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  TEAR LITERÁRIO – O PROCESSO DE CONSTRUÇÃO DE UM TEXTO

Concília Celsa Cerântola Albino ( SEE-SP)

Em 2003, a escola pública onde leciono – E.E.Comendador Emílio Romi (Santa Bárbara d´Oeste-SP) - teve a felicidade de ser ganhadora em 1º lugar, categoria Ensino Médio – Região Sudeste, do Concurso Cultural Viagem Nestlé pela Literatura, patrocinado pela Fundação Nestlé de Cultura. A experiência que relato não envolve apenas o processo de elaboração do texto final, exigência para o concurso, mas os acontecimentos que ocorreram antes dos trabalhos e também o desenvolvimento das oficinas realizadas, pois foram o ponto de partida.

A classe envolvida era numerosa e indisciplinada. Havia atitudes ora agressivas, ora totalmente apáticas que transformavam as aulas em um exercício de paciência e frustração. O grupo que mais perturbava chegava mesmo a intimidar os colegas, pois, quando, não estavam dispostos a estudar, nada os estimulava. Após um dia de prova, disse-lhes que era meu último dia com eles e que eu achava melhor deixar que outro professor tentasse orientá-los. Em 20 anos de magistério, era a primeira vez que eu abandonava uma turma. Mas, por um desses mistérios que Deus nos reserva, isso não ocorreu. Naquela noite, ao corrigir as provas li um bilhete que um aluno anexou à folha de avaliação. Ele dizia que não era como os demais da sala, que queria muito aprender e que gostava muito das aulas. O pedido “Professora, não abandone a gente.” Ficou ecoando em minha mente.

Na aula seguinte, conversei francamente com a classe, expus-lhes minhas dificuldades com a atitude de indisciplina e, mais que falar, procurei ouvi-los. Um deles levantou-se e disse em tom de revolta: “Eu não entendo o que essas palavras dos poemas dizem, para que serve isso? Eu leio, leio e não entra nada na minha cabeça.” A citação é quase literal, pois foi nesse dia que sugeri um acordo, eu tentaria ajudá-los e, em troca, eles participariam mais das aulas. Como o próximo autor a ser estudado no planejamento era Carlos Drummond de Andrade, comecei com o poema “No meio do caminho”. A reação foi imediata, os alunos riram e disseram algo como “Está vendo, como tínhamos razão? Se eu repetir tanto num texto meu, garanto que minha nota vai ser ruim”.

Percebi que eles não tinham culpa, mas precisavam descobrir a beleza do texto. Apresentei-lhes as várias interpretações que o poema provocou no seu tempo: “pedra” como símbolo de “obstáculo e de cansaço existencial, ou símbolo como a própria poesia ? algo que o autor jamais poderia evitar: a pedra/poesia estava em sua vida”. Perguntei, então para a classe qual efeito o poema provocava neles. Como entendiam a “pedra no meio do caminho” e que sentido atribuíam a ela. Algumas respostas foram: “ A minha pedra é meu pai”, “ A minha é meu patrão”, “ A minha pedra é a minha cabeça que não ajuda “ entre outras. Fizemos muitos exercícios de interpretação de poemas e percebi que alguns alunos mudaram a atitude em classe.

Dias depois, recebemos o Kit do Concurso Cultural da Nestlé, um material riquíssimo. Era composto pelos livros A Hora da Estrela, de Clarice Lispector; Os Melhores Poemas, de João Cabral de Melo Neto, seleção de Antônio Carlos Secchin e Contos Contemporâneos Brasileiros, seleção de Julieta de Godoy Ladeira. Além dos livros, havia um vídeo com documentário histórico do concurso, caderno pedagógico com orientação e apoio para o professor, um diário para “registro da viagem”, CD com as músicas do projeto, cartazes e outros. Resolvi levar os textos de apoio para a classe , houve uma interação muito boa, eles gostaram bastante, especialmente dos poemas de João Cabral de Melo Neto. Num primeiro momento, usei trechos pequenos para motivá-los, mas foi com a música “Amarra teu arado a uma estrela”, de Gilberto Gil, que senti ter conseguido sensibilizá-los para a beleza do texto. Os versos “ E aí tu serás / o lavrador louco dos astros / o camponês solto nos céus...” foram os que mais os tocaram, tal a beleza plástica que sugerem. Ao desvendarem os segredos que os textos guardavam, sentiram-se mais confiantes e foi nesse momento que eu os convidei a participarem do concurso cultural. Lembro-me de um aluno perguntar: “Isso vai me ajudar a entender melhor os textos?” Garanti-lhe que sim, pois as oficinas eram muito interessantes e, além disso, usaríamos outras linguagens para desenvolvê-las. Vinte alunos se interessaram, exatamente o limite máximo permitido pelo regulamento. Vi essa iniciativa como algo muito bom. No dia seguinte, comecei, na biblioteca da escola, a primeira oficina.

Se me alonguei um pouco nesta apresentação é porque achei necessário traçar um pequeno perfil do grupo, pois tivemos de superar muitas barreiras, muitas pedras no caminho, já que foi muito difícil administrar todo o processo com duas turmas tão distintas: os primeiros vinte alunos que estavam envolvidos no projeto e os outros vinte e dois que permaneceram na classe com outras atividades. Além disso, tecer um texto coletivo ? exigência do regulamento ? não parecia ser uma tarefa tão fácil.

Durante três semanas, os alunos leram os livros indicados para o concurso. As meninas que começaram com A Hora da Estrela, de Clarice Lispector, tiveram reações de indignação e de explosão em sala de aula. Duas delas, a Talita e a Tatiane chegaram a jogar os livros sobre a minha mesa e dizer: “ Cansamos de ver o sofrimento da personagem Macabéa. Ela não reage, aquele namorado dela é um canalha! Ela só sofreu o tempo todo; depois, coitada! Acabou morrendo. Que raiva!” Apesar de tudo, fiquei feliz com o efeito provocado pela leitura.

As primeiras oficinas consistiram em reflexões sobre as deficiências causadas pela falta de leitura nas escolas brasileiras. Muitos resultados de pesquisas oficiais demonstram que nossos alunos não lêem e nem interpretam textos com proficiência desejada para a série. Contei-lhes minha experiência com a leitura e sobre como comecei a gostar de ler. Convidei os alunos a falarem sobre suas experiências com leitura, suas dificuldades e a discussão permitiu-me conhecê-los um pouco mais fora da esfera cotidiana Entre nós começava a ser tecido um relacionamento de cumplicidades. Finalizei a primeira experiência com o texto de João Cabral :

E não há melhor resposta
que o espetáculo da vida:
vê-la desfiar seu fio,
que também se chama vida,
ver a fábrica que ela mesma
teimosamente se fabrica,
vê-la brotar como há pouco
em nova vida explodida;
(...)

No segundo encontro, apresentei-lhes o tema do concurso “Fome de Solidariedade”. A proposta era um convite para uma reflexão urgente sobre todas as fomes, ocultas ou explícitas, que impedem o homem de dar um sentido à sua existência, reflexo de condições do ser humano que sempre foram temas da Literatura.

Lemos em conjunto “Feliz Aniversário”, de Clarice Lispector; “Luz sob a porta”, de Luiz Vilela; “Clínica de Repouso”, de Dalton Trevisan e a que mais os encantou “A Moça Tecelã”, de Marina Colasanti. Como não conheciam a história de Penélope, da obra Odisséia, contei-lhes sobre a atividade dela ao fiar de dia um bordado e de desmanchá-lo à noite, adiando a escolha de um novo marido. Nosso círculo de estudos virou um círculo de histórias, pois quiseram saber o resto da lenda e viajamos juntos para Grécia antiga. Mostrei-lhes como as duas histórias se cruzavam, expliquei-lhes o diálogo que as histórias mantinham. Instiguei-os a produzir, ao final desse encontro, um texto no qual contassem o que fiariam para sua vida e o que desmanchariam se pudessem. Apresentaram-me textos ricos em sensibilidade, frutos de carências e marcados por sonhos simples.

Aproveitei para deixá-los falar sobre os sentimentos que cercavam a vida dos personagens que conheceram. Isso não foi difícil. Havia todo um contexto de incompreensão, isolamento e indiferença, egoísmo, orgulho e falta de responsabilidade pelo coletivo, traços que eles identificaram e não deixavam de estar presente na vida deles ou de seus familiares. Ampliamos a reflexão para analisar a vida dos personagens que conheceram nos livros: Macabéa e a indiferença social que a cercava, a falta de uma identidade expressa pela quase ausência de uma linguagem que a definisse frente ao mundo, negação de solidariedade, da sólida relação entre os homens. O conjunto de contos tematizava os descompassos da existência cotidiana espelhada na vida de personagens cujas relações humanas eram tecidas num emaranhado de ações que os excluíam da sociedade.

A discussão do grupo levou-os a fazer associações com grupos e entidades filantrópicas e assistenciais da cidade. Posteriormente eles organizariam um belo trabalho de solidariedade para uma instituição local, que abriga crianças vítimas de violência doméstica e se encontravam sob proteção especial. O entrosamento entre o grupo melhorou bastante, percebi que os alunos esperavam com ansiedade a próxima oficina, mas, principalmente, queriam saber mais dos textos e seus mistérios.

Nessa etapa em que a sensibilidade deles já estava mais aguçada para a poesia, João Cabral de Melo Neto coroou a reflexão desencadeada pelo percurso da viagem. Levei-os para fora da biblioteca e, dispostos em círculo, lemos “Tecendo a Manhã ”. Pedi-lhes que observassem o jogo metafórico das palavras. Propus uma segunda leitura mais pausada do poema em voz alta e clara e, a cada pausa, partindo de mim, um rolo de barbante era lançado para outra pessoa de forma aleatória. Procederam assim sucessivamente, num cruzamento contínuo de “cantos de galos” e de fios cruzados que acabaram tecendo uma teia, a tela de todos, até o penúltimo verso. Na leitura dos dois últimos versos, ergueram os braços e suspenderam a teia/tela acima da cabeça, como um toldo que serviu para todos. A concretização de uma metáfora de tenda, de toldo, de proteção, de força coletiva necessária para a solidariedade. O poeta estabeleceu o fio poético entre os textos por meio de uma análise profunda do ser humano. Nesse instante, coloquei a música Solidão, de Alceu Valença, para eles ouvirem. Instiguei-os a falar sobre a solidão de Macabéa, de Severino e das personagens do conto como resultado da vida urbana contemporânea que esgarçou as relações sociais e fez perder o sentido da solidariedade. Vi-os deixar a escola com um brilho diferente no olhar naquela noite.

Em outro encontro, retomamos a leitura de trechos de Morte e Vida Severina e buscamos linha por linha descobrir a identidade daqueles que crêem ser a morte a única solução para a vida. Os alunos descobriram no texto pistas sobre a origem de Severino, sobre a região de onde veio, traços físicos identificadores das doenças que acometem as pessoas do sertão e a estrutura de diálogo que o texto mantêm.Os que já tinham visto alguma representação teatral da obra contribuíram com mais detalhes. Não saíram dessa leitura da mesma forma como entraram. Percebi-os mais calados, pensativos. Era a poesia provocando seus efeitos.

Na oficina seguinte, conversamos sobre os efeitos das leituras daquilo tudo que já tínhamos feito. Preparei-os para um contato entre linguagens de diferentes naturezas: sons e imagens, e como essas linguagens estimulam um outro tipo de relacionamento entre as impressões sensoriais. Os alunos receberam papel e tinta. Dispostos frente a frente, convidei-os a ouvir pequenos trechos de músicas e a fazer, após ouvirem-na, uma representação visual das sensações registradas e a usarem uma palavra para resumi-la. Na seleção constavam a vibração das “cores neutras” de Bach, em Prelúdio para Alaúde em Dó Menor; a “tempestade” de Beethoven, em Sinfonia nº 5 em Dó Menor; os dodecafônicos de Schönberg, em A Noite Transfigurada; a “tensão” de Sergey Prokofiev, em Meia Noite e , finalmente, Canto pro Mar, de Carlinhos Brown. Ao terminar, pedi que cada um lesse as palavras que usaram. Apareceram termos como: dor, medo, tristeza, pavor, abandono, morte, alegria, paz, felicidade, entre outras.

Os desenhos não seguiam um modelo, mas quase todos registravam cores escuras para sons intensos, fortes, e cores claras para tons mais suaves. Finalizei essa oficina, explicando-lhes que reações semelhantes são provocadas pelos textos que lemos ou pelas imagens que vemos. Apresentei-lhes alguns trechos dos contos em que apareciam a plasticidade das palavras, verdadeiros quadros verbais, ou seqüências cinematográficas:

“Logo no primeiro dia, descobriu pequenos insetos prateados, de aspecto não repulsivo. Verificou também que os brotos novos de arame eram macios e delgados. Descobriu que no centro daquela floresta havia um tipo de arame grosso. E que ao pé deles havia bulbos de água. Percebeu que durante o dia o sol penetrando pela densa vegetação de fios inoxidáveis produzia reflexos, desenhos. O vento, agitando os arames, roçando uns nos outros, produzia sons.”
(Os músculos, Ignácio de Loyola Brandão, p. 22)

“(...) O algodão abafava as risadas que entrelaçaram numa rede esverdinhada, compacta, apertando-se num tecido com manchas que escorreram até o limite da tarja. Viu-se enredado nos fios e quis fugir, mas a tarja o aprisionou nos seus braços. No fundo, lá no fundo do fosso podia distinguir as serpentes enleadas num nó verde-negro.”
(A caçada, Lygia Fagundes Telles, p. 37)

“Na mesinha: Um velho gramofone, com um disco no prato, presumivelmente rodando. No chão, ao lado da mesinha e com o focinho junto ao gramofone, encontra-se um cachorro, como se escutasse a música. Ao lado do gramofone, está a capa do disco, onde se acha gravado um cachorro igual àquele e na mesma posição e também escutando a um gramofone idêntico.”
(Composição II, Sérgio Sant´Anna, p. 76)

Outros trechos enfatizavam a musicalidade pela palavra, o ritmo, as assonâncias, aliterações, rimas, os jogos de palavras que produzem peças verbo-musicais, sinfonias verbais:

“Não foi a viagem, a longa, larga viagem, de recordar, rever, que as paradas e os horários dividiram muito roteiro, partiram, nublaram, não devolveram. (...) Não foi a cidade mas a rua, não foi a figura mas a boca, não foi a chuva mas a calha. Não foi o campo, nem a mata, o morro, nem o rio, a selva, nem a árvore nem verde, foi a janela de trem, de carro de longe.”
(Circuito Fechado (5), Ricardo Ramos, p.74)

“Mas não era nada disso, apenas o mal-estar da despedida, nunca se sabendo ao certo o que dizer, José esperando de si mesmo com perseverança a próxima fase do discurso. Que não vinha. Que não vinha. Os outros aguardavam. Como Jonga fazia falta nessas horas ? José enxugou a testa com lenço ? como Jonga fazia falta nessas horas!”
(Feliz aniversário, Clarice Lispector, p. 15)

“Também candinhas faladeiras, pegajosas e de olhar mau, vestidas fora de moda, figuras de pardieiro, descidas à rua para a fuxicaria, de uma gordura precoce e desonesta, que as fazia parecer sempre sujas e mais velhas do que eram (...) também comadres faladeiras, faziam rodinhas do tititi, do popopó, do diz-que-diz- que novidadeiro e da fofocalha no mexericar à boca pequena, chafurdando como porcas gordas...”
(Guardador, João Antônio, p. 29)

E também a linguagem musical:

“Dedico-me à tempestade de Beethoven. À vibração das cores neutras de Bach. A Chopin que me amolece os ossos. A Stravinsky que espantou e com quem voei em fogo.À ‘Morte e Transfiguração’, em que Richard Straus me revela um destino? Sobretudo dedico-me às vésperas de hoje e a hoje, as transparente véu de Debussy, a Marlos Nobre, a Prokofiev, a Carl Orff, a Schönberg, aos dodecafônicos, aos gritos rascantes dos eletrônicos ? a todos esses que em mim atingiram zonas assustadoramente inesperadas, todos esses profetas do presente e que a mim me vaticinaram a mim mesmo a ponto de eu neste instante explodir em: eu.”
( A Hora da Estrela, Clarice Lispector, p. 9)

No encontro seguinte, relemos o trecho de Morte e Vida Severina; “O retirante explica ao leitor quem é e a que vai.” Retomamos a reflexão sobre identidade e vivenciamos uma atividade lúdica com as formas do tangram. Cada aluno recebeu uma folha de dobradura quadrada e contei-lhes a lenda do tangram:


Conta uma lenda chinesa que, há 4.000 anos, um homem deixou cair um azulejo que se quebrou em 7 pedaços. Na tentativa de recuperar a forma original, o homem descobriu que a combinação das peças produzia uma infinidade de figuras. Nasceu, assim, o jogo mágico de criar formas e figuras com o tangram. (Caderno Pedagógico, p. 32)


Estimulei-os a contar sua história de vida, usando a mesma técnica e a escreverem um texto poético em que expressassem suas identidades, se possível de forma similar à da apresentação de Severino. As formas das dobraduras representaram pássaros, portas semi-abertas, estrelas, barcos, flores, entre outras. Os textos falavam da imagem que faziam de si próprios e foram escritos envoltos por muitas risadas.

O próximo passo envolveu a audição da música “O Quereres”, de Caetano Veloso, momento em que procuramos comparar as personagens do romance e dos contos para estabelecer relações entre elas e a forma como as personagens se apresentavam na letra da música, caracterizada pelos “quereres” como marcas pessoais e as diferenças entre as pessoas, sinais de inconformismo e parte constitutiva de cada um. Levei os alunos a perceber que essas diferenças são positivas.

Finalmente entramos na etapa final ? a da produção do texto. Era preciso relacionar os arranjos e os textos produzidos durante o percurso, direcionar as relações feitas para a abordagem do tema e estimular a preparação final para a produção coletiva do texto da VIAGEM, objeto do concurso. Mostrei a eles uma tira de tecido, cujos fios se distanciavam bem uns dos outros e pedi-lhes para observar se aquilo tinha alguma relação com texto. Não foi difícil perceberem que, assim como um tecido se faz com fios que se entrecruzam, também os textos se arquitetam com palavras muito bem entretecidas.

Distribuí uma cópia do texto que aparece na orelha do livro Texturas – sobre leituras e escritos, de Ana Maria Machado, e no qual a autora narra o encontro com uma índia da Guatemala, em numa pequena loja, enquanto a mulher escolhia linha para fazer uma malha. Ana Maria faz uma belíssima associação entre tecer uma malha e as escolhas de cores, tons, matizes que se entrecruzam num projeto de desenho e a técnica de se tecer um texto, “... escolhendo o tema, selecionando o que se vai usar, eliminar o supérfluo, encadear os elementos, contrapor argumentos, desenvolver uma linha de raciocínio, seguir um plano mental... tudo isso num paciente trabalho de dar um ponto de cada vez. E, no fim, rematar bem, para ficar firme e não se desmanchar de uma hora para outra.” (2001)

Na seqüência, relemos o conto “A Moça Tecelã”, de Marina Colasanti, cuja personagem “...tecia e entristecia”, “ chapéu emplumado, rosto barbado, corpo aprumado, sapato engraxado”, “ Tecer era tudo o que fazia. Tecer era tudo o que queria fazer.” (...) “ Acordava ainda no escuro como se ouvisse o sol chegando atrás das beiradas da noite”, “ não tinha tempo para chamar o sol”, “ bastava a moça tecer com seus belos fios dourados para que o sol voltasse a acalmar a natureza”. (Caderno pedagógico, p. 42)

Distribuí folhas de revistas e pedi que os alunos as recortassem em tirinhas bem fininhas, reunimos todas as tirinhas em uma caixa e formamos um círculo com a caixa no centro. Distribuí folhas quadradas semi-recortadas em tiras, pedi-lhes que fossem trançando as tiras feitas com as folhas da revista, passando ora por cima, ora por baixo das tiras de papel quadrado. Assim, sem querer eles também estavam tecendo. Contei-lhes que em tempos passados as pessoas gostavam de se reunir em grupo enquanto teciam, contavam histórias. Nessa noite, muitas histórias foram contadas, experiências de vida foram trocadas e novos laços de amizade foram feitos.

Leituras feitas, jogos jogados, teia tecida, relações fortalecidas, trilhas montadas, passamos a arquitetar o texto final. Tomamos como ponto norteador da última etapa o texto “A Moça Tecelã”. Sugeri que tal como a índia da história de Ana Maria Machado, eles também fizessem uma escolha cuidadosa das palavras com as quais iriam tecer o texto final e, assim, foram surgindo termos como: tecido, fio, trama, ponto a ponto, bordado, fio da meada, novelo/novela, bordar, entre teias e tramas, tear, enlaçar, esgarçar, enredar, amarrar, fiar, entrelinhas/ entre versos, tecer versos, entrecruzar, entretecer, emaranhado entre outras. Um campo semântico que começava a dar suporte ao texto. A palavra tear foi bem recebida pelo grupo e passamos a pensar nas partes que compõe essa peça, bem como nos gestos que acompanham o trabalho do artesão. Apareceram: agulhas, fios, linhas, pontos, nós, lançadeiras, urdidura, tecelagem, textura, entre outras.

Ficou combinado produzir um texto que dialogasse com o conto “A Moça Tecelã”, o difícil foi achar o fio da meada, criar o primeiro verso, uma vez que ele conduziria os demais. Pensaram em “Teço no meu tear...”, “Surgem no meu tear...”, “Bordo no meu tear...”, mas não davam vida ao texto. De repente alguém falou: “Vão surgindo das linhas do meu tear...” que acabou se completando com a relação com a poesia e ficou: “ Vão surgindo das linhas e versos do meu tear...”. Estava feito o primeiro verso.

O grupo sabia que era preciso empregar as três linguagens numa interação de diálogo constante com os livros lidos e as oficinas realizadas. Ora separadas, ora em duplas ou em grupos maiores, os alunos emaranhavam suas produções em uma tessitura não muito coesa. Era preciso direcioná-los para uma elaboração que mantivesse uma unidade bem coerente. Comecei a estimulá-los com indagações como: “Como é a Macabéa?”, “ Que relação há com a estrela?”, “ Como empregar essa imagem?”. Uma das alunas mais tímidas completou: “Ela é uma estrela solitária que não borda o anoitecer.” O grupo achou lindo, guardamos esse trecho e passamos a imaginar o Severino caminhando no sertão. Estimulei-os a fazerem construções semelhantes a que foi feita com Macabéa. Um aluno lembrou-se do poema concreto “Terra”, de Décio Pignatari que eu havia mostrado no início do projeto. O poema apresentava um uso sugestivo da disposição visual dos versos, havia lacunas entre as palavras, irregularidades nas seqüências horizontais e verticais, bem como várias letras t que lembravam cruzes ao longo de sulcos dispostos em todo o texto. Nasceu o verso “ ...entre pontos e cruzes nas fazendas, os frutos que ainda não são.”

Algumas meninas se lembraram de que ponto-cruz é um dos pontos usados no bordado. Para Macabéa pensaram inicialmente no jogo de cores entre o verde do capim da calçada e o preto da escuridão da morte. Depois a relação com música foi inevitável. O jogo de palavras “ de sol a sol/ de dó em dó/ de si para si” foi contribuição de um aluno que conhecia música e explorou o sentido polissêmico dos nomes das notas musicais. Perguntei-lhe como representaria com palavras a morte da personagem, usando a música como metáfora. Ele arrematou explicando que seria como se as notas musicais descessem uma oitava. Esse trecho ficou lindo: “Olhar extático no horizonte de verde capim quando,/ ao findar a luz, a noite estende suas sombras/ e as cores descem uma oitava.”

Nos encontros finais, estudamos a vegetação do sertão e procuramos amarrar as partes soltas do texto. Quando tudo começou a ganhar uma textura mais firme, pedi-lhes que pensassem na forma que iriam dar ao texto. Brincamos com palavras, exploramos os sinais do teclado do computador e inserimos uma palavra inventada : “esp##inh###os-de-cruz. O visual sustentava a idéia e daí em diante praticamente perdi o controle do grupo, pois eles resolveram explorar o espaço em branco do papel de várias maneiras. A tentativa que vingou foi a de dar um aspecto de movimento de esquerda para direita, simulando os movimentos de um artesão tecendo. Mesmo que visualmente não tenha ficado muito evidente essa imagem, valeu pela ousadia de um grupo que jamais pensou chegar tão longe. O verso final traduz os últimos pontos e um arremate definitivo, como o pequeno laço representado no @, de uma tapeçaria poética que teceram entre histórias de vida se cruzando para cá e para lá. O texto final ficou assim:


Tear Literário

Vão surgindo
das linhas e versos do meu tear poético,
em cores fortes de paisagem agreste,
as tramas e enredos de vidas carentes
vidas secas, de vagantes sonhadores
s o l i t á r i o s
de sol a sol
em solo socado
Vida de Severinos, de Marias, de finados Zacarias
que sulcam a terra, semeiam nos eitos a cova medida ,
suor errante nas entrelinhas e lacunas de vidas miúdas.
Entre tantos outros que tecem em frágeis fios roçados,
entre pontos e cruzes nas fazendas,
os frutos que ainda não são.
Quem sabe se nesta terra não plantarei minha sina ?
Traçam trajetos de fome, de luta injusta pelo trigo do pão.
Poesia roceira bordada lá no cenário da caatinga,
onde o pé se descaminha e sangra
na urdidura caótica dos esp##inh###os-de-cruz .
Avançam nas lançadeiras de textura lírica, daqui e dali, meninos em sonhos calejados, indivíduos sem registro,
velhos em rotina, retinas fatigadas...
albergados, estorvos na paisagem urbana,
imagens esgarçadas, mal acabadas.
Moças virgens, operárias tecelãs, a datilógrafa Macabéa no espelho,
melodia desafinada em explosão de cores e sons,
repetição de eu sou eu sou ecoando
de sol em sol
de dó em dó
de si para si
Estrela solitária que não borda o anoitecer
que não se incorpora em tela
sem escalas sem rimas sem destino
Olhar extático no horizonte de verde capim quando,
ao findar a luz, a noite estende suas sombras
e as cores descem uma oitava.
Fictícios no ser, reais na dor, no abandono,
na fome doída, na sede de afetos,
na escuridão das almas, na privação de voz...
repousam humildes à espera de novo bordado no cenário.
Vidas que se tecem em odisséias agrestes e urbanas
mesmo estando em trevas
mesmo que tecidas em trovas
mesmo à espera do desenrolar das tramas
que se fiam em
s_o_l_i_d_a_r_i_e_d_a_d_e_p_e_l_a_v_i_d_@ .


Estava pronto um tear poético, instrumento que possibilitará a esses alunos tecerem muitos outros textos em outras viagens.

Referências Bibliográficas:

Caderno Pedagógico – Kit do Concurso Cultural Viagem Nestlé pela Literatura – 5ª edição.

MACHADO, Ana Maria. Texturas – sobre leitura e escritos. São Paulo, Nova Fronteira, 2001.
www.nestle.com.br/viagem

 
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