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EVENTOS DE LETRAMENTO NA VILA DE ITAPUÃ


Maria de Nazareth Agra Hassen - Centro Universitário Ritter dos Reis / UNIRITTER
Mônica de Pellegrim Aigner - Centro Universitário Ritter dos Reis / UNIRITTER

“O homem vestia um terno que os mais antigos ainda chamam de fatiota. A ocasião não permitia menos: era casamento, e o homem era testemunha da parte civil. Neste dia, eu estava no cartório de Itapuã, zona rural de Viamão, onde faria uma consulta ao tabelião e aguardava a vez na sala de espera, que fica nos fundos da casa do cartório, no momento em que o homem entrou. Estava sozinho, surgiu rápido e quase furtivo. Dirigiu-se à funcionária, sacou do bolso interno do casaco alguma coisa que não distingui bem, mas que parecia uma caderneta. Mostrou à moça e perguntou: para ser testemunha, pode ser uma assinatura assim? e mostrou, pelo pouco que pude discernir, uma carteira do trabalho. A moça olhou e respondeu que podia. Não convencido, pediu confirmação: Mesmo desse jeito assim... pode ser? Ela confirmou mais enfática: Pode! Então, ele guardou o documento no bolso e saiu com a mesma rapidez com que entrara. Toda a cena não durou mais do que trinta segundos, mas aquilo que tanto o constrangeria no seu grupo de amigos e principalmente no ápice da cerimônia de casamento - sua dificuldade com o alfabeto - ficou claro para nós, que, pelo menos, éramos desconhecidos com quem ele talvez nunca mais viesse a cruzar.”
“O senhor Egídio, no dia 6 de outubro de 2002, acordou às cinco horas da manhã para garantir o seu lugar na fila de votação para eleição do Presidente da República, Governador, Senador e Deputados. O lugar onde mora em Itapuã dista mais ou menos vinte quilômetros de Belém Novo, bairro da zona sul de Porto Alegre, local de sua sessão eleitoral. Ele conhecia o horário da passagem do caminhão que busca leite no tambo, que o levaria de carona até a estrada, e, nela, esperaria o ônibus de linha. Conseguiu chegar tão cedo ao local de votação que foi o primeiro da fila. Estava ansioso, mas feliz porque iria votar para o cargo mais alto da nação e tinha certeza de que o candidato, com cuja origem se identificava, seria eleito presidente da República. Na véspera havia ensaiado os números que teclaria na urna e não cansava de elogiar o novo sistema eletrônico que já lhe facilitara tanto o voto em eleições passadas. Quando, pontualmente, o presidente da mesa iniciou os procedimentos e mandou que entrasse o primeiro da fila, seu Egídio penetrou humildemente na sala, mas foi surpreendido pelo comentário do mesário quando este pegou a sua identidade: começar justo com um analfabeto! A observação foi tão grosseira que suscitou a indignação dos demais mesários, o que garantiu que o próprio seu Egídio reagisse: meu patrão que é um homem importante nunca me tratou de analfabeto! “

As duas citações são extratos de um estudo maior, do qual este texto é parte. Em ambos, se revela a importância social do saber ler e escrever e o estigma que incide sobre quem não lê e/ou não escreve. Ambas as histórias testemunhadas ocorreram com pessoas do Distrito de Itapuã.


De bela e isolada a bela e atrativa
Se retomarmos a pequena história da região de Itapuã (pertencente a Viamão / Rio Grande do Sul), veremos que os tempos remotos encontraram uma região marcada pela beleza da paisagem, numa época em que os caminhos fluviais lhe conferiam uma localização estratégica. Ali viveram índios guaranis e por ali passaram os casais açorianos antes de se estabelecerem e darem origem a Porto Alegre. Os casais não ficaram, mas logo a seguir a divisão em sesmarias garantiu donos às terras devolutas. O povoamento iniciou timidamente na região do porto, um porto relativamente importante. Uma rede hoteleira foi se instalando em razão da necessidade de pernoite dos viajantes e também de sua condição de balneário. Uma estação de água mineral movimentou a insipiente economia local, até que uma famosa enchente, em 1941, fizesse desaparecer para sempre o veio da água.
Com a retração do transporte fluvial e o incremento do rodoviário, restou uma condição da região: o isolamento, um lugar que não dá passagem a nenhum outro, o extremo sul da Grande Porto Alegre, limitada pelas águas do maior lago e da maior laguna do Rio Grande do Sul, conhecidos como Rio Guaíba e Lagoa dos Patos, uma estrada de chão batido em péssimas condições.
Itapuã, bela e isolada. Eis que tal dupla condição acabou atraindo “investimentos” no lugar. Lamentavelmente, investimentos pela exclusão: uma mini-cidade para que leprosos ali aguardassem o seu fim inaugurada na década de 40, logo a seguir a instalação de imigrantes japoneses, vindos em situação de pobreza para serem colonos no Brasil, uma experiência de Reforma Agrária, da década de 60, mal planejada e mais bem entendida se alinhada aos outros “depósitos” de populações na região.
As outras cidades da Grande Porto Alegre ao longo do século XX cresciam, inchavam, assistiam à chegada do “progresso” (ainda que pela sua pior face, alimentando bolsões de miséria, ou se aglomerando como cidades-dormitório da mão-de-obra mal paga), eram iluminadas, asfaltadas, povoadas, enquanto o Distrito de Itapuã, como alteração, apenas assistia à venda das grandes propriedades rurais originais ou o parcelamento das terras ao serem assumidas pelos herdeiros. Foram aparecendo os pequenos sítios, comprados por pessoas de fora, ou, se mantidos na família, diminuídos na sua produção, fazendo com que os provedores buscassem outras fontes de renda que não a própria terra, empregando-se na extração predatória do granito rosa ou nas fazendas que restavam. De pequena monta econômica, sobrava como atrativo a região de mata atlântica, limítrofe às águas do Guaíba e Lagoa dos Patos, onde se construíam modestas casas de veranistas, próximas às casas dos pescadores.
Na década de 70, um grupo de ecologistas porto-alegrenses fez um manifesto, deitando-se em pedras que seriam dinamitadas por extratores. Desse protesto, resultou uma medida por parte do Estado que transformou uma área de mais de cinco mil hectares no Parque Estadual de Itapuã. Após este período, o Parque teve sua área fechada para conservação, o que pareceu naquele momento consolidar o destino do lugar, fadado sempre a perdas. A forma arbitrária como foi vedado o acesso da população, como as casas foram desapropriadas e destruídas, os pescadores expulsos, serviram para firmar o sentimento: não bastassem os excluídos serem mandados para lá, os próprios itapuenses são expulsos de um território que sempre foi seu. Mas como ali, a acomodação sempre é questão de tempo, passada a revolta inicial, ficou uma mágoa, e a vida prosseguiu. Sem explosão imobiliária, até porque a terra seguiu sendo cara. Sem “progresso”.
Talvez tudo ficasse assim por muito tempo mais. Entretanto, os planos do governo não eram deixar o Parque fechado para sempre, nem abandonado. Na década de 90, houve investimento na infra-estrutura que o transformou numa atração turística e foi reaberto à visitação pública controlada. Nesta mesma época, o asfalto avançou.
A partir daí, a importância do Parque finalmente se consolida, e ele é um primeiro investimento que traz positividade à Itapuã. Ainda que tenha que pagar para passar o dia no “seu” Parque, a existência, o modo como se implementou cercado de cuidados, instruções de uso, mudaram a visão do itapuense. Além disso, o Parque deu empregos, tornou-se fonte de prestígio e orgulho, trouxe consigo, além do asfalto que rompeu o isolamento, um novo discurso a respeito da natureza em geral e de Itapuã como um lugar exemplar. O Parque e o asfalto integraram Itapuã no mapa dos lugares realmente existentes e não mais local de depósito, de expurgo. Programas de TV do centro do país, notícias em jornais do estado, pesquisadores vindos cada vez de mais longe, todos interessados e exaltando as características louváveis da região. Já não se pragueja mais pela ausência de “progresso” e desenvolvimento, agora o discurso é ecológico.
A vila de Itapuã
Uma rua principal muito comprida, calçada com paralelepípedos, que começa na RS 118 e termina na praia, somada aos seus arredores, demarca a vila. É nela que se evidenciam alguns remanescentes traços da cultura açoriana, seja nas ruas estreitas e compridas, ou estampados na arquitetura rústica das casas, junto às calçadas, sem pátio na frente, a igreja voltada para o rio, de costas para o povoado.
A região é rural, com uma economia agropecuária (sobretudo leiteira), que mantém os itapuenses ligados às tradições do campo, mas também sobreviveu da pesca por longos períodos, a qual acontece até hoje, só que agora de forma controlada e fora do Parque. Localizam-se bem próximos, na região da vila, o Salão Reverência de Tradições Gaúchas e a Colônia Z4 de pescadores. Na rua dos Pescadores, pode-se encontrar um homem de poncho e bombacha tecendo sua rede de pesca.
Muitos moradores da parte urbana são proprietários de sítios, e estes sítios estão largados e à venda, sendo os preços geralmente muito altos. Uma primeira impressão de quem anda pelas estradas internas é de que todas as terras estão à venda. Mas é um jeito “típico” de vender: as placas apodrecem, os telefones mal podem ser distinguidos e não tiveram os prefixos atualizados. Não têm por que se desfazer de um bem, com o qual não contam para sua modesta sobrevivência, a não ser que a venda lhes traga muito proveito.
Pode parecer curioso tratar por urbano um espaço com as características da Vila de Itapuã. Em que contexto pode-se considerar urbano tal espaço? Em relação à vida rural - cujas características principais são o isolamento geográfico decorrente das grandes distâncias entre as moradias dos grupos familiares, a ausência de serviços públicos do tipo urbano (iluminação pública, coleta de lixo, tratamento de esgotos, etc), dificuldades de acesso aos dispositivos urbanos (bancos, comércios, prefeitura, igreja, posto de saúde, locais de lazer, etc) - a Vila de Itapuã, em que pese a pequena estatura, a menor complexidade e a pouca diversidade, pode ser reconhecida como o centro urbano da região: é para onde acorrem as pessoas na busca dos serviços e na busca de uma socialidade típica de cidade.
Na vila, acontecem os negócios que movimentam a economia local, são encontrados os profissionais liberais, os prestadores de determinados serviços, o sistema religioso e judiciário, as festas etc. Portanto, na comparação com o formato da vida nas propriedades rurais, a Vila de Itapuã é o espaço urbano.
A vila tem um comércio pequeno. Na parte antiga da rua principal, em uma modesta construção de esquina, na fachada, lê-se simplesmente: loja. Na outra face, loja de confecções. Os outros lugares têm nomes: o armazém das Três Meninas, o armazém dos Gringos e na faixa, o supermercado Lunardelli, a correaria Coxilha Verde. Taxi, há o do seu Moacir, com ponto fixo em frente ao cartório. O meio de transporte bastante usual do itapuense é o cavalo, como montaria ou em charrete e carroça. Na região, há centros de treinamento para eqüinos e hospedarias, mas o cavalo do morador é um matungo trabalhador, magro e cansado.
Perto da praia, um camping inscreve um estilo próprio ao seu redor, que se traduz por um comércio, conhecido por “o shopping”, parte dele direcionado para os veranistas e para os campistas, jovens que andam em grupos, com aparência e comportamentos facilmente diferenciáveis dos jovens moradores. São os turistas ocasionais ou os veranistas, que têm casa de praia em Itapuã (além dos sitiantes), que instauram o confronto silencioso entre o tradicional e o moderno na época de verão.
Silenciosas também são as convivências do fogão a lenha com o telefone celular. O cavalo com a moto-serra. O analfabeto e o pós-graduado em Ciências Biológicas. Nada disso é surpreendente, principalmente se pensarmos na proximidade de Itapuã com a capital do estado. O que surpreende na sua forma de identidade cultural é que essa convivência não tenha como ponto de convergência apenas o fato da cidade, mas sim a real proximidade e a convivência, e a par de ambas, a sobrevivência das formas tradicionais. O encontro e a convivência do tradicional e do moderno, de certa forma, provocam-nos um fascínio, pois vemos neles a possibilidade de resgate de sensações e sentimentos que nos fazem nostálgicos, sem implicar a ausência de conforto e de comunicação ágil. Entretanto, essa é uma perspectiva unilateral, a daqueles que, nesta situação, usufruiriam o melhor de cada estilo.
Para as camadas pobres, o encontro do tradicional com o moderno implica algum conforto, mas sobretudo amplia o horizonte das metas quase inatingíveis, seja o consumo de bens e serviços, sejam os referentes à qualificação como mão de obra e/ou a educação. Quando um entrevistado diz: sim, temos luz, mas temos que pagar por ela, ele ressalta literalmente o preço do conforto e, de certo modo, o relativiza. Foi possível, até bem pouco tempo, viver sem esses itens de comodidade, o que significava também viver com pouco dinheiro. Para usufruir dela, coisa que o moderno tornou inevitável, iniciou-se uma escala de providências que passam pela qualificação da mão de obra, que por sua vez obriga ao investimento na educação. Daí que o ensino fundamental é razoavelmente bem oferecido à criança itapuense.
Embora o gradiente entre os mais pobres (desempregados, biscateiros, agricultores, aposentados) e os mais ricos (proprietários de terras e comerciantes) economicamente seja considerável, a vida cotidiana e a divisão dos espaços de sociabilidade tornam-nos todos partícipes de uma mesma forma de viver, uma comunidade.
GRUPO ATUANTE DE MULHERES DE ITAPUÃ
Mantêm-se paralelamente, e às vezes em contradição com o discurso ecológico instaurado no lugar, a valorização das tradições gaúchas, a marca da identidade campeira, a hospitalidade, os rituais, as práticas, o papel do gaúcho macho, lutador e “da rua”, o papel da prenda (prendada), faceira e “da casa”. Como conseqüência, um movimento de emancipação da Vila em relação à sede, Viamão, toma força. A história do Rio Grande do Sul, não esquecem, passou por Itapuã, onde as tropas de Bento Gonçalves tocaiaram as embarcações do exército imperial. Depois foram dizimadas ali no morro que ficou conhecido como Morro da Fortaleza no interior do Parque. Como toda história tradicional, é uma história de feitos e de homens.
Com perfil muito diferente da prenda, um grupo de mulheres que empunha a bandeira ecológica com ação concreta (separação do lixo, que nem a sede do município faz) só consegue espaço, ou até mesmo decorre, de uma mudança cultural em curso. Diferenciam-se dos outros grupos de mulheres desde a presença no nome da qualificação de “atuante”, Grupo Atuante de Mulheres de Itapuã. A coordenadora conseguiu ter um programa na rádio FM Itapuã, uma rádio dita comunitária, o “programa do GAMI”. O grupo, além da separação do lixo, instituiu um curso de alfabetização de adultos, sem qualquer apoio externo, de governos ou entidades.
O GAMI não surge do nada, nem deve ter provindo isoladamente da experiência de sua coordenadora de trabalhar na capital. Ele surge embalado por um novo contexto, e esse, a nosso ver, seria a penetração de uma nova forma de ver o mundo e de expressão, trazida pela abertura do Parque de Conservação e pelo asfalto. Foi-se criando ali uma necessidade de relacionamento com as formas de pensar típicas do mundo letrado.
A alfabetização começa modesta, e em pouco tempo, pelo crescimento da procura, abre duas turmas para diferentes níveis, é freqüentada por mulheres, mas também por homens, que vêm de todas as partes. Nada parece causar desânimo nos alunos, que estudam e se socializam nas trocas. Precisaram dessa motivação para persistirem sem as mínimas condições materiais, itinerando sem sede, ora num salão congelado, ora numa sala apertada sem ventilação como ocorria nos primeiros anos. Mais recentemente, com apoio de uma empresa do pólo petroquímico, conseguiram construir um galpão novo para reciclagem e junto dele, uma sala de aula para a alfabetização.
Nesta pesquisa, a alfabetização (talvez devendo ser tomada aqui como categoria êmica) é entendida como um mote para a compreensão dos fenômenos recentes e das transformações por que passa a Vila de Itapuã. Entretanto, a noção central para o entendimento dessas transformações, a partir das quais o surgimento de uma classe de alfabetização de adultos é apenas uma manifestação, é a noção de letramento, tomada como referência a concepção de Leda Tfouni (1988, 1997). Os alunos do curso recorreram a ele em busca da "alfabetização", o curso se diz de alfabetização, a professora se define como alfabetizadora. Nas entrevistas, os pesquisados explicaram seu entendimento do conceito de alfabetização por expressões como "saber ler e escrever", "ler de tudo" e variações muito próximas. Entretanto, a alfabetização ou o que diz dela o senso comum, é apenas a ponta do fenômeno e a forma que ele toma para se tornar manifesto.
Este sentido conferido ao mundo letrado é o precursor da ambiência que dará condições para a origem do grupo de mulheres, que, por sua vez, criou uma experiência de alfabetização de adultos. Uma outra maneira de pensar o mundo toma forma na região a partir da perspectiva instaurada pelo Parque e da ligação a Porto Alegre, razão por que passo a chamar a chegada do asfalto e a abertura do Parque de “eventos de letramento”
Tais fatos, Parque e asfalto, em outros contextos, poderiam ter outro sentido ou serem apenas fatos. Neste contexto marcado por uma história particular, por uma conformação geográfica particular e por sua própria constituição (como apresentadas antes), podem ali ser considerados eventos de letramento, quando talvez não o fossem em outros contextos. Talvez se possa considerá-los frutos de uma modernidade tardia, permeada por um discurso progressista ecológico, não necessariamente genuíno, mas que passou a fazer sentido como um discurso alternativo, no amálgama que se produziu quando esse discurso se encontrou com as pré-condições do lugar. Com ele, o itapuense faz frente à ex-condição de lugar renegado.
A esse percurso da comunidade, não linear, não isento de contradições que estamos chamando de letramento.
Eventos de Letramento: Parque e Asfalto
Morador do Beco do Cemitério, onde vive com a família extensa, o jovem Toró um dia foi prestar pequenos serviços na casa de um excêntrico novo morador do Centro de Itapuã. A relação com ele criou um circuito centro-cemitério. Isso porque, inconformado em morar num lugar na proximidade física e no nome associado ao cemitério, Toró entendeu que pelo menos o último poderia ser diferente. Decidiu por sua iniciativa que a rua mais pobre de Itapuã deveria ter outro nome e a batizou de Beco do Amor. Na outra ponta, Noé, o novo morador, vindo da zona sul de Porto Alegre para se estabelecer em Itapuã, resolveu adiantar o futuro e construir seu próprio túmulo no cemitério. Da associação dos dois desejos, surgiu o referido túmulo, pintado de preto e amarelo, que Toró ajudou a construir, e surgiram pela vila placas que anunciam a "nova rua", igualmente em preto e amarelo, que Noé ajudou a pintar.
Há coisas interessantes demais nessa história, que, como tantas outras de Itapuã, por si já resultariam em um estudo de caso antropológico. O que mais chama atenção, para efeitos do nosso argumento, é a relação estabelecida entre o morador do Cemitério e o morador do Centro da Vila. O primeiro manifesta o desejo, e o segundo o auxilia na forma de plasmar a intenção de alterar o nome estigmatizante: pintando as placas, uma vez que apenas afirmar a existência do novo nome oralmente não lhes pareceu bastar. Se a mudança de uma rua numa cidade regulamentada implica um processo burocratizado e por vezes lento, ali se planejou de forma individual (mas certamente com o apoio do grupo de moradores) e se concretizou rapidamente por meio da divulgação. Interessou aqui que a divulgação se deu pela escrita, a forma reconhecida pelos "legisladores da rua” – muitos deles analfabetos - como capaz de "oficializar" a mudança. E o responsável pela parte que coube à escrita foi o novo morador da vila, futuro morador do cemitério, o agente da cultura letrada entre eles.
Este fato, retirado do fluxo da vida cotidiana, destacado para análise e associado aos papéis dos diferentes atores, pode ser considerado um evento com múltiplas conotações: a tentativa de Toró e seu grupo de valorizar o local de moradia, a importância do nome nessa relação com o valor do local, o sentido do próprio nome escolhido (amor), o estigma do cemitério e da morte, ao mesmo tempo contestado pela iniciativa de Noé e seu túmulo antecipado e alegre, e por fim, o que interessou aqui destacar, o uso da escrita como a forma encontrada para marcar a nova posição. Essa relevância que a escrita assumiu no processo pode permitir que se considere todo o "fato social" aqui apresentado como um evento de letramento, isto é, um acontecimento em que a escrita desempenha um papel crucial, vinculado a uma história e a uma concepção social.
É com esse conceito de letramento como processo sócio-histórico, que por conseguinte permeia os indivíduos de uma dada sociedade, atingindo a todo o grupo, mesmo aos que não sofreram o processo de alfabetização e/ou de escolarização, que procuramos entender o momento atual da Vila de Itapuã. Ao não conceber o letramento como um conceito neutro - entendendo, portanto, que ele é dependente do contexto, em alguma medida, pontuado pela ideologia, pelas normas culturais locais, pelo sistema de valores locais (Lankshear e Lawler, 1987) - uma etnografia do local visou compreender o intrincado processo que se dá entre esses elementos locais que devem ser reconhecidos e interpretados e sua relação com o letramento. E, ao vincular letramento e os contextos de sua produção, aceitamos que não há letramento, mas letramentos.
Aqui é preciso apresentar uma breve explicação sobre os New Literacy Studies (Novos Estudos de Letramento), a fim de que as críticas a eles possam fazer sentido e a sua relação com o presente estudo fique clara. NLS pode ser considerada uma escola, relativamente recente, constituída por pensadores de língua inglesa do campo da lingüística e da antropologia, mas também da semiótica e da história. Alguns deles são Heath (1983), Street (1984, 1993, 1995), Gee (1996), Barton (1994, Barton e Hamilton (1998), e todos se incluem numa perspectiva chamada de "abordagem sócio-cultural". Eles examinam minuciosamente os contextos locais em que se dão eventos e práticas de letramento (conceitos que discutem), na defesa do postulado de que o letramento não é um conceito homogêneo e de que existem letramentos locais, ou seja, tais pesquisadores tomam letramento como práticas sociais de leitura e escrita, decorrentes dos contextos em que são produzidas. Por esta razão, os estudos são feitos com método etnográfico e em comunidades.
Para os NLS, a forma como lemos e escrevemos depende do contexto em que o fazemos. E tudo isso, por sua vez, implica conseqüências para o meio social, ou o local, como diriam. Decisões que precisamos tomar a todo instante quando estamos envolvidos nos processos de leitura e de escrita são dependentes do contexto: as intenções que temos, as condições em que nos movemos, a forma como o fazemos. Por isso os New Literacy Studies se preocupam em entender ao máximo o contexto das práticas de letramento: como as pessoas participam dos eventos de leitura e escrita, com que recursos contam para isso, que práticas são mais conhecidas e empregadas e, principalmente, que sentidos específicos encontram na escrita e na leitura. Não deixam de examinar também o conteúdo ideológico do letramento e as implicações decorrentes das suas especificidades.
Street, no texto What's 'new' in New Literacy Studies? Critical approaches to literacy in theory and practice, tem dois objetivos, no mínimo. O mais importante objetivo do texto de Street é partir das críticas que receberam os NLS, críticas essas que apontaram que pode ser uma perspectiva limitada e limitante aquela que se detém na análise do "local" que teria sido supervalorizada pelos NLS. Na fase atual, que seria o que haveria de novo nos "Novos Estudos de Letramento", esse tipo de pressão além de enriquecer o debate, leva os NLS a ampliar seu campo de estudo, restabelecendo o elo do letramento local com o "distante”.
Defendemos que a chegada do asfalto e a implementação do Parque Estadual, unidade de conservação da biodiversidade local, representam em Itapuã a chegada de uma determinada “modernização”. Essa modernização (que não acontece sem conflitos e contradições e nem linearmente) criou condições de possibilidade para eventos de letramento, e esses, ao aumentar o grau de letramento local, vêm favorecendo algumas alterações no panorama do lugar, dentre as quais, a própria gênese do GAMI e, a partir dele, a classe de alfabetização. Queremos evitar, porém, a relação direta entre alfabetização e letramento, mas entendê-los por meio da compreensão desse jogo, como ao mesmo tempo distintos e intercambiáveis, isto é, “processos interligados, porém separados enquanto abrangência e natureza” (Tfouni, 1997, p. 24-5).
Os alfabetizandos do GAMI parecem buscar inserir-se socialmente sobretudo neste momento. Alfabetizar-se parece ser a estratégia pela qual os sujeitos passam a fazer parte da cultura escrita que começa a tomar forma, na medida em que o valor paraíso ecológico é um valor da cultura letrada e passou a ser o atrativo (assumido) do local para alcançar um destaque positivo na comparação com outras cidades da Grande Porto Alegre, mais urbanizadas e industrializadas. Esse momento acabou por servir de motivação para se inserirem num projeto de alfabetização quando a escrita vai assumindo papéis crescentes na vida local e sendo reconhecida como algo que dá "autoridade", a exemplo das placas do Beco do Amor. A proximidade que se tornou maior com a capital a partir do asfalto trouxe novos moradores, fazendo maior uso da escrita e com uma oralidade diferenciada, porque mais permeada pela cultura escrita.
Vejo, então, a classe de alfabetização como uma das medidas resultantes dos valores que passaram a circular na Vila, na medida em que se torna mais letrada do que era antes dos eventos de letramento (em sentido amplo): a chegada do asfalto e a consolidação do Parque de Itapuã. Os alunos reconhecem essa diferença.
O outro objetivo de Street no já mencionado artigo é apontar o estado da arte dos NLS, assim como historiar o surgimento de novos termos e expressões, reveladores de diferentes nuanças em literacies (dando por óbvia a aceitação nos meios acadêmicos da existência de múltiplos(as) literacies). Ele afirma que o modelo ideológico (alternativo ao modelo autônomo) oferece pontos de vista mais culturalmente apropriados ao reconhecimento das práticas de letramento. Antes defende que o modelo ideológico parte de diferentes premissas em relação ao autônomo, isto é, ele postula que o letramento não é simplesmente uma habilidade neutra ou uma técnica, mas uma prática social. Entende que as maneiras pelas quais as pessoas ingressam na escrita e na leitura estão enraizadas em concepções de conhecimento, identidade e de ser. Assim também os efeitos do ingresso na leitura e na escrita dependem dos contextos específicos em que tais pessoas estão imersas.
Então Street apresenta a distinção entre "eventos de letramento" e "práticas de letramento", pois, como afirma, os pesquisadores dos NLS se recusam a ter como objeto simplesmente o termo letramento, dada a variedade de acepções possíveis, uma vez que correspondem a diferentes contextos. Daí o uso de termos alternativos que, colocados no lugar de simplesmente letramento, dariam conta da idéia de variação: eventos de letramento e práticas de letramento seriam úteis para isso.
Eventos de letramento seria a locução usada primeiramente por Anderson (1980) e seriam definidos como “a ocasião durante a qual uma pessoa tenta compreender signos gráficos”. Shirley Brice Heath, depois, caracterizaria eventos de letramento como "qualquer ocasião na qual a escrita cumprisse um papel dominante na natureza da interação entre participantes e seus processos interpretativos". Street a seguir diz que para ele as práticas de letramento seriam práticas sociais e concepções de escrita e leitura, porém mais tarde criou o termo para dar conta dos eventos de Heath e dos modelos sociais de letramento em que participantes interagem com a leitura e escrita.
Estamos utilizando aqui a idéia de “eventos de letramento” concebendo evento numa dimensão mais macro do que a concepção utilizada por Kleiman que chama de evento de letramento, por exemplo, a leitura de histórias infantis para as crianças dormirem (Kleiman, 1995, p. 18). A expressão “eventos de letramento” tem em Heath (1983) sentido semelhante, isto é, seriam atividades específicas em que a escrita e a leitura desempenham um papel. Para Heath, os eventos seriam constituídos pelas ocasiões concretas nas quais a língua escrita está vinculada à natureza das intervenções dos participantes, suas estratégias e seus processos interpretativos. Pensamos que melhor do que o termo “eventos”, a idéia de “situações” parece mais apropriada a estas descrições. Street (1993, p. 40) exemplifica eventos de letramento utilizando o caso de uma exposição oral, em que o apresentador fala, mas também lê algumas de suas anotações, mostra outras no projetor, enquanto a assistência seleciona dados e os anota, olha um pouco para o projetor depois abaixa a cabeça, escreve, lê suas próprias anotações, volta a ouvir, a ler o que está projetado, enfim, todo um cenário em que a leitura e a escrita cumprem um papel central.
Entretanto, embora entendendo que essa é uma noção útil, a que pretendemos utilizar nessa pesquisa ultrapassa tal dimensão concreta do papel da leitura e da escrita. Pretendemos direcionar a idéia de eventos de letramento rumo a um nível maior de abstração, razão pela qual gostaríamos de dar-lhes um significado mais próximo ao que Street (1995) confere ao que chama de “práticas de letramento”, que inclui modelos sociais e culturais que dão sentido aos usos da leitura e/ou da escrita, que ajudam a dar forma ao modo como os comportamentos e os significados que os acompanham são relacionados ao uso da leitura e da escrita (Street, 1995, p. 2).
Evento no dicionário Houaiss (2002, p. 1277) tem os seguintes significados:
1. acontecimento ger. observável; fenômeno 2. B acontecimento (...) 7. LING fato, processo, expressos por um verbo ou por um substantivo verbal que denota ação. ETIM lat. Eventus, us ‘acontecimento, sucesso,...
Utilizaremos a locução eventos de letramento num sentido que remete a fatos ou acontecimentos que concorrem para o letramento, e neste caso, caberia no conceito de eventos de letramento qualquer acontecimento que interfira nos contextos locais na direção de elevar níveis de letramento ou antes de conferir determinado sentido à leitura e à escrita.
Parque + asfalto ?grau de letramento (ecologia/proximidade com a capital) ? GAMI ? classe de alfabetização
(Eventos de letramento)
O que significaria o esquema anterior, com suas flechinhas que sugerem relação direta de causa e efeito? Também já foi dito aqui que o Parque representou finalmente uma ação que trouxe alguma positividade à Vila, depois de uma longa história de ações do poder público que sempre supunham Itapuã como um local de depósito, despejo ou de abandono. A primeira relação com a área de Parque, quando seus moradores tradicionais foram expulsos e acabou um certo turismo de verão, foi de indignação. Só quase uma década depois desse fato é que o Parque, ao ser aberto com boa infra-estrutura e capacidade de gerar empregos locais, foi reclassificado no pensamento itapuense. Além disso tudo, foi ele o grande impulso para o avanço do asfalto.
Voltando à questão das flechinhas, se poderia perguntar: sempre que tivermos abertura de parques ambientais ou asfaltamentos, teremos ampliação de letramento? Naturalmente que a resposta a isso é “não necessariamente”. Com isso, queremos reforçar a idéia de que não se devem considerar relações de causa e efeito no esquema acima.
Determinados eventos são mediados ou conseqüentes da cultura escrita, do texto (ainda que aparentemente pouco ou nada relacionados de maneira direta com ela), e deles decorrem as práticas de letramento. Neste caso, é que se torna possível considerar o Parque e a chegada do asfalto como eventos que de alguma forma se relacionam com a cultura escrita ou são por ela atravessados. O que significaria isso? Que toda a movimentação em torno do Parque gerou um novo universo de preocupações, de novidades, de reversão de idéias até então sedimentadas, de penetração gradual na comunidade de outras formas de pensar o mundo, diferentes das que eles tinham até então. A relação que o itapuense mantinha com a natureza era de exploração no sentido da extração de pedra, da derrubada de árvores, das queimadas, do derramamento de óleo dos barcos nas águas, de descaso com o lixo, da pesca e da caça sem regulação.
O fechamento do Parque impôs, num primeiro momento de forma arbitrária, um padrão de relação com a natureza diametralmente oposto ao que se costumava ter em Itapuã. Depois, as equipes de implementação se renovaram e, sem abrir mão dos preceitos ecológicos, foram incluindo os moradores na missão de conservação do Parque, chegando a ponto de treiná-los e empregá-los na defesa da natureza do Parque na condição de condutores locais. Na época de sua abertura, o Parque chegou a ser o segundo empregador da região, só perdendo para uma empresa criadora de frangos. Enquanto isso, internamente as diferentes correntes de ecologistas disputaram ferrenhamente suas posições, cujo ponto de conflito maior era se o Parque deveria ser de preservação ou conservação. Em sendo de conservação, as possibilidades de abertura a visitação seriam muito mais restritas. Preponderou a ecologia mais moderada.
Comentamos esse fato porque os itapuenses foram expectadores destas e de outras discussões. Mas foram expectadores de mais informações. A área de influência dos condutores empregados no Parque era grande. Se contarmos parentes e vizinhos, praticamente toda a vila se viu envolvida na questão ecológica que pautava a discussão sobre a sua maior área verde pública. Grupos de ecologistas decidiram fazer trabalhos de conscientização ambiental em escolas da região. Enfim, um sem número de iniciativas acabaram pulverizando sobre a vila diferentes entendimentos em relação à natureza.
Essa forma de relação com a natureza parte de típicos representantes da cultura letrada: técnicos, universitários, professores. Itapuã foi notícia em periódicos de vários lugares do país. Tudo contribuiu para que o discurso ecológico fosse penetrando gradativamente até ser em definitivo incorporado no discurso do morador. Como já dito e até mostrado aqui, mesmo que a prática não o reflita de forma plena, o itapuense sabe falar sobre a ecologia e gosta de falar sobre a natureza, que agora defende.
O asfalto tem um outro componente: ele facilita a ida a Porto Alegre, uma capital em que a presença da escrita é considerável. E facilita a vinda a Itapuã dos porto-alegrenses que criam diferentes demandas e trazem novos discursos. Enfim, a soma e a combinação desses eventos de letramento se poderiam considerar como uma conjuntura de letramento.
Nos depoimentos de alguns dos alfabetizandos do GAMI, encontramos a sua percepção dessas formas de expressão dos mais letrados. Sucede que de forma não automática, não visível, não explícita, tentamos mostrar que a alfabetização do GAMI não surge do nada, mas brota de um tal contexto, assim como o desejo pela alfabetização dos seus alunos também se vincula a esse contexto. O que quero dizer é que:
1. consideramos a iniciativa de alfabetização do GAMI bem sucedida, tanto porque a grande maioria dos alunos está lendo e escrevendo, como porque
2. os poucos que não estão lendo e escrevendo nem por isso pretendem desistir, e seus tempos de permanência atestam que não desanimam,
3. e, por fim, a sala de aula da alfabetização é o ambiente letrado que eles querem freqüentar.
Atribuímos esse sucesso a uma concepção de alfabetização que está vinculada a um contexto de aumento de letramento visto na sua natureza sócio-histórica, ao fato de que o curso não foi instituído por uma iniciativa de alguém que decidiu alfabetizar, mas foi instituído por uma pessoa que percebeu a demanda do curso, ou seja, ele não vem de cima para baixo.
O sentido dessa pesquisa foi justamente mostrar a relação entre os dois conceitos, alfabetização e letramento, quando entendemos que a alfabetização, essa prática individual, pode ser mais bem sucedida se estiver associada a um contexto de letramento, referenciado no modelo ideológico, que aqui chamamos de conjuntura de letramento, dado que a conjuntura diria respeito à soma e combinação de eventos de letramento. Que não precisam ser estes eventos encontrados em Itapuã... que até mesmo possam ser eventos menos espontâneos, desde que não faltem às pessoas uma mínima imersão na cultura letrada e as demandas que ela traz.
De outro lado, alfabetizar pessoas não inseridas nessa cultura letrada equivale a alfabetizar por alfabetizar, ou alfabetizar para obter índices de desenvolvimento ou alfabetizar para defender posições políticas. Claro está que numa sociedade como a nossa ninguém deixa de se beneficiar particularmente se puder ler e escrever. Entretanto, como manter lendo e escrevendo quem não vir, por si próprio, sentido em ler e escrever?


Referências


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KLEIMAN, Angela (org.) (1995) Os significados do letramento: uma nova perspectiva sobre a prática social da escrita. Campinas : Mercado de Letras.

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