com que recebe os amigos. Nem decrepitude, nem caducidade, nem solidão, nem perda dos papéis sociais. Também não é a avó que se faz representar, mas o velho tomado como indivíduo que tem direito à privacidade (e não ao aprisionamento), à vida interior e à participação.

Um salto até o ano 2000, o último do século XX, nos leva à aventura poética de Um avô e seu neto, de Roseana Murray. "É uma história simples", como afirma o narrador. Uma história de afetos e de elos: entre um avô e um neto, entre o velho e a criança, entre o passado e o presente, entre um mundo antigo e um mundo novo, entre a reminiscência e sua atualização em história criativa. É uma história em que avô e velho se encontram em uma só personagem, pontuada por freqüentes chamadas à reflexão sobre o velho e seu papel social.

"Os avós sabem muitas coisas" - diz o narrador. Sabedoria acumulada pelo tempo, o velho avô se apresenta como guardião da memória - "poeira encantada de outros tempos", ou melhor: reminiscências metaforicamente apresentadas - memória que se revela criativa, ao ponto de "contar histórias malucas". Mas a narrativa também tem o seu tanto de denúncia:

O avô tinha uma barriga grande. O neto achava que tinha um sol lá dentro, ou uma fábrica de alegria. O avô ria tanto! Mas um dia o avô parou de trabalhar. Era como se a barriga tivesse diminuído, ou uma nuvem tivesse escondido o sol.

[...] quando se lembrava que não podia mais trabalhar, que se não fizesse bastante barulho ninguém se lembraria mais dele, aí só contava histórias da sua vida. (O neto ouvia.)

Ainda que atenuado pela abordagem lírica, o medo do esquecimento está aí denunciado, como uma conseqüência do afastamento da vida produtiva. Contar é então um modo de se fazer presente, de se perpetuar na memória do ouvinte. De passar experiências, de seduzir pelo encantamento do passado, pela magia das histórias fantásticas. De recriar, no passado, o tempo de ser alegre ou de ser triste. As rugas do rosto escondem todo o mistério da vida que se desdobra em linguagem para comunicar ao outro a existência de "armário" ou "maleta" cheio de aventuras. Mas não pode haver contador de histórias de vida se não houver ouvintes. É preciso restabelecer a cadeia comunicativa.

Considerem-se, então, os parênteses e o que eles acolhem: "(O neto ouvia.)". Fixa-se, pela insistente repetição, ao longo da narrativa, o papel do neto: ouvir e garantir a presença dessas reminiscências que o nosso mundo praticamente expulsa do seu convívio. Ou, como denuncia o narrador, presença de "um mundo tão antigo que já quase não cabe mais neste nosso mundo". Alguns netos - diz o narrador - param para ouvir, já que os avós não são eternos, embora o devessem ser. Histórias malucas ou histórias de infância em país distante, cheias de frio e de neve, mas repletas de calor humano; de pobreza, de riqueza inestimável no ter um cavalo de barro feito pelo tio artesão, de episódios pitorescos ou terríveis, de guerra, de viagem de fuga.

Ao recordar a magia do fogo para queimar o barro que se transforma em prato, moringa, bule, o avô também empresta vida a esses objetos de encantamento para os ouvidos e os olhos assombrados do menino. A história encerra-se no passado próximo: "E o avô teve um neto...", como o ciclo da vida que se renova, como se o elo que une velho e novo se estabelecesse. Ou como se, desta forma, pelo que une narrador, velho e criança, vozes de dissonância numa sociedade como a nossa, que não vive o seu passado, nem se preocupa com as suas raízes históricas, se estabelecesse um pacto: o de permanecer, como voz de rebeldia, pela memória que ativa a imaginação criadora, como literatura, também espaço de rebeldia, também esquiva, também posta de parte nesses tempos de tantos negócios e tanta economia.



[1] Este título inspira-se na tese de doutoramento defendida na UFRJ, em 1993, por Carmen Lúcia Tindó Ribeiro Secco, publicada em 1994 sob o título Além da idade da razão.

[2] BEAUVOIR, Simone de. A velhice. São Paulo: Difel, 1970. V.I, p. 16.

[3] SECCO, Carmen Lúcia Tindó Ribeiro. Além da idade da razão. Rio de Janeiro: Graphia, 1994, p. 9-10.

[4] BEAUVOIR. Op. Cit. Vol. I, p.97)

[5] BENJAMIN, Walter. Obras escolhidas. Magia e técnica, arte e política. São Paulo: Brasiliense, 1986. Vol. 1. p. 210.

[6] SECCO. Op. Cit. p. 29.

[7] Refiro-me aqui especificamente às idéias de Roland Barthes, que no livro Aula, apresentas as   três forças da literatura: mimesis, mathesis e semiose.

[8] PORTELA, Eduardo. Literatura e realidade nacional. 3ed. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1975. p. 35-36. " Motivados pelo desejo ingênuo de ser tipicamente brasileiros, os escritores indianistas terminavam por enfocar o Brasil de uma perspectiva européia. - o Brasil como natureza. A perspectiva européia consistia em observar no Brasil aquilo que era diferente dela. Estava seduzida pelo exótico. Valorizava o índio e a selva. Mas por serem agentes de exotismo, por serem discrepantes."

[9] PORTELA, Eduardo. Literatura e realidade nacional. 3ed. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1975. p. 25.

[10] BARTHES, Roland. Aula. São Paulo: Cultrix, 1980. p. 11.

[11] COELHO, Nelly Novaes. Dicionário crítico da literatura infantil / juvenil brasileira. 1882-1982. São   Paulo: Quíron, 1983. p. 918-919.