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O SILENCIAMENTO NA CONSTRUÇÃO DE SENTIDOS: UMA ANÁLISE DE TEXTOS JORNALÍSTICOS DURANTE A SEGUNDA GUERRA MUNDIA

Carmem Daniella Spínola da Hora Avelino - Universidade Federal do Rio Grande do Norte
Adriano Lopes Gomes (orientador)

1. APRESENTAÇÃO

O trabalho que ora apresentamos faz uma análise do papel da imprensa potiguar durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945) e tem como objetivo analisar a cobertura do conflito por um dos principais jornais impressos da cidade do Natal (RN/Brasil) – “A República”, hoje sem circulação, evidenciando o silenciamento como estratégia discursiva no texto, em especial, no texto jornalístico. Neste artigo, partiremos da análise de notícias publicadas no jornal “A República”, que circulou entre 1889 a 1987 com algumas interrupções, durante a Segunda Guerra, evento que marcou a cidade do Natal sob diversos aspectos.
Conchavos políticos e troca de favores determinaram a tomada de posição do Brasil em relação à Guerra, ao longo do desenrolar do conflito. Órgão estatal, “A República” acabava por “dançar” numa ciranda de sentidos, isto é, o enquadramento da cobertura noticiosa do jornal seguia a determinação política do Governo brasileiro face aos acordos engendrados pelas conveniências do então Presidente da República, Getúlio Dorneles Vargas.
Desta feita, identificamos, a priori, no decorrer dos seis anos do conflito mundial, três importantes e distintas formações discursivas incorporadas pelo jornal em estudo, as quais caracterizam essas mudanças no posicionamento do Brasil quanto à Guerra. São elas: o discurso pró-germânico, quando da eclosão do conflito na Europa, uma vez que Vargas acabara de instaurar no Brasil a ditadura do Estado Novo, nos moldes do nazi-fascismo; o discurso da “neutralidade”, caracterizado pela aproximação simultânea do Governo brasileiro com Estados Unidos e Alemanha; e, o discurso pró-americano ou anti-eixista, quando o Brasil rompe em definitivo com os países formadores da chamada Tríplice Aliança/Eixo, Alemanha, Itália e Japão, passando a integrar o bloco dos Aliados, liderado pelos Estados Unidos.
Nesta análise, constituímos como corpus de estudo as notícias publicadas pelo jornal “A República”, no período de 1942 a 1943, uma vez que nesse recorte de tempo aconteceram os fatos mais relevantes da participação de Natal na Segunda Guerra. Entretanto, para efeito de compreensão do fenômeno analisado, vamos nos deter nas ocorrências mais representativas da cobertura noticiosa do rompimento político do Brasil com os países do Eixo, que culminou com a entrada oficial do país no bloco dos Aliados, fato ocorrido em 1942.
No sentido de atender ao objetivo proposto para a realização deste trabalho, caracterizamos nossa pesquisa como qualitativa. Para tanto, nossa amostra de coleta será baseada em documentação histórica, constituída por textos noticiosos do jornal “A República”, por ter sido este o principal jornal natalense no período da Segunda Guerra Mundial.
Temos a intenção de desvendar o cenário em que eram produzidas essas notícias: as rotinas de produção desse noticiário, o discurso em que se apoiavam os textos noticiosos e suas implicações na interpretação crítica da realidade pelo leitor do jornal, que daí decorre, trazendo à tona uma reflexão: sendo o jornal uma fonte documental, que história é essa, parcial e ideológica, que está sendo contada às gerações posteriores ao conflito mundial?
Partimos de três questões de pesquisa: a cobertura da Segunda Guerra pelo jornal “A República” tinha como objetivo a manutenção do discurso dominante do Estado. As notícias publicadas pelo jornal representavam a parcialidade do discurso jornalístico; e, sendo imprensa oficial “A República” adotou o silenciamento como prática discursiva, cujas implicações recaiam sobre o modo de agir e pensar da sociedade, à época, influenciando o leitor na construção da própria realidade.
Dessa forma, intitulamos este artigo “O silenciamento no texto jornalístico e a construção social da realidade”, uma vez que, segundo Orlandi (1995), como estratégia discursiva, o silenciamento diz, significa; portanto, ainda que imaterializado no texto, produz sentidos, promove discursos, ratifica ideologias.
Ao traçar esse paralelo, partimos do pressuposto de que à atividade jornalística delega-se a competência de atribuir sentidos aos acontecimentos. Partindo do conceito mais amplo de silenciamento, abordaremos de que forma essa estratégia lingüística se apresenta no texto jornalístico e que implicações acarreta para a sociedade.

2. SOBRE SILENCIAMENTO: “A REPÚBLICA” NA CIRANDA DOS SENTIDOS

Desde a criação do Departamento de Imprensa e Propaganda – DIP –, por decreto do presidente Getúlio Vargas, em 1939, o Estado assumiu como tarefa o controle sistemático dos meios de comunicação social disponíveis. Propaganda e censura eram vistas como armas de que o Estado Novo dispunha para manter a unidade ideológica da nação.
Inicialmente, o governo determinava que a imprensa e o rádio permanecessem neutros ao divulgar notícias sobre a guerra. Tendo um novo posicionamento internacional, o Brasil passa a permitir, cada vez mais, a influência dos Estados Unidos sobre os meios de comunicação do país. Assim, é deflagrada uma propaganda sistemática contra a ideologia e os países do Eixo e os veículos de comunicação brasileiros passam a ser “abastecidos” com propaganda norte-americana. Tem início a disseminação do american way of life.
Em 1939, havia em Natal três jornais: “O Diário”, criado por jovens jornalistas em função da guerra; “A Ordem”, da imprensa católica; e, “A República” (CASCUDO, 1980). Fundado por Pedro Velho de Albuquerque Maranhão, o jornal “A República”, porta-voz das idéias republicanas no Estado, circulou pela primeira vez em 1° de julho de 1889. Meses depois, com a proclamação da República e aclamação de Pedro Velho governador provisório do Estado, “A República” tornou-se veiculador dos atos oficiais do governo. Nascia, assim, a imprensa oficial no Rio Grande do Norte (FERNANDES, 1998:79). Apenas em 28 de janeiro de 1928, o governador Juvenal Lamartine de Faria criaria a “Imprensa Oficial do RN”, instituindo “A República” como órgão oficial do Estado.
No ano de 1941 o jornal passou à direção do recém-criado Departamento Estadual de Imprensa e Propaganda - DEIP, dirigido por Edílson Cid Varela. Diário matutino, o jornal, nesse período, tinha duas colunas fixas sobre o conflito mundial: “Noticiário da Guerra”, com notícias de agências de Nova Iorque, Moscou e Londres; e, “Notícias de Última Hora”, vindas da Agência Nacional, do Rio de Janeiro, então capital do país. Nessa época, o jornal encartava o “Diário Oficial do Estado”, com editais e informes dos órgãos públicos e ações do Interventor Federal.
O noticiário da guerra vinha sempre em destaque na primeira e última páginas do jornal, mas quando intensificou-se a participação do Brasil e, por extensão, de Natal, no conflito, mais espaço foi dado às informações referentes ao tema, fossem elas matérias ou pequenas notas, oriundas de agências noticiosas nacionais e do exterior ou produzidas em Natal; artigos, assinados ou não; avisos sobre os exercícios de guerra na cidade, campanhas nacionalistas de apelo ao patriotismo, entre outros temas.
O jornal, nesse período da cobertura do conflito, centrava seu noticiário em três vertentes: a propagação do ufanismo exacerbado, enaltecendo a figura do presidente Getúlio Vargas como grande defensor da nação; a tomada de posição favorável aos países que compunham o bloco dos Aliados, liderados pelos Estados Unidos; e, a difusão do ódio aos países formadores do Eixo.
Nos textos analisados mais à frente, percebe-se a parcialidade do jornal no trato das notícias sobre a Guerra, a partir da produção de um discurso voltado unicamente para a manutenção de um status quo.
Através do que foi dito é sempre possível se chegar ao não dito, que muitas vezes apresenta-se de forma velada no discurso. Segundo Orlandi (1993:63), com ou sem palavras, o silêncio determina os processos de significação, trabalhando os limites das formações discursivas e determinando os limites do não-dizer.
Dentre as formas descritas pela autora pelas quais esse silêncio se apresenta está o silenciamento ou “a política do silêncio”, uma linha tênue entre o que se diz e o que não se diz, ou melhor se diz “x” para não se dizer “y” (Ibid.:76). A autora explica que esse “não-dizer” está ligado à determinação histórica e à ideologia. Essas diferentes formas do silêncio se movem nos processos de construção de sentidos e, quando chegamos ao campo político, encontramos um aspecto que é o da relação entre verdade e falsidade na linguagem (Ibid.:98). Os mecanismos ideológicos produzem efeitos no campo do imaginário e acabam por gerar uma ilusão de unidade, de discurso consensual.

“(...) estando os sujeitos condenados a significar, a interpretação é sempre regida por condições de produção específicas que, no entanto, aparecem como universais e eternas, daí resultando a impressão do sentido único e verdadeiro”. (Ibid.:100).

Observamos isso claramente quando nos deparamos com a cobertura jornalística do periódico “A República”. No caso do trato das notícias referentes à Segunda Guerra, vê-se uma cobertura desigual do conflito, que deu relevância às fontes e notícias que apoiavam a operação militar defendida pelos Aliados e silenciou as vozes da oposição, as vozes alternativas (TRAQUINA, 2003: 147).
Traquina (2000), ao analisar a cobertura da Guerra do Golfo (1990-1991), afirma que essas estratégias de silenciamento deram ao Estado uma oportunidade para definir a crise nos seus próprios termos e (garantiu) que poucas mensagens dissonantes pudessem intervir para minar o enquadramento jornalístico resultante (Ibid.:104). Não foi diferente a manipulação do noticiário da Segunda Guerra.
O enquadramento da mídia é constituído por elementos utilizados nas rotinas produtivas da empresa jornalística para organizar seu discurso (GITLIN apud PORTO, 1998). São esses elementos que irão determinar a interpretação do relato jornalístico. No entanto, o enquadramento (seja ele gerado pelo jornalista ou pela fonte) não organiza o discurso apenas para os jornalistas, também tem influência na construção de sentidos do público, na percepção que este terá da realidade. São essas estratégias de silenciamento, carregadas de sentidos ideológicos, que identificamos.
Como poderemos notar nas análises que se seguem, as notícias publicadas pelo jornal “A República” têm uma dependência na ação ideológica, ou seja, as notícias são originadas por forças de interesse que dão coesão aos grupos, seja esse interesse consciente e assumido ou não, segundo afirma Sousa (1999).
Para efeito de contextualização deste trabalho, serão analisadas algumas notícias publicadas em dias anteriores e/ou posteriores à data em que se deram os acontecimentos situados no recorte temporal exposto anteriormente, configurando, assim, os mecanismos de agendamento das rotinas sociais e políticas instauradas pelo jornalismo potiguar. No que diz respeito aos aspectos metodológicos, vamos nos deter no conteúdo noticioso do jornal e nos apropriar de alguns elementos da análise do discurso. Para tanto, destacaremos a ocorrência mais significativa do episódio em estudo, relativo à tomada de posição do Brasil ao lado dos Aliados -, seguida de uma análise geral.

2.1. ANÁLISE DO EPISÓDIO

As ocorrências desse episódio correspondem ao período de 06 de janeiro a 1º de fevereiro de 1942, sendo analisadas, ao todo, 22 matérias. A seguir, apresentamos as análises de algumas dessas ocorrências.
Na edição do dia 15 de janeiro de 1942 – página 1, observamos a seguinte manchete: “Todas as emissoras nacionais retransmitirão, hoje, às 17,30 (sic), o discurso que o presidente Getúlio Vargas proferirá na abertura da Terceira Reunião dos Chanceleres Americanos”. Essa notícia abordou, como ocorrência, os preparativos para abertura da Conferência dos Chanceleres, no Rio de Janeiro.
Ao analisarmos esse episódio, podemos observar que “A República” começou a noticiar os preparativos para a Conferência na edição do dia 6 de janeiro. A grande maioria delas era transmitida pela Agência Nacional e chegava à redação do jornal natalense via serviço telegráfico, o que obrigava sua divulgação com um ou dois dias de atraso, uma “notícia quente” para a época. Nessa edição, em especial, por ser o dia da abertura do evento, o jornal publicou pequenas matérias que apareciam como uma espécie de retranca da matéria principal. Eram elas: “Grande manifestação das classes trabalhadoras”, “Impressões de um jornalista americano”, “A declaração de guerra apoiada por 19 países”, “Despesas com a Conferência”, “Declarações do Sr. Garibaldi Dantas, da Agência Nacional”, “Importantes declarações do chanceler uruguaio”.
A partir da cobertura desse episódio, crucial para a entrada do Brasil na Segunda Guerra, podemos observar que os textos das matérias apresentam-se altamente subjetivos, assemelhando-se a editoriais, no que concerne à tomada explícita de posição sobre um determinado acontecimento. A questão da subjetividade, do ponto de vista de um discurso ideológico, permeia todo o noticiário analisado.
Idealizadas pelos Estados Unidos, com o intuito de promover a unidade da América, as conferências pan-americanas chegariam ao seu ápice com a realização da Reunião na capital brasileira. Vargas, até então, mantinha uma posição de neutralidade, mas deixava transparecer, em certas ocasiões, sua simpatia pelas potências do Eixo – Alemanha, Itália e Japão. Ao mesmo tempo, sabia o quanto valia, política e economicamente, o seu apoio incondicional aos Estados Unidos. A reunião no Rio fez com que o mundo voltasse os olhos para o Brasil, esperando o momento em que o país, considerado fundamental para a defesa do continente, declarasse o rompimento de suas relações com o Eixo.
O governo brasileiro romperia com o Eixo mais pelas questões de ordem política e econômica referentes às suas relações com os Estados Unidos do que por “diferenças” com as potências eixistas, apesar de sentir-se indiretamente “ferido” pelo ataque japonês a Pearl Harbor, em dezembro de 1941. Isso fica claro pelas longas negociações feitas entre o Brasil e os Estados Unidos, até que aquele saísse de seu estado de neutralidade.
Mas, esses pormenores em torno da tomada de posição do governo brasileiro não eram noticiados pela imprensa. As notícias relacionadas aos acontecimentos decorrentes da Conferência do Rio eram focadas na figura de Getúlio Vargas como um americano solidário e preocupado com a defesa do continente e, portanto, merecedor de elogios; e, nos Estados Unidos, como nação ferida e com carta branca para retaliação.
Esse é o caso da matéria “Considerações sobre a posição do Brasil”, produzida no dia 16 de janeiro de 1942, antes do esperado discurso de Vargas, a partir de uma entrevista do ministro das Relações Exteriores, Oswaldo Aranha. A referida matéria procura antecipar a fala do presidente, já denotando o forte apelo ao nacionalismo continental, como também à repulsa aos eixistas. Vê-se o discurso ideológico do Estado, assumido abertamente pelo jornal. É interessante observar, ainda, como o jornal se coloca e coloca o governo, mais precisamente o presidente Vargas, numa posição de “defensores dos anseios da nação”.

“(...) É este o pensamento brasileiro em face da conferência. É esse o pensamento que o presidente Getúlio Vargas mais uma vez acentuará no discurso que hoje será feito, com seu claro estilo oratório que sempre define com serenidade e prudência os anseios e as necessidades do Brasil”.

Nessa mesma matéria, o jornal apresenta o texto integral do discurso de Vargas, proferido na abertura da Reunião dos Chanceleres. Esse discurso vai nortear, a partir desse momento, a posição das autoridades constituídas e as instituições estatais, incluindo a imprensa, em relação a acontecimentos que se seguirão.
A Conferência foi encerrada no dia 27 de janeiro, mas até o início do mês de fevereiro, ainda eram publicadas notícias acerca da repercussão dos discursos de Vargas (na abertura da Reunião e na Associação Brasileira de Imprensa – ABI) e do ministro Oswaldo Aranha (quando do rompimento do Brasil com o Eixo e no encerramento da Conferência).

2.2. ANÁLISE GERAL

No período da Segunda Guerra, o país vivia sob a égide do Estado Novo. A imprensa estava sujeita ao controle direto do governo, através do DIP e, no caso de Natal, do DEIP, organismos de censura que decidiam o que deveria ou não ser publicado. É o que Sousa (1999) chama de monopolização da “verdade” pelo poder estatal.
Sobre essa ação ideológica do Estado, Chauí (2001) coloca:

“O Estado aparece como a realização do interesse geral (por isso Hegel dizia que o Estado era a universalidade da vida social), mas, na realidade, ele é a forma pela qual os interesses da parte mais forte e poderosa da sociedade (a classe dos proprietários) ganham a aparência de interesses de toda sociedade”. (CHAUÍ, 2001: 65)

Para Orlandi (1996), é através desses mecanismos de falso consenso, ideológicos portanto, que são constituídos sentidos aos quais nos filiamos.
O discurso é a palavra em movimento, prática da linguagem, de acordo com Orlandi (op. cit.). Para a autora, o discurso não é a fala em si, mas a materialização da relação entre a ideologia e a lingüística. Ao pensarmos no tema deste artigo, percebemos que o discurso jornalístico é mais complexo, principalmente se o observamos do ponto de vista da linguagem, uma vez que apresenta formas discursivas imaterializadas, mas que carregam as marcas ideológicas construídas a partir das rotinas produtivas de cada veículo de comunicação.
O fato de ser um órgão oficial e pela sua distância das fontes geradoras das notícias fazia com que “A República” fosse dependente da Agência Nacional – a fonte institucionalizada de notícias da época. Para Sousa (Ibid.) as organizações noticiosas – no caso deste trabalho, o DIP, através da Agência Nacional –, diante dos fatos imprevisíveis, tendem a impor alguma ordem ao tempo, caracterizada pelo serviço de agendamento – agenda-settting . Dessa forma, determinam o que deve ser noticiado, quando e como, ou seja, agendam os assuntos aos quais o público, neste caso, o leitor, deve ter acesso.
Controlada pelo DIP, a Agência Nacional selecionava, filtrava as notícias que deveriam ou não ser veiculadas, tudo isso baseada nos seus sistemas informativos, as rotinas organizadas na coleta de informações que revelam o tipo de acontecimento no qual determinado veículo de comunicação concentra os temas do seu noticiário. No caso do nosso trabalho, a temática em evidência era a Segunda Guerra: seus personagens, suas causas e conseqüências sobre o cenário sócio-político mundial.
No que se refere à utilização das fontes, constatamos que o fato de serem utilizadas quase sempre fontes “oficiais”, a manipulação das notícias era muito maior. Esse espaço jornalístico, no entanto, era restrito a uns poucos protagonistas, como o presidente da República e seus ministros. No caso do jornal “A República”, as fontes oficiais eram usadas para validar, autenticar, as notícias publicadas em detrimento de quem as produzia.
Os media têm um papel determinante no que se refere a dizer aos seus próprios leitores sobre o que pensar. O mundo parece diferente a pessoas diferentes, dependendo do mapa que lhes é desenhado pelos redatores, editores e diretores do jornal que lêem (TRAQUINA, 2000:17). A imprensa teria, assim, o poder de interferir na atribuição de sentidos da realidade do seu leitor. Orlandi (1993:105) aponta a utilização dessa forma de silêncio não como uma maneira de calar o interlocutor, mas de impedi-lo de sustentar outro discurso. Como já foi dito anteriormente: fala-se para não (deixar) dizer (Ibid.: 77).
Essa relação entre os meios de comunicação e a opinião pública foi tratada pela socióloga alemã Elisabeth Noelle-Neumann, que propôs, em 1973, a teoria da espiral do silêncio. De acordo com Sousa (1999), Noelle-Neumann aponta que os meios de comunicação tendem a consagrar mais espaço às opiniões dominantes, reforçando-as, consensualizando-as e contribuindo para “calar” as minorias pelo isolamento (Ibid.). Na verdade, os veículos de comunicação fazem com que essas opiniões pareçam dominantes ou até consensuais quando de facto não o são (Ibid.).
É válido ressaltar que a grande maioria do público, quando confrontada com a notícia, não atenta para fatores como a relação entre jornalistas e os acontecimentos e as pessoas nestes envolvidas, a seleção e hierarquização dos elementos expostos nos enunciados jornalísticos, como também na escolha de termos nos discursos jornalísticos que pressupõem, por si só, a existência de critérios e juízos de valor.
Utilizando essas estratégias, “A República” acabava por transmitir ao seu público uma realidade fragmentada, sustentada por um senão de elementos não-verbais, cujas marcas passariam despercebidas até pelo leitor mais atento, uma vez que subjazem ao texto. A produção noticiosa do periódico contribuiu, assim, para direcionar a construção da realidade pelo público perante o cenário social, político e cultural da época.

3. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Em 1939, quando a eclodiu a Segunda Guerra na Europa, o Brasil recebia as notícias do conflito com indiferença. Vivendo sob o regime do Estado Novo, instituído no país por Vargas dois anos antes, a população brasileira estava cerceada em sua liberdade pessoal e seus direitos (FALCÃO, 1999: 16).
Os órgãos de imprensa estavam sob o domínio total do Estado, controle exercido legalmente pelo DIP, através do decreto 1.949 . O DIP possuía, ainda, outros mecanismos de pressão, como a concessão de isenções fiscais, favores e subvenção aos jornais. O fornecimento de papel, por exemplo, estava estreitamente relacionado a esse tipo de manipulação, uma vez que a maior parte do material era importada pelo governo, que vendia o produto aos jornais com preço subvencionado. O corte da subvenção era uma das ferramentas de pressão usadas contra os veículos que não se adequavam ao comando do DIP.
No auge da Segunda Guerra, em 1942, quando o Brasil rompe relações com o Eixo, e, meses depois, Natal se torna uma das principais bases militares norte-americanas, o jornal natalense “A República” caracterizou-se como um porta-voz das forças aliadas. Seu discurso propagava o ufanismo exacerbado, o apoio aos Estados Unidos e a repulsa à Tríplice Aliança – o Eixo – formada por Alemanha, Itália e Japão. O jornal tinha como princípio norteador a legitimação do poder simbólico exercido pelo Estado e sua cobertura informativa se caracterizava pela “cobertura” dos interesses dos poderes instituídos.
O espaço público jornalístico era essencialmente ocupado por um seleto grupo de protagonistas - as autoridades civis e militares da época. As notícias tinham sempre o caráter de comunicado oficial e raramente os jornalistas locais produziam grandes reportagens ou entrevistas com essas personagens, instaladas ou de passagem pela cidade. Ainda menos – ou nunca – se via a presença de vozes alternativas (cidadãos comuns, por exemplo) no noticiário. Em relação aos fatos ocorridos em Natal, podemos destacar o célebre encontro entre os presidentes Vargas e Roosevelt, em 1943, quando o jornal esperou dois dias até que fosse publicada uma matéria sobre o evento, produzida pela Agência Nacional.
Centrado nessas fontes representantes do poder vigente e aceitando as interpretações “oficiais” dos acontecimentos, o jornal acabava por servir a uma hegemonia que não necessitava recorrer à coerção, no sentido do exercício de sua autoridade, uma vez que as próprias notícias tinham as marcas dessa hegemonia.


4. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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Jornais

A ORDEM. Edição de 29 de janeiro de 1943. Exemplar pertencente ao Instituto Histórico e Geográfico do RN. 1º semestre de 1943.

A REPÚBLICA. Coleção pertencente ao Instituto Histórico e Geográfico do RN. 1º e 2º semestres de 1942 e 1º semestre de 1943.

 
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