Voltar    
  O IMAGINÁRIO : SÍMBOLOS QUE RODAM... HISTÓRIAS, CANÇÕES, BRINCADEIRAS...

Dalva Amaral - Secretaria Municipal de Educação

7 são os dons do Espírito,
7 são os pecados capitais,
Devo perdoar 7 vezes?
Não vos digo 7, mas 70 vezes 7.
E no sétimo dia descansou.
7 dias tem a semana,
Com 7 anos entrei na escola.
Quem logo conheci?
João mata 7.E o João virou símbolo de coragem, valentia. Herói pequeno que com a imaginação e a palavra se transformou num grande herói.
Meu pai também era João que com a imaginação e a palavra foi um grande contador de histórias. A dos boiadeiros e dos diabinhos que estão até hoje caindo no precipício. A do Saci Pererê que à noite enrolava a crina dos cavalos. Quando ele falava do Saci, eu espreitava o escuro tentando ver de onde poderia aparecer semelhante figura. Não via nada, mas mesmo assim me achegava ao colo do meu pai. Ah! mas também tinha a do Pedro Malasartes e outras que meus ouvidos de menina escutavam enquanto meus olhos iam adormecendo... Foi assim que me apaixonei por histórias e nas cantigas de roda eu era muito atenta às letras:

"Tango, tango, morena
É a mais formosa.
Vamos jogar a Dalva
No latão de rosa."

E a cada tango, saía uma criança da roda. E íamos fazendo contas de subtração imaginárias, pois a cada vez uma criança a menos ficava na roda. Quando só sobrava uma criança , cantávamos:

"Se eu fosse um peixinho,
e soubesse nadar,
eu tirava a ...
Do fundo do mar."

E a roda ia se formando novamente. E íamos fazendo contas de adição cantadas, e a cada vez uma criança a mais entrava na roda. E íamos construindo nosso teto da pré-escola no céu azul dos dias de verão.
Menina de sítio...
Roda pião, rodeia pião... O pião rodava durante o dia nas nossas mãos; à noite, rodava a canção (sempre na voz de meu pai):

"Ai, minha gatinha parda,
Que em janeiro me fugiu.
Quem roubou minha gatinha?
Você sabe, você sabe?
Você sabe, você viu?".

Minhas irmãs vinham com histórias da escola, Cinderela.. Lá se foi a minha imaginação... Não é que consegui enganar as meninas do sítio vizinho? Contei-lhes que eu havia ganhado um sapatinho de cristal. Lógico que eu não podia mostrá-lo, era muito valioso e estava muito bem guardado dentro do guarda-roupa. Minha mãe não o deixava pegar. Eu contava com tanta convicção que eu mesma acreditava que tinha um sapatinho de cristal... Menti para mim mesma, engraçado que atualmente gosto de algumas mentiras que, de tão bem contadas, adquiriram vida .
Meu sapatinho de cristal não se ajustava a nenhum modelo existente na natureza, mas emanava dele a mais convincente realidade, “cobrava realidade” , materializou-se e passou a influenciar o rodeio do meu universo. Não havia nenhuma importância em eu correr de pés no chão, porque as tamanquinhas me calçavam com o exato número. Eu, parecença, viva princesa a ponto de causar inveja nas meninas do sítio vizinho...
Meu pai, todas as noites, nos apontava o céu. Meus olhos de criança eram maravilhados com a beleza das estrelas. Sentávamo-nos nos dois degraus na frente da casa, davam para o terreiro, esse mesmo que era palco de muitas de nossas brincadeiras. Ele apontava o Cruzeiro do Sul, e eu e meus irmãos tentávamos ver a figura de uma cruz no céu. Ele apontava a galinha e seus pintinhos, víamos estrelinhas pequeninas próximas de um montão de estrelas reunidas. Sim senhor: a galinha e seus pintinhos. Lá estão as Três Marias... as figuras iam se sucedendo, e o nosso pai era o nosso mestre de astronomia.
Sob o olhar cúmplice da lua que ia mediando com sua luz, o teto da pré-escola ia se fazendo em todo o céu estrelado, e nosso astrônomo cantava:

"Vamos, maninha, vamos
À praia passear.
Vamos ver a lancha nova
Que do céu caiu no mar,
Vamos ver a lancha nova
Que do céu caiu no mar.

Nossa Senhora vai dentro
Os anjinhos a remar.
Remem, remem, remadores,
Que estas águas são de flores.
Remem, remem, remadores,
Que estas águas são de flores."

Os 7 dias da semana eu passava em rodas, brincadeiras e histórias. E no sétimo dia descansávamos uns irmãos dos outros e brincávamos também com as crianças do sítio vizinho.
E batíamos corda e pulávamos: um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete...
Oh tristeza, era sempre minha irmã mais velha que pulava até sessenta, setenta. E as contas de aritmética eram feitas ali mesmo no terreiro. Íamos contando o número de pulos, víamos quem tinha pulado mais, quem tinha pulado menos. Bate "foguinho"! Ufa! Parávamos logo de contar, caíamos ao chão levadas por uma corda enfurecedora. E rapidamente a roda se formava, e era eleita uma dama com seus três cavalheiros:

"Teresinha de Jesus
De uma queda foi ao chão.
Acudiram três cavalheiros,
Todos três de chapéu na mão.

O primeiro foi seu pai,
O segundo seu irmão,
O terceiro foi aquele
Que a Teresa deu a mão."

E o cavalheiro se transformava em peregrino e o peregrino era eu mesma:

"O pobre peregrino
Que anda de porta em porta,
Pedindo um repouso por caridade.
- Por caridade, menina,
Que o peregrino é pobre.
Dá-me um repouso, por caridade."

O peregrino rapidamente virava santo:

"São Francisco entrou na roda
Tocando seu violão.
Dararão, dão, dão.
Dararão, dão, dão.
Olha como ele vem
Todo requebrado,
Parece um pato desengonçado".

Desculpe-me, seu Drummond, mas eta vida boa, meu Deus!
Mas você sabe mesmo quais artes o Saci apronta? Mama todo o leite da vaca na escuridão da noite. No outro dia de manhã, bem cedinho, quando vai se tirar o leite. .. Cadê? Nada, o malandro fez mais uma das suas e o pobre do bezerrinho ficava naquela fome!
E eu olhava, olhava com olhos de menina para o escurão que, por todos os lados, nos rodeava. E meus ouvidos se apuravam para melhor ouvir a história e melhor escutar os barulhinhos que vinham me assombrar até que meus olhos adormeciam.

Mal a tarde se fazia, a roda começava:

"Eu sou pobre, pobre, pobre,
De marré, marré, marré.
Eu sou pobre, pobre, pobre,
De marré gessi."

E cantávamos todos enfileirados, indo e vindo para a frente. A outra fileira, vindo ao nosso encontro e voltando, respondia:

"Eu sou rica, rica, rica,
De marré, marré, marré.
Eu sou rica, rica, rica,
De marré, gessi."

E éramos ricos... Afinal, quem de nossa irmandade sabia o que era riqueza ou pobreza? Mas éramos ricos, porque ricas eram as histórias, as brincadeiras, o nosso mundo era prazeroso, a nossa infância era coberta de imaginário... Coberta que nos aquecia nos dias quentes ou frios, chuvosos ou ensolarados...
Meu pai separava as palhas do milho que saíam inteirinhas, nós as passávamos na faca e as deixávamos bem lisinhas. Sabe para quê? Para fazer petecas. Escolhíamos uma pedra muito bem escolhida, pois tinha que se prestar ao que queríamos; cobríamos com as palhas trançando de uma maneira especial, amarrávamos e púnhamos pena de galinha. E ali passávamos um bom tempo no terreiro, joga para cá, para lá, não deixa cair. E a peteca, no ar, rodava, rodava...e num repente a ciranda se formava:

"Se essa rua, se essa rua fosse minha.
Eu mandava, eu mandava ladrilhar.
Com pedrinhas, com pedrinhas de brilhantes
Prá meu bem, prá meu bem poder passar.

Nessa rua, nessa rua tem um bosque
Que se chama, que se chama solidão
Dentro dele, dentro dele mora um anjo
Que roubou, que roubou meu coração.

Se eu roubei, se eu roubei teu coração
Tu roubaste, tu roubaste o meu também
Se eu roubei, se eu roubei teu coração
É porque, é porque te quero bem".

E meu pai contava histórias de seu pai. Onde morava nosso avô quando era menino? Numa terra onde a água brotava quentinha do chão. E eu imaginava essas águas quentinhas, fumegantes... Hoje sei que me avô veio da Ilha de São Miguel (Portugal), e realmente é isso que acontece, porque é região de vulcões. Nesse universo do contado, minha imaginação girava o mundo, e eu menina girava, girava...

"O cravo brigou com a rosa,
Debaixo de uma sacada,
O cravo saiu ferido
E a rosa despedaçada.

O cravo teve um desmaio,
A rosa foi visitar.
O cravo ficou doente,
A rosa pôs-se a chorar."

Quando chegavam visitas masculinas estranhas, eu já logo olhava o tom da pele. Se fosse meio pálida, eu pensava se poderia haver fios de tecido vermelho no meio de seus dentes. Por quê? Ora, porque assim era a história do lobisomem, ele era alguém comum durante o dia, só que muito pálido. Atacava em noite de lua cheia. Meu pai sempre contava aquela em que tão assombroso homem foi descoberto, porque encontraram entre seus dentes pedaços do vestido da mulher desaparecida...
Eram 7 os dons na nossa infância: brincar, correr, pular, imaginar, ouvir histórias, cantar cantigas, rodar na roda? Não sei. O que sei é que eram setenta vezes
sete o número das árvores que subíamos por dia no pomar de nossa casa. Ali em cima brincávamos de casinha, beijávamos um galho porque ele era o nosso marido. Íamos de um galho pra outro, porque cada galho também era uma casa. A árvore balançava toda e nós balançávamos junto:

"Balança caixão, balança você.
Dá um tapa na bunda e vai se esconder."

Saíamos todos em disparada a nos escondermos, e quem dizia o refrão acima, escondia a cara e ia contando um, dois, três... Até sair a nos procurar. Precisava de muita esperteza e agilidade nas pernas para chegar ao caixão (lugar onde ele ficara contando onde, na verdade, não havia caixão algum: roda imaginação). Às vezes, essa mesma brincadeira era começada por uma música de roda:

"Senhora Dona Sancha
Coberta de ouro e prata,
Descubra o vosso rosto,
Queremos ver sua face.

Que anjos são esses
Que andam me rodeando,
De noite, de dia,
Padre Nosso, Ave Maria?

Somos filhas do conde,
Bisnetas de visconde,
O seu rei mandou dizer
Para todos se esconder."

Engolíamos a concordância. Não fazia nenhuma diferença, a brincadeira era por todos entendida. E, naquele momento, éramos anjos perturbadores da solidão de uma agoniada D.Sancha.
Em casa havia um “ateliér” de bonecas. Quem nos ensinavam eram minhas irmãs. Escolhíamos os sabugos mais rosados. Colocávamos sainha de pano e desenhávamos com lápis de cor o rostinho. Estavam prontinhas para brincar. Minhas irmãs: sol interior com perfume de professoras. Escola sem banco...
Também havia muitos gizes coloridos. Saindo pela área da porta da cozinha, dávamos para uma pequena elevação coberta de piçarra. Essa piçarra era um tipo especial de solo: plaquetas amarelas, azuis, roxas, vermelhas, corais, verdes. Eram gizes mágicos, pois nunca eram totalmente de uma só cor. Com eles escrevíamos (?), desenhávamos, construíamos amarelinhas no terreiro: lousa coberta pelo firmamento.
E nos degraus, em noite quente, escutávamos pela voz de meu pai, as proezas de Pedro Malasartes. Não é que ele, com suas espertezas, salvou os boiadeiros e precipitou os diabinhos num fosso sem fundo e eles estão caindo nesse fosso até hoje?... Quantas vezes escutei essa história? Setenta vezes sete mais ouvira, se não fora para tão fascinante história tão curta a vida.
Meu Pedro Malasartes, a voz que contava a história sabia que o mundo desse esperto Pedro eu enlaçava em fantasia e realidade? Imaginava o que jamais havia visto , os caminhos... o precipício...diabinhos.... ampliava experiências de “ser”, rompia meu universo e apropriava-me, sem o saber, de experiências jamais vividas por mim. Experimentava-me no outro. Sabiam todos que tão rica realidade de castelos , peregrinos e santos me construiriam no advir? Preciosa sabedoria das pessoas simples que ouviram histórias e brincaram em rodas infinitas, porque tiveram, sem nunca ter ido à escola, a compreensão de discernir o quanto essa vivência infantil os fizera ser “gente” no mundo, e com seus livros do imaginário também nos ensinavam a nos construirmos enquanto “gente”.

7 anos...
a escola e a canção se fizeram realidade:

"Margarida está no castelo.
O quê, o quê, o quê?
Margarida está no castelo,
O que se vai fazer?

O castelo é muito alto.
O quê, o quê, o quê?
O castelo é muito alto,
O que se vai fazer?"

Deixei de ser a Te-re-si-nha-de-Je-sus-es-que-ci—me-do-po-bre-pe-re-gri-no-não-mais-fui-na-jo-nem-se-quer-D.-San-cha-a-dor-me-ceu-Nos-as-Se-nho-ra-na-bar-ca.
Só- fi-cou- a Mar-garida- presa- num cas-te-lo com muros muito altos. Passaram-se 7 dias, e no sétimo dia, descansei.
Mas na segunda-feira havia o relógio, havia a porta, havia a janela...E o silêncio escutava uma canção:

"Tirando uma pedra,
O quê, o quê, o quê?
Tirando uma pedra,
O que se vai fazer?
"(...)
Tirando uma pedra,
O quê, o quê, o quê?
Tirando uma pedra,
O que se vai fazer?".

E como se já não bastasse, havia também a Maria que me perseguia no banheiro. Em outros tempos eu já espreitara para ver se via saci, assombração. Agora, sem espreitar, estavam diante de mim as assombrações reais da infância: aquela menina me punha muito medo. Com uma voz esganiçada, dizia que a minha sombra iria me pegar, quando não me ameaçava para comer suas cascas de feridas!
Depois houve aquela professora de que nem me lembro do nome, nem do semblante, nem da voz. Senti-me diminuída, pequena, era uma menina de sítio que estavam ensinando a ler, mas que não a sabiam ler. Quantas vezes devo perdoá-la? Não digo sete, mas setenta vezes sete, porque talvez ela não tinha tido nem sacis e lobisomens assombrando-lhe as noites e nem leituras de homens alfabetizados “à sombra das mangueiras” .Suas palavras eram as “do mundo maior” , lidas e escritas consoante o seu momento de ser na escola de então.
Mas eis que

"( ...)
Apareceu a Margarida
O quê, o quê, o quê?
Apareceu a Margarida,
O que se vai fazer?"

D.Diva era o seu nome. Ela era baixinha, gordinha, pele bem clara, voz já meio idosa. Usava uns sapatos bem altos de onde seus pezinhos teimavam em escapar. Levava-me para sua casa após a aula. Eu passava em frente de um cristaleira cheia de brilhos... Olhos de menina de sítio que possuíra sapatinhos de cristal. Na hora de ir embora ela me dava gelo para ir chupando... Boca de menina de sítio que crescera sem geladeira, mas com jabuticabas e amoras molhadas pelo orvalho. Não me lembro de cadernos, de riscos, nem de rabiscos; mas a sua figura, D.Diva, essa foi toda significado. Ela (re)conheceu-me como criança-aluna-menina de sítio eu a (re)conheci como a mulher- professora-educadora; eu disse-me a ela, ela disse-se a mim.
E assim tudo me foi significando, signifiquei-me e significou-se tudo à minha roda... roda...roda ...Com entrei 7 anos na escola, o João mata 7 foi história, 70 foram as brincadeiras, 70 x 7 foram os contos de João meu pai ..

Fui menina de interior,
Moça da cidade,
Hoje,
Sou mulher com identidade.
Mãe,
Professora de Português,
Orientadora pedagógica,
Eleitora com documento e secção,
mas que com idade acima de 7 x 7 anos, ainda repete o refrão:

Por que brinco?
Brinco porque sim.
Brinco porque sei
Que você gosta de mim.

Vem, entra na roda, porque, juntos sentimos, percebemos, dizemos, escrevemos e lemos a palavra criança que eu sou, que você é, que nós somos. Necessária é palavrasercriança no mundoimaginaçãorealidade. Vai imaginação, corre em busca da realidade que rodeia à procura da imaginação e aprisionadas em chispas de fogo, cada uma ataviada qual noiva para o noivo, e com tanta boniteza que tudo em mim se conserva, se reproduz, se combina, se reelabora, e acaba por criar e realizar este texto. Fiz-me narrativa, para não com estranheza, mas com o mundo dos pensamentos, dos conceitos e sentimentos do homem colaborar para a reflexão do desvelamento e deslumbramento da nossa existência.

“Puxe uma cadeira seu moço,
Sente aqui um bocadinho,
Eu vou contá o que significa
Aquela cruz, lá na beira do caminho (...)”

Referências Bibliográficas:

FREIRE, Paulo. A importância do ato de ler. In A importância do ato de ler – três ensaios. São Paulo: Cortez Editora, 1981, pp 11 a 24.

VYGOTSKY, Lev S. Imaginación y el arte em la infancia. México: Hispânicas, 1987.

 
Voltar