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  O PROCESSO DE CONSTRUÇÃO DO HUMOR NAS NARRATIVAS INFANTIS LOBATIANAS: PERSONAGENS

Lia Cupertino Duarte Albino - Faculdades Integradas de Ourinhos – FIO

INTRODUÇÃO

Partindo da constatação de que a comicidade é um dos traços caracterizadores da produção literária de Monteiro Lobato, este trabalho objetiva demonstrar o processo de construção do humor nas narrativas infantis produzidas pelo autor, tomando como objeto de análise a criação das personagens presentes em seu universo ficcional. Visto que, ao incorporar esse elemento aos seus textos, Lobato propõe uma reinvenção da linguagem literária, este estudo prioriza também a análise da “solução lingüística adequada” encontrada pelo autor para, por meio do humor, projetar no texto literário as contradições da experiência humana.

O processo de construção do humor nas narrativas infantis lobatianas: personagens

Humor é a maneira imprevisível, certa e filosófica de ver as coisas . Essa foi a definição dada por Lobato para um fenômeno que, há muito objeto de preocupação de inúmeros pensadores, também o instigava:

Existe toda uma biblioteca sobre o humor, onde cem autores tentam defini-lo, como há também inúmeras definições de arte e mil remédios para a tosse. Essa abundância é comprometedora. Prova que humor e arte são indefiníveis e a tosse incurável. Mas como é vagamente curável a causa presuntiva das tosses, também podemos vagamente definir as causas ou circunstâncias produtoras do humor e da arte.

Embora sucinta, essa citação possibilita a apreensão de inúmeros conceitos que fundamentam a concepção e produção da literatura de Monteiro Lobato, fortemente marcadas pela presença do elemento humorístico. Num primeiro momento, chama atenção a associação feita entre o humor e a arte, o que revela que longe de ser um artifício gerado pela gratuidade, o humor é concebido em sua obra como elemento estético , uma opção consciente, uma estratégia discursiva que, entre outras coisas, propunha a renovação de uma literatura caracterizada pelo tom grave e solene.
Isso fica evidente quando o autor comenta a necessidade da caricatura – recurso marcadamente humorístico – nas produções jornalísticas da época. Segundo o autor, a caricatura, à qual ele associa também a ironia e o chiste, é “um gênero de primeira necessidade e indispensável ao fígado da nação”, acrescentando que “o rirmos uns dos outros é da higiene humana” . Indo mais além, poderíamos dizer que, para o autor, o humor, enquanto elemento estético, resultado de uma criação simbólica por meio do signo visual ou pelo uso do código verbal, adquire a mesma função humanizadora – que corresponde à necessidade universal de ficção e fantasia da qual carece o ser humano – atribuída à literatura por Antonio Candido .
Outra associação – dessa vez, mais insólita – proposta por Lobato na citação transcrita refere-se à aproximação entre humor e tosse. Aparentemente incongruente, essa aproximação acaba atendendo a definição de humor proposta pelo próprio autor, constituindo-se numa maneira, ao mesmo tempo, imprevisível, certa e filosófica de ver as coisas. É imprevisível, porque não há, aparentemente, nenhuma relação lógica entre os dois elementos confrontados, já que só conseguimos prever o que é lógico; é certa, porque numa análise mais profunda, percebe-se que o humor e a tosse são produtores do mesmo efeito. No primeiro caso, produz-se o riso que, em última instância, se relaciona ao que se observa na reação física provocada pela tosse: expiração brusca e barulhenta. E é também filosófica na aproximação simples e pragmática que estabelece.
Esse caráter imprevisível, certo e filosófico atribuído ao humor explica a grande importância dada pelo autor a esse fenômeno não só no que diz respeito ao nível do enunciado, mas também no nível da enunciação, ou seja, na atualização que faz da língua no contexto comunicativo, utilizando o humor como elemento constitutivo do processo de construção da narrativa, como exemplificado pelos trechos abaixo que, apresentados em ordem de publicação, possibilitam a verificação de como a ênfase na utilização desse elemento é uma característica recorrente nas produções do autor:

Os únicos [livros] que não fazem mal são os que têm diálogo e figuras engraçadas.

Mas o Dr. Livingstone veio ao mundo com um defeito: era sábio demais. Não ria, não brincava – sempre pensando, pensando. Tão sério e grave que tia Nastácia não escondia o medo que tinha dele.

Emília fez focinho de pouco caso.
_ Sua alma, sua palma. Quem ficar zangado com o que eu digo, só prova que não tem “senso de humor...”

Emília nunca vinha espiar na luneta, porque a sua preocupação era ouvir a conversa dos outros para fazer piadas.

(...) há invençõezinhas engraçadas nessa história ... está muito interessante ... Acho que tia Nastácia só deve contar histórias assim.

Obedecendo aos três preceitos (ser imprevisível, certo e filosófico) por ele mesmo mencionados, o humor na obra infantil de Monteiro Lobato se manifesta sob várias formas: nas falas do narrador, na linguagem, na exploração dos aspectos semânticos das palavras, no nonsense, na paródia, nas comparações inusitadas, na ironia, no cômico de situação, na inversão / subversão da ordem, no grotesco e na construção das personagens, procedimentos entre os quais, escolhemos a construção das personagens como objeto de estudo neste trabalho.

Personagens

Em virtude da importância do papel desempenhado por Monteiro Lobato no processo de formação da literatura infantil brasileira, o estudo das pessoas dramáticas constituídas pelas personagens que figuram em sua obra tem sido constante nos textos que procuram perscrutar o universo ficcional criado pelo autor. Assim, tomando como base as personagens nucleares desse universo, quais sejam, Dona Benta, Tia Nastácia, Pedrinho, Narizinho, Emília, Visconde, Quindim, Conselheiro e Marquês de Rabicó, é comum encontrarmos nesses estudos caracterizações bem definidas desses seres. Nelly Novaes Coelho , por exemplo, considera as personagens do Sítio – à exceção de Emília – como arquétipos: Dona Benta é a avó ideal; Tia Nastácia enquanto provedora de alimentos e de apoio logístico doméstico é a serviçal eficiente, afetuosa e humilde; Pedrinho, de certa forma, o homem da casa e Narizinho são as crianças sadias, sem problemas; Visconde, representante do gênero adulto masculino é símbolo da sabedoria intelectual; Quindim, exercendo a função de protetor dos habitantes do Sítio, representa a força bruta; Conselheiro, que em alguns casos age como primeiro-ministro, auxiliando na tomada de decisões, é símbolo do bom senso; e Marquês de Rabicó, ser irresponsável e instintivo, representa a irracionalidade animal da gula .
Além da criação dessas personagens destaca-se também em Lobato a junção proposta por ele de folclores diversos, de épocas e culturas diferentes, reunindo no Sítio de Dona Benta o que a cultura européia ocidental produziu de mais expressivo ao mesmo tempo em que procurou fazer a síntese desses seres com elementos ameríndios, africanos e especificamente ibéricos. Desse modo, propondo uma intercomunicação entre mitos com raízes e troncos que se perdem no passado, o autor demonstra seu caráter universal revelando a individualidade de nossa cultura dentro da generalidade da cultura mundial.
Um dos recursos utilizados por Lobato para proceder a essa junção foi a anulação de fronteiras entre o real e o maravilhoso, uma vez que suas histórias não decorrem em nenhum reino fora do tempo e espaço históricos, mas situam-se no espaço familiar do Sítio do Picapau Amarelo. A esse ambiente conhecido e comum são sempre introduzidos elementos estranhos pertencentes ao reino do imaginário, do sonho ou da fantasia.
Para garantir a naturalidade dessa inclusão, ou seja, para tornar congruente a junção de seres pertencentes a realidades díspares, o autor utiliza técnicas de construção que, ressaltando o que a situação apresentada possui de cômico, tornam assimiláveis as contradições. Entre tais técnicas, a construção de personagens ganha um lugar de destaque. Nesse sentido, ao estudar os mecanismos de construção do humor nas narrativas infantis lobatianas, um aspecto nos chama atenção: tomadas em conjunto, que personagens se sobressaem no processo de construção do humor empreendido pelo autor em suas obras?
Para responder a essa questão, convém retomar a análise realizada dos recursos cômicos empregados por Monteiro Lobato em suas narrativas destinadas ao público jovem . Para ilustrar a utilização desses procedimentos de configuração humorística, foram coletados aproximadamente 250 episódios que se caracterizam pela presença de elementos ligados à comicidade; desses, 191 têm Emília como personagem deflagradora do humor; dos aproximadamente 60 episódios restantes, 16, embora não sejam levados a efeito pela boneca, têm-na como alvo das tiradas cômicas e utiliza técnicas que lhe são peculiares. Isso nos permite a afirmação de que o humor lobatiano é o humor de Emília.
Centro do sistema planetário do Sítio, Emília é a única personagem que evolui dentro desse universo. Criada por tia Nastácia como uma boneca de pano comum, sem vida própria e muda, a boneca passa por um processo de “evolução gental” que, embora possa ser observado na versão definitiva de Reinações de Narizinho publicada em 1931, torna-se mais expressivo se cotejarmos seu desenvolvimento relacionando as versões anteriores da obra. Nesse sentido, em A menina do Narizinho Arrebitado (1920), Emília, reles boneca de pano, subitamente adquire vida no Reino das Águas Claras e surge armada de um espeto, para furar os olhos do Escorpião Negro que ameaçava matar Narizinho e o Príncipe Escamado. Na edição de 1921, na segunda parte da narrativa acrescentada por Lobato, Emília já é mostrada falando. Seu processo de transformação de bruxa de pano em boneca falante por meio das “pílulas” do Doutor Caramujo somente aparece na versão de 1931, quando surge o texto definitivo de Reinações de Narizinho. A partir daí sua evolução foi ganhando dimensões cada vez mais complexas com a afirmação de sua personalidade livre e voluntariosa até se transformar em verdadeiro alter-ego do autor , conforme reconhecido pelo próprio Lobato:

(...) [ela] começou como uma feia boneca de pano, dessas que nas quitandas do interior custavam 220 réis. Mas rapidamente foi evoluindo e adquirindo tanta independência que (...) quando lhe perguntaram: ‘mas que você é, afinal de contas, Emília?’ ela respondeu de queixinho empinado: sou a Independência ou Morte! E é. Tão independente que nem eu, seu pai, consigo dominá-la. Quando escrevo um desses livros, ela me entra nos dois dedos que batem as teclas e diz o que quer, não o que eu quero. (...) Fez de mim um “aparelho”, como se diz em linguagem espírita. (...) Emília que hoje me governa, em vez de ser por mim governada.
Personagem-chave do universo lobatiano, sendo a única segundo Nelly Novaes Coelho a viver em tensão dialética com as demais e a única a sofrer transformações em sua personalidade marcada também pelo caráter contraditório, Emília é a personagem cujas palavras, gestos e ações são o fio condutor das narrativas infantis produzidas por Lobato, definindo, em parte, seu conteúdo ideológico.
Caracterizada pela dualidade, apresentando atitudes, por um lado, positivas, como sua vontade de domínio e exacerbado individualismo que podem levar a grandes realizações e ao progresso social e, por outro, negativas como o seu consciente despotismo que pode resvalar para a exploração do homem pelo homem, Emília é a personagem que mais reflete a personalidade de seu criador. É a válvula de escape de sua rebeldia, das suas irreverências, dos seus sentimentos mais violentos e do seu humorismo maroto e fantasista . Isso pode ser observado nos fragmentos apresentados a seguir, selecionados entre os inúmeros que ocorrem na obra infantil lobatinana, que demonstram como essa personagem, utilizando como recurso associações inusitadas baseadas na inversão / subversão da ordem, constrói lingüisticamente o humor.
Em Reinações de Narizinho, um dos episódios que se destaca pela apresentação de uma situação cômica tendo Emília como protagonista ocorre por ocasião do concurso realizado por Pedrinho para escolher o desenho que serviria de modelo para a confecção do boneco, “irmão de Pinócchio”, feito de pau vivente. Como o processo de votação não obteve sucesso, pois cada desenhista escolhia a sua própria criação, Pedrinho resolveu fazer um sorteio, descrito na narrativa da seguinte maneira:

_ Com votação não vai – disse ele. O melhor é tirar a sorte.
Todos concordaram. Pedrinho escreveu o nome de cada concorrente num pedaço de papel, enrolou-os e botou-os no seu chapéu, pedindo a Dona Benta, como mais velha, que tirasse um. Emília, porém, protestou, erguendo a mão esquerda no ar e escondendo a direita no bolsinho da saia.
_ Quem vai tirar a sorte sou eu! Dona Benta não sabe!_ Não é você, não! É vovó! – determinou Pedrinho.
_ Sou eu! Sou eu! – insistiu a boneca.
_ Já disse que é vovó. Não teime!
_ Sou eu! Sou eu! – continuou a boneca, batendo o pé sempre de mão no bolso.
Narizinho desconfiou da insistência daquela mão no bolso.
_ Deixe ver a mão, Emília.
_ Não deixo! – respondeu a boneca, corando até a raiz dos cabelos.
Narizinho agarrou-a e, tirando-lhe a mão do bolso à força, viu que havia nela um papelzinho do mesmo tamanho e enrolado do mesmo jeito dos que estavam no chapéu.
Foi um escândalo. Todos criticaram, achando muito feio aquele procedimento; depois caíram na gargalhada, ao lerem o que estava no papelzinho. Emília em vez de escrever o seu nome, havia escrito, na sua letrinha torta de boneca de pano – O MEU. Por isso insistia tanto em tirar a sorte. Já estava com o nome do vencedor na mão...

Embora a teimosia de Emília seja uma característica da boneca já conhecida de todos, é por meio dela que o suspense desse episódio vai sendo criado até chegar-se a um desfecho cômico. Sempre admirada por sua esperteza, Emília surpreende os espectadores da cena até no exercício dessa virtude que, levada aqui ao extremo, torna o episódio caricato. Se sua insistência em ser a pessoa responsável pelo sorteio é compreensível, tendo em vista o fato de já ser esperado algum tipo de trapaça em suas ações, o que surpreende, causando o estranhamento e provocando o riso é essa boneca tão esperta ter cometido um deslize tão fácil de ser descoberto quando, ao invés de escrever seu próprio nome no papel, o que tornaria a suspeita difícil de ser comprovada, escreve a expressão “o meu”, denunciando sua fraude.
Exemplo especialmente interessante da criação do tom humorístico como resultado de associações inusitadas pode ser observado também nas colocações de Emília em História do mundo para as crianças, quando Dona Benta fala a respeito da destruição de Pompéia pelo vulcão Vesúvio:

No tempo de Tito aconteceu um desastre célebre. Com certeza vocês sabem o que é Vesúvio...
_ Sei! – gritou Emília, que acabava de entrar da cozinha onde estivera atropelando tia Nastácia. Vesúvio quer dizer: Tu vês, mas o u viu.

Para que o leitor entenda o efeito humorístico dessa construção exigem-se dele, conforme propõe Sírio Possenti , as mesmas operações epilingüísticas efetuadas pela personagem, quais sejam, a segmentação da palavra “Vesúvio” em “Vês”, “U” e “viu”; a hipótese de que “U” seja uma pessoa ou um ente personificado qualquer dotado da capacidade de visão; “Vês” seja a segunda pessoa do singular do Presente do Indicativo do verbo “ver” e “vio” (cuja pronúncia é /viu/, por ser uma palavra formada por um ditongo decrescente) seja a terceira pessoa do singular do Pretérito Perfeito do Indicativo desse mesmo verbo. Daí resulta a construção cujo sentido pretendido é “Hoje, tu vês, ontem foi U que viu” ou, como proposto pela personagem, “Vês, U viu” (“Tu vês, mas o u já viu”). É a percepção da criatividade demonstrada pela boneca com sua construção que torna o episódio engraçado.
Talvez o mais saboroso de todos os exemplos até agora citados seja o que se segue. Nele, Emília, por meio de um elaborado jogo de raciocínio do qual fazem parte elementos lógicos, semânticos e morfológicos, discute a validade do nome “Corão”, atribuído ao livro sagrado que contém o código religioso, moral e político dos muçulmanos ou maometanos. Isso ocorre no momento em que Dona Benta conta a história de Maomé e de como esse fundou o Islamismo:

Maomé, que sabia fazer as coisas, de quando em quando anunciava ter recebido uma mensagem direta de Alá, do mesmo modo que Moisés afirmou ter recebido ordens de Jeová no topo do Sinai. Nessas mensagens Alá lhe dava ordens para fazer isto e aquilo, ou esclarecia pontos da nova religião. Reunidas mais tarde em livro, formaram o famoso Corão, que é a bíblia dos maometanos.
_ Era esse livro escrito em pergaminho? – perguntou Emília.
_ Sim – respondeu Dona Benta, sem saber onde ela queria chegar.
_ E pergaminho não era um “courinho” de carneiro, muito fino?
_ Sim. E que tem isso?
_ Então... então... disse a terrível atrapalhadeira, então como é que esse livro se chamava Corão?

Nesse fragmento, o humor se constrói pela relação feita por Emília entre os vocábulos “Corão”, livro sagrado dos maometanos, e “courão”, palavra que, segundo a lógica emiliana, corresponde ao aumentativo de “couro”. Por meio de um silogismo sofístico, a personagem elabora uma argumentação capciosa baseada em um raciocínio verossímil, porém, inverídico, concebida com a intenção de induzir ao erro. Tal raciocínio, que aparece no texto de forma subentendida, pode ser descrito da seguinte forma: Todo pergaminho é um courinho; o Corão é um pergaminho; logo, o Corão é um courinho. Explicitando: todo pergaminho, escrito ou documento feito com pele de caprino ou ovino, é um courinho, pelo fato de a pele que lhe serve de material ter uma consistência muito fina, permitindo a escrita. Como o Corão, livro sagrado, é um pergaminho, documento escrito em couro fino ou courinho; o Corão é um courinho. Tomando por base a síntese desse raciocínio, Emília procura demonstrar a incoerência nela presente, afirmando que um “co(u)rão” não pode ser ao mesmo tempo um “courinho”. Embora simule um acordo com as regras lógicas, esse argumento apresenta, na realidade, uma estrutura interna inconsistente, incorreta e deliberadamente enganosa: a correspondência entre “Corão” e “couro”. Estruturas que mantêm entre si semelhanças apenas no nível fonológico, essas duas palavras pertencem a campos semânticos completamente diferentes, fato que é propositalmente desconsiderado pela personagem para validar seu raciocínio. Desse modo, ao apresentar uma argumentação baseada num elaborado processo de raciocínio, mas que ao mesmo tempo mostra ser inconsistente, Emília aproxima dois universos que se excluem, gerando o estranhamento e provocando o humor.

Embora esse espírito subversor que caracteriza o discurso humorístico de Emília seja comumente apontado como o traço que a aproxima de seu criador, do ponto de vista da construção narrativa é importante ressaltar que, se em nome da verossimilhança, a personagem enquanto ser fictício deva manter certas relações com a realidade – assim como ocorre com Emília em relação ao seu criador –, esse aproveitamento do real não pode ser integral ou absoluto. Nesse sentido, são apropriadas as palavras de Antonio Candido ao afirmar que quando um autor toma um modelo na realidade, sempre lhe acrescenta, no plano psicológico a sua incógnita pessoal, por meio da qual procura revelar a incógnita da pessoa copiada. Desse modo, é obrigado a construir uma explicação que não corresponda ao mistério da pessoa viva, mas que é uma interpretação desse mistério .
Não sendo, portanto, simples projeção das aspirações de seu criador ou uma transposição fiel do real, o princípio que rege a construção da personagem é o da modificação criadora, princípio que se encontra intimamente ligado à função que essa personagem exerce na estrutura do romance.
Qual seria, então, o papel de Emília no universo lobatiano? Manuel Bandeira nos ajuda a esclarecê-lo:

(...) a personagem mais divertida desse mundozinho, a de mais vida, a que está sempre saltando das páginas do livro, é Emília. As suas espevitices, os seus palpites, a sua ciganagem fazem dela o centro da ação e do interesse toda vez que aparece. No entanto Emília é ... uma boneca – a boneca de Narizinho.

Também procedentes são as palavras do crítico Alfredo Bosi a respeito da boneca:
A figura de Emília, sobretudo, é das mais subversivas da literatura brasileira. Com ela há uma subversão de valores muito profunda, não só de valores da racionalidade, mas até de valores da natureza (...) a figura de Emília é realmente o inconsciente de Lobato às soltas, desmanchando elementos da cultura, elementos da razão e elementos da própria natureza.

Quer seja figura central, subversiva, reprodução fiel da vivência real do autor ou resultado de sua criação estética manifestada por meio da organização interna da obra, a materialidade dessa personagem só pode ser apreendida por meio de um jogo de linguagem que torne tangível sua presença e sensíveis seus movimentos. Nesse sentido, se o texto é o produto final desse processo de construção, ele é o único dado concreto capaz de fornecer os elementos utilizados pelo escritor para dar consistência a sua criação. Sendo assim, é somente por meio de sua análise que se pode detectar os procedimentos encontrados e utilizados pelo escritor para dar forma, para caracterizar as personagens, sejam elas encaradas como pura construção lingüística ou espelho do ser humano .
A respeito da importância da palavra, seja no processo de criação de verossimilhança ou no processo de convencionalização, isto é, no trabalho de seleção dos traços que comporão a personagem, dada a impossibilidade de descrever a totalidade de uma existência, Antonio Candido afirma:

Se as coisas impossíveis podem ter mais efeito de veracidade que o material bruto da observação ou do testemunho, é porque a personagem é, basicamente, uma composição verbal, uma síntese de palavras, sugerindo certo tipo de realidade. Portanto, está sujeita, antes de mais nada, às leis de composição das palavras, à sua expansão em imagens, à sua articulação em sistemas expressivos coerentes, que permitem estabelecer uma estrutura novelística.

Partindo do pressuposto de que Emília se caracteriza por sua configuração dialética, subversiva e transgressora, o discurso utilizado por seu criador para convencionalizá-la apresenta características semelhantes: trata-se do discurso humorístico. A partir desse discurso, que tem como porta-voz a própria boneca – como se pode observar pelo grande número de episódios humorísticos (mais de duzentos) de que ela participa como figura central ou secundária – cria-se a língua emiliana que, servindo de fio condutor para todas as narrativas, faz com que todos os elementos do texto se ajustem entre si de maneira ordenada, contribuindo para a coerência interna da obra.
Entre os fatores que cooperam para esse efeito está a figura do narrador quase ausente, possibilitando por meio do diálogo vivo entre as personagens o aflorar de um tipo de discurso que é também, muitas vezes, apropriado por ele. Soma-se a isso o fato de que quando outras personagens que não a boneca deflagram o humor, a língua utilizada para a construção da comicidade é também a língua emiliana marcada pelo tom lúdico-humorístico presente nos neologismos, nas ironias, nas paródias, no uso do nonsense etc, elementos que por si sós já revelam o caráter dialético de Emília, personagem responsável pela eclosão desses procedimentos.
Prova ainda da relevância de Emília na construção do humor nos textos de Lobato são as personagens Visconde e Marquês de Rabicó que também podem ser apontadas como cômicas no universo lobatiano, mas que só adquirem essa configuração a partir de sua relação com a boneca. No caso de Rabicó, por exemplo, temos uma personagem caricata que se define por apenas dois traços: a gula e o medo. Ridicularizado por manifestar essas características, representa, muitas vezes, o papel de bufão sendo uma personagem sem nenhuma densidade psicológica. Destaca-se também em sua caracterização o caráter cômico do antropônimo com que é nomeado designativo que propõe a junção de dois universos completamente dissociados entre si: o nobiliário, como sugere o título “Marquês”, e o torpe e grotesco, presente na acepção do nome “Rabicó”. Tais características o contrastam a Emília, sua esposa, a quem, aliás, presta uma obediência servil.
Quanto a Visconde, embora tenha com Emília um tronco comum visto terem sido os dois obras das mãos de tia Nastácia, seu caráter cômico só se revela pelo contraste que sua gravidade estabelece em relação à personalidade irreverente de Emília. Nesse sentido, o sabugo só vai se “redimindo” nas últimas narrativas, quando se torna, por exemplo, mais “simpático” e um “gigante” de grande importância em A chave do tamanho ou quando é acometido de uma loucura “heróica” que o faz até dançar rumba em Os doze trabalhos de Hércules. Em outras palavras, Visconde só ganha dimensão quando sua configuração se aproxima da caracterização de Emília.

Como se pode observar, responsável pelo jogo de forças opostas ou convergentes que estão presentes nas narrativas infantis de Lobato, Emília é a personagem que, direta ou indiretamente, dá impulso às ações, representando a força temática das obras do autor. Utilizando procedimentos que lhe são peculiares, baseados, principalmente, no alogismo e na transposição de sentidos, Emília cria um discurso próprio – a língua emiliana – que acaba sendo incorporada por todas as demais personagens na construção do humor ao longo das narrativas.
Propulsora do discurso humorístico tão caro a Lobato, suas “características malasarteanas” a colocam entre as personagens mais irreverentes e críticas da literatura brasileira.

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