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  O ESPORTE ENQUANTO UM INSTRUMENTO DE AÇÃO E REFLEXÃO PARA A INCLUSÃO SOCIAL

Wellington Alonso - FCT-UNESP/Presidente Prudente
Maria Peregrina de Fátima Rotta Furlanetti - FCT-UNESP/Presidente Prudente

“O principal Objetivo das ciências deve ser contribuir
para diminuir a miséria humana”
(Bertold Brecht)

O esporte moderno, no contexto social em que nos encontramos atualmente, adquiriu uma magnitude tão intensa em nossa sociedade que não seria enfadonho de nossa parte considerá-lo como um fenômeno determinante de valores e costumes socioculturais, chegando mesmo a interferir no ideal de vida tanto dos que o praticam enquanto uma atividade de lazer, como daqueles que o tem como uma atividade profissional.

Ao analisarmos o esporte enquanto uma atividade de lazer, Bracht (1997) nos alerta que

“este pode ser vivido enquanto atividade de lazer tanto na perspectiva do espectador do esporte de alto rendimento, este praticado por profissionais, como na perspectiva do praticante [sendo que] os códigos e os sentidos são diferentes dos do primeiro.” (p.12)

Porém, qual é a característica central do esporte veiculado pelos meios de comunicações e incorporado pela população em geral?

Se levarmos em consideração as características idealizadas nas relações humanas pela nossa sociedade pós-moderna –dentre as quais poderíamos destacar a competitividade exacerbada, a vitória a qualquer preço onde o fim justifica os meios utilizados para alcançar tais méritos, independente de quais são esses meios, e ainda onde o ser humano é visto como um consumidor em potencial – de acordo com Bracht (op.cit) “o esporte moderno assumiu estas características da nossa sociedade capitalista”. Como poderíamos utilizar o esporte enquanto um instrumento de ação e reflexão para a emancipação humana num sentido almejado por Freire em sua Pedagogia da Autonomia?

Entendemos que o esporte não pode ser entendido como uma prática isolada de um contexto cultural, tendo um fim em si mesmo. Além disso, numa sociedade midiática como a nossa, onde o esporte tornou-se mais uma mercadoria, sendo veiculado por uma mídia sensacionalista que tem como objetivo principal o lucro, este incorporou algumas características típicas da sociedade neoliberal e capitalista.

Segundo MARTINS (1997) a sociedade capitalista

“é uma sociedade que tem como lógica tudo desenraizar e a todos excluir porque tudo deve ser lançado no mercado; para que tudo e todos sejam submetidos às leis do mercado. A lógica do sistema capitalista é o mercado, é o movimento, é a circulação : tudo tem de ser sinônimo ou equivalente de riqueza que circula, de mercadoria”.(p.30)

Dentro dessa lógica de mercado, em que o esporte foi fetichizado e o ser humano (principalmente o atleta de alto nível) coisificado, o esporte é utilizado enquanto uma ferramenta importantíssima para a viabilização dos interesses de uma classe dominante e opressora, onde as empresas que o patrocinam objetivam primordialmente vender seus produtos e artefatos, esportivos ou não. Até mesmo o Estado consegue, através do esporte tespetacularizado, desviar a atenção da ‘massa’ para interesses superficiais e frívolos frente as reais necessidades. É muito confortável e traz uma alegria imensa sabermos que nós, brasileiros, somos uma ‘potência do futebol’, admirados mundialmente por esta façanha. Mas não é interessante compreender que somos também uma sociedade estratificada, onde poucos detêm a maior parte da renda produzida e muitos se encontram em situação tão miserável que são ‘classificados’ abaixo da linha de pobreza.

Nossa intenção com esta explanação acima apresentada é demonstrar que mesmo o esporte enquanto atividade de lazer está impregnado de valores capitalistas, pois “é o esporte de alto nível que em linhas gerais fornece o modelo de atividade para grande parte do esporte enquanto atividade de lazer”. (Bracht,op.cit)

Um exemplo desta íntima relação pode ser constatado na seguinte situação: Quantos de nós não presenciamos, numa partida de futebol jogada nos campinhos dos bairros um sujeito fazer um gol e sair comemorando com o nome e as atitudes de algum atleta famoso (alto nível)? A mesma situação pode ser observada em outras modalidades esportivas como no voleibol, no basquetebol, no atletismo, etc.

Não podemos ocultar a grande e determinante influência exercida pelos meios de comunicação nesta situação, pois de acordo com LEVISKY (1998) “a TV ocupa cada vez mais um espaço fundamental na vida de muitas crianças e adolescentes”.

Mesmo que pareça supérflua e desnecessária esta digressão à qual nos detivemos até então, estamos convictos de que só podemos entender o esporte em sua totalidade a partir de uma análise feita sobre a dinâmica social em que este se encontra inserido.

Outrossim, tendo em vista que ao utilizarmos o esporte enquanto um instrumento de ação e reflexão para uma população jovem que por motivos de ‘atos infracionais’ encontra-se privada de gozar plenamente da sua liberdade –liberdade assistida- acreditamos que o esporte pode sim ser utilizado como uma ferramenta que tenha como intenção uma reversão deste quadro.

Ao utilizarmos o esporte como um meio para entender, e se possível modificar, a estrutura social desumanizante e exclusivista em que estamos inseridos, pretendemos –juntamente com os jovens - que participam direta ou indiretamente das atividades esportivas a realizarem uma leitura crítico-reflexiva sobre os valores capitalistas incorporados pelo esporte, e também incitá-los a verem-se enquanto sujeitos passíveis de atuarem sob esta lógica, tendo como meta romper com tais paradigmas e estereotipações alienadores.

Além do mais, a própria situação em que estes jovens estão imersos já é motivo suficiente para que a sociedade, em suas diferentes instâncias, atribua-lhes uma culpa e responsabilidade pelos infortúnios ocorridos em sua vida, e estes mesmos são responsabilizados por tal situação. Na grande maioria das vezes não lhes dizem que os direitos básicos dos cidadãos, desde a saúde, a alimentação, a educação, o lazer, etc, direitos que foram sofrivelmente conquistados pelas gerações que os antecederam, não é igual para todos, pois a ausência de um razoável poder aquisitivo pode desencadear em situações de negação e alienação destes direitos. A alienação a estes direitos constitui uma forma paradoxalmente explícita e velada de violência contra a dignidade humana.

Ao realizar um trabalho com essa parcela da população, almejamos em nossas atividades propiciar meios para que estes jovens não entendam estas atividades como uma obrigação a ser realizada, e muito menos como uma punição. Mesmo que do ponto de vista jurídico os mesmos são ‘obrigados’ a participar de projetos com natureza de ‘medida sócio educativa’ atentamos para uma desconstrução dessa visão.

Se levarmos em consideração a teoria Freudiana sobre a estruturação e funcionamento do aparelho psíquico do ser humano, à qual nos revela que esse aparelho esta sob a égide de dois princípios sintomáticos –o prazer e o desprazer - toda e qualquer atividade que venha ser imposta ao indivíduo é passível de gerar uma sensação de desprazer, onde a tendência do mesmo é não participar –de fato- da atividade proposta.

Assim sendo, a medida sócia educativa, pelo menos ao nosso entendimento, não deve ser enfatizada enquanto uma prática punitiva, de coerção, mas sim pensada como um instrumento utilizado, em uma situação particular, que possibilite aos sujeitos envolvidos meios de refletirem acerca de si e de suas práticas, tendo como objetivo as possibilidades de emancipação humana frente as injustiças por ele sentida ou exercida.

“Constatar esta preocupação implica, indiscutivelmente, reconhecer a desumanização, não apenas como viabilidade ontológica, mas como realidade histórica. É também, talvez, sobretudo, a partir desta dolorosa constatação que os homens se perguntam sobre a outra viabilidade –a de sua humanização”. (p.30)

Pensar diferentemente sobre uma situação imposta pode ser considerado como uma ousadia, uma negação da ordem pré-estabelecida, onde este pensamento visa ultrapassar as formas de padronização social.

Para concluir, gostaríamos de enfatizar a importância do esporte como um dos possíveis meios de se realizar uma (re) leitura sobre o ser humano, e também sobre como ser humano dentro de uma estrutura social que nos induz ao egoísmo, ao individualismo, a coisificação do corpo humano, e a mercadologização das ações e intenções humanas.

Acreditamos que o esporte, enquanto um elemento da cultura corporal do movimento humano, deve ser valorizado e, constantemente, remodelado, tendo em vista a não perpetuação –através deste- de valores exclusivistas e desagregadores presentes nas sociedades capitalistas.

Não podemos nos esquecer de que o esporte, uma das práticas sociais mais amplamente divulgada e executada pelos sujeitos sociais em âmbito universal, sofreu diferentes modificações, influenciando e sendo influenciado pela sociedade.

Bracht (op.cit) nos alerta que “o esporte enquanto atividade de lazer possui outro sentido, outro significado, outros princípios norteadores e assume outras características – mas o sistema esportivo, construído na perspectiva do esporte de alto rendimento, quer ser o seu modelo”.

Por fim, o ‘jogar com’ não deve, e não pode ser substituído pelo ‘jogar contra’, e o adversário do jogo não pode ser entendido como um inimigo a ser derrotado e humilhado publicamente. Nessa perspectiva crítico-superadora que nós tratamos as atividades esportivas com estes jovens em condições de vulnerabilidade social almejamos intervir no curso de sua vida, propiciando meios para que os mesmos possam ver-se como sujeitos de ação que podem, e devem, decisivamente, traçar caminhos que levem-nos a uma sociedade mais justa e igualitária, onde a desumanização do ser humano seja intensamente repudiada.

Que o esporte possa ser utilizado enquanto um meio de superação das ideologias que oprimem e alienam o ser humano.

Referências Bibliográficas

BRACHT,Valter. Sociologia crítica do esporte: uma introdução; Vitória - UFES; Centro de Educação Física e Desportos, 1997;

_______________ Educação Física e Aprendizagem Social in: A criança que pratica esportes respeita as regras do jogo... capitalista; 2 ed – Porto Alegre: Magister, 1997;

Freire, Paulo. Pedagogia da Autonomia: Saberes necessários à prática educativa; São Paulo: Paz e Terra, 1996;

_______________ Pedagogia do Oprimido ; 17ª ed. Rio de Janeiro; Paz e Terra, 1987;

Freud, Sigmund. O mau estar na civilização; Edição Estandarte Brasileira; Rio de Janeiro: Imago, 1989;

Martins, José de Souza. Exclusão Social e a nova desigualdade; São Paulo; Paulus, 1997.

 
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