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  SOBRE NOÇÕES DE CONSTITUIÇÃO DO SUJEITO: MULHERES ALFABETIZANDAS TÊM A PALAVRA

Renata Rodrigues de Araujo – Mestranda – UNESP –Rio Claro

RESUMO

Pesquisa realizada no âmbito das práticas educativas de uma cooperativa recém-formadas por um grupo de mulheres de baixa renda, baixa escolaridade, cuja faixa etária é de anos. Objetivos: apontar elementos que contribuam para a compreensão da constituição dos sujeitos, elementos que contribuam para esta noção, apontados por eles mesmos, com base nas noções teóricas, como os sujeitos se constituem, tomando como eixo norteador a reconstituição da trajetória desses sujeitos, na relação com o processo de aprendizagem escolar, compreendendo este espaço que os abriga, a Cooperativa Usina do Trabalho.

1 INTRODUÇÃO

Ao ingressar no Programa de Pós-Graduação em Educação, da UNESP, de Rio Claro, em março de 2004, tive a oportunidade de conhecer um dos projetos de extensão da Universidade, o Projeto de Educação de Jovens e Adultos - PEJA e comecei, a participar das atividades de alfabetização. Comecei a acompanhar as atividades desenvolvidas em uma das turmas, composta por mulheres. As atividades educativas, que ficam sob a responsabilidade do PEJA, tiveram início no âmbito das exigências que dizem respeito à organização de uma cooperativa.

Trata-se de uma cooperativa formada pelo projeto social da empresa Multibrás, proprietária das marcas de eletrodomésticos Cônsul e Brastemp, inaugurada em Junho de 2004, para atender à pessoas que estão às margens da sociedade produtiva, ou seja, pessoas de baixa renda, que não possuem escolarização básica e estão, portanto, fora do mercado de trabalho. O objetivo é capacitá-las para exercer uma atividade remunerada, promovendo, desta maneira, sua inclusão social.

Entusiasmada com as propostas educativas que o PEJA levava àquela turma, tendo em mente a elaboração de um projeto de pesquisa que contemplasse alguns questionamentos decorrentes de minha formação inicial, tomei a decisão de acompanhar as atividades dessa turma, observando e colaborando na orientação de algumas atividades propostas pelos bolsistas responsáveis. Nesses primeiros contatos, informais, chamou-me a atenção, a forma com que estes sujeitos, mulheres candidatas em potencial a cooperadas, se relacionam com o conhecimento escolarizado.

Com base nas observações preliminares, e alguns registros que fiz, com a aquiescência de algumas alunas, fui percebendo que, por um lado, apesar destes sujeitos não terem freqüentado a escola, eles possuem, sem dúvida, muitos conhecimentos que os auxiliam na resolução dos problemas da pragmática da vida cotidiana. Por outro lado, declaram ignorar, total ou parcialmente, as práticas e os conhecimentos escolares. Naquele momento, ainda sem ter completamente definidas as possibilidades de realização de um projeto de pesquisa, seus objetivos, aportes teóricos de fundamentação, e mesmo as condições de realização, não pude me furtar a indagações como: Que pensamentos manifestam de si mesmas, aquelas mulheres? Como essas mulheres se vêem? Que leitura podemos fazer dessa tensão que vai se estabelecendo entre o que dizem realizar como práticas cotidianas e as insistentes e convictas afirmações do “não sei”, “não sei ler”, “não sei escrever”, “não sei fazer conta”? Essa tensão vai tomando corpo para quem acompanha e observa, abrindo perspectivas para a pesquisadora iniciante.

Estas e outras perguntas foram delineando o tema deste trabalho que remete à constituição dos sujeitos, que nos dão a ver por meio de suas falas, do que nos contam, nos relatam sobre sua vida e sobre si mesmos, de seus gestos, de suas produções escritas, norteando este projeto de pesquisa com algumas perguntas: Que noções embasam a constituição dos sujeitos? Em que bases históricas, sociais e culturais algumas noções de sujeito se aportam?

Penso que as possibilidades de resposta à estas perguntas, podem oferecer subsídios teóricos à formação de professores de EJA, satisfazendo minhas inquietações iniciais na medida em que nos ampliam as noções sobre a constituição do sujeito.

2 OBJETIVOS:

? Apontar, por meio das práticas educativas, mobilizadas na Cooperativa do Trabalho, elementos que contribuam para a compreensão da constituição dos sujeitos, no momento histórico atual;
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? Apontar, por meio das práticas educativas, mobilizadas na Cooperativa do Trabalho, elementos que contribuam para a compreensão da constituição dos sujeitos, apontados por eles mesmos;
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? Buscar compreender, com base nas noções teóricas levantadas, como os sujeitos se constituem, particularizando este grupo de mulheres, e tomando como eixo norteador a reconstituição da trajetória desses sujeitos, na relação com o processo de aprendizagem escolar, compreendendo este espaço que os abriga, a Cooperativa do trabalho, entre os anos de 2004 e 2005.
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3. METODOLOGIA

Serão utilizados como dados materiais para nossa análise, o material produzido através da técnica de observação e registro em diário de campo da pesquisadora, as produções escritas dos sujeitos envolvidos, seus depoimentos orais e entrevistas. As entrevistas serão gravadas e transcritas para posterior análise.

Desta forma, elegemos o relato como procedimento metodológico porque segundo Certeau (2002), ele constitui-se numa prática que faz parte das táticas cotidianas. É um ato culturalmente criador que descreve lugares, espaços, percursos, mapas, demarcações fronteiriças e acontecimentos. Como atividade narrativa, é fragmentada e disseminada, atua nas fronteiras, nas relações com o estrangeiro, sempre efetuando operações de demarcação.

Enquanto operação de demarcação, o relato aparece como ponto de partida, fragmentos tirados de histórias anteriores que fornecem informações bastante relevantes à análise da espacialidade.

Neste sentido, segundo Certeau, ele autoriza o estabelecimento, cria um espaço e serve de base para as ações. “Eis aí o primeiro papel do relato. Abre um teatro de legitimidade a ações efetivas. Cria um campo que autoriza práticas sociais arriscadas e contingentes” (CERTEAU, 2002. p. 210-211)

4 - FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

As leituras, as questões levantadas, as dúvidas e reflexões acerca das noções de constituição de sujeito, ainda que muito iniciais, sugerem um caminho que nos leva a um diálogo com teóricos como Vygotsky, Bakhtin, Freire, Deleuze e Morin no sentido de nos ampliar tal noção.

O problema que motiva este trabalho de pesquisa repousa na compreensão de noções de constituição desses sujeitos e nossa hipótese é que eles se constituem na medida em que se voltam para sua própria condição, falam de si, fazem perguntas sobre e para si mesmos.

O espaço privilegiado para empreendermos esta pesquisa é a Usina do Trabalho, por ser um lugar onde a linguagem, oral e escrita perpassam as relações e nos mostram alguns indícios de noções de constituição de sujeitos.

Os sujeitos da presente pesquisa são as mulheres que compõem esse grupo e que vêm freqüentando as atividades educativas propostas pelo PEJA, considerando-se este espaço como lócus de ensino e aprendizagem, da leitura, escrita e cálculos, de trocas, de diálogos, fazendo emergir modos de se pensarem como sujeitos, abrindo possibilidades de investigação sobre o que vimos delineando como noções constitutivas do sujeito.

Segundo o dicionário Houaiss (2001, p.2635) trata-se de sujeito “o eu pensante, consciência, espírito ou mente enquanto faculdade congnoscente e princípio fundador do conhecimento”.

Não obstante, acompanhando essas atividades e observando a permanência desses sujeitos, não nos parece possível esboçar uma noção de sujeito de forma simples e linear. Esboçar esta noção é um movimento cíclico e complexo, isto é, é preciso compreender outros conceitos e como eles se relacionam entre si nesta constituição. Morin corrobora com esta afirmação nos dizendo que:

Devemos fazer uma reconstrução conceitual em cadeia para conceber a idéia do sujeito. Porque se não partimos da organização biológica, da dimensão cognitiva, da computação, do computo, do princípio de exclusão, do princípio da identidade, etc., não chegaremos a enraizar o conceito de sujeito de maneira empírica, lógica como fenômeno. (MORIN, 1996, p.55)

Desta forma, Morin (1996), constrói uma noção de sujeito a partir de outros conceitos por meio do que ele chama de pensamento complexo, que consiste em unir conceitos que se rechaçam entre si e que são, segundo ele, suprimidos e catalogados em compartimentos fechados.

A estrutura do seu pensamento é, portanto, pautada numa epistemologia da complexidade que compreende quantidades de unidades, interações diversas e adversas, incertezas, indeterminações e fenômenos aleatórios.

A complexidade, para Morin (1983), não significa complicação, não é uma imbricação de ações, interação, retroações de forma que nem o homem, nem a máquina, seriam capazes de discernir os elementos desse processo. É algo mais profundo, isto é, a dificuldade de pensar, pois para ele, o pensamento é um combate com e contra a lógica, com e contra as palavras, com e contra o conceito.

O problema da complexidade, segundo Morin (1983) não é um problema novo, ele já foi concebido por filósofos e aqueles que viram que na relação entre o todo e a parte, não é a parte que está no todo, ou seja, o todo também está na parte e que cada ponto contém a totalidade. Neste sentido, podemos dizer que o problema da complexidade repousa na dificuldade de compreender conceitos:

É uma dificuldade que vem da falta de comunicação entre as ciências. As teorias não se comunicam uma com as outras e isto nos afeta, de uma forma ou de outra, no que diz respeito à nossa consciência, pois sem a devida compreensão das ciências, do conhecimento, das relações que estabelecemos entre o mundo e nós mesmos, não há consciência. É preciso, portanto, conceber os limites biológicos, cerebrais, culturais, sociológicos, antropológicos de todo o conhecimento.

Concebido a complexidade epistemológica, Morin (1996) inicia a construção da noção de sujeito fazendo uma abordagem que ele mesmo chama de biológica, isto é, relativo à lógica própria do ser vivo e explica que:

O pensamento biológico confere à singularidade, o papel central e onipresente à noção constitutiva do indivíduo. Reconhece o princípio de singularidade na molécula, na célula, na espécie. Reconhece na eventualidade um operador de individualidade. Reconhece a autonomia da organização viva. Fundou o conceito de fenótipo que é o supote/substrato do indivíduo. Reconhece os caracteres individualizados do comportamento animal. Sobretudo, fez emergir, no campo imunológico, a idéia do si, na qual e pela qual o ser individual adquire corpo e consistência (MORIN, 1980, p.249).

Então, para chegarmos a uma noção de sujeito é preciso passar também pela noção de indivíduo, que está, por sua vez, diretamente relacionada aos conceitos de autonomia e dependência defendidos por ele: “a definição de sujeito supõe a autonomia-dependência do indivíduo, ainda que não se reduza a isso”. (MORIN, 1996, p. 48)

Existem algumas características que singularizam o indivíduo, o distingue e o diferencia, não somente enquanto uma espécie, mas, principalmente, como autor do processo organizador, fazendo o indivíduo tornar-se sujeito.

Este indivíduo é único e singular no que tange seus aspectos anatômicos, fisiológicos, inteligência, comportamento, ainda que apresentem semelhanças étnicas, sociais, culturais e raciais. Essa é a individualidade que o distingue dos demais na existência de si mesmo.

O indivíduo se torna sujeito quando se coloca no centro do universo, ocupando seu próprio espaço. Mas o eu não existe se não houver a relação com o tu, pois ambos são seres pertencentes ao universo.

Para ele, o sujeito foi esquecido das ciências e das epistemologias em geral:

É-nos, pois, necessário reintegra-lo e conceber o grande esquecido das ciências e da maior parte das epistemologias, e enfrentar, sobretudo aqui, o problema a nosso ver incontestável da relação do sujeito/objeto. Não e trata de resvalar para o subjetivismo: trata-se muito pelo contrário de enfrentar esse problema complexo em que o sujeito cognoscente se torna objeto do seu conhecimento ao mesmo tempo que permanece sujeito. (MORIN, 1986, p.25)

Esta reintegração, segundo ele, é relativa ao sujeito vivo, que é insuficiente, vacilante, modesto e que introduz a historialidade da consciência em vez de possuir a consciência soberana que transcendem os tempos e os espaços. É o sujeito que possui o pensamento sobre si mesmo, sobre suas ações e suas operações e isso nos remete à noção de um sujeito único no seu aspecto subjetivo: “Só ele mesmo conta, existe. Ele é para ele o único a ocupar o sítio do computo. É o centro do seu universo” Morin (1980).

O sujeito emerge a partir da sua auto-organização, isto é, a partir da sua capacidade de estar em constante transformação.

O sujeito vivo emerge do processo complexo da auto-eco-organização e, neste processo, ser, máquina, computo, sujeito constituem noções ao mesmo tempo inseparáveis e fundadoras uma das outras. (MORIN, 1986, p.47)

Neste sentido, toda e qualquer organização viva, funciona em função e em virtude de um computo, que é a chave do processo de organização, auto-produção e constituição do indivíduo sujeito e a sua capacidade de transformar-se, sempre, pressupõe outras características para o desenvolvimento do processo de auto-organização, como a autonomia, a individualidade, a incerteza, a ambigüidade e a complexidade.

Não obstante, o homem constrói sua própria identidade, que pressupõe liberdade e autonomia para tornar-se sujeito.

A autonomia está em estreita relação com o conceito de dependência de forma que a definição de sujeito pressupõe a união de termos antagônicos: dependência/autonomia; complementaridade/antagonismo, diferença/pertença; singularidade/representatividade; desvio/conformidade.

Como tudo aquilo que, no nosso universo, depende duma organização autônoma, o indivíduo-sujeito é dependente daquilo que o torna independente. Donde o necessário paradoxo que não deve ser desfeito: o indivíduo-sujeito é a chave emergência dos autos, e o foco dos autos reside no âmago do indivíduo-sujeito”. (MORIN, 1980, p. 255)

O indivíduo-sujeito é dependente dos fatores externos a ele. Necessita, portanto, da família, da escola, da linguagem, da cultura, da sociedade, etc. Sua capacidade de ser auto-organizador não exclui a dependência com relação ao mundo exterior.

Com isso, vive o paradoxo de ser o mais autônomo dos seres vivos e, ao mesmo tempo, o mais dependente. Concentra em si, portanto, um misto de liberdade e dependência definindo assim, uma noção complexa e paradoxal, onde o indivíduo é tudo e nada, ao mesmo tempo. Ora vemos um indivíduo completo que revela a existência, o ser, as formas, a dinâmica organizacional, a reprodução, a computação, o conhecimento, ora vemos outro, que este mesmo indivíduo é apenas uma partícula do todo, um nada perante este todo. Ele é tudo enquanto o mais autônomos dos seres vivos e por outro lado, um ponto, um nada no tempo das gerações e no espaço dos ecossistemas, assim como bem resume Morin: “Este uno-todo, este todo-uno, este tudo-para-si, nsace de nada, torna a ser nada, enquanto a vida continua precisamente por outros e noutros todos-nada”. (1980, p.285)

Contudo, o indivíduo não se define apenas por diferenças e originalidade, não se reduz à individualidade singular, pois segundo Morin (1980), “o indivíduo possui um capital de singularidades e um princípio de individuação que o precedem e o ultrapassam, mas a sua qualidade de indivíduo repousa também na sua autonomia de ser e de existência”.

A maior distinção do ser humano frente a outros sistemas vivos é sua capacidade reflexiva e sua consciência:

A consciência humana, última filha da subjetividade surgiu tremendo no mundo. Embora seja oscilante, embora seja tão frágil diante do medo de si mesma que cada um dos seus ímpetos fulgurantess é sempre seguido duma queda, ela entra por sua vez na vida e é no seu próprio devir que vai jogar-se o devir-sujeito do homem. (MORIN, 1980, p.273)

A consciência surge no mundo, inspirando a auto-reflexão. O sujeito se coloca no centro do mundo e, portanto, age como referência, é único para si mesmo. A sua capacidade de auto-reflexão, o leva à auto-transcendência, que lhe permite ir para além de si mesmo e, ao mesmo tempo, questionar-se e determinar seus princípios éticos e de lógica, considerando sua afetividade e suas verdades.

Para ele, a consciência é algo de global e de indeciso, não deve ser concebida separada do conjunto das aptidões e das atividades superiores do espírito do sapiens. É o resultado das inter-relações, das interações e interferências. É um fenômeno subjetivo e objetivo, ao mesmo tempo. Subjetivo porque leva em si a presença afetiva do eu individual e, objetivo porque considera, objetivamente, não só o meio ambiente exterior, o mundo, mas o eu subjetivo. Em outras palavras, o eu autoconsidera-se como sujeito e objeto de conhecimento e, ao mesmo tempo, considera o meio ambiente objetivo, implicando nele, sua existência subjetiva.

Neste sentido, a consciência não pode ser reduzida a um único princípio, por um só dado. Morin (1975), nos diz que é preciso que haja a atualização e conjunção das mais altas possibilidades do cérebro do sapiens para que ela se constitua por e nessa atualização e conjunção.

Se para Morin (1996) a concepção de sujeito passa pela noção de autonomia-dependência, para Bakhtin, o homem só existe se inserido nas condições sócio-econômicas objetivas, como um membro de um grupo social, de uma classe. O fato dele simplesmente nascer, no sentido fisiológico, não garante seu ingresso na história, ele precisa de um nascer de novo, isto é, nascer socialmente. Assim, é por meio dessa ligação social e histórica que se define o conteúdo da ligação histórica do homem à vida.

Freitas (1995), expressou com grande clareza o pensamento de Bakhtin quando este concebe a consciência baseando-se em fundamentos que vão para além dos fisiológicos, ou ainda dos biológicos, quando considera, sobretudo, os fundamentos sociológicos. A consciência, nesta perspectiva, adquire forma e existência nos signos que emergem do processo de interação social.

Para Bakhtin (2004), “os signos são o alimento da consciência individual, a matéria do seu desenvolvimento e ela reflete sua lógica e suas leis. A lógica da consciência é a lógica da comunicação ideológica, da interação semiótica de um grupo social”.

Eles possuem a função de “significar” a partir das necessidades impostas pelas bases econômicas às mais diversas áreas do campo social. Em outras palavras, tudo que é exterior ao homem é um signo, constituído, portanto, no processo de interação social. Sua materialidade social o torna objeto concreto de estudo.

Bakthin (1986), nos diz que “um signo não existe apenas como parte de uma realidade; ele também reflete e refrata uma outra. Ele pode distorcer essa realidade, ser-lhe fiel, ou apreendê-la de um ponto de vista específico, etc”.

A própria consciência é uma construção de signos. Os signos não são incorporados numa consciência vazia de forma que não há consciência fora signos. Todavia, sem a objetivação exterior, sem a corporificação da matéria semiótica, a consciência não se verifica, é mera ficção.

Isto nos remete à importância de se compreender o processo de formação da consciência humana. A concepção de consciência para Bakhtin repousa nos fundamentos sociológicos e não biológicos, não podendo, portanto, ser reduzida a processos internos. É algo que se constrói de fora do indivíduo e constitui na relação com o outro pela linguagem.

A consciência para ele, não pode ser explicada como um fenômeno subjetivo, pois todo o material semiótico do indivíduo é formado no contexto das relações sociais, portanto, a partir do exterior do indivíduo. Tudo que possui significado no mundo exterior constitui o material semiótico de que o indivíduo dispõe. O homem desprovido desse material, permaneceria em um estado “vegetativo”.

Nas situações cotidianas, ou seja, situações entremeadas de risos, gestos, intenções, etc., os signos são como uma cadeia ininterrupta e contínua de interações que não se quebra em momento algum.

Todavia, o sistema da maior importância dentre todos os signos é a linguagem humana. A língua é um fenômeno histórico e não pode, de forma alguma, ser estudada fora do contexto social, sem suas vinculações sociais. Para Bakhtin (1988) “a língua vive e evolui historicamente na comunicação verbal concreta, não no sistema lingüístico abstrato das formas da língua, nem no psiquismo individual dos falantes”.

No entanto, só há compreensão da língua dentro da sua qualidade contextual, isto é, no contexto real da sua enunciação é que acontece a concretização da palavra. O sentido da palavra é determinado, portanto, pelo seu contexto. Como existem infinitos contextos, existem também infinitos significados de uma palavra.

A língua enquanto meio vivo e concreto onde vive a consciência do artista da palavra, nunca é única. Ela é única somente como sistema gramática abstrato de formas normativas, abstraída das percepções ideológicas concretas que a preenche e da contínua evolução histórica da linguagem viva. A vida social e a evolução histórica criam, nos limites de uma língua nacional abstratamente única, uma pluralidade de mundos concretos, de perspectivas literárias ideológicas e sociais, fechadas... (BAKHTIN, 1993, p. 96)

Assim, a dinâmica da língua acompanha a dinâmica da vida.

Com a palavra o homem é capaz de expressar as mudanças que ocorrem no interior da dinâmica social. Ainda que o homem não precisasse da língua para sua comunicação com o mundo exterior, ela é indispensável para a atividade mental, o pensamento, como mostra Bakhtin (1992): “a língua se deduz da necessidade o homem de expressar-se, de exteriorizar-se. A essência da língua, de uma forma ou de outra, resume-se à criatividade espiritual do indivíduo”.

Morin corrobora com essa idéia dizendo que:

A linguagem humana é polivalente e polifuncional. Exprime, verifica, descreve, transmite, argumenta, proclama, prescreve (os enunciados perfomrativos e elocutórios). Está presente em todas as operaçõs cognitivas, comunicativas, práticas. É necessária para a conservação, transmissão, inovação culturais. É substancial à organização de qualquer sociedade e participa necessariamente na constituição e na vida da noosfera. (MORIN, 1991, p.143)

Neste sentido, a linguagem é organizadora da vida social. Dotada de uma vida própria, evidencia-se em todos os níveis da vida humana. Sua dinâmica é tão viva que com o passar do tempo muitas palavras migram de uma língua para a outra, degradam-se, nascem, morrem, chegando a mudar suas formas gramaticais e até mesmo, sua sintaxe.

Ela transita em outras línguas a fim de encontrar palavras ou termos que lhe convém, enriquece-se com a história, com as invenções, com as experiências e, sobretudo, com a criação humana. Assim podemos falar da linguagem como possuidora de vida própria: dada a sua onipresença em todos os aspectos da vida individual ou coletiva.

É neste sentido que Bakhtin (1992), nos diz que os signos são criados pelo homem e só emergem na sua interação social através da linguagem. Na constituição da consciência, a palavra ocupa um lugar de suma importante, é um fenômeno ideológico por excelência. É uma forma de representação do real, que possui um sentido e remete a algo situado fora de si mesmo.

O mundo exterior é objetivado em nossa consciência por meio da palavra, que não depende de nenhum outro material que não seja fornecido pelo nosso próprio corpo. Isto não acontece, por exemplo, com outros signos como a cor, o som, a figura, porque eles sempre dependerão de um equipamento externo ao corpo para sua realização.

Neste sentido, todos os outros signos, para serem assimilados pela nossa consciência, precisam de uma base verbal. Isto determina o papel central da palavra no conjunto de signos que compõem o material semiótico da consciência, logo, todo ato de compreensão e entendimento necessita a palavra como ponto de referência.

A palavra para Bakhtin constitui o modo mais puro e sensível de sua relação social, é nela que se mostram as formas mais básicas e ideológicas gerais da comunicação semiótica e é, principalmente, conteúdo da própria atividade psíquica. Mas esta atividade só possui identidade se provida de sentido, pois a palavra privada de sentido se reduz a sua realidade física, ou seja, ao processo fisiológico de sua produção.

Na constituição da consciência, Bakhtin considera como elemento central da vida mental, a linguagem, enfatizando o discurso interior. Ele destaca o valor da palavra na interação entre os indivíduos. Consciência e pensamento, para ele, são tecidos com palavras e idéias que se lançam na interação com o outro. Neste sentido, o eu só existe a partir do diálogo com o outro, mas antes disso, o eu depende dos outros eus para definir-se e ser autor de si mesmo.

O produto da interação entre o eu e o outro é, portanto, a palavra. É nesse sentido que o eu só existe na medida em que se relaciona com o tu, que está antecipado no discurso interior e é por sua vez, co-participante do discurso exteriorizado. O discurso exteriorizado produz uma relação dialógica que pode estar de acordo ou em desacordo entre os interlocutores, pode corresponder a uma resposta/reação que passa pela voz, pelo gesto, ou até mesmo por uma alteração da respiração, conforme enfatiza Bakhtin (1992):

De fato, o ouvinte que recebe e compreende a significação (lingüística) de um discurso adota simultaneamente, para com o discurso, uma atividade responsiva ativa: ele concorda ou discorda (total ou parcialmente), completa, adapta, apronta-se para executar, etc., e esta atitude do ouvinte está em elaboração constante durante todo o processo de audição e de compreensão desde o início do discurso às vezes, já nas primeiras palavras emitidas pelo autor.

Significa que a compreensão de uma fala é sempre acompanhada de uma atitude responsiva ativa e toda compreensão resulta numa resposta, isto é, o ouvinte, de uma maneira ou de outra, se prepara para produzir uma resposta àquilo que está ouvindo. Neste momento, ao produzir uma resposta, o ouvinte deixa a sua posição dotada de compreensão e passa a ser o próprio locutor, por isso o caráter “ativo” da compreensão.

A dinâmica viva da palavra só pode ser observada na realidade efetiva da comunicação, em enunciados concretos, em situações concretas de interação social.

Nesta perspectiva, o homem como um ser histórico e social, portanto inacabado, vai se constituindo à medida que se relaciona com o outro, que dialoga com o mundo que o cerca. Esse diálogo se dá, portanto, por meio da linguagem, que está repleta de signos historicamente construídos.

Para Bakhtin (1992), a linguagem é condição para o desenvolvimento da consciência, seja ela verbal ou não verbal e constitui uma complexa e intrincada rede de relações sociais.

Tanto Bakhtin quanto Morin, implícita ou explicitamente, concebem idéia de que a realidade fundamental da linguagem é a atividade sociossemiótica, que se dá não entre indivíduos isolados, mas entre indivíduos socialmente organizados, ou seja, indivíduos constituídos e imersos nas relações sociais historicamente dadas e das quais participam de forma ativa.

Em continuidade, na tentativa de esboçar uma noção de sujeito, deparamo-nos com Vygotsky (2001) que nos diz que a linguagem possui uma função constitutiva e constituidora do homem. Ele também confere aos signos um importante papel no desenvolvimento da consciência humana. Para ele, os signos são usados para organizar o nosso comportamento e o comportamento dos outros. Desempenham uma função muito um importante no processo de internalização, são os verdadeiros sustentáculos da cultura humana, os meios pelo qual a atividade e a consciência são determinadas.

Esta incorporação dos signos vincula a função mental à cultura. Os signos para Vygotsky (2001) são uma espécie de instrumento psicológico para o homem, e, sobretudo, um instrumento social, um meio de comunicação. Eles possibilitam ao homem criar modelos imaginários de objetos de objetos e operar com eles, planejar maneiras de resolver problemas de todos os tipos. Operar com signos significa planejar e organizar a atividade humana. O planejamento constitui o elemento mais importante da consciência humana. Portanto os signos são uma das bases mais importantes da formação e do funcionamento da consciência.

Os signos são usados para solucionar problemas psicológicos como lembrar, comparar, escolher, relatar, etc. Eles agem como instrumento da atividade psicológica, são orientados para o próprio sujeito, para dentro do indivíduo, seja do próprio indivíduo ou de outras pessoas. São representações da realidade e podem referir-se a elementos ausente do espaço e do tempo presentes, representações mentais que substituem os objetos do mundo real.

Segundo Vygotsky (2001) “a própria idéia de que o homem é capaz de operar mentalmente sobre o mundo, isto é, fazer relações, planejar, comparar, lembrar, etc., supõe um processo de representação mental”.

É necessário, portanto, compreender que esta relação com mundo real não se dá de forma direta, ou seja, esta relação é mediada pelos signos internalizados que representam os elementos do mundo. Os sistemas de representação da realidade são socialmente construídos, assim como a linguagem, que é desenvolvida a partir das experiências como o mundo objetivo e do contato com as formas culturalmente determinadas.

Desse ponto de vista, é possível pensar em uma aproximação com a noção de dependência defendida por Morin (1996), que é a dependência de um conjunto de signos para nos comunicarmos com o outro, a dependência da palavra para estabelecermos o diálogo com o outro e com o mundo que nos cerca.

A linguagem para Vygotsky (2001) tem a finalidade de promover a relação do homem consigo mesmo e com o outro. Desta forma, a consciência humana se constitui a partir do contato com o outro, das interações sociais que ocorrem pro meio da linguagem.

Portanto, a palavra possui uma função social que se cristaliza na interação semiótica de um grupo social. Se o homem não puder lançar mão da comunicação, utilizando para isso a palavra, o grito, o gesto, ele não forma sua consciência, ao que nos remete novamente à questão: nessas condições indicadas, o que poderia subsidiar a constituição do homem como sujeito?

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