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  A PARTICIPAÇÃO ENCENADA: O DEBATE SOBRE ÉTICA DA CIÊNCIA E BIOÉTICA NAS REVISTAS GALILEU E SUPERINTERESSANTE EM 2001

Valéria Trigueiro Santos Adinolfi - Universidade Estadual de Campinas – UNICAMP

A ciência influencia mais e mais o quotidiano humano e paralelamente se torna distante e hermética ao entendimento das pessoas comuns, leigas em ciência. A conseqüência dessa influência é sentida em diversas áreas da sociedade, da saúde à comunicação, meio ambiente, economia etc., com impactos positivos e negativos. Esse grau de desenvolvimento cientifico-tecnológico gerou e gera debates acerca de seus resultados, levando a sociedade a discutir os diversos interesses que pautam a ciência e a ética do fazer científico.

Uma das principais conseqüências dessa influência da ciência e da tecnologia em nosso dia a dia é o surgimento de uma sociedade da informação. Nesse contexto, a imprensa de Divulgação Científica é um lugar importante de debates sobre ciência e ética. Além disso, a Divulgação Científica é um canal de educação informal, atingindo um público bastante amplo. Uma de suas funções é preparar o público para interagir com as novas tecnologias, os novos produtos da ciência, promovendo atualização constante acerca das últimas teorias e descobertas do mundo da ciência, numa atividade de educação continuada.

Embora a ciência participe cada vez mais da vida das pessoas, há uma distância entre o mundo científico e seu quotidiano. A Divulgação Científica surgiu com o intuito de diminuir o fosso entre os dois mundos, inclusive no trato de questões éticas relativas à ciência. Daí a concepção de Divulgação Científica como uma espécie de escola paralela ["e até mais democratizante", acrescenta Mostafa (1981:843) e comenta Oliveira (1982:59)], veículo de educação informal, de acordo com estudos publicados por Mostafa (1981), Oliveira (1993), Bueno (1984, 2000 e 2001). Consideramos que o papel da mídia enquanto instância de educação e formação representa um desafio aos que pensam e fazem a educação. No caso da imprensa de Divulgação Científica, o estudo das relações entre ética, mídia e educação se torna ainda mais necessário pela crescente influência da ciência em nosso mundo, já mencionada acima. Essa preocupação nos levou a desenvolver, no Mestrado em Educação da Unicamp (sob a orientação do Prof. Dr. Sílvio Sanches Gamboa), pesquisa sobre o modo como a Bioética e a ética da ciência têm sido abordadas e a forma como se dá esse processo de educação informal e debate de temas éticos nos periódicos brasileiros voltados para essa atividade. Como resultado elaboramos e defendemos a dissertação “Ética e Mídia: os Periódicos de Divulgação Científica Brasileiros e seus Discursos sobre Ética da Ciência”, no qual apresentamos de forma mais aprofundada uma análise do tema.

Os debates proporcionados pela Divulgação Científica acerca das implicações éticas da atividade científicas foram importantes para o surgimento de uma nova disciplina: a Bioética. Possível lugar de uma nova abordagem em relação à ética da ciência, marcada pela multidisciplinaridade (traço contemporâneo tão importante), a Bioética surgiu num momento de grandes transformações sociais que se seguiram aos anos 60, como a revolução sexual, descolonização, conquistas dos direitos civis etc.. A ciência e seu desenvolvimento eram discutidos em relação à degradação do meio ambiente, drogas, avanços da genética e da informática e também em relação aos novos medicamentos e tratamentos que passaram a possibilitar a melhoria da expectativa de vida, a contracepção, a diminuição das distâncias, dentre outras coisas. A discussão acerca dos preceitos éticos em relação ao fazer científico vinha se acentuando desde o fim da Segunda Guerra, quando a sociedade viu horrorizada a realidade de uma ciência comprometida com interesses nada humanitários com o lançamento das bombas atômicas sobre o Japão, a realidade dos campos de concentração nazistas e suas experiências com seres humanos e outras atrocidades.

A Bioética surgiu com uma relação muito particular com a mídia, de tal forma que talvez possamos dizer que o tripé ciência, informação e ética foi fundamental para o seu desenvolvimento. O grande impulso desta nova disciplina está ligado à divulgação de eventos em que houve envolvimento da ciência em questões delicadas, cujos resultados causaram apreensão. O mais emblemático evento que ilustra essa relação entre mídia e o nascimento da Bioética é o caso Tuskegee: em 26 de julho de 1972 Jean Heller , jornalista da agência de notícias Associeted Press, denunciou nas páginas do jornal norte-americano The New York Times que que desde 1932 homens negros da cidade de Tuskegee estavam sendo sujeitos de uma pesquisa sobre a evolução da sífilis sem que soubessem, tendo sido negada a eles a informação de que eram portadores da doença e o tratamento adequado. O estudo envolveu 600 homens negros, 399 portadores da doença e 201 saudáveis. Durante a pesquisa, a maioria dessas pessoas morreu de complicações da doença. Com a denúncia de Heller, surgiu um intenso debate acerca da ética da ciência e da Bioética, termo que fôra proposto em 1971 por Van Resselaer Potter , um cancerologista, e ampliado por Andrè E. Hellegers , fisiologista. A denúncia de Heller levou à suspensão da pesquisa e à criação da Comissão Nacional para a Proteção dos Sujeitos Humanos da Pesquisa Biomédica nos Estados Unidos, que elaborou o Relatório de Belmont. Nesse relatório estão colocados princípios como o da autonomia, da justiça, da beneficência e da não-maleficência, que até hoje fazem parte da Bioética (MATTOS, C., 2001:06).

O caso Tuskegee é um exemplo de como a Divulgação Científica pode ser veículo de informação, educação e debates sobre a ciência, o fazer científico e suas as conseqüências éticas e políticas. Considerando a importância da Divulgação Científica enquanto veículo de educação não-escolar, como meio de informação e como palco de debates, nos propusemos estudar o seu discurso em relação a ética da ciência e Bioética.

Nesse trabalho analisamos reportagens acerca de ética, ciência e Bioética encontrados na mídia impressa de Divulgação Científica brasileira. Trabalhamos com os dois veículos impressos de Divulgação Científica de maior circulação nacional, vendidos em banca e por assinatura: Galileu e Superinteressante. A metodologia utilizada foi a leitura de todas as reportagens publicadas nas revistas Galileu e Superinteressante em 2001, seleção de textos de acordo com critérios de seleção previamente estabelecidos (que citaremos abaixo), e análise a partir de nosso referencial teórico (Análise do Discurso Francesa). Na análise dos resultados consideramos os tipos de discurso encontrados, suas formas de articulação e cenários presentes na abordagem de valores éticos, pelo viés da Análise do Discurso Francesa, em especial as autoras Jaqueline Authier-Revuz, francesa, e Eni Orlandi, brasileira. Esta disciplina é uma das vertentes lingüísticas que estudam e analisam a linguagem em geral, sejam discursos ou imagens. É uma escola de interpretação que tem se dedicado à questão do significado, e surgiu na França, como resultado do encontro entre estudos de lingüística clássica, psicanálise e marxismo, iniciados por Pêcheux em fins dos anos 60. Inicialmente se dedicou apenas à análise do discurso político, mas atualmente tem sido aplicada também a textos jornalísticos, publicitários, científicos, educacionais, de divulgação científica e outros. Authier-Revuz e Eni Orlandi têm trabalhado a produção discursiva em divulgação científica a partir desse referencial.

Os resultados da pesquisa confirmaram tendência prevista por Authier-Revuz: a encenação da participação no processo comunicativo e educativo, o que afasta o leitor de uma participação efetiva no debate sobre ciência, ética da ciência, Bioética, política científica etc.. A ciência é preservada enquanto instância de decisão objetiva e desinteressada em relação a questões éticas, ocorrendo um silenciando do discurso político.

Authier-Revuz aponta a exterioridade como marca de Divulgação Científica: seu discurso é necessariamente voltado para o público leigo, necessariamente reformulado, traduzido. Nesse processo ocorre a geração de um novo discurso (D2) a partir do dircurso original da ciência (D1). A linguagem do cientista, técnica, fechada, é como uma língua estrangeira, necessitando de tradução. Há uma diferenciação em relação à tradução propriamente dita: em Divulgação Científica o processo de reformulação é constantemente evidenciado, enquanto num processo de tradução de uma língua A para uma língua B esse processo é ocultado. Fourez (1995) também reconhece que o discurso de Divulgação Científica, que ele chama de processo de vulgarização, é fundamentalmente resultado de tradução.

O conceito de ideologia usado pela Análise do Discurso Francesa é o trabalhado por Althusser em sua releitura da elaboração conceitual de Marx. No conceito de Althusser de ideologia (que é adotada na Análise do Discurso Francesa por autores como Pêcheux e Authier-Revuz, na França, e Orlandi no Brasil), ideologia é "...uma representação da relação imaginária dos indivíduos com suas reais condições de existência" (ALTHUSSER, 1995: 85). Althusser distingue ideologia (em geral) e ideologias, divisão esta que foi fundamental à sua teoria. A consequência disso é que a ideologia passa a ser vista como fator constitutivo da natureza humana, fundamental às relações entre homens, distinguindo-os inclusive em relação a máquinas, animais, etc. Na Análise do Discurso Francesa o homem é um animal necessariamente ideológico, pois "interpela o indivíduo enquanto sujeito" (ALTHUSSER, L., 1995:93). Sem a ideologia não existe possibilidade de mediação entre o indivíduo e a realidade. Eni Orlandi trabalha a questão da seguinte forma: “A ideologia, por sua vez, é interpretação de sentido em certa direção, direção determinada pela relação da linguagem com a história em seus mecanismos imaginários. A ideologia não é, pois, ocultação mas função da relação necessária entre a linguagem e o mundo” . (ORLANDI, E. P., 1996: 31). Essa mediação se dá através da linguagem.

A partir desses referenciais analisamos as reportagens selecionadas. O corpus da pesquisa é formado por quatro reportagens publicadas nas revistas Galileu e Superinteressante em 2001, abordando os seguintes temas: clonagem humana, aborto, crise da medicina moderna, eutanásia. Galileu e Superinteressante são os dois maiores periódicos brasileiros de Divulgação Científica, com a maior circulação em termos de distribuição em banca e de assinaturas,e e pertencem ambos a dois grandes conglomerados de comunicação no Brasil: Globo e Abril. A seleção foi feita a partir dos seguintes critérios: ter a ética da ciência/Bioética como principal assunto e ser o maior destaque na revista (manchete). De um total de 24 exemplares (12 de cada revista), apenas quatro atenderam aos pré-requisitos: três reportagens da revista Superinteressante e uma da revista Galileu. Escolhemos o ano de 2001 por que foi nesse ano que o médico italiano Severino Antinori anunciou sua intenção de realizar processo de clonagem de embriões humanos com fins reprodutivos, fato que foi bastante discutido na imprensa mundial. Nossa intenção foi conferir se, ano em que tanto se falou sobre a promessa de Antinori, o debate sobte ética da ciência e Bioética se ampliaria.

Esse é o resumo geral das reportagens analisadas:

texto 1: ''A um passo da clonagem humana'' (Galileu, outubro de 2001). O tema presente no periódico foi abordado por diversos veículos de comunicação à época, não se restringindo à imprensa de Divulgação Científica, devido à polêmica gerada pelo anúncio de que o médico italiano Severino Antinori pretendia usar a técnica de clonagem em embriões humanos, com fins reprodutivos.

texto 2: ''A medicina doente'' (Superinteressante, maio de 2001). Questiona aspectos da medicina moderna, sua fundamentação e suas conseqüências éticas.

texto 3: ''A pílula da discórdia'' (Superinteressante, abril de 2001). Aborda um outro assunto relacionado ao contexto da época: a autorização para realização dos testes com a Mifepristona, pílula do dia seguinte, no Brasil.

texto 4: “O direito de morrer”. (Superinteressante, março de 2001). Na esteira da aprovação pela Câmara Baixa do Parlamento Holandês do projeto legalizando a eutanásia e o suicídio assistido na Holanda, aborda a questão do direito de escolher o momento e a forma de morrer a partir da ética.

Características dos textos: uso freqüente de termos coloquiais, descontraídos, (''o debate está cada dia mais quente''), trocadilhos, paráfrases e metáforas, com o objetivo de facilitar a leitura, diminuindo e até anulando as dificuldades da linguagem científica. É também marca de uma tendência da mídia atual de espetacularizar a notícia, teatralizá-la, caracterÍistica que Bueno notou já em seu estudo de 1984 sobre mídia de Divulgação Científica (BUENO, W. da C., 1984: 153). Fourez vincula essa espetacularização, essa atividade de se mostrar as fantásticas maravilhas da ciência, a um tipo de Divulgação Científica (vulgarização) que ele chama de "efeito de vitrine", como já mencionamos. (FOUREZ, G., 1995:221). Oliveira argumenta inclusive que essa dramatização e sensacionalismo comprometem, através de distorções, o papel educativo da Divulgação Científica (OLIVEIRA, J.R.,1993:83). O uso dessas expressões marca também o proceso de laicidade poelo qual o discurso de Divulgação Científica passa, na medida em que 'ele é o resultado da reformulação de um discurso técnico, científico.

Outra característica é o uso de várias citações. Fato bastante comum na imprensa de Divulgação Científica, não é apenas característico de tais textos: é essencial para que sejam caracterizados como tal, de acordo com Authuier-Revuz. A presença do discurso relatado em forma de citações revela a dupla estrutura enunciativa que caracteriza o discurso de Divulgação Científica, num recurso que evidencia a todo momento a presença do discurso original (D1) (AUTHIER-REVUZ, J., 1998:110).

A atitude de representação do ato enunciativo surge nas freqüentes interpelações ao leitor, nos chamados para que ele se manifeste em relação ao assunto. Essa atitude abre lugar para a configuração de papéis - ''uma estrutura de três lugares com duas extremidades'' (AUTHIER-REVUZ, J., 1998:114): a ciência, o público leitor e o divulgador no meio.

O lugar da ciência é ocupado por cientistas e institutos de pesquisa, através das citações. O efeito desejado é o de transmissão As citações aparecem freqüentemente no texto remetendo ao discurso original, de forma a transmitir credibilidade e cientificidade, num esforço de legitimar as informações prestadas pela associação com a ciência: "...diz o psiquiatra paulistano e doutor em psicossomática Wilhelm Kenzler, cerca de 85% dos exames solicitados pelos médicos - o número varia de seis a 28 na consulta inicial – apresentam resultados negativos." (texto 2); "a Fundação Getúlio Vargas estima que na cidade de São Paulo, o maior centro médico do país, a indústria da saúde cresce em torno de 15% ao ano." (texto 2); "... segundo estimativa da própria Associação Médica Americana, a cada ano 2,2 milhões de pessoas contraem doenças e outras 106 000 morrem devido a efeitos colaterais de medicamentos..." (texto 2); "Afirmação parecida se ouviria, três anos mais tarde, do geneticista americano Joshua Lederberg, um dos criadores da engenharia genética, segundo o qual 'a primeira clonagem de seres humanos não vai demorar muito." (texto 1)

O segundo lugar é o que o proposto ao leitor. Oferecendo uma imagem confortável para que o mesmo se identifique, o texto chama o leitor a participar do processo de debate através de expressões que diretamente chamam a atenção do leitor, num diálogo cujas respostas são em seguida oferecidas a partir do ponto d vista da ciência: ''Com certeza você ainda não conhece nenhum médico que trabalhe assim.....''; ''compare: enquanto no Japão apenas um em cada 100 000 habitantes...''; ''note: a implantação do modelo biomédico...'', ''como entram os pacientes nessa história? Para começo de conversa, é preciso frisar...''.

O terceiro lugar nos discursos de Divulgação Científica é o do divulgador, que ora se identifica com o cientista ora como leitor, analisando, interpretando, respondendo aos questionamentos feitos. O tradutor do discurso original da ciência evidencia seu esforço na construção de um novo texto como forma de esclarecer seu papel na dupla estrutura enunciativa que se constitui a Divulgação Científica, o de mediador entre o mundo distante e complicado da ciência e o leitor comum. Essa dupla estrutura enunciativa consiste em que o discurso científico fonte (D1) é constantemente referenciado, de cordo com Authier-Revuz.. O trabalho de tradução feito pelo divulgador científico é constantemente evidenciado, mostrado, característica do discurso de Divulgação Científica: 'É... no quadro de enunciação que nossos textos de Divulgação Científica distinguem-se de outros 'gêneros' de reformulação... podemos dizer que é uma dupla estrutura enunciativa que funciona... (1998:110), referenciando a todo momento essa dupla estrutura enunciativa.

Nesse processo o divulgador, enquanto mediador, reforça a imagem de uma ciência objetiva, com poder para decidir qualquer questão, inclusive ética. O conhecimento transmitido é do tipo que Fourez chama de "efeito de vitrine" (1995: 221), que já mencionamos. Ao leitor não cabe papel realmente decisório nesse mundo distante, nem mesmo em questões éticas. O debate acerca das questões éticas é silenciado e substituído por decisões técnicas, num processo do qual o leitor é alienado. Essa encenação, que evidencia o caráter de alienação entre a ciência e o homem comum, é ela mesma uma outra forma de discurso didático, uma instância pedagógica em que um outro tipo de saber científico é oferecido a um público variado, composto por pessoas que assumem seus papéis previstos no script: pessoas cientes de sua ignorância e interessadas em aprender. Mas não um saber que vise à formação e a participação nos processos daquela ciência, e sim uma forma amena, que oferece um “certo tipo de 'verniz de saber', mas, na medida em que não confere um conhecimento que permita agir, dá um conhecimento fictício; é um saber que não é, propriamente falando, nenhum, já que não é poder”.(FOUREZ, G, 1995:221) Estabelece-se aí uma relação que privilegia o lúdico, o espetáculo, o ameno.

E não somente o processo comunicativo é encenado: também o processo pedagógico é emulado. Uma diferença do discurso de Divulgação Científica em relação ao discurso pedagógico é que, enquanto a Divulgação Científica evidencia o processo de mediação e a figura do divulgador como mediador, o discurso dos manuais didáticos apaga esse processo (ORLANDI, E. P. 1987:20). O professor é o proprietário autorizado dessa metalinguagem científica, objetiva e homogênea da ciência, cabendo a ele autorizar e desautorizar o aluno a fazer uso desses códigos: “O professor apropria-se do cientista e se confunde com ele sem que se explicite sua voz de mediador. Há aí um apagamento, isto é, apaga-se o modo pelo qual o professor apropria-se do conhecimento do cientista, tornando-se ele próprio possuidor daquele conhecimento. A opinião assumida pela autoridade professoral torna-se definitória (e definitiva)” (ORLANDI, E. P., 1987:21). O divulgador, ao contrário, não tem o direito nem a responsabilidade de autorizar nem desautorizar quem quer que seja, não avalia autorizando ou desautorizando o seu público. Daí a relação diferenciada em relação ao professor. O ensino oferecido pelo divulgador é informal, não autoriza ninguém a se dizer participante da comunidade científica e também não exclui. O saber oferecido pela atividade de Divulgação Científica é aproximativo.

O trabalho de mediação do divulgador, de tradução e reformulação discursiva, é insistentemente apontado, enfatizando a posição do discurso de Divulgação Científica como discurso-segundo frente a um discurso-fonte, verdadeiro, científico. O discurso científico oferece soluções e respostas supostamente verdadeiras e a-históricas para instâncias como ética e política, a partir do argumento de como garantia do direito de proferir a última palavra sobre o que quer que seja, diminuindo ou eliminando instâncias de divergência e debate. Personificada, a ciência é representada, com seu funcionamento absoluto, suas respostas verdadeiras.

Fourez afirma que a ciência jamais pode fornecer respostas a questões éticas (FOUREZ, G., 1995:300). Mas, pela encenação, os sentidos e as instâncias de debate ético são silenciados. Através da apresentação de dados estatísticos, informações técnicas e o testemunho da ciência, apresentado como soberano, as demais possibilidades de discursos éticos são silenciados. A saturação de informações através do uso de dados técnicos, citações científicas, dados etc. caracteriza uma multidirecionalidade do discurso, que Orlandi trabalha a partir das noções de duas noções de história: formal (metálica) e histórica (interdiscurso). Através da memória metálica o interdiscurso fica reduzido a informações ideologicamente equivalentes, com posições dos sujeitos indistintas. A mídia utiliza esse recurso ao reduzir os efeitos de sentido pela saturação de informações, restringindo a interpretação, silenciando certas formas de discurso (ORLANDI, E. P. 1996:16), como o político.

Fourez caracteriza o domínio do político como o ”lugar em que os compromisso do direito se negociam” . O espaço político, público, é o espaço do debate, inclusive das questões éticas. A predominância da esfera privada em detrimento da esfera pública é um sintoma de nosso tempo, segundo o psicanalista Jurandir Freire Costa (1994), com o espaço público, lugar do político, tomado pela esfera privada. Marilena Chauí (1992) também discute a despolitização da ética e o esvaziamento do discurso político na atualidade analisando a relação entre ética e política desde a Antigüidade. O debate ético é uma reflexão comunitária e racional, segundo Fourez (1995:274). Ou seja, é uma reflexão realizada na instância pública, a partir de uma série de contribuições, inclusive da ciência. E esse debate está “sempre ligado às lutas ideológicas em que se cruzam interesses diversos." (1995:270). Aceitar a ciência e a ética como construções ideológicas está de acordo com a definição de ideologia da Análise do Discurso Francesa, que aponta a impossibilidade de mediação entre o indivíduo e o mundo sem a ideologia (ORLANDI, E. P., 1996: 31). A mediação entre a realidade e o sujeito se dá pela linguagem, atividade que permeia todos os fazeres humanos, inclusive os científicos e éticos.

Esse esvaziamento quase completo da arena política como locus de debate e decisão foi observado nas reportagens analisadas, em que a ciência e a tecnologia ocuparam grande destaque, muitas vezes a partir de uma posição de objetividade. Nesses textos, a comunicação em Divulgação Científica é encenada, muito mais que efetivamente realizada. Os questionamentos feitos são respondidos muito mais a partir das posições da ciência que de posições éticas. A imagem de ciência objetiva é assim mantida, assim como sua autoridade para incluenciar e até decidir acerca de questões éticas, tendo o leitor apenas um vislumbre do mundo científico. O conhecimento aqui passado é o que Fourez chama de "efeito de vitrine", que tanto já mencionamos. Ao leitor não cabe decidir coisa alguma nesse mundo distante, nem mesmo em questões éticas. O debate acerca das questões éticas é assim silenciado, substituído por decisões técnicas, num processo do qual o leitor é alienado, afastado. O debate simplesmente deixa de existir.

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