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  FORMAÇÃO DE PROFESSORES: A PESQUISA COMO PRINCÍPIO EDUCATIVO

Marli Pinto Ancassuerd - CUFSA

Esta comunicação tem sua origem na Proposta de Estágios Integrados, de natureza interdisciplinar, desenvolvido nos anos de 2003 e 2004, por cerca de 200 alunos e um grupo de professores dos terceiros anos do Curso de Pedagogia, responsáveis pelas Metodologias de Ensino e Didática. O pressuposto básico do projeto é o da formação de um profissional – o pedagogo, que antes de tudo é professor séries iniciais do ensino fundamental – comprometido com a escola pública, com a sua democratização e a busca pela melhoria da sua qualidade.

Os estágios são vistos como espaços de pesquisa e produção de conhecimento sobre a cidade, a escola e os sujeitos que nela atuam. Cada um dos professores responsáveis, à luz das perspectivas com as quais trabalha e das especificidades da sua disciplina, cria possibilidades de análise das realidades observadas. Portanto, a integração pretendida ocorre através do diálogo com a realidade e não por meio da articulação de itens de programas de curso.

É, assim, abandonada a idéia de estágio, mero cumprimento de uma exigência burocrático-legal e feita a opção por outras práticas e reflexões que revelam a articulação teoria-prática e uma concepção de trabalho docente cuja responsabilidade social ressalta os saberes, as subjetividades, as experiências, em outras palavras, as histórias pessoais e coletivas dos professores. Portanto, uma proposta que vai na contra-mão de uma agenda política que tende a definir os professores a partir de critérios de racionalidade técnica, de uma lógica que, segundo Nóvoa (1992), em nome da qualidade de ensino, da descentralização e da inovação, tem privilegiado estratégias de formação de professores com sérios desdobramentos sobre a autonomia das instituições escolares.

... Este tipo de professor esforça-se por ir ao encontro do aluno e entender os eu próprio processo de conhecimento, ajudando-o a articular o seu conhecimento-na-ação com o saber escolar. Esse tipo de ensino é uma forma que exige do professor uma capacidade de individualizar, isto é, de prestar atenção a um aluno, mesmo numa turma de trinta, tendo a noção do seu grau de compreensão e das suas dificuldades. (SCHÖN, 1992).

O trabalho buscou:

1. formar professores como profissionais reflexivos, capazes de reflexão - na – ação;
2.
3. privilegiar o conhecimento dos professores, sujeitos singulares, suas trajetórias, práticas e saberes. Assim, o privilegiamento do pensar para que se desfaça, cada vez mais, a prática que garante a consolidação do “dar a conhecer para que não se possa pensar”, nas palavras de Chauí;
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5. oferecer situações para que os alunos estagiários possam se capacitar para aquelas ações necessárias ao professor-pesquisador: observar, registrar, estabelecer metas, analisar, elaborar sínteses;
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7. conhecer os sujeitos, professores, seus saberes, para sobre eles refletir, aprender e propor alternativas de trabalho à luz do que fora vivido;
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9. conhecer as instituições escolares como espaços de produção e reprodução cultural, por meio da ação dos sujeitos.
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Para que as metas definidas pudessem se realizar, foi desenvolvido um conjunto de atividades integradoras, acadêmicas, de maneira a possibilitar a vinculação do estágio à pesquisa e produção - reprodução de conhecimento:

Atividade integradora 1: Leitura de textos destinados à preparação dos alunos estagiários

Nesta etapa pretendeu-se garantir aos alunos o acesso a um conjunto de textos que abordaram as questões relativas à história de vida como metodologia de pesquisa e a importância de se sensibilizar com a história do outro (BOSI, 1979).

Atividade integradora 2: Construção coletiva de roteiro de entrevistas semi-estruturada e definição de critérios para a escolha dos professores a serem entrevistados

A elaboração do roteiro de entrevista semi-estruturado se deu em discussões coletivas, envolvendo alunos e os professores das disciplinas, buscando captar tempos, espaços, família e trabalho, práticas e saberes que percorrem a vida dos profissionais da educação. Esta atividade integradora permitiu que os alunos estagiários captassem de forma concreta, as questões que, teoricamente, tinham sido abordadas na primeira fase deste trabalho. Decorrente disso, foi possível definir os critérios de escolha dos professores a serem entrevistados: no mínimo 15 anos de experiência docente, nas séries iniciais do ensino fundamental, e ser “bom professor” segundo olhar de seus alunos e/ou comunidade escolar.

Atividade integradora 3: Preparação para saída a campo

Os alunos estagiários receberam orientações relativas à aproximação ao sujeito a ser entrevistado, o que e como coletar os dados que permitissem análise e reflexão posteriores. Nesse sentido passaram por oficinas de entrevistas, por sessões de orientação sobre como realizar observação em sala de aula, elaborar diários de campos e coletar documentos.

Atividade integradora 4: Elaboração de relatório parcial

A experiência tem nos ensinado que para aqueles que se iniciam no processo de pesquisa e de produção de conhecimento, a existência de momentos para a discussão, passo a passo, com os colegas e os professores, permite ao aluno estagiário ir ganhando autonomia. Além disso, permite também que um grande coletivo, neste caso, 200 alunos, possa fazê-lo ao mesmo tempo, ao longo de um ano letivo. Este é desafio que se apresentou aos professores horistas, com classes numerosas, em torno de 70 alunos trabalhadores.

O relatório parcial cumpriu o papel de fazer com que os alunos estagiários se aproximassem da difícil tarefa de organizar dados e encontrar categorias de análise que permitissem articulá-los num todo coerente,

... um esforço de abstração ultrapassando os dados, tentando estabelecer conexões e relações que possibilitem a proposição de novas explicações e interpretações. É preciso dar o ‘salto’ como se diz vulgarmente, acrescentar algo ao já conhecido. Esse acréscimo pode significar desde um conjunto de proposições bem concatenadas e relacionadas que configurem uma nova perspectiva teórica até o simples levantamento de novas questões e questionamentos que precisarão ser mais sistematicamente explorados em estudos futuros. (LUDKE e ANDRÉ, 1986)

Atividade integradora 5: Levantamento de fontes secundárias e o exercício de se debruçar teorias produzidas a partir de um foco

Depois de análise dos relatórios parciais, com a participação dos alunos nesse processo, o desafio foi de mergulhar na busca de teorias e pesquisas e pesquisas relativas às temáticas apontadas através da pesquisa de campo. Nesta etapa do trabalho, os alunos puderam adquirir uma habilidade fundamental ao professor-pesquisador e reflexivo: elaborar sínteses e resenhas críticas, a partir da busca e sistematização de conhecimentos.

Atividade integradora 6: Elaboração de artigo cientifico

Tendo vivido todo este processo, o aluno estagiário encerra o trabalho, por meio da produção de um texto seu, incorporando à sua reflexão os elementos da história de vida de um professor, os referenciais teóricos percorridos e o seu próprio posicionamento. Por isso, um artigo é o ponto de chegada.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Uma determinada concepção de estágio, envolvendo as relações teoria e prática, ensino, pesquisa e produção de conhecimento, impactou o currículo do curso de Pedagogia na FAFIL. O currículo em ação é composto por um rol de disciplinas, cujos conteúdos e práticas são perpassados pelas experiências que trazem professores e alunos para o interior do curso, bem como pelas questões postas pela realidade concreta, como algo dinâmico e complexo.

O estágio só cumpriu e cumpre esse papel pela capacidade dos professores do curso de Pedagogia absorverem e produzirem um novo momento, com novos referenciais e práticas.

Há inúmeros elementos que foram se modificando no decorrer do tempo, muito em função dos trabalhos coletivos que determinaram mudanças desde o planejamento inicial do trabalho de cada uma das disciplinas, até a definição de instrumentos e práticas de avaliação dos alunos, inclusive a redefinição de espaços e tempos.

Também os alunos, futuros docentes, no projeto sobre histórias de vida foram desafiados em todas as etapas a realizarem trabalho autônomo, tendo aumentado o seu interesse pela pesquisa e a aquisição de habilidades necessárias para a sua realização (coleta, registro e organização de dados, elaboração de relatórios, produção de monografia). Eles passaram a manifestar um forte desejo pela continuidade dos estudos, pois se depararam com o pensamento complexo, não mais restrito a disciplinas específicas e fragmentadas.

Ainda, os estagiários viram-se desafiados a trabalhar com diferentes perspectivas de conhecimento e diferentes metodologias de pesquisa. Tiveram, juntamente com os professores, de enfrentar um processo de produção de trabalho coletivo, com todas a dificuldades que ele carrega. Cabe ressaltar que o fruto deste projeto específico foi a percepção dos alunos sobre a existência de práticas de professores na rede pública de ensino que são merecedoras de conhecimento e respeito.

As avaliações do trabalho realizado permitem concluir que estamos formando um professor-pesquisador, capaz de olhar para a sala de aula, a escola e seu entorno, a cidade, como espaços onde atores se encontram e produzem/reproduzem práticas sobre as quais o docente tem que agir. Trata-se, enfim, de formar o profissional reflexivo e propositivo, capaz de ver nesses espaços, os sujeitos e suas relações agindo para que novas alternativas possam ser produzidas.

Referências

ANCASSUERD, Marli P. Curso de formação de professores, alunos trabalhadores e projeto institucional: o caso do Departamento de Educação da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Santo André (1966-1990). 2001. Dissertação (Mestrado em Educação)- Programa de Pós-Graduação em Educação: História, Política, Sociedade, Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, 2001.

BOSI, Ecléa. Memória e Sociedade: lembrança de velhos. São Paulo: T.A. Editor, 1979.

CHAUÍ, Marilena de Sousa. O que é ser educador hoje? Da arte à ciência: a morte do educador. IN: BRANDÃO, Carlos R. (organizador). O educador: vida e morte. Rio de Janeiro: Edições Graal. 1989.

DEMO, Pedro. Pesquisa – Princípio científico e educativo. São Paulo: Cortez. 1991.

MENGA, Ludke; ANDRÉ, Marli. Pesquisa em Educação: abordagens qualitativas.

São Paulo: E.P.U. 1986.

NAKANO, Marilena. História do Departamento de Educação da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Santo André. Mimeo

NÓVOA, António (Org.). Vidas de Professores. Porto: Porto Editora. 1992.

SCHON, D. A. Educando O profissional reflexivo o novo design para o ensino e a aprendizagem. Porto Alegre: Artes Médicas Sul, 2000.

ZEICHNER A Formação Reflexiva de Professores: Idéias e Práticas. Lisboa: Educa. 1993.

 
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