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  TODA MANEIRA DE LER VALE À PENA

Glória de Fátima Pinotti de Assumpção - Universidade Paulista – UNIP
Adriana Cristina Frias Ito - Universidade Paulista – UNIP

Introdução:

Falar de leitura pressupõe leitores ricos de saberes, porém, não se pode deixar de observar, ainda que brevemente, os tantos mais leitores que circulam por espaços públicos. Despretensiosamente, partimos da constatação de que a leitura acontece tanto para os escolarizados como os não-escolarizados, se nos depararmos com a leitura como um ato social de qualquer indivíduo numa sociedade.

Este trabalho objetiva examinar certas questões relacionadas ao processo da leitura como habilidade para comunicação nos sujeitos que têm percurso inverso na escala social, dando um enfoque humanista e comunicativo, que coloque em segundo plano teorias e técnicas já tão discutidas, transpondo para o primeiro plano o sujeito-gente-pessoa e agente de uma sociedade, não considerando conceitos complexos e altamente convencionais nessa área.

Partimos do pressuposto de que a comunicação, o ato de comunicar-se, só se efetiva a partir do momento em que um alcança o discurso do outro, na medida em que a unidade discursiva é compreendida entre ambos, efetuando-se, assim, a troca da informação esperada. Não podemos desconsiderar o cidadão, que mesmo sem o nível de letramento mínimo necessário para que ele se comunique nessa sociedade cada vez mais tecnológica, consegue tomar um ônibus certo, fazer compras num supermercado, orientar-se numa cidade e podendo ser ouvido até por autoridades. Como se processa o ato da leitura nesses indivíduos? Quais mecanismos ocorrem no processo da leitura em sujeitos não-escolarizados? De que modo esse sujeito cria um significado textual que ele próprio o desconhece? Esses sujeitos praticam leitura? De que modo a leitura acontece para essas pessoas? Este trabalho apresenta quatro diferentes situações de leitura que acontecem em espaços públicos. As observações aqui relatadas foram acompanhadas num cruzamento das ruas Eng. Francisco José Longo com Frederico Eyer, em São José dos Campos (SP), tendo como fronteiras do limite da sociedade letrada, uma padaria com uma grande banca de jornal, um posto de gasolina, uma escola estadual de segundo ciclo e a Faculdade de Odontologia da UNESP. Nesse espaço, circulam atos de leitura praticados por sujeitos de uma sociedade que não está preocupada com que nível de letramento eles os exercem.

1. Alguns pressupostos teóricos:

A variedade de processos em que é necessário a compreensão para qualquer cidadão, seja alfabetizado ou letrado, joga por terra as concepções de que para que ocorra a leitura é preciso que o sujeito domine as marcas gráficas convencionais do sistema lingüístico. Para Smith (1999), o reconhecimento de palavras se dá como o reconhecimento de outro objeto qualquer e, da mesma forma que identificamos um objeto através de sua configuração geral, podemos reconhecer uma palavra através do todo (seu contorno, extensão, etc) sem uma análise de suas partes. Da mesma forma, porém, que podemos identificar uma árvore enxergando apenas uma parte de sua copa, a palavra pode ser reconhecida ou adivinhada sem que enxerguemos a sua totalidade". Nesse caso, então, a simples decodificação de um conjunto de pistas, representadas por elementos lingüísticos de diversas ordem, pode significar um ato de leitura.

Leitura, portanto, é o ato de processar uma informação, que ocorre através de um envolvimento da linearidade superficial de qualquer discurso e sua alinearidade significativa dentro de um código lingüístico identificáveis para qualquer indivíduo de uma sociedade. São, também, as operações mentais que consistem em se apoiar no já conhecido ou facilmente reconhecível, e que ajudam a estabelecer conexões que podem ser evidenciadas nos movimentos de vai-e-vém de uma informação, na percepção ou na redundância que garantem a manutenção temática presente na percepção de um processo coesivo formador de uma hipótese ou concepção (Coste, 1988).

Os primeiros estudos sobre leitura ocuparam-se das habilidades perceptivas do leitor. Ao longo do tempo pesquisas foram desenvolvidas para

tratar da reação, do tempo para essa reação, percepção de símbolos conhecidos, escritos, visuais e também os aspectos cognitivos desconhecidos que envolvem a prática da leitura de qualquer elemento que vive em sociedade. Hoje, estudos concluem que ela varia no espaço, no tempo, na hierarquia social, cuja variabilidade não se restringe somente na língua popular. A prática da leitura ultrapassa os limites impostos pela sociedade tecnocrata e transcende aos bancos escolares num autêntico processo de interação verbal que se dão fora de um ambiente social mais ou menos amplo.

Os usos da linguagem em diferentes instâncias e por diferentes grupos sociais, revelam diferentes graus de funcionamento dos mecanismos de controle numa sociedade altamente dividida e produzem também recursos expressivos distintos. Na prática da leitura estas questões são presença constante, segundo Geraldi (1993) .

Examinamos neste trabalho certas questões relacionadas ao processo da leitura como habilidade para comunicação entre sujeitos que têm percurso inverso na escala social, dando um enfoque humanista e comunicativo num processo de leitura que tanto pode aproximar como distanciar as pessoas, mas que conseguem colocar em segundo plano teorias e técnicas, quando transpõe para o primeiro plano o sujeito-gente de uma sociedade.

O simples conhecimento sobre um determinado acontecimento torna sujeitos familiares com qualquer texto, como por exemplo, o jogo do final de semana; assim por necessidade de entendê-lo, como uma receita médica ou simplesmente por entendê-lo como uma prática social rotineira, o pagamento da conta da gasolina no posto, mas mesmo com toda flexibilidade que a leitura possibilita a seus leitores sujeitos ainda não consegue diminuir as dificuldades para quem não consegue dominá-la.

Assim, esse é um ato que envolve aspectos sensoriais como ver e ouvir os símbolos lingüísticos e decodifica-los; aspectos emocionais como identificar-se, concordar ou discordar, apreciar e, também os aspectos racionais como analisar, criticar, correlacionar, interpretar. Há, portanto, diferentes níveis de leitura que extrapolam do texto para o mundo (YUNES, 1985). Nesses casos, o ato de ler ultrapassa a linearidade de conteúdos escritos e atinge a amplitude das práticas de qualquer referencial ou situacional. Desse modo, podemos entender que a leitura consiste em se apoiar no já conhecido ou naquilo que o é facilmente reconhecível na identificação de algumas palavras-chave do texto, que no caso de um domínio familiar, vai servir de desencadeador das suposições que o leitor, em seguida, procurará validar ou invalidar (COSTE: 25).

O ato de entender certos aspectos do texto exige uma situação de troca do leitor. Pressupõe-se as noções de valor e intenção que ocupam-se de metas atingíveis enquanto sujeito de um processo interativo. Segundo Keliman (1998) são os elementos relevantes ou representativos que contam. Na fala da autora, não há leituras autorizadas num sentido absoluto, mas apenas reconstrução de significado, algumas mais e outras menos adequadas, segundo os objetivos e intenções do leitor.

Através do processo interacional, de interesse entre o leitor e o objeto de sua necessidade, lhe confere uma competência comunicativa imanente da capacidade de ter consigo uma bagagem chamada de competência textual e discursiva, com manifestação de um domínio comunicativo maior ou menor, em razão de suas próprias expectativas, o que o provoca e o incita diante de um texto. O que podemos chamar de texto nesses casos?

Não nos referimos somente ao texto escrito, mas sim, a organização de qualquer informação/comunicado e sua significação exigida para o interlocutor num trabalho de interligação de elementos temáticos, de relações lógicas, do suporte temporário para a compreensão, associadas à operações de seleção e ordenamento de unidades lingüísticas que representam uma leitura necessária ou bem-vinda, naquele momento. São as situações presentemente no mundo real, que adquirem um sentido, uma força comunicativa que põe em jogo a sintonia do sistema de significação peculiar de quem a está utilizando ou precisa utilizá-la. Apenas uma seqüência verbal, uma seqüência verbal icônica, uma seqüência de cores, palavras, e contrapalavras, mas também uma mera justaposição de seqüências verbais escrita, não chega a constituir um texto com um significado para todos, em qualquer lugar ou em qualquer momento. No entanto, podemos considerar que a significação é uma condição necessária para que ocorra a leitura em seu ato de compreender. Se tomarmos o princípio de que a leitura ocorre a partir de um ato de comunicação entre um emissor e um receptor podemos assumir que o ato de ler ocorre, nesses indivíduos, pela simples busca de obter a informação, seja por necessidade, seja em situações de uso formal da língua ou sem apropriar-se dela.

É fato comprovado que a leitura envolve a formação de hipóteses e adivinhação. Os leitores normalmente não se dirigem a um texto sem nenhum objetivo anterior e sem nenhuma expectativa do que ali poderão encontrar. Normalmente, buscam significados e não apenas lutam para identificar letras ou palavras, conforme Scott (1983). Tal esquema de leitura não reflete, no entanto, aspectos significativos relativos ao viés argumentativo do texto. Basicamente, esses indivíduos processam a leitura sem apropriar-se dela enquanto processo de compreensão do texto escrito, mas utilizando-se de dois princípios: o da semelhança e o da ordem. O princípio da semelhança aproxima interesse e motivação. A força expressiva dessa comunicação aumenta e se realiza a partir da gradação da clareza em que a informação atinge níveis desejados. Nessas pessoas observadas no espaço público anteriormente mencionado, ocorre a seleção de interesses para que ocorram as estratégias de funcionalidade necessárias. São situações associadas a outras situações já cristalizadas e aceitas em situações de trabalho, familiar, lazer, ou qualquer situação de comunicabilidade de vida que implica em encontrar um sentido imediato, quer ele tenha destreza na prática de leitura ou não.

Já no princípio da ordem leva o leitor a esperar que o que é conhecido venha ao encontro de suas expectativas de modo a ampliar o que já possui como que a provocar um deslocamento dos sentidos de sua leitura. Esse princípio requer habilidade para selecionar a informação precisa cuja finalidade é de reconhecer o mundo que a circunda, introduzindo o sujeito a participar desse processo de comunicação tão sofisticado que há nos dias atuais.

2. Como ocorrem esses atos de Leitura?

A percepção de situações relacionadas ao interesse do leitor em encontrar sentido mais imediato e mais amplo como resposta às suas necessidades faz com que selecione as áreas de seu interesse imediato para ancorar o saber buscado associando-se ao mundo real para o que pretende utilizar. Esses indivíduos trabalham a leitura com formas percebidas pelas comunicação natural, espontânea e descompromissada, com o aspecto formal do sistema lingüístico, mas que corresponde à sensação daquilo que ele próprio quer encontrar. Em ambos os casos o saber opera a partir de conhecimentos prévios do leitor, seja ele composto de uma grande bagagem ou não.

Partimos do pressuposto de que há uma relação necessária que impulsiona a motivação para a descoberta do significado. A compreensão varia em função do tipo de texto. No entanto, se o tipo de texto determina o nível de compreensão, os desempenhos de cada um variam de acordo com o texto disponível e o grau de interesse que lhe possa despertar. O leitor trabalha para reconstruir o dito baseado nas pistas que este lhe oferece. É o querer saber mais que cria a razão que o leva a buscar em outras posições, as suas respostas. Para este querer saber mais não se dá sem complemento: sempre querer saber sobre alguma coisa para, compreendendo-a de diferentes modos, destas novas compreensões fazer uso, ainda que este uso não esteja imediatamente definido nem seja pontualmente limitado (GERALDI: 172)

Pelo uso da linguagem em situações reais de vida, os processo de produção de leitura como necessidade, informação, lazer, ocorrem por exigências requeridas na produção dos diversos tipos de texto e na leitura para diferentes propósitos. Para extrair significados com existência social constrói-se todo um conjunto de estratégias por um processo de busca da informação central, fazendo escolhas e coincidências entre o saber natural, dissociado do saber lingüístico formal, mas de acordo com o funcionamento da língua, que opera na prática comunicativa entre sujeitos. A leitura está em todas as situações de vida. Ela constitui e dá forma ao pensamento e ao conteúdo de nossas vivências (COSTE, 1988).

A busca da leitura com utilidade prática para os propósitos do leitor comporta em certo número de marcas lingüisticamente identificáveis que fazem com que a seqüência seja percebida, a princípio, superficialmente como em que fazendo referência a um certo momento anterior ao momento do ato que aquela comunicação se realiza. Ocorre uma ancoragem da informação nova sobre o conhecimento superficial existente, garantindo a ampliação do que já tem e se encontra disponível na memória temporária e imediata. O acionamento da memória temporária se aproxima do que já dominamos. Essa memória atua, apenas, para a retenção das formas. Nessa fase podem ocorrer ajustes, correções, substituições, cortes do conhecimento que possuímos até chegar a situação de comunicação de fato, juntando ao saber intuitivo, ingênuo e espontâneo. Não existe texto totalmente estranho ao universo do leitor, pois para cada assunto, o leitor possui um conhecimento prévio mínimo capaz de interação.

Diante da necessidade de praticar a leitura, do prazer da leitura praticada, e a obtenção da informação que precisa, o indivíduo reage com os sentidos e com a emoção, pois ele a vê como um ato de liberdade, de escolha individual, o alcance de uma finalidade, um objetivo ou um propósito. E tanto a leitura utilitária quanto a leitura que dá prazer são atividades

motivadas pela inserção no mundo determinadas pela leitura do mundo (Melo, 1983).

E, assim, num espaço diferentes formas de leitura tomam o seu espaço nas pessoas praticantes da leitura por necessidade, por um cotidiano, por lazer etc.

3. Em cada passo, em cada esquina:

As leituras processadas no local já citado anteriormente são: leitura da bomba de gasolina – o ato se processo entre o frentista e o cliente; na banca de jornal – o leitor busca a leitura e seleciona a que melhor atenda a seu prazer, no posto médico – o leitor não consegue decifrar a receita e busca ajuda de alguém que consiga decifrar o texto para que ele entenda; no ponto de ônibus – aqueles que lendo ou não identificam o ônibus e assim tem uma certa liberdade para a prática de sua rotina. Essas leituras são as tidas transferência de conhecimentos ou acréscimo à informação, que vão desde a colhida para orientação de um endereço ou simples direção, até as processadas com fim científico. Nesta situação específica, dado o perfil do leitor que ali circula, ocorre a diversificação da prática de leitura e da interpretação de forma livre, propiciando a oportunidade de abordagem dos textos disponíveis, segundo os objetivos de cada um. O material de leitura está ali, à mão, exposto, não imposto, transformando-se num material adaptado para os gostos e necessidades possibilitando a esses indivíduos fazerem um relacionamento de boa vizinhança com a leitura, captando tanto sua necessidade quanto seu prazer.

Optar por essa ou aquela leitura é, antes de tudo, um fato de liberdade: tanto pode abarcar situações que sejam próximas do leitor e que lhe permitam a projeção pessoal, como envolver a fantasia, a aventura que lhe propiciam reelaborar o próprio real (YUNES: 11). Nesse sentido, o leitor mantém um diálogo com o texto disponível a partir de sua curiosidade e, encima das questões formuladas, produz um texto co-enunciado cujo autor é ele próprio. Este é um processo social de leitura baseado no sistema de referência.

É comum, também, observarmos os transeuntes lidando com leituras que vão ajudar a tomar decisões na vida. A ficha de nascimento do hospital, a lápide, as certidões do funeral, e ainda, as indecifráveis receitas médicas mas também os maravilhados com as plásticas das modelos em capa de revista, os curiosos lendo as manchetes de jornais, os que escolhem a marca da bebida ou do cigarro na padaria, os que analisam os ingredientes das receitas utilizadas, os que conferem o cartão de crédito no posto, os que selecionam os letreiros dos ônibus, os que tentam traduzir uma declaração ou os examinam um formulário da justiça trabalhista, os que lêem as anotações de aula, os que lêem os livros e cadernos que vão emprestar, enfim, uma infinidade de leituras, cada uma de forma a atender a necessidade ou curiosidade de seu leitor. Há os que partem das informações mais genéricas para as mais específicas adequando-as inconscientemente a sua necessidade, ou os que tomam a leitura para si mesmo tendo-a como elemento inicial de sua suposição, colocando-se em interação e, com ela, revendo todo o sistema de significação que estabeleceu com outras leituras ou qualquer passagem de mundo que o ajude a recuperar ou reconstruir um ponto de partida para a significação. Aquela palavra sozinha pode não fazer sentido, mas a escuta da voz do seu objetivo exige desse leitor uma atitude produtiva, possibilitando ampliar os horizontes a partir da incorporação do seu próprio dizer ou do dizer de um outro.

Há os que praticam a previsibilidade da leitura se manifestando através da soma da história das condições de produção e das leituras já feitas ou a leitura tal como praticam, habitualmente, os leitores que buscam uma informação do seu interesse ou entretêm-se com uma obra do veículo que está acessível no momento (livros, jornal, revista, embalagens, etc).

O tamanho dessa diversidade não conseguimos medir. Vão desde a mudança transformadora da prática escolar até os que lêem por terem conhecimento dos papéis bem definidos entre leitor versus texto. Há os que a praticam cujo letramento lhes confere competência natural para interpretar discursos e os que a fazem ingênua e espontaneamente para atingir situações naturais da sua própria leitura - diálogo, conversa, informação, etc.

Por terem seu potencial de leitura reprimido, os que pedem para que outros leiam as informações que lhes interessam, juntam-se aos que são capazes de confrontar comportamentos semânticos com outros elementos do texto para confirmação, informações, ajustes das hipóteses interpretativas que caracterizam o outro um bom leitor. Nesse caso, o leitor constrói a leitura sobre um esquema o qual pretende operá-la. Imediatamente situa-se num certo campo de interpretação do que pretende conseguir operar.

Conforme Kleiman (2000) a estratégia para mobilizar o conhecimento depende também da prática do usuário com a escrita. Nesse caso, eles pouco a têm e então, recorrem à simples estratégia de perguntar a alguém, que está por perto, o significado daquilo que lhe interessa.

Há os que se ocupam do saber técnico partindo do pressuposto inicial que são as formas corretas que foram transmitidas ao longo da escolaridade. Pela dinâmica da língua em situação de comunicação lhes permite construir as hipóteses sobre o sentido que o outro lhe argüi, e a partir de uma leitura, fazendo uma coleta de índices e indícios, obtém os subsídios da interpretação requerida naquele momento.

Para esses sujeitos de nível de escolaridade alto, a capacidade perceptiva que lhe deve permitir por fixações sucessivas apreender os blocos gráficos mais importantes da leitura direta trazida dos espaços acadêmicos, pratica a leitura estabelecendo correspondências entre o significado e o objeto de sua interpretação antecipando o que pode surgir do fio do texto. Não nos deteremos nesse sujeito por não ser esse o objetivo do nosso trabalho.

Por ser um espaço público observamos dois extremos da leitura praticada. Um leitor que se encontra sem amparo lingüístico, diante de uma página escrita na língua que ele domina pouco e um outro que opera qualquer fenômeno lingüístico quase que naturalmente. As leituras misturam-se através da prática social unificando os saberes lógico, técnico, e o documental completando-se com o apenas lógico, referencial e o denotado.

4. Considerações Finais

Existem atos de leitura que são praticados independentemente do nível de letramento de cada um e esses também podem atingir situações naturais de comunicação. Essas práticas estão determinadas pela situação, pela instituição que o requer e pelo contexto social em que esse cidadão está inserido. Todo membro de uma comunidade lingüística tem um conhecimento intuitivo e uma prática imediata destas restrições estruturais, no entanto reage, é capaz de realizar espontânea e ingenuamente operações discriminatórias fundamentais do gênero, concretizando assim o seu ato de ler.

A primeira abordagem com o texto efetua-se através de elementos significantes como fotos, gráficos, tipos, letras, desenhos, procurando através dos significantes percebidos a significação para algo que faz parte do seu projeto ou propósito de leitura. Ele tem um domínio situacional e relacional das condições de produção, de recepção e de circulação da informação, que lhe são raro. Em seguida a isso, ele acaba por criar as próprias situações que lhe serão suficientes para sustentar o processo de leitura que procura conduzir. Pratica a leitura linear, vagorosa e utilizando-se de todas as pistas visuais disponíveis .

O processo de leitura desse leitor configura-se como a mais próxima das condições reais de qualquer praticante da leitura. Os componentes sociais de sua competência aparecem muito pouco nas considerações relativas formadoras da sua capacidade de leitura, somente as movimentadas pelo seu próprio interesse e o limite do nível de seu letramento lhe permite alcançar. O próprio esquema da sociedade não viria a exigir uma habilidade que jamais conseguiria alcançar.

Para o inculto ou o provinciano esse é apenas o efeito da desclassificação dos quais desconhece os critérios discriminatórios para quem foi privilegiado com uma boa formação. Ora ele realiza uma leitura que revela prazer e encantamento ora por precisão ou necessidade. Através da leitura com prazer tem a impressão de que chega a um mundo idealizado capaz de lhe dar o que o cotidiano lhe negou. Essa sua leitura praticada com prazer provoca-lhe um efeito catártico projetando-o para o meio daquele mundo que, à primeira mão, lhe parece distante. Essas pessoas procuram se encontrar diante de um texto e, ao se encontrar, se reconhecem como pertencendo àquela sociedade. Da mesma forma praticam a busca da informação através de uma leitura localizada, que lhe traga a precisão de algo que procura. A leitura, nesse caso, é a necessária e exigida dele como pertencente ao mundo que supõe encontrar mesmo que para isso, utilize-se apenas a decodificação de palavras e conceitos previsíveis, muitas vezes não alcançáveis num maior nível de significação.

Tudo leva-nos a concluir que há uma variação no desempenho desses leitores, evidentemente em função da escolaridade e o nível de letramento de quem a pratica o ato social da leitura. Os desempenhos de cada um aumentam ou diminuem significativamente. Em qualquer situação a leitura é a praticada a partir de seu próprio projeto de leitura. Pretensiosamente, arriscamos afirmar que há uma igualização das classes, respeitando as variáveis de compreensão.

Nesse sentido, a leitura ocorre em quaisquer circunstâncias ou espaços em que haja a circulação da informação e alguém ávido por utilizar seu repertório verbal disponível. O indivíduo objeto desse nosso estudo opera a leitura tendo a informação sido apenas colocada à sua disposição, pois diante de sua incompletude lingüística e de acordo com a sua necessidade ou interesse, ele cria não só o momento mas também o modo e o local de processá-la apropriadamente.

IV - REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

COSTE, Daniel. Leitura e Competência Comunicativa. Trad. Deyzeli M. Costa. O Texto Leitura e Escrita. Campinas: Pontes, 1988.

GERALDI, João W. Portos de passagem. 2a. São Paulo: Martins Fontes, 1993

JOSE, Elias. Leitura: prazer, saber e poder. Leitura: Teoria & Prática, no. 29. ALB. Mercado Aberto. Campinas: 1997.

KATO, Mary. O aprendizado da leitura. 3a. São Paulo: Martins Fontes, 1990

KLEIMAN, Angela B. Leitura e Interdisciplinaridade. Campinas: Mercado de Letras. 2000.

MELO, José M. Os meios de comunicação de massa e o hábito de leitura. Leitura: Teoria & Prática, no. 2. ALB. Mercado Aberto. Campinas: 1983.

SCOTT Michael. Lendo nas entrelinhas. Cadernos PUC no. 16. São Paulo: Educ/Cortez, 1983.

SMITH, Frank. Leitura Significativa. Porto Alegre. Artmed:1999

YUNES, Eliana. A Leitura e o despertar do prazer de ler. Leitura: Teoria & Prática, no. 6. ALB. Mercado Aberto. Campinas: 1985.

 
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