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  PEDAGOGIA FREINET : UMA POSSIBILIDADE DE TRABALHO

Inês Lopes Secco Assunção - Prefeitura Municipal de Campinas - SME - Secretaria Municipal de Campinas

Sempre me questionei sobre a minha postura enquanto Educadora frente às crianças, e por isso sempre estive aberta às novas propostas de trabalho.
Há 12 anos trabalho na Educação Infantil com Agrupamento III (crianças de 4 a 6 anos), atualmente na Emei Casinha Feliz a qual, funciona em um barracão da Sociedade Amigos de Bairro localizado no Jardim Esmeraldina, não tendo infra-estrutura para o funcionamento de uma escola.
Sempre atuei em escolas que possuíam ótima infra-estrutura, com vários ambientes para serem explorados pelas crianças (casinha de boneca, prédio próprio para biblioteca, quiosque para realização de culinárias, entre outros).
No ano de 2001, vim para esta Unidade, ao chegar tive um susto pois, o barracão era dividido por biombos e, a permanência de duas turmas neste mesmo ambiente era humanamente impossível ( excesso de barulho) e o revezamento para o uso da sala era necessário, isto sempre me deixou preocupada em relação tanto ao desenvolvimento cognitivo como , o afetivo das crianças.
Em muitos momentos desenvolvemos atividades de socialização e integração com a outra turma mas, tudo isto não me satisfazia porque não tinha uma contextualização e fundamentação teórica.
Foi então que tive conhecimento da Pedagogia Freinet, através de um curso fornecido pela Secretaria Municipal de Educação de Campinas no ano de 2003 que mesmo não tendo participado pude tomar conhecimento dos seus princípios através da Professora Laís,que trabalha no mesmo período que eu.
O seu entusiasmo com esta nova proposta, contagiou a todos nós da Emei assim como, toda a Equipe Escolar que se mostrou-se disposta a nos auxiliar em tudo o que fosse necessário.
Ao iniciar esta proposta pedagógica, não sentia tanta segurança naquilo que estava fazendo pois, não era simplesmente uma mudança de proposta e sim uma mudança de postura em sala de aula. Mas o incentivo e o respaldo, tanto da Equipe Escolar como principalmente da Profª Laís, me fizeram ver e compreender o quanto esta proposta é prazerosa para as crianças.
O primeiro passo foi a mudança da disposição das prateleiras e dos materiais que, ficaram ao alcance das crianças. Aos poucos nossa sala de aula foi transformando-se em diferentes Ateliês aos quais, a criança teria plena liberdade de escolha.
A roda da conversa é um momento proposto na Pedagogia Frenetiana para a livre-expressão de modo que cada criança tenha oportunidade de manifestar suas ideais, opiniões e sentimentos. Este é o momento da aula de reunião com toda a turma, é neste espaço que planejamos o nosso dia, os combinados a serem cumpridos pela turma. É também um espaço de discussão dos conteúdos a serem trabalhados. A escolha e seleção dos conteúdos podem partir de um relato, de um interesse demonstrado, de uma hipótese levantada durante essas conversas na roda.
Foi o que aconteceu, por exemplo, com a visita do Hamster que o aluno da outra turma trouxe para a nossa roda, a partir disto, desenvolvemos pesquisa sobre diferentes espécies de animais, álbum de animais, caça-palavras, etc...
Com a seleção dos conteúdos são desenvolvidas várias atividades práticas como: produção de texto coletivo, leitura de histórias, produção de livros com histórias contadas e ilustradas pelas crianças, e demais atividades previstas para esta faixa etária, toda a produção de histórias depois encadernadas e ilustradas, vão para o Ateliê da leitura onde, todos têm acesso a eles.
Nesta proposta pedagógica as intervenções das crianças me permitem estabelecer uma relação entre problemas, situações cotidianas e os conteúdos programáticos.
O Jornal de Parede é um instrumento adotado para tentar resolver certas situações cotidianas enfrentadas na sala de aula. Nele as crianças podem Criticar, Felicitar, Propor ou Querer saber alguma coisa, funcionando da seguinte forma:
- escolhemos um dia na semana para ser lido as críticas, as felicitações e tudo o que houver nele ;
- na roda da conversa, todas as crianças têm conhecimento de quem criticou, felicitou e quem foi criticado, felicitado;
- após a leitura os envolvidos têm o direito a falar sobre o acontecido e esclarecer a sua atitude.
Para isto as crianças utilizam o desenho como forma de expressão e eu tenho a função de escrever o que elas desenharam e para quem, para que depois seja lido na roda da conversa, discutido e, se possível resolvido.
Uma proposta muito interessante surgiu do Jornal de Parede da outra turma e que, nossa turma também gostou.
Estávamos próximo do final de ano, as meninas propuseram a confecção de bolsinhas e os meninos de carteira como presente mas, surgiu um problema, onde arrumar dinheiro para a compra do material ?
Aproveitando a chegada do Natal, resolvemos confeccionar cartões e vendê-los ao preço de R$1,00 para os pais, revertendo toda arrecadação para a compra dos materiais necessários para a confecção das bolsas e das carteiras.
Trouxemos (professoras e alunos) várias sugestões de cartões, diferentes tipos de materiais, de técnicas de pintura para que as crianças pudessem escolher para a realização da atividade proposta, trabalhamos em conjunto com a outra Turma, pois tínhamos um único objetivo.
Tal foi a minha surpresa com a dedicação e o capricho das crianças na confecção dos cartões. Ficaram lindos, conseguimos um grande número de cartões e a nossa venda foi um sucesso.
Após termos adquirido todo o material necessário, iniciamos a confecção das bolsas e das carteiras, pude observar o quanto as crianças estavam dando valor naquele momento pois, conseguiram com recursos próprios, realizar um objetivo proposto.
Outra proposta em conjunto com o Pré foi a confecção de almofadas para o Ateliê da leitura, as crianças sugeriram devido ao nosso Ateliê só ter um tapete que não era confortável para ser utilizado. A nossa turma optou em fazer fuxico (já estávamos trabalhando) e depois costurar na almofada e a turma do Pré optaram por fazer uma pintura em um tecido de algodão cru e costurar também na almofada.
Na Pedagogia Freinet as atividades cooperativas, permitem reduzir a dependência das crianças para com o adulto, multiplicando as relações entre as crianças de diferentes idades, facilitando assim o ensino-aprendizagem das mesmas.
A sala de aula tornou-se um lugar onde as experiências são possíveis e os projetos comuns são realizados, as crianças aprendem interagindo umas com as outras solidariamente e cooperativamente.
Estes são exemplos de atividades que surgiram do Jornal de Parede e, tanto eu como a Profª da outra turma, compartilhamos a fim de unirmos as turmas em um só objetivo, isto faz com que algumas aulas se tornem mais dinâmicas do que já são.
As criações de novos Ateliês seguem o interesse das crianças. Um de que elas gostam muito que é o da Culinária, neste Ateliê trabalhamos vários conteúdos como, por exemplo: noções básicas de higiene, a escrita da receita, a matemática, o ensino da utilização e do material de forma adequada.
Para este ateliê, procuro receitas simples as quais, as crianças têm condições de estar preparando pois, o prazer das mesmas estão em preparar, provar e comer, sempre tendo o objetivo de trazer isto para os outros Ateliês.
Como forma de registrar todos estes momentos utilizo o Livro da Vida no qual, as crianças de maneira coletiva ditam o que deve ser registrado, geralmente é o que acontece de diferente no dia, as atividades desenvolvidas.
Quando é permitida a criança expressar suas observações do cotidiano escolar, notamos o quanto elas se tornam críticas, pude constatar isto em um momento de registro no Livro da Vida, onde uma aluna fez uma crítica às pessoas que fumam e jogam o cigarro dentro da Escola.
Colocamos em discussão e, cada criança sugeriu uma forma de resolver o problema, entre algumas destas sugestões foram:
- conversar com cada pai ou mãe que fuma;
- prender quem faz isto;
- cobrar uma multa.
Meu papel foi, intermediar estas sugestões dizendo e também sugerindo o que era possível fazer. Resolvemos fazer um cartaz coletivamente e colocá-lo no portão da escola onde, todos poderiam estar lendo.
A avaliação é feita ao final da aula também na roda da conversa onde, as crianças de forma individual relatam por qual Ateliê passaram, anoto em um cartaz que contém o nome de todas as crianças e todos os Ateliês disponíveis na sala, que fica visível a todos.
Depois transcrevo para a ficha individual das crianças bimestralmente, além de ter o registro do número de vezes que a criança passa pelos Ateliês, com a conclusão ou não das atividades propostas, contêm também observações do desenvolvimento de cada criança, sua socialização, e tudo que julgar que seja necessário.
O registro da avaliação é feito desta forma por se tratar de crianças de pouca idade, mas para as crianças maiores a proposta é que cada um anote em sua própria ficha individual, não tendo a necessidade de fazer no coletivo.
Nesta proposta, as minhas aulas que antes eram expositivas tornaram-se dispensáveis, pois é possível trabalhar os conteúdos respeitando o ritmo de cada criança, o seu envolvimento em diferentes atividades, a seu interesse.
Este é um relato, em que espero ter conseguido revelar um pouco da minha experiência enquanto educadora compromissada com o ensino-aprendizagem das crianças.

“De tal modo é grande o leque das técnicas libertadoras que nós propomos que todas as esperanças são permitidas a favor da libertação da criança por si mesma, sob a autoridade fraterna do professor, que sabe que a melhor arte de ensinar é aquela que proporciona uma arte de viver. (Freinet, Celestian, A saúde mental da criança, 1978, pág. 69)

BIBLIOGRAFIA

DOSSIÊ Pedagógico da Revista L’Educateur.10/09/79.Publicação do Instituto Cooperativo da Escola Moderna (ICEM – França),Tradução de Ruth Joffily.

FERREIRA, Gláucia de Melo (Org.).Palavra de Professor (a): tateios e reflexões na Prática da Pedagogia Freinet.Campinas – SP, Mercado de Letras, 2003.

FREIRE, Madalena. A paixão de conhecer o mundo: relatos de uma professora.Rio De Janeiro. Paz e Terra, 1983, págs 43 à 70.

______, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa.São
Paulo. Paz e Terra, 1997

FREINET, Célestin. A saúde mental da criança. Lisboa: Edições 70 Persona, 1978.

 
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