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  GÊNEROS DISCURSIVOS: CONSTRUINDO SABERES, DIVULGANDO CIÊNCIA

Ana Sílvia Couto de Abreu – Professora da Universidade Paulista - Unip
Telma Calderani – Discente da Universidade Paulista - Unip


I.INTRODUÇÃO
Sabemos que é na linguagem, pela linguagem que o indivíduo se constitui enquanto sujeito ativo na sociedade. Quando pensarmos sobre o espaço da sala de aula, embora este apresente especificidades tão variáveis em função de todos aqueles ali envolvidos, entendemos que criar espaços para que o aluno faça uso da palavra, se expresse é fundamental. Entretanto, o que temos percebido nos contatos com professores do Ensino Fundamental I e II e com alunos do Curso de Letras é que o trabalho com leitura e produção de textos vem sendo feito em uma perspectiva tradicional e limitadora, porque apenas centrada na estrutura dos textos.
Com o intuito de repensar essa prática, desenvolvemos um projeto sobre gêneros discursivos com os alunos do terceiro semestre do Curso de Letras da Universidade Paulista – Campinas. Contamos a nosso favor com a inserção na grade curricular da disciplina Genêros textuais e gêneros discursivos. Para a realização do projeto, os alunos leram, inicialmente, alguns teóricos ( Bakhtin, 1992 ; Biasi-Rodrigues,2003; Brandão, 2000; Baldo, 2004 ); a partir dessas leituras, pusemos em debate a prática de sala de aula. Surgiu, então, a idéia de cada grupo da classe criar um texto pertencente a um determinado gênero textual para ser efetivamente usado em ambiente pedagógico, procurando compreender melhor como o trabalho com textos numa perspectiva bakhtiniana pode se configurar. Os gêneros contemplados pelos alunos foram: História em Quadrinhos, Documentário, Conto Infantil e Divulgação Científica.

II.GÊNEROS – CONCEITUAÇÃO
Embasamos nosso projeto na concepção de gênero apresentada por Bakhtin (1992), segundo a qual gêneros são tipos relativamente estáveis de enunciados que se dão nas diversas instâncias sociais. É a partir das condições específicas e das finalidades de cada instância social que um enunciado se configura quanto ao tema, ao estilo verbal e à construção composicional.
Os gêneros discursivos são bastante heterogêneos: desde um diálogo cotidiano até textos científicos e artísticos. Embora esses gêneros sofram uma certa cristalização histórica, é importante ressaltar que por estarem centrados em contextos sociointeracionistas, os gêneros apresentam certa flexibilidade; uns mais do que outros, basta pensarmos nos gêneros da esfera burócratica e nos gêneros da esfera artística, como nos lembram Brait & Rojo ( 2002).
É exatamente esse aspecto da realidade sociointeracional que se perde quando o professor centra suas propostas de leitura e produção na clássica tríade: narração, descrição e dissertação, preocupando-se quase que exclusivamente com a estrutura textual. Segundo Biasi-Rodrigues (2003), essa prática “limita o reconhecimento das possibilidades de uso da linguagem nos mais variados contextos sócio-comunicativos que vivenciamos em nosso dia-a-dia (...)[e acaba por] excluir da prática escolar o exercício autêntico da linguagem.”
Dependendo dos propósitos comunicativos nas diversas instâncias sociais é que um gênero se configura. Daí a relevância de se discutir com o aluno – leitor/autor do texto a ser trabalhado – aspectos como: quem é o autor, a que público se destina o texto, em que momento sócio-histórico foi feito/ está sendo feito, em que suporte se apresenta ao leitor, como se dão sua circulação e recepção. Como afirmam Brait & Rojo (2002), “quanto mais você souber sobre as formas de produção, circulação e recepção de um texto, do gênero por meio do qual ele é veiculado, mais poderá entender a respeito das formas como a linguagem atua no mundo e como os sentidos são produzidos.”

III.O PROJETO - DESCRIÇÃO
O projeto surge a partir da observação da prática de diversos professores. Alunos e professores insatisfeitos com as famosas redações sem leitores. Muitos autores já contribuíram para que tenhamos uma prática mais autêntica, vinculada à realidade do aluno, na qual os textos realmente expressem sentidos construídos pelo aluno em uma dimensão dialógica. Mesmo assim, ainda há muito a ser feito. Entendemos que a perspectiva bakhtiniana muito pode nos acrescentar.
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Utilizando o espaço da disciplina Gêneros textuais e gêneros discursivos, os alunos escolheram um determinado gênero discursivo e decidiram em qual instância social dar-se-ia sua recepção.
Alguns grupos decidiram por criar História em Quadrinhos para crianças do Fundamental I; outros se decidiram pelo Documentário a ser apresentado aos alunos universitários; outros ainda resolveram criar um Conto Infantil para ser lido em uma creche próxima à Universidade, e, por fim, alguns pensaram em redigir um texto de Divulgação Científica para crianças do Fundamental I.
As especificidades de cada gênero então se anunciaram: para cada um dos gêneros escolhidos, fez-se necessária uma análise dos fatores de produção, circulação e recepção.
Assim, a escolha do estilo do texto, sua formatação, seu suporte, sua densidade temática, seu modo de circulação – todos esses fatores dependentes da instância social escolhida – foram aspectos amplamente discutidos durante a elaboração do projeto.
Neste artigo, atemo-nos ao texto de divulgação científica, tanto pela relevância desse gênero, quanto pela qualidade do trabalho realizado pelos alunos. O material em questão intitula-se Clara, Clarinha, clarão...(em anexo).

IV. A. O GÊNERO DE DIVULGAÇÃO CIENTÍFICA (DC)
Sabemos que há, atualmente, uma grande diversidade de publicações com o objetivo de divulgar a ciência. Autores como Eduardo Bueno, na área de História; Marcelo Gleiser , na área de Física; Pasquale, na área de Língua Portuguesa, são alguns que têm seu espaço conquistado na mídia impressa, com colunas em jornais e livros publicados com alta porcentagem de venda.
Esse fato nos revela dois aspectos: em primeiro lugar, que há um público interessado em ciência; em segundo, que parece ser necessário que haja um mediador entre o conhecimento científico construído pelo pesquisador cientista e o público leigo.
O gênero de divulgação científica vem preencher esse espaço, à medida em que busca divulgar a ciência "propiciando ao leitor leigo, o contato com o universo da ciência através de uma linguagem que lhe seja familiar" (Leibruder, 2000). As escolhas lingüísticas (lexical, estrutural, enfim, do tom do texto) que o divulgador fará dependerá, entre outros fatores, do público que ele deseja atingir e do suporte onde o texto será divulgado.
A linguagem utilizada nos textos de divulgação científica apresenta-se em dois níveis, segundo Leibruder (2000):
Objetiva- caracterizada pela presença da voz do cientista, "cuja autoridade atribui um caráter de confiabilidade e veracidade ao argumento defendido" e pelo apagamento do sujeito, dando aos objetos e idéias papéis ativos; utilizando-se desse processo, o autor "confere ao texto um caráter de universalidade e, portanto, neutralidade, legitimando, dessa maneira o seu discurso."
Subjetiva- "marcada pela presença do sujeito discursivo no texto", utilizando elementos didatizantes como comparações, metáforas, definições, nomeações, exemplificações e parafrasagem, além das escolhas lexicais, conferindo ao texto de divulgação científica um "caráter metalingüístico" de fácil compreeensão. Vejamos, a seguir, alguns elementos que compõem esse caráter metalingüístico do gênero divulgação científica:

Elementos Didatizantes
Comparações
As comparações são feitas a fim de estabelecerem relações entre termos ou situações pouco familiares com aquelas mais próximas do cotidiano do leitor, buscando esclarecê-las. As expressões mais utilizadas são: como, tal como, da mesma forma que, etc.
Metafóras
As metáforas são caracterizadas pelo uso das palavras ou expressões em sentido figurado, ou seja, diferente de seu sentido original, adaptadas ao contexto onde estão inseridas.
Definições
Muito eficazes para explicar o significado de termos científicos pouco conhecidos do público, as definições podem ser conotativas ou denotativas sendo estas as mais utilizadas nos textos de divulgação científica.
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Nomeações
A nomeação é feita após explicados os conceitos, idéias ou objetos contidos no texto, portanto, é o recurso metalingüístico oposto ao da definição.
Exemplificações
Consistem em elucidar através de exemplos os conceitos, idéias e objetos tornando-os mais concretos e compreensíveis ao leitor.
Parafrasagem
Como em todos os recursos metalingüísticos utilizados nos textos de divulgação científica, a parafrasagem tem por objetivo tornar o entendimento do tema abordado mais fácil, transformando os termos difíceis em comuns.

B. CLARA, CLARINHA, CLARÃO... ENQUANTO GÊNERO DE DC
De todos os elementos didatizantes o mais utilizado foi a definição. Entendeu-se que dada a especificidade do público – crianças de 1ª à 4ª séries do Ensino Fundamental I – esse era um elemento de fácil assimilação.
É interessante destacar o papel do divulgador em um texto de DC. Sabemos que esse papel pode ser desempenhado pelo cientista ou pelo jornalista e, no caso da escola, pelo professor . No caso do texto Clara, Clarinha, clarão , esse papel coube ao personagem Harley que orienta a personagem Clarinha em suas dúvidas. O que ele faz em relação aos conhecimentos científicos é colocá-los em uma linguagem que parece permitir com maior facilidade, tanto pelas escolhas lexicais quanto pela estrutura, a compreensão da criança leiga no assunto.
A imagem de Clarinha como um leigo interessado em questões científicas remete-nos a dados de pesquisas desenvolvidas no Brasil e nos Estados Unidos (Vogt, 2001), as quais indicam que as descobertas científicas sempre atraem o interesse da população:

Uma pesquisa feita pelo Instituto Gallup, entre janeiro e fevereiro de 1987, mostrou que 71% da população brasileira tem interesse por descobertas científicas. Vinte por cento dos brasileiros adultos disse, inclusive, que procura estudar e conhecer melhor algum ramo da ciência.

Na narrativa criada pelos alunos, a aproximação das questões científicas é feita por intermédio de um divulgador –personagem Harley e, posteriormente, abre-se um espaço na sala de aula para essas questões. Sabemos também que um dos meios, hoje, de se divulgar a ciência é mediante publicações na mídia impressa. Estabelecer elos entre a mídia e a sala de aula é um das tarefas do professor.

CONSIDERAÇÕES FINAIS
Entendemos que a contemplação das características da DC ainda está incipiente, quanto aos elementos didatizantes, mas já nos revela uma preocupação com os diversos elementos que compõem um gênero.
O que vale ressaltar no desenvolvimento de todo o projeto é o fato de os alunos terem se envolvido com a leitura de textos teóricos, terem redigido textos de diversos gêneros e, ao realizarem esse processo, terem compreendido melhor a relevância dos aspectos histórico-sociais como constitutivos da relação interlocutiva.

ANEXO
CLARA, CLARINHA, CLARÃO...
Angélica Gomes Kiwi
Cristian Firmo Barreto
Edimilson Oliveira Melo
Juliana Alves Botono
Clarinha é uma menina de 8 anos que sempre gostou muito de ir à escola. Ela vive com sua mãe, Clara, seu pai, Leo, e sua avó Beatriz. O pai estava sempre trabalhando, vovó era muito velhinha e mamãe acabou sendo a única companheira de Clarinha.
Naquele dia, sua professora Isabel, que dá aula de ciências, pediu silêncio e falou:
- Crianças, a próxima aula será sobre astronomia.
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O sinal tocou, as crianças saíram correndo e não deram chances para a professora explicar melhor o assunto da próxima aula. Clarinha, além de adorar a professora, sempre gostou de ciências e adorou a idéia de estudar astronomia, mesmo sem ter muita certeza do que era.
Quando chegou em casa, Clarinha correu para sua mãe e perguntou, eufórica:
- Mamãe, mamãe, o que é ASTRONOMIA?
Sua mãe, muito surpresa com a pergunta da filha, respondeu:
- Astronomia é a ciência que estuda os corpos celestes.
- Corpos celestes, mamãe? O que é isso?
- Corpos celestes, minha filha, são o Sol, a Lua, as estrelas e os planetas. Tudo que fica lá no céu.
- Mas, mamãe, se estão lá no céu, como é que posso estudá-los?
- Existe um aparelho, Clarinha, feito para observar as coisas que estão bem longe, lá no céu, o telescópio.
- Que legal mamãe, você tem um?
- Não, minha filha. Mas como o seu aniversário já está chegando, se você quiser mesmo, eu te dou um.
- Quero sim. Obrigada mamãe. Você é a melhor mãe do mundo. Eu vou correndo contar as novidades para a Patty.
Patty é a melhor amiga de Clarinha, é a sua boneca preferida. Clarinha abriu a porta de seu quarto, abraçou Patty e exclamou:
- Patty, você não sabe quanta coisa aconteceu hoje!
Na escola, a minha professora disse que vamos ter aula sobre uma tal de Astronomia.
Você sabe o que é isso Patty? Perguntou Clarinha, empolgada.
- É, eu também não sabia, mas quando cheguei em casa, a mamãe me explicou. A Astronomia estuda tudo aquilo que está no céu: as estrelas, os planetas, o Sol, a Lua, os cometas, e muitas outras coisas.
Clarinha adorava contar as novidades para Patty porque ela sempre sorria. As meninas do colégio não gostavam muito de Clarinha e ela foi se tornando solitária e se apegando, cada vez mais, apenas a seus brinquedos e a sua imaginação.
E neste momento que, com os olhos tristes e cheios de água, Clarinha disse para Patty que queria muito, muito, mas muito mesmo ter outras amiguinhas para quem contar suas descobertas.
Clarinha enxugou suas lágrimas e desceu para almoçar.
Dias depois, Clarinha recebeu o presente que sua mãe havia prometido. Um lindo telescópio e um livro sobre Astronomia. Clarinha ficou extremamente feliz e passou o dia inteiro lendo, e a noite observando o céu, horas e horas a fio, maravilhada com o que lia e via.
De tempos em tempos, Clarinha fazia comentários sobre o que via com Patty, mas apesar de gostar do que estava vendo, não sabia o que eram todas aquelas coisas, mamãe havia saído e Clarinha não tinha mais ninguém a quem perguntar sobre aquelas coisas. Somente sua avó estava em casa e ela já era muito velhinha, Clarinha não quis incomodá-la.
Clarinha olhava, olhava e quanto mais olhava, mais curiosa ela ficava. Só se deu conta de quanto tempo estava lá com seu telescópio, observando o céu, quando sua mãe entrou no quarto e disse:
- Clarinha, você não vai jantar minha filha? Passou o dia todo trancada no quarto, não comeu nada.
- Mas mamãe eu não tenho fome.
- Mesmo sem fome você deve se alimentar. As crianças precisam de energia para, além de muitas outras coisas, poder aprender melhor.
- É verdade mamãe?
- Sim, minha filha. Crianças que não comem direito não conseguem se desenvolver e aprender bem.
- Então ta mamãe, vou comer um “pratão” de comida para conseguir saber tudo sobre Astronomia.
Clarinha jantou, pegou Patty e correu para o quarto para observar o céu novamente.
- Vamos Patty, venha comigo, agora estou pronta e cheia de energia para aprender muito mais sobre Astronomia.
Horas depois, lá estava Clarinha, vidrada nas estrelas, sem se importar com o mundo ao seu redor quando ouviu uma voz. Era a sua mãe que entrou no quarto e disse:
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- Clarinha, você ainda está acordada? Amanhã tem aula minha filha!
- Tá bom mãe, já vou deitar.
- Não se esqueça de escovar os dentes! Disse sua mãe.
Clarinha deitou-se, abraçou Patty, mas não conseguia dormir, estava muito impressionada com tudo que tinha visto. De repente ouviu um barulho. Olhou para a janela e viu um flash de luz. Apressou-se em fazer um pedido. Sua mãe tinha lhe dito que esses flashes de luz são estrelas que caem, as estrelas cadentes, e quando você vê uma delas, deve fazer um pedido.
Clarinha pediu, com os olhos fechados:
- Eu queria conhecer o céu, bem de pertinho.
Quando abriu os olhos Clarinha não soube dizer onde estava. Tinha Patty com ela e disse:
- Estou com medo Patty, onde será que estamos?
Uma voz respondeu:
- Você está no espaço, Clarinha.
- Quem é você? Perguntou Clarinha, assustada.
- Não tenha medo, Clarinha. Meu nome é Harley, eu sou um cometa. Estou aqui porque você fez um pedido à uma de minhas amigas estrelas, e eu atendi. Você quer conhecer um pouco do Universo?
- Quero sim! Disse Clarinha entusiasmada.
- Viu, Patty, mamãe estava certa. O meu pedido se realizou!
- Onde você quer ir primeiro? Perguntou o cometa.
Clarinha respondeu que queria conhecer o sol porque sempre o achou tão brilhante, queria descobrir o porquê.
- Bom, não podemos chegar muito perto do Sol, Clarinha...
E antes que Harley conseguisse terminar, Clarinha disse:
- Por acaso, é por que ele é muito quente Harley?
- Isso mesmo! Exclamou Harley, surpreso com a esperteza de Clarinha.
- Harley, por que o Sol é tão brilhante?
- Há, há, há, riu o cometa. Ele não é mais brilhante que nenhuma outra estrela, ele só está mais próximo da Terra.
- E para que serve o Sol? Perguntou Clarinha.
- A luz que o Sol emite é indispensável para vocês, que vivem na Terra. Ele ajuda a produzir o alimento das plantas, controla o clima do seu planeta, aquecendo-o o suficiente para que possam viver, entre outras coisas...
- Nossa Harley! Você é bem inteligente!
- Pois é Clarinha. Eu sou um cometa de muitos, muitos anos e conheço muito bem o Universo. Mas e o que mais você gostaria de conhecer?
- Ah, eu também acho a Lua bem bonita. Onde ela fica?
- Seu desejo é uma ordem Clarinha, Direto para a Lua...
- Harley, a Lua também é uma estrela?
- Não! Respondeu o cometa.
- Por que não?
- Porque ela não tem brilho próprio. A lua é um satélite natural da Terra.
- E o que significa isso?
- Ser um satélite significa que a Lua vai girando ao redor da Terra. Quando isso acontece diz-se que a Lua tem sua órbita ao redor da Terra.
- E por que ela é toda cheia de buracos? Perguntou Clarinha.
- Os buracos são chamados de crateras, respondeu o cometa. E as crateras são formadas por cometas que caem
- Coitadinhos! E eles se machucam? Indagou Clarinha.
Há, há, há, riu o cometa.
- Não, é uma coisa natural, aqui no Universo, os cometas caírem. Faz parte de suas trajetórias de vida.
- Você gostou da Lua Clarinha? Perguntou o cometa.
- Gostei sim, mas eu quero ver mais. Eu ainda não vi todas as outras estrelas que sempre vejo quando estou observando o céu, de minha janela. É tão bonito! Elas até parecem desenhos. Não é Patty? Nós ficamos brincando de adivinhar as figuras pelos desenhos que formam.
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- Pois é, Clarinha, disse o cometa. Esses desenhos que as estrelas formam são chamados de Constelações.
- E o que são Constelações?
- Constelações é o nome que se dá aos conjuntos de estrelas. Você sabia que elas não servem só para enfeitar o céu?
- Não? Disse Clarinha, surpresa. Mas então, para que elas servem?
- As constelações podem ajudar na orientação, por exemplo. As pessoas do seu planeta usam as constelações para saber onde fica o Norte, o Sul, o Leste e o Oeste. Elas têm até nomes. A constelação que indica onde é o Sul, por exemplo, chama-se Cruzeiro do Sul.
- Mas todas elas têm nome? Perguntou Clarinha.
- Não. Respondeu Harley. Só as mais brilhantes.
- Harley, a minha professora falou que eu vivo no planeta Terra. E você onde mora?
- Eu não moro em um planeta. Eu passo o tempo todo passeando pelos planetas.
- Ué, tem mais de um? Perguntou Clarinha.
- Sim, na verdade são nove os planetas em nosso Sistema Solar.
- Tudo isso? E todos têm nome? O que é Sistema Solar?
- Quantas perguntas! Todos têm nome sim Clarinha. Eles se chamam Mercúrio, Vênus, Terra, Marte, Júpiter, Saturno, Urano, Netuno e Plutão. E essa ordem é dos planetas mais próximos do Sol até o mais distante. E é por isso que se chama de Sistema Solar. Porque todos eles têm sua órbita ao redor do Sol. O Sistema Solar inclui o Sol e tudo que gira ao seu redor: planetas, luas, meteoros, asteróides e cometas.
- Mas são muitos Harley! Como eu vou lembrar de todos?
- Bom Clarinha, quando eu era um cometa bem jovem, eu adorava passear pelo universo, e para eu não me perder, minha mãe me ensinou um truque para lembrar da ordem dos planetas.
- Que truque?
- È uma frase na qual você usa a inicial de cada planeta para poder lembrar da ordem.
- Veja só:
- Minha Velha Traga Minha Janta: Sopa, Uva, Nata, Pão.
- Que legal Harley! Nunca mais eu esqueço, e repetiu a frase.
- Minha Velha Traga Minha Janta: Sopa, Uva, Nata, Pão.
- Harley, moram pessoas em todos esses planetas?
- Não, somente na Terra existem as condições necessárias para vida, ou seja, só na Terra tem oxigênio, água suficiente, a temperatura não é tão quente nem tão fria, entre outras coisas.
- Vou te contar um pouquinho de cada planeta.
Mercúrio é o planeta mais próximo do Sol e por isso é bem quente também. Durante o dia, sua temperatura pode chegar a 400°C. Possui, também, assim como a Lua, um monte de crateras.
Vênus é o 2° planeta do Sistema Solar e é todo coberto por nuvens. Ele também é bem brilhante porque sua atmosfera reflete a luz do Sol e por incrível que pareça é mais quente que Mercúrio, sua temperatura é de 450°C e ninguém conseguiria viver lá.
A Terra é o 3° planeta, você a conhece muito bem e já sabe que é o único em que se pode viver.
Marte é o 4° planeta e é bem vermelho. Você sabe o por quê?
- Não! Por que?
- Porque o chão de Marte é coberto de poeira vermelha. Marte, assim como a Terra, também tem luas.
- Tem mais de uma?
- Pois é, ele tem duas luas e elas se chamam Fobos e Deimos (Deimos é a menor).
Júpiter é o 5° planeta do Sistema Solar e o maior de todos também. Assim como a Terra tem uma Lua e Marte tem duas, Júpiter também tem luas, mas ele tem 16.
- Nossa Harley, tudo isso? !
- Pois é. O próximo planeta é Saturno, o 6° planeta e é diferente de todos os outros que já vimos por causa de seus anéis.
- Anéis? O que são anéis? Perguntou Clarinha.
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- Os anéis de Saturno são pequenos pedaços de poeira e gelo que se formaram com o choque de algumas luas. E esses anéis podem ser, facilmente, vistos através de telescópios, como o seu Clarinha, lá da Terra.
- E sabe o que é mais interessante sobre Saturno? Além dos anéis, ele também tem Luas, e muitas, têm mais de 20. A maior de suas luas chama-se Titã e é maior que o planeta Mercúrio e Plutão.
- Nossa quanta coisa tem para se aprender sobre Saturno! Exclamou Clarinha.
- Urano é o 7° planeta, e é bem estranho, pois gira deitado.
- Como assim? Deitado? Ele é um planeta preguiçoso?
- Há, há, há, não é preguiçoso não, diz-se que ele gira deitado porque lá venta muito. Os ventos chegam a 230km/h. Ele é um planeta com anéis, só que eles são pequenos. Possui luas também, elas são 15!
Netuno é o 8° planeta e é bem parecido com Urano, com luas e anéis, mas tem uma diferença, ele é muito, muito frio. Sua temperatura é de –400°C. Têm mais uma coisa também... Aqui na Terra o dia tem 24 horas, lá só tem 16, isso porque o dia significa o tempo que um planeta demora para dar uma volta completa em torno de si mesmo, o que chamamos de rotação. A Terra demora 24 horas para dar uma volta em torno de si mesma e Netuno só demora 16 horas.
- Já acabaram?
- Não, tem mais um, Plutão, o último planeta do Sistema Solar. É o mais distante do Sol, além de ser o menor de todos. Sua órbita também é bem estranha.
- Harley, o que é órbita?
- Órbita é o caminho que o planeta faz para dar a volta ao redor do Sol, essa volta é chamada de Translação.
- E por que a órbita de Plutão é tão estranha?
- Porque ela cruza a órbita de Netuno de tempos em tempos e aí Netuno passa a ser o planeta mais distante do Sol. Plutão, além de tudo, é um planeta bem lento. Ele demora 250 anos para dar uma volta completa ao redor do Sol, enquanto a Terra só demora 365 dias, ou o que conhecemos por 1 ano.
- Então, Harley, isso quer dizer que quem tem um ano na Terra teria 250 anos em Plutão?
- Sim Clarinha, muito bem. Você, por exemplo, teria 2000 anos.
- Nossa que velha! Nem a minha avó é tão velha assim.
- Bom, Clarinha. É isso, agora preciso ir senão minha mãe vai ficar preocupada.
- Tudo bem, Harley! Obrigada. Eu adorei conhecer o universo com você...
- Assim que disse isso Clarinha ouviu a voz de sua mãe. Quis logo chamá-la para apresentar Harley, mas quando abriu os olhos viu que estava de volta no seu quarto.
- Mamãe, eu acabei de voltar do universo!
- Que é isso, minha filha, você deve ter sonhado, quando entrei no seu quarto você estava dormindo e falando de um tal de Plutão.
- Pois é mamãe, um cometa chamado Harley me levou para conhecer o Universo todo. Eu queria apresentá-lo para você, mas de repente, ele desapareceu. Disse que tinha que ir porque sua mãe podia estar preocupada.
- É Clarinha. Todas as mães se preocupam com seus filhos. Até as mães cometas. Disse a mãe de Clarinha sorrindo. Provavelmente a mãe dele estava preocupada que ele não fosse chegar a escola a tempo. Você, certamente, vai se atrasar se não começar a se arrumar logo logo.
- Tá bom, mamãe. Vou me arrumar rapidinho. Mal posso esperar para contar sobre minha aventura para minha professora... Ela vai adorar.
Chegou na escola feliz e sorridente, mas ao mesmo tempo um pouco triste por não ter nenhuma amiguinha para contar suas aventuras.
Quando a aula começou, a professora pediu que cada um falasse um pouquinho sobre o que eles sabiam do Universo. Clarinha ficou ansiosa para que chegasse sua vez. Assim que pensou isso ouviu sua professora perguntar:
- E você, Clarinha? O que sabe sobre Universo?
Clarinha começou a contar toda a aventura que viveu, ou pelo menos achou que realmente viveu, com seu novo amigo, o cometa Harley, e todos prestaram atenção no que ela tinha a dizer.
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A professora interrompeu Clarinha e perguntou:
- Onde você leu tudo isso sobre o Universo?
- Não li não professora, aconteceu de verdade, minha mãe disse que foi um sonho, mas pareceu bem real.
A professora, sorrindo, disse:
- Muito bem, Clarinha! Você é muito esperta e inteligente. Já vi que gosta de ler bastante! Meus parabéns.
Clarinha saiu da aula com um sorriso de orelha a orelha, especialmente, porque todos os seus colegas vieram falar com ela na saída da escola. Todos queriam saber sobre sua aventura.
Clarinha tinha conhecido o “céu” e se tornado a pessoa mais popular do colégio, todos gostavam dela agora e ela ficou muito feliz.

REFERÊNCIAS

BAKHTIN,M. Os gêneros do discurso. In Estética da criação verbal. SP, Martins Fontes, 1992.

BRAIT,B; ROJO,R. Gêneros: artimanhas do texto e do discurso. SP, Pueri Domus, 2002.

BIASI-RODRIGUES, B. Tratamento dos gêneros textuais na escola. Fortaleza, Fundação Demócrito Rocha, 2003.

BRANDÃO,H.N. (Org.) Gêneros do discurso na escola: mito, conto, cordel, discurso político, divulgação científica. SP, Cortez, 2000.

BALDO,A. Gêneros discursivos ou tipologias textuais? Revista Virtual de Estudos da Linguagem. ReVEL, ano 2, n. 2, 2004. (www.revelhp.cjb.net)

LEIBRUDER,A.P. O discurso de divulgação científica. In BRANDÃO,H.N. (Org.) Gêneros do discurso na escola: mito, conto, cordel, discurso político, divulgação científica. SP, Cortez, 2000.

VOGT,C. Revista Com Ciência: publicação eletrônica de DC. In GUIMARÃES,E. Produção e circulação do conhecimento – Estado, mídia e sociedade. Campinas, SP, Pontes Editores, 2001.

 
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