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  A INSERÇÃO DO ALUNO NO CAMPO DA LEITURA E DA PRODUÇÃO TEXTUAL ATRAVÉS DA POESIA

Luiza Victor de Araújo - Universidade Federal de Pernambuco

Apresentação

O presente trabalho foi elaborado durante a conclusão do curso de Licenciatura em Letras da Universidade Federal de Pernambuco, na disciplina Prática de Ensino de Português, ministrada pela professora Lívia Suassuna. Primeiramente, levantaram-se dados teóricos sobre o que seria poesia e sobre como esse tema deveria ser utilizado em sala de aula. Posteriormente, baseando-nos nos estudos teóricos previamente realizados, apontamos sugestões metodológicas para o trabalho com poemas na escola. Elaborou-se assim um projeto didático que foi executado em 2004, no período de outubro a dezembro, com os alunos da 5a Série B da Escola Estadual Senador Novaes Filho, no bairro Várzea – Recife.
O trabalho será dividido da seguinte forma: primeiro será feita uma breve exposição sobre o porquê desse estudo e sobre a constatação de certos problemas na utilização de poemas em sala de aula que devem ser solucionados. Em seguida, serão propostas sugestões metodológicas para o uso do texto poético na escola, bem como será relatado como se procedeu à execução do projeto didático de língua portuguesa baseado na aplicação de poemas em sala de aula. Por fim, haverá na conclusão uma reafirmação dos pontos positivos do trabalho com poemas nas aulas de Língua Portuguesa.
Esse trabalho visa a mostrar que a literatura infanto-juvenil, especificamente o poema, pode ser um gênero de referência para as produções textuais dos alunos na escola, desenvolvendo neles um sentimento de confiança em suas capacidades cognitivo-afetivas e promovendo a sua inserção social através de uma leitura crítica da realidade. É a partir do hábito de ler, do surgimento do prazer no momento da leitura que se pode formar alunos-leitores e, conseqüentemente, produtores dos mais diversos textos.

O significado do texto poético e sua situação na escola

A escola é freqüentemente o ambiente em que se entra em contato pela primeira vez com a literatura infanto-juvenil, especificamente a poesia. Percebe-se que, dependendo de como foi construído o ambiente de leitura, o aluno se aproxima ou se distancia dos livros de poesias. Em virtude disso, se torna necessário que o trabalho com poemas nas aulas de Língua Portuguesa seja realizado de forma tal, que a criança ou o adolescente desperte para o hábito de leitura e se transforme em um leitor capaz de perceber os signos (palavras, sons, etc.) e expressões sociais criados pelo poeta para designar os objetos da realidade. Assim, o estudante poderá produzir sua própria escrita, expor seus dizeres e manifestar seu pensamento crítico.
Na instituição escolar, comumente, não se proporciona ao aluno a liberdade de escolha de leitura, distanciando-o desse mundo mágico, crítico e reflexivo proporcionado pelos textos literários. O discente é “obrigado” a ler algo que lhe foi imposto pelo professor (muitas vezes fragmentos do texto poético) apenas como pretexto para identificar certos aspectos gramaticais da linguagem, não se trabalhando, dessa forma, o texto em si e o processo de construção do mesmo. O poema surge na aula de português apenas como subsídio para a realização de exercícios que levam o aluno a identificar certos recursos lingüísticos que serão trabalhados na aula de gramática – substantivo, adjetivo, dígrafos entre outros. Dessa forma, os estudantes se detêm na leitura superficial do texto poético e não realizam o mais importante do processo de leitura – a atribuição de significado ao texto que é lido, bem como relação com outros textos, pretendo reconhecer os objetivos do escritor. Os alunos não levam a prática de leitura para fora da sala de aula, pois não se aborda a leitura como prazer, fruição. Geraldi reforça a importância da leitura como fonte de fruição ao afirmar:

No sistema capitalista, de uma atividade importa o seu produto. A fruição, o prazer, estão excluídos (para que alguns possam usufruir à larga). A escola, reproduzindo o sistema e preparando para ele, exclui qualquer atividade “não-rendosa”: lê-se um romance para preencher uma “famigerada” ficha de leitura, para fazer uma prova ou até mesmo para se ver livre da recuperação (você foi mal na prova Castigo: ler o romance Z, até o dia D. Depois? Férias...) (2003a:97)

Os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN) já apontam a importância de se formar alunos leitores e a necessidade de se despertar no discente o gosto pela leitura, através da criação de bibliotecas na escola e de surgimento de momentos de leitura livre, nas aulas de língua portuguesa, para que, assim, o aluno, em condições favoráveis, tenha contato com uma diversidade de leituras e possa, em seguida, levá-las para o ambiente familiar e para a comunidade em que vive.
Segundo propõem os PCN, no decorrer das oito séries do ensino fundamental, o aluno deve entender que a leitura pode ser uma fonte de informação, de prazer e de conhecimento e deve se tornar capaz de expressar seus sentimentos, experiências, idéias e opções individuais, bem como de ouvir, interpretar e refletir sobre as idéias de outros.
De acordo essa proposta de trabalho, essas habilidades apontadas devem ser desenvolvidas no aluno durante todo o período escolar, e podem ser realizadas através da utilização do texto poético.
A literatura infantil, em especial a poesia, não possui lugar de prestígio no ambiente escolar. A instituição escolar não estimula a capacidade criativa e crítica das crianças e dos jovens. Há uma valorização do conhecimento objetivo, em detrimento do conhecimento subjetivo, simbólico e emotivo, próprios do homem. Em relação a esse desprestígio do texto poético, Pinheiro (2002) diz que entre todos os gêneros poéticos, é a poesia o mais desprestigiado na prática pedagógica, já que, mesmo depois da massificação da literatura infantil e juvenil, não houve nem produção, nem trabalho efetivo com a poesia.
Observa-se que, na maioria das aulas de língua portuguesa, a poesia, quando é utilizada, serve apenas para reforçar o estudo dos elementos estruturais (verso, rima, estrofe) e dos recursos lingüísticos (como retirar do texto substantivos, adjetivos, dígrafos etc.), em detrimento dos outros aspectos da linguagem poética que são essenciais para a explanação das idéias, da visão de mundo e das intenções do poeta – a atividade criativa com a língua, a construção de novas formas de ver o mundo, a descoberta dos recursos estilísticos inerentes a poesia, essenciais para que o estudante se torne capaz de reconhecer, interpretar e criar, a musicalidade, o subjetivismo, o plano simbólico criado a partir do mundo real e os recursos das figuras de linguagem. Esquece-se, dessa forma, de abordar a importância dos recursos estruturais e lingüísticos para a atribuição dos sentidos, construção dos jogos com as palavras, do ritmo, do subjetivo e do imaginário, presentes no texto poético.

O que são Poesia e Poema?

É através do texto poético que o poeta exprime os pensamentos, sentimentos e desejos mais íntimos, próprios do homem. Segundo Paixão (1983:30), “o gênero textual poema é aquele pelo qual escutamos os dizeres ecoados de regiões profundas do ser humano, presenciamos sentimentos desconhecidos e gestos inesperados”. Cunha (1997:121) afirma que “a poesia é fruto da sensibilidade e visa a sensibilidade do leitor,a emoção, a pura beleza”.
Oriundo do grego “poíema”(‘o que se faz’), o termo poema designa uma composição na qual o fenômeno poético se realiza. Segundo Ferreira (1975), o poema é “a obra em verso; é a composição poética de certa extensão, com enredo”. Já a poesia, segundo o mesmo autor, “advem do grego ‘poiesis’ (‘ação de fazer algo’) e do latim poese + - ia e significa a ‘arte de escrever em verso’; composição poética de pequena extensão; entusiasmo criador; inspiração; aquilo que desperta o sentimento do belo”. A partir dessas definições, observa-se que ambos os termos originam-se da mesma raiz “poieín” (fazer) e estão associados – o poeta exprime uma categoria abstrata – a poesia – por meio de uma expressão, de uma categoria formal – o poema.
Cria-se, por meio da poesia, uma realidade paralela diferente da histórica e social. Cada leitor fará uma leitura diferente e única do poema, dependendo de sua história de vida, de seus interesses, apreensões e visão de mundo. Na voz do poeta estão presentes as vozes de outras pessoas, de momentos históricos e sociais diversos. Esse universo construído a partir do texto poético leva o leitor a aprofundar suas competências a partir de novas leituras do mundo e faz com que o mesmo conheça certos aspectos da realidade até então desconhecidos, bem como novos sistemas de referência, tornando-se assim sujeito crítico, capaz de agir e modificar a realidade. Segundo Eliot apud Mermelstein (2004), a função da poesia é “comunicar uma nova experiência, nova compreensão do que é familiar ou expressão de algo que experimentamos e para o que não temos palavras”.
Como toda obra de arte, o poema tem uma unidade, uma linguagem e artifícios que lhe são próprios. Na criação do mesmo, o poeta seleciona e combina palavras e sons, produzindo efeitos sonoros (ritmo melódico e combinações de sons, rima, aliteração e eco, entre outros) e de expressividade e uma plurissignificação. Segundo Goldstein (2000: 6), “o poema, como tecido de palavra, pode sugerir múltiplos sentidos, dependendo de como se perceba o entrelaçamento dos fios que o organizam”.
Em relação ao processo de leitura de textos poéticos, desde que o homem surge e entra em contato com a realidade, inicia a realização de uma leitura da vida, por meio de sentidos. A leitura adquire um conceito bem amplo – o de conhecimento, interpretação e decifração do código, enigma que é o mundo. Nesse sentido, a leitura do mundo antecede a leitura da palavra e o objetivo primordial desta implica a compreensão melhor do mundo. No caso da palavra poética encontrar-se-á, ainda, uma leitura emocional e subjetiva (Martins, 1982).
O poema realiza o milagre de aproximar o inaproximável, de nomear o inomeável, de reunir diversos elementos nas mais variadas formas, para dar voz a idéias intrínsecas ao ser humano, universais, que nem sempre são expressas através da escrita.

Sugestões metodológicas para o trabalho com a poesia

Serão explanadas a seguir sugestões de como se trabalhar com a poesia em sala de aula, construídas a partir de um contato teórico e prático com textos poéticos.
Primeiramente, no início das atividades com poesia, torna-se essencial que o professor seja um leitor assíduo de poemas e sinta prazer no momento de leitura desse gênero, para que assim possa despertar nos alunos o prazer do ato de ler. Cabe aos professores de língua portuguesa conhecer o real valor do texto literário, selecionar bons textos, antes de introduzir o texto poético em sala de aula.
Segundo Yunes & Pondé (1988: 54):

“São diversas as variáveis que se alinham quando se trata da questão de despertar o gosto pela leitura. Não há como fazê-lo sem recursos e estratégias para distribuição do livro, sem professores e bibliotecários que tenham descoberto o prazer de ler. Em outras palavras, do ponto de vista pedagógico, há que se ter em mente a política da leitura, mas, sobretudo o gosto de ler que é possível despertar”.

É fundamental que o educador conheça o perfil do grupo-classe, para que, assim, seja possível elaborar procedimentos adequados aos seus interesses e escolher poemas que sejam condizentes com a realidade dos alunos que participarão da prática pedagógica.
Outro elemento fundamental para um bom andamento das atividades é que os discentes conheçam antecipadamente quais procedimentos serão realizados com o texto poético, bem como as finalidades dessa atividade, para serem atuantes nesse processo e não meros receptores de informações.
Em seguida os alunos devem ser incentivados a fazer a leitura de poemas, para assim criarem uma rotina de leitura. O estudante então será despertado para a polissemia, o jogo de palavras, o sentido figurado, a subjetividade, as diversas visões de mundo presentes num texto poético. O contato com o texto poético será importante para que os discentes desenvolvam valores e atitudes próprios e compartilhem conhecimentos e experiências, habilidades essas já destacadas nos Parâmetros Curriculares Nacionais, documento em que se apontam, por exemplo, as seguintes habilidades:

“... o interesse por ouvir e manifestar sentimentos, experiências, idéias e opiniões; a valorização da leitura como fonte de fruição estética e entretenimento; o interesse por ler e ouvir a leitura especialmente de textos literários e informativos e por compartilhar opiniões, idéias e preferências (ainda que com ajuda); o interesse em tomar emprestado livros de acervo da classe e da biblioteca escolar” (1997:41)

Depois de introduzidos no universo da poesia, os discentes devem seguir na segunda etapa do processo – o momento de criação. Nessa fase, os alunos ingressam no mundo simbólico, sensível e reflexivo proporcionado pela poesia e obtêm embasamento para produzirem suas argumentações, seus próprios textos a partir de suas convicções.
Yunes e Pondé (1988:37) reforçam essa importância do texto literário para a construção da criticidade:

“O texto literário, por sua natureza particular, veicula a crítica e a contradição de uma linguagem não-linear, isto é, distinta da linguagem comum. Desse modo, ele assume um papel político muito mais amplo,pois deixa de ser apenas sinal de erudição,para contribuir para a formação do pensamento crítico e atuar como instrumento de reflexão , uma vez que pode questionar, através de sua linguagem, a hegemonia do discurso oficial e o consenso estabelecido pela ideologia dominante”.

O professor não deve utilizar a poesia como pretexto para estudar gramática e ortografia, ou insistir apenas nos seus aspectos formais (conceituar estrofe, rima e verso). O educador também deve evitar priorizar um único gênero e os mesmos autores e obras. Por último, o docente não deve realizar atividades que não conduzem à análise dos aspectos literários dos textos. Todas essas atitudes acima negadas são exemplos de má escolarização da literatura. Magda Soares (1999:21) afirma ser inevitável a escolarização da literatura, uma vez que é da essência da escola pedagogizar, didatizar os seus saberes, mas é necessário escolarizar a literatura sem distorcê-la ou desvirtuá-la de seu fim estético, artístico.
Ainda quanto ao modo de se trabalhar a poesia em sala de aula, esta deve ser introduzida através de bons recursos – música sugestiva, boa ilustração, “slides”, poemas gravados por um grande intérprete ou leitura expressiva, e, em seguida, deve-se realizar atividades prazerosas, lúdicas, como debates, jograis, composição de músicas, leitura crítica, comparação de poemas com outras leituras, trabalho em grupo, entre outros, mas nunca com o único objetivo de dar nota ao aluno, como resultado de leitura. Segundo Cagneti e Zotz (1986), “o importante não é o resultado, mas sim o processo”. Cunha (1997) afirma que seria importante partir do poema para outras formas de expressão, como por exemplo: desenhos, montagens, coro falado, tentativa de criação de novos poemas, para assim, desenvolver a criatividade do aluno.
Com a utilização da poesia na escola não se pretende formar poetas, mas sim desenvolver no estudante-leitor o hábito da leitura de textos literários, bem como a habilidade de perceber a essência da linguagem presente nesses textos. O aluno não necessita, a princípio, como fator primordial, entender o poema, pois este deve ser sentido e não traduzido. Segundo Andrade (1974), o papel da poesia no ensino de língua portuguesa não é tornar o aluno um exímio poeta, mas sim desenvolver no mesmo habilidades para sentir a poesia, apreciar o texto literário, sensibilizar-se para a comunicação através do poético e usufruir da poesia como uma forma de comunicação com o mundo.

Relato de experiência: trabalho com poemas

No período de vivência da disciplina Prática de Ensino de Português I, ministrada no curso de Letras da Universidade Federal de Pernambuco pela professora Lívia Suassuna, criou-se um projeto de pesquisa na área de língua portuguesa, especificamente sobre o estudo da poesia – Formando produtores de texto através da literatura infanto-juvenil. Pesquisou-se sobre o que seria poesia e sua função social, bem como sobre qual era a melhor forma de aplicá-la em sala de aula para que assim se pudesse desenvolver no aluno o prazer da leitura e a habilidade de produzir textos. No semestre seguinte, durante a disciplina Prática de Ensino de Português 2, ministrada no mesmo curso e pela mesma professora, surgiu o desejo de dar continuidade às pesquisas e desenvolver um trabalho com poesia na sala de aula .
A turma escolhida para a realização do projeto na área de língua portuguesa foi a 5a série B, turno manhã da Escola Estadual Senador Novaes Filho, situada no bairro da Várzea, na cidade do Recife. Antes do início da elaboração do projeto didático tornou-se necessário um contato prévio com o grupo-classe e o tracejar de seu perfil. Era essencial esse contato anterior com a turma para que o projeto se adequasse àquele grupo específico, às suas necessidades, à realidade em que vivia.
No decorrer das aulas observadas percebeu-se que os alunos da 5a série B possuíam uma faixa etária de 11 a 17 anos e, em sua maioria, residiam nas proximidades da escola, na favela Vila Arraes. Em virtude de um baixo nível sócio-econômico, esses estudantes eram obrigados a conciliar o estudo e o trabalho para que então pudessem ajudar na renda da família. Observou-se também, através da caderneta escolar, um baixo índice de freqüência e um grande número de transferências e desistências.
Havia um total de 43 alunos matriculados nessa turma. Desses alunos, acreditava-se que em média 15 tenham desistido ou se transferido para outra instituição escolar. Freqüentavam a aula por volta de 25 estudantes diariamente. Essa evasão escolar se justificava na medida em que os estudantes chegavam cansados em sala de aula em virtude de trabalho excessivo e não encontravam na escola um ambiente dinâmico, prazeroso e de aprendizagem. Ao serem questionados, os alunos diziam: “Para que estudar para a matéria de português? Vou deixar português na pendência!”. Notava-se que esses alunos não tinham sido estimulados, despertados para a importância da disciplina Língua Portuguesa no decorrer do trajeto escolar. O estudo tornava-se então enfadonho, sem objetivos, sem valor para a realidade daqueles estudantes.
Percebeu-se que a biblioteca da escola possuía um bom acervo, mas os alunos não costumam consultá-lo por falta de um estimulo dos professores da instituição. Isso evidencia um total descompromisso com o incentivo à leitura e à pesquisa na comunidade escolar. Geraldi reforça a importância da utilização da biblioteca pelos alunos, enfatizando o incentivo às primeiras leituras do discente:

“Caso exista biblioteca na escola, o professor poderá usar os livros existentes, combinando com o responsável que as obras selecionadas serão utilizadas por tais classes e tais alunos. É importante que a biblioteca possibilite ao aluno a retirada de livro, pois ele iniciará a leitura em aula, mas o enredo o levará a querer saber o fim da história. Certamente ele lerá fora da aula, independente da solicitação do professor”. (GERALDI 2003b : 62)

Constatou-se, durante o período de observação, que os alunos da 5a série B não tinham um contato prévio com a literatura, como também não possuíam interesse pela leitura. Diante disso buscou-se aproximar o grupo das práticas sociais de leitura através do uso texto poético. O poema pode ser utilizado na sala de aula como um texto, entre outros, para facilitar o aprendizado da leitura e mediar o conhecimento do subjetivo, do simbólico, do emotivo e dos elementos da escrita.

Em relação à extensão dos textos que devem ser trabalhados nas séries iniciais, Geraldi afirma:

“A sugestão é trabalhar preferencialmente com narrativas longas. A prática de sala de aula vem mostrando, no entanto, que com o uso de coletânea de contos, crônicas e poemas, entre os livros selecionados para construir a biblioteca de classe, pode-se atingir o mesmo objetivo proposto.” (2003b: 60).

Nos primeiros contatos com a turma percebeu-se uma certa resistência à leitura de poesias e a existência de certos mitos sobre o trabalho com poesia: “poesia é coisa de menina”, “eu não tenho o dom para fazer poesias”. Mas com o decorrer das aulas de língua portuguesa, à medida que os alunos foram tendo contato com o lado metafórico, simbólico e estrutural do poema, eles foram capazes de desenvolver a criticidade, de solicitar mais textos poéticos para serem lidos dentro e fora do ambiente escolar, e de produzirem bons textos poéticos.
Geraldi (2003b) sugere que o ensino de língua deve centrar-se na integração de três práticas no processo de ensino-aprendizagem – leitura de textos, produção de texto e análise lingüística. Segundo o autor (2003a: 88), “essas práticas têm dois objetivos interligados: tentar ultrapassar, apesar dos limites da escola, a artificialidade que se institui na sala de aula quanto ao uso da linguagem e possibilitar, pelo uso não artificial da linguagem, o domínio efetivo da língua padrão em suas modalidades oral e escrita. Baseando-nos no que foi proposto por Geraldi, dividiu-se em três eixos o processo de ensino-aprendizagem de língua portuguesa: leitura, análise lingüística e produção textual.
No primeiro momento do processo, observou-se que uma das pessoas que integravam o grupo estava grávida. Então, sentimos a necessidade de abordar em sala a temática namoro na adolescência. Iniciou-se o trabalho com uma discussão sobre os pontos positivos e negativos do relacionamento amoroso dos jovens, na qual os alunos puderam expor suas opiniões, bem como suas dúvidas em relação à temática. Em seguida os discentes, já introduzidos na temática, entraram em contato com diversos poetas, entre eles, Sérgio Caparelli, Carlos Drummond de Andrade, Elias José, Vinícius de Moraes, Camões e Cecília Meireles, através da leitura dos mais variados poemas que abordavam o amor na adolescência. Nessa etapa enfatizou-se o porquê da atividade – inserir a turma no universo da leitura de poemas e abordar uma temática essencial para aquele grupo. Maia (2001:23) acrescenta que “os objetivos da escolha dos textos devem estar claramente justificados dando sentido a atividade”.
Essa primeira fase do projeto propunha a formação de alunos-leitores capazes de reconhecer as sutilezas, as especificidades, a extensão e a profundidade de textos literários, particularmente poemas, a partir de um contato diário com os mesmos. A partir daí, os estudantes perceberam alguns traços típicos de um texto poético, como a presença de aspectos polissêmicos e polifônicos. Os discentes também puderam reconhecer os elementos estruturais de um poema (verso, rima, ritmo, estrofe) e compreender a função destes para a construção do texto. Lajolo (2004:50) afirma que “é necessário que os elementos do texto selecionado como gerador de atividades levem o aluno a observar mais de perto procedimentos realmente relevantes para o significado geral do texto”.
Numa segunda fase do processo de ensino-aprendizagem, os discentes entraram em contato, a partir de novas leituras de poemas, com certos recursos lingüísticos e suas funções (adjetivo, sinais de pontuação, linguagem conotativa e denotativa) comuns a um texto poético e constataram que esses elementos eram essenciais para a construção de significação do texto. Eliminou-se assim qualquer forma de trabalho com o poema como pretexto para se ensinar elementos lingüísticos. Lajolo reforça a importância do reconhecimento, pelo aluno, dos elementos de linguagem que o autor do o texto poético utiliza:

“Na medida em que os elementos de que se constitui a especificidade do poema estão na linguagem e na medida em que a linguagem é uma construção da cultura, para que ocorra a interação entre leitor e o texto, e para que essa interação constitua o que se costuma considerar uma experiência poética, é preciso que o leitor tenha a possibilidade de percepção e reconhecimento – mesmo que inconscientes – dos elementos de linguagem que o texto manipula”. (2004: 45)

No terceiro momento, no qual os estudantes já estavam despertados para a leitura de poemas e já eram capazes de conhecer características particulares dos mesmos, solicitou-se que os alunos produzissem poemas. Primeiramente se produziu um texto poético em grupo (ver anexo I), tendo os membros do grupo-classe a chance de realizar várias versões, até se chegar naquela que eles considerassem definitiva e adequada. Nessa situação, todos interagiram e comentaram sobre o que consideravam adequado ou não para aquele gênero.
Em seguida, cada estudante se dirigiu a um varal repleto de imagens (casais jovens se beijando, casais jovens brigando, adolescente grávida, entre outros) e escolheu aquela que mais havia despertado o seu interesse. Individualmente, os alunos, escreveram um poema a partir da imagem escolhida (ver anexo II). Essa produção textual não foi feita de forma aleatória, havia um objetivo para a realização daquela atividade – preparação de uma coletânea de poemas, e pessoas a quem se dirigia o texto – o próprio grupo-classe. Geraldi (2003b: 65) defende essa prática de produção textual ao criticar a forma como se costuma abordar a produção escrita em sala de aula : “a produção de textos na escola foge totalmente ao sentido de uso da língua: os alunos escrevem para o professor(único leitor, quando lê os textos). A situação da língua é, pois, artificial. Afinal qual é a graça em escrever um texto que não será lido por ninguém ou que será lido apenas por uma pessoa (que por sinal corrigirá o texto e dará nota para ele?)”.
Os Parâmetros Curriculares Nacionais (1997:40) já propõem a produção do gênero literário poema e recomendam que essa produção deve estar associada às estratégias de escrita e aos recursos de linguagem. Os Parâmetros sugerem que a produção do texto poético pode ser realizada de duas formas – criação de uma coletânea de poemas e a transformação de um gênero em outro. Segundo os PCN (1997: 41), o ponto de apoio da análise e da produção do texto deve englobar os elementos lingüísticos que confirmem as apropriações de sentido.
Após essa etapa, os discentes produziram manualmente o livrinho de poemas da turma e fizeram a declamação dos seus poemas. Os estudantes analisaram todos os poemas e elegeram aquele que mais despertava a sua atenção. O aluno que escreveu o texto poético eleito pelo grupo recebeu como prêmio a coletânea de poemas da turma. Verificou-se assim que aqueles alunos que antes do projeto não tinham tido contato com o texto literário puderam produzi-lo, utilizando jogos metafóricos, construções que brincam com as palavras e com sentidos. Essa habilidade dos alunos só foi despertada a partir do contato com a poesia, com o despertar para a leitura.

Conclusão

Como já foi visto no decorrer da explanação teórica e do relato de experiência, torna-se fundamental que o professor de língua portuguesa utilize o texto poético em sala de aula. Através desse instrumento, o discente desenvolve, de forma prazerosa, o hábito de ler, transportando a leitura para fora da sala de aula, bem como se torna um sujeito capaz de expor, por meio da escrita, suas experiências, seus pensamentos críticos em relação ao mundo e os seus desejos mais íntimos. Com a ampliação de seu poder de argumentação, construído a partir do contato com os poemas e os seus ensinamentos, o discente se torna capaz de produzir os mais variados textos.
Ressaltou-se também que não se deve trabalhar com poemas de forma aleatória, utilizando-os como pretexto para abordar conteúdos gramaticais, ou impor valores morais e sociais. O professor precisa elaborar procedimentos metodológicos que sejam condizentes com a realidade e o estágio cognitivo dos alunos, que sejam compatíveis com a função simbólica e subjetiva do poema; alimentem nos alunos o prazer da leitura e desenvolvam a habilidade de escrita.

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Anexo I

Produção coletiva de poemas

 

Anexo II

Produção individual de poemas

 
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