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  O MENINO QUADRADINHO: O MUNDO CRIATIVO DOS QUADRINHOS DE ZIRALDO

Isabele Reginato de Araújo - Universidade Federal Fluminense – UFF

O uso de gravuras para fins comunicativos foi muito utilizado pelas civilizações primitivas e desenvolveu-se durante os séculos, podendo estar ligado ou não à linguagem verbal. Por isso existe a crença de que as histórias em quadrinhos tiveram seu início nessas pinturas primitivas. Porém, os primeiros sinais desse gênero só apareceram significativamente na Europa do século XIX, através das histórias de Busch e de Topffer, reunindo gravura e texto num mesmo propósito. Com a criação de Menino amarelo, com desenhos de Richard Outcault e publicação semanal no jornal New York World com o título original Yellow kid, surgiu o primeiro herói dos quadrinhos. Essa história foi um marco estético, uma grande inovação, porque os textos vinham junto aos personagens, e não mais no rodapé da ilustração como era feito antes. Isso permitiu que os personagens ganhassem mais vida, mais ação, até o aparecimento do balão, que é a principal marca da linguagem verbal nos quadrinhos.
É fato que as histórias em quadrinhos encantam crianças de todo o mundo independente da denominação que recebem. No Brasil, o que conhecemos hoje por histórias em quadrinhos foi chamado por um bom tempo de historietas em quadrinhos ou apenas historietas.
Por volta de 1960 o termo Gibi, referente ao título da revista lançada por Roberto Marinho em 1939, ganhou destaque, abrangendo todo o gênero. Há, ainda, o uso freqüente do termo revistinhas, que denota através do diminutivo, o tom carinhoso que receberam as revistas em quadrinhos quando nos anos 50 tiveram seu formato reduzido . Ao lado disso, considera-se também o fato de que essas revistinhas tinham como principal público-alvo crianças e adolescentes, o que reforça a intensidade do morfema –inh.
Ao abordar o surgimento das HQs no Brasil, torna-se imprescindível mencionar aquele que foi o pioneiro desse gênero no Brasil: Adolfo Aizen. Ele, então repórter de O Globo, foi o responsável pela importação das novidades que os EUA lançavam. Embalado pela “idéia de que os Estados Unidos eram a terra da liberdade de pensamento, das grandes oportunidades individuais, do desenvolvimento econômico e do progresso tecnológico” (JUNIOR, 2004, p. 21), Aizen descobre os mirabolantes heróis americanos.
Os jornais lançavam suplementos literários na busca de ampliar o público-leitor. Mas, nenhum caderno fazia mais sucesso que o infanto-juvenil, no qual destacavam-se, além de curiosidades e passatempos, as histórias em quadrinhos. Aizen, impressionado com a obsessão americana pelos comics, que atingia o público de todas as idades, opôs-se diretamente à meta do O Tico-Tico, dirigido especificamente às crianças.
Em se tratando do gênero histórias em quadrinhos no Brasil, poucos autores foram tão felizes quanto Ziraldo Alves Pinto. Suas publicações ganharam destaque devido à excelência na qualidade da arte, do texto e da história, que emocionam, até hoje, crianças, jovens e adultos.
Dentre suas obras de grande destaque está O Menino Quadradinho, lançado em 1989. É, pois, nesta publicação que se confirma a forma engenhosa com a qual o autor trabalha os quadrinhos. Sendo assim, justifica-se a escolha deste material para análise pelo seu inigualável aproveitamento do gênero textual para a condução da narrativa.
As relações entre HQ e narrativas centradas na palavra enriquecem a vida do personagem que vivia em quadrinhos até que seu mundo perde o encanto das imagens para ganhar o mistério das palavras. O Menino Quadradinho é resultado de um trabalho artístico inovador, visto que faz uso de técnicas inauguradoras na evolução das HQs.
As histórias em quadrinhos, assim como outras narrativas, estruturam-se com enredo, clímax, tempo, espaço, ação, personagens principais e secundários; porém, a progressão temporal da narrativa é feita quadro a quadro, a serem seqüenciados pelo leitor. Ziraldo consegue, com êxito, em O Menino Quadradinho, aproveitar elementos criativos que são próprios do gênero, tais como o balão e a onomatopéia (visualização espacial do som), buscando reproduzir a fala, com o uso das interjeições, das reduções vocabulares etc. O ritmo, a linguagem e o desenho passam de uma realidade lingüística (língua-abstrata) para uma realidade física (papel – concreto).
Logo na primeira página do livro, o leitor é surpreendido pela seqüência de imagens enquadradas e que, aparentemente, não apresentam uma lógica organizacional. O ponto de convergência entre essas imagens é a representação temática da infância, que ocorre pelo uso de ícones (símbolos) representativos do estereótipo infantil masculino: são objetos tipicamente usados por meninos em momentos de lazer.
Esse fenômeno de observar as partes, mas perceber o todo é conhecido como conclusão e só ganha sentido através da mente humana que transforma a imagem fragmentada num todo contextualizado. Com as HQs, o leitor torna-se mais do que um espectador, assume o papel de colaborador voluntário o qual atua como agente de mudança, movimento e tempo. Os quadros fragmentam o tempo e o espaço, e por meio da conclusão, o leitor confere ritmo tornando a realidade contínua e unificada.
A escassez da palavra escrita ainda na página de abertura amplia a curiosidade do leitor, que se coloca na posição de narrador. O balão do primeiro quadro (p.3) que contém a expressão “Era uma vez...” é o único indicativo do mundo de aventura que se inicia. Tal enunciação, no entanto, não é desconhecida nem mesmo do público menos experiente, já que ganhou destaque ao introduzir contos de fadas e outros clássicos. Eis que uma interrogação paira no ar: seria essa uma história com reis e bruxas, do tipo que ocorre em castelos, há milhares de anos? Instala-se, assim, o que pode ser caracterizado como uma ‘pseudo’ contradição entre linguagem verbal – “Era uma vez...” – e linguagem não-verbal – seqüência de imagens; isso ocorre graças à conjugação de elementos provenientes de narrativas produzidas em épocas diametralmente distantes.
Ao virar a folha, ao visualizar-se a imagem que deve ser observada em uma visão global do conjunto de todos os quadros que ocupam a página dupla (4 e 5), os olhos se perdem na imensidão icônica de um menino sentado com a natureza ao seu redor. O deslumbramento com a apresentação seqüencial dos quadros é inevitável, pois não há mais aquela configuração tradicional, ou seja, os quadrinhos se apresentam dispostos de tal forma que o leitor é levado, inicialmente, a olhar o todo e só depois a olhar as partes. As duas páginas abertas formam um quadro que compõe a imagem da natureza e do menino.
A técnica de surpreender o leitor à medida que o mesmo vira a página é recorrente nas obras de Ziraldo . Desta forma, o autor garante uma ampla participação do destinatário na composição da narrativa, aumentando a interação entre narrador-leitor.
Percebe-se ainda que nessas duas primeiras páginas – 3 e 4 – os textos verbais apresentados “Era uma vez...” e “...um menino” são falas atribuídas a pássaros, o que nos dá a falsa impressão de assemelhar-se a uma fábula, cuja caracterização baseia-se na presença de animais vivenciando situações humanas.
As páginas 6 e 7, que também podem ser observadas como um conjunto, prosseguem mantendo a imagem similar a um grande quadro, porém as cores ganham tons escuros à diferença das apresentadas anteriormente, garantindo obscuridade ao cenário.
Ao lado disso, surgem novos balões, em número de quatro, dos quais é possível depreender a função de apresentação/configuração da personagem principal: O Menino Quadradinho. Este, sendo o título da obra em questão, começa a ser justificado através do novo texto (p. 6 e 7) que destaca-se pela ausência evidente do emissor . Neste caso, a carência de um enunciador é significativa, uma vez que o leitor é levado a refletir sobre a presença de outras vozes no cenário, que também seriam agentes na construção da narrativa. Entretanto, o texto verbal apresentado no último balão (p. 7) é atribuído a um inseto – a joaninha.
Em contrapartida, as folhas seguintes (8 e 9) ganham realce pela exuberância que emana das cores vivas, cujas mistura, combinação e contraste produzem efeitos visuais atrativos aos olhos. Surge, então, uma inter-relação entre texto verbal e cores, pois, conforme é solicitado através das falas da personagem, as cores vão se alternando, transformando-se num elemento complementar na composição narrativa.
A organização dos quadros volta a corresponder ao modelo mais comumente encontrado nos trabalhos de Ziraldo : cerca de seis quadros por página, os quais seguem seqüência que, para ser compreendida, necessita da leitura feita da esquerda para a direita. Segundo o próprio autor, essa quantidade de quadros justifica-se pela melhor visualização e acompanhamento por parte do leitor; assim tornando-se mais fácil a leitura e a percepção do todo.
Nesse ponto da história, já se evidenciam com mais clareza algumas das técnicas, as quais compõem a estrutura de uma história em quadrinhos e que raramente podem ser utilizadas por outros gêneros textuais. Inclui-se o uso exagerado das cores; quadros com linguagem verbal inexistente; e, apresentação de um único personagem, o que denota maior intimidade entre este último e o leitor .
A organização gráfica e espacial dos quadrinhos também constitui-se como recurso expressivo que contribui para a problematização da expressão estética e que, associada a uma dinâmica estrutural, possibilita a criação de uma harmonia visual que engloba ritmo, movimento e temática. Não bastasse a instigante realização quadrinizada do texto inicial de O Menino Quadradinho, a obra reserva a seus leitores mais uma quebra de expectativa.
O Menino Quadradinho além de ser uma narrativa quadrinizada, caracteriza-se também como metanarrativa, na qual a linguagem verbal e a não-verbal são utilizadas para explicar o gênero textual histórias em quadrinhos e, ainda, a própria necessidade do ser humano de narrar-se, através das mais variadas linguagens. Na página 10, por exemplo, a personagem interage com o leitor como se pudesse compreender seus desejos, anseios e dúvidas. Assim, faz uso das onomatopéias sem moderação, explicando, inclusive, seus possíveis significados, demonstrando habilidade e pleno domínio da estrutura das HQs.
Há a valorização da intertextualidade nesta obra de Ziraldo, que apresenta vários super-heróis renomados e outros personagens próprios das HQs : Super-Homem, Batman, Turma do Pererê, Horácio, Tarzan, Capitão-América, Mickey, Homem-Aranha, Menino Maluquinho, etc. Portanto, incorpora num mesmo texto personagens de épocas, estilos e nacionalidades diferentes, comprovando assim a imensidão criativa inerente a esse gênero.
Observa-se, contudo, que o personagem principal – o menino quadradinho – é desenhado com perspectiva cartunizada, havendo maior identificação entre leitor e personagem. Há a possibilidade do fascínio por desenhos animados e histórias em quadrinhos ser proveniente desse reconhecimento como afirma Scott McLoud: “o desenho animado é um vácuo pro qual nossa identidade e consciência são atraídas...uma concha vazia que nós habitamos pra viajar a um outro reino.” (McLOUD: 2005, p. 36)
O personagem com traços característicos que estão para além do realismo tradicional torna possível a representação do mundo interno/intrínseco ao ser humano. Com essa técnica habitualmente reproduzida em cartuns, há uma garantia maior de envolvimento do público, independente da faixa etária a qual pertença. Com isso, em O Menino Quadradinho, observa-se a configuração do personagem com rosto icônico, altamente passível de ser subjetivado pelo leitor, resgatando a noção de universalidade cuja existência privilegia as diferenças próprias da humanidade.
Nas páginas 16 e 17, o menino quadradinho apresenta múltiplas faces, o que garante a manutenção da ausência de identidade que a personagem exalta desde o início da narrativa. Porém, é possível inferir que o mesmo ainda é uma criança, visto que há a recorrente representação de brincadeiras propriamente infantis como: tocar gaita, ler gibi, soltar pipa, pular carniça, descer de uma corda, correr, etc. Além do mais, a apresentação do texto revela que os heróis consagrados dos quadrinhos são seus amigos, tão próximos que estão quadro-a-quadro do menino protagonista.
Em ambas as páginas as ações projetadas pelo desenhista – neste caso o próprio autor – só ganham vida através do auxílio e do apoio do leitor, que se torna cúmplice à medida que isto não ocorre involuntariamente. Daí brota o enriquecimento da história, uma vez que cada leitor com sua imaginação e conhecimento de mundo irá atribuir novas significações a imagens aparentemente simples.
A inovação estética de O Menino Quadradinho pode ser percebida a todo momento, afinal a cada página o leitor se surpreende diante da aparente descontinuidade que permeia todo a obra. A quebra da seqüência previsível torna a história tão incerta quanto a identificação do personagem, não sendo possível nem mesmo ao leitor mais experiente descobrir o fim da história. Nessa perspectiva, o que era ou parecia uma típica história em quadrinhos vai perdendo seus principais elementos como a cor, os quadros, os balões e assim descaracteriza-se por completo (p.19).
Ratifica-se aqui que, com o ato de virar a página, que uma grande surpresa aguarda o leitor. Pois é, dessa forma, que o menino quadradinho começa sua caminhada rumo à vida adulta: do dia para a noite, as coisas parecem não ser mais como antes. As brincadeiras, sonhos e atitudes comuns ao universo infantil vão sendo substituídos pela nova realidade que surge. O susto apavora o menino diante do inesperado e o estado de vir-a-ser não o agrada.
As mudanças começam pelo tamanho das letras que vão diminuindo pouco a pouco, página por página, até o fim. Isso remete à concepção de educação administrada no ambiente escolar, onde nas séries iniciais, no período da alfabetização, os livros apresentam textos curtos com letras grandes junto das quais ainda há a predominância de imagens, que buscam auxiliar na compreensão do texto. Conforme os anos vão se passando, os textos tendem a ser maiores com letras menores e as figuras são praticamente inexistentes. Em suma, essa transformação ocorre com o menino e o estranhamento que exprime só vai ser aliviado com a presença de novos personagens: as palavras.
A todo momento, as palavras, que vão se apresentando no lugar das imagens, advertem o protagonista de que a aprendizagem é um processo lento, gradual e só a paciência e o tempo serão capazes de reorganizar aquilo que parecia tão estável e confortável, que não merecia ser modificado. Na tentativa de confortá-lo, as palavras alternam-se para tornar mais dinâmica a interação, e também trazem aspectos pertinentes ao mundo das HQs a fim de tornar mais clara a idéia de continuidade que dá sentido à vida. Percebe-se, claramente, a intenção de partir da realidade do personagem para explicar o desconhecido, tornando mais rápida a aceitação.
A obra em análise enfatiza as diferenças entre palavras e imagens. Estas para serem compreendidas sobretudo se correspondem à representações figurativas não necessitam da educação formal enquanto que aquelas exigem um esforço maior, que resulta da necessidade de decodificar os símbolos abstratos da linguagem. É possível afirmar que com a retirada dos quadrinhos há a perda da visualidade explícita, porém esta é substituída pelo caráter semântico implícito inerente à linguagem puramente verbal. Essa transição do projeto gráfico para o verbal não implica em menores possibilidades expressivas, pois a contribuição antes emitida por meio das cores e imagens é recolocada, agora, através do imaginário acionado por via da palavra e já internalizado pelo leitor.
A primeira parte (até a página 19) é a reprodução de uma narrativa quadrinizada, na qual percebe-se a multiplicação de sentidos que o leitor pode produzir ao ler a obra, havendo destaque para a ampla exploração da diversidade de possibilidades técnicas que o gênero proporciona. A segunda parte (da página 19 até 30) apresenta texto verbal e põe em destaque a linguagem e suas possibilidades expressivas, indo em oposição ao senso comum de que as imagens dizem mais ao jovem leitor, pois a obra atribui à narrativa verbal sem ilustrações o poder de criar mundos imaginativos, o que é característica própria da noção de literatura no sentido estrito do termo.
Ao final desta narrativa é que tudo passa a fazer sentido. O texto em si nada mais é do que uma metáfora do crescimento, isto é, trata-se da relação de uma criança com as dificuldades que encontra em sua trajetória de vida e faz uso das possíveis leituras de quadrinhos e de textos literários sem imagem, apontando passagens de fases de uma formação contínua de um leitor, que pode ser entendida como uma metáfora de um percurso de leituras de textos e de mundo.
Isto faz com que o público-alvo deste livro seja ampliado, pois ainda que seja aparentemente voltado para crianças, O Menino Quadradinho apresenta reflexões pertinentes à evolução e desenvolvimento do ser humano, despertando interesse até dos que já passaram dessa fase. As últimas linhas do texto, que refletem o interesse do autor em dialogar com o leitor, comprovam a diversidade de faixas etárias as quais se destina esse livro:
“Agora, leitor, que você também chegou até aqui, estou certo de que vai me dizer: “Momento, isto não é um livro para crianças”. E eu responderei: “Não. Não é. Este é um livro como a vida. Só é para crianças no começo”.” (PINTO, 1989, p. 30)

Algumas características tipicamente pós-modernas podem ser identificadas em O Menino Quadradinho de Ziraldo: a utilização deliberada da intertextualidade, a busca no passado de elementos que ajudem a compor a obra contemporânea, personagens sem identificação, alusão a outras obras do mesmo gênero, entre outras.

BIBLIOGRAFIA:

CIRNE, Moacy. A linguagem dos quadrinhos – o universo estrutural de Ziraldo e Maurício de Sousa. 2. ed. Petrópolis: Vozes, 1971.

____________. BUM! A explosão criativa dos quadrinhos. 3. ed. Petrópolis: Vozes, 1972.

JUNIOR, Gonçalo. A guerra dos gibis: a formação do mercado editorial brasileiro e a censura dos quadrinhos, 1933-64. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.

MCLOUD, Scott. Desvendando os quadrinhos. M. Books do Brasil, 2005.

MENDONÇA, Márcia Rodrigues de Souza. Um gênero quadro a quadro: a história em quadrinhos. In: DIONISIO, Ângela Paiva et alli. Gêneros textuais & ensino. Rio de Janeiro: Lucerna, 2002.

PIMENTEL, Sidney Valadares. Feitiço contra o feiticeiro – histórias em quadrinhos e manifestação ideológica. Goiânia: Cegraf, 1989.

PINTO, Ziraldo Alves. O Menino Quadradinho. 17ª ed. São Paulo: Melhoramentos, 1989.

_________________. Todo Pererê. Volume 2. São Paulo: Moderna, 2003.

 
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