Voltar    
  ORIENTAÇÃO SEXUAL: UMA LEITURA CRÍTICA.

André Luiz dos Santos Barbosa - UNIRIO

A sociedade brasileira é caracterizada pela imensa desigualdade social. Como tal apresenta-se dividida em grupos sociais que têm participação nas decisões de forma assimétrica na divisão social dos bens produzidos, quer bens de mercado, quer culturais. Em outras palavras, a sociedade brasileira é marcada pelas tensões existentes entre a minoria detentora dos poderes e saberes e uma maioria portadora de saberes "desqualificados". Assim, a formação multipluricultural da sociedade brasileira exacerba tais tensões, exigindo que as políticas públicas se acrescentem como veículo de afirmação da diversidade cultural (crenças, costumes, valores éticos...). Considerando-se a economia como fator relevante em uma sociedade que se pauta pela produção e o consumo de bens e serviços e que coloca em segundo plano outras dimensões da vida humana, origem dessas tensões, espera-se e assim se revela na prática social, que os interesses desses grupos sociais (dominantes e dominados) sejam antagônicos, fator que, na maioria das vezes, dá origem a valores éticos também antagônicos. A educação não deve ignorar o antagonismo desses interesses, e se se pretende co-partícipe no processo de democratização da sociedade, necessita se posicionar politicamente em favor dos oprimidos de modo a contribuir no sentido de reverter o típico quadro de exploração pessoal e coletiva. Diante das redes em que proliferam discursos plenos em saberes e poderes de dominação e controle social no Brasil a SEDIAE / MEC -Secretaria de Desenvolvimento e Avaliação Educacional, do Ministério da Educação, revisa o processo educacional do país, enfatizando os discursos da qualidade de ensino e da aprendizagem nos tempos de globalização econômica e cultural. Com esse discurso, esta secretaria de governo lança os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs) como um projeto de centralização curricular, não obstante ao enfatizar a flexibilidade proposta diga-se respeitoso às diferentes culturas das diversas regiões do país. Entre as inovações sugeri das encontramos as propostas de "transversalidade" (?) situadas nos denominados temas transversais Etica, Saúde, Meio Ambiente, Pluralidade Cultural, Orientação Sexual, Trabalho e Consumo. Um projeto que se pressupõe impactante em todas as escolas do Brasil deve ser analisado em função dos efeitos político-sociais que pode causar; afinal é o destino de nossa constituição social que está em jogo. Por considerar-se que, ao longo dos últimos séculos, as abordagens dadas à sexualidade sempre estiveram relacionadas com a manutenção mais que a superação do poder, chegando-se a trabalhar com a hipótese da repressão sexual vitoriana ter propiciado a instauração do modo capitalista de produção, destinamo-nos a investigar se as possibilidades de repercussões políticas da inserção do tema transversal Orientação Sexual no ensino fundamental das escolas brasileiras tendem para o processo de democratização do Brasil, ou seja, se seus tecidos, emendas e remendos compreendidos em sua efetividade, propiciam a transformação das ações educativas em tomo do sexual que demandam a superação das as simetrias e desigualdades encontradas no cenário multipluricultural da sociedade brasileira. Parte-se da hipótese de que o comprometimento dessa abordagem da sexualidade não contribua com o processo de democratização brasileiro. Na busca da confirmação dessa hipótese, faz-se uma investigação descritiva no Documento de Introdução aos Parâmetros Curriculares Nacionais e no Documento de Convívio Social e Ética relativo ao tema transversal Orientação Sexual, sustentada em pesquisa bibliográfica que relaciona a educação, a sexualidade e o poder em uma articulação proposital à tendência critico social dos conteúdos. A relação entre a educação e o poder encontra-se, como veremos, fundamentada na teoria que sustenta a tendência pedagógica critico-social dos conteúdos, que afirma ter a educação um comprometimento com o processo democratizante da sociedade, e que desempenha essa função difundindo entre a classe dominada os conteúdos universais e autônomos relevantes à prática social e sua superação. A relação entre a sexualidade e o poder encontra-se fundamentada no discurso de Michel Foucault, que apontou a possibilidade da incitação de discursos sobre a sexualidade ser uma nova forma de controle, controle este que até então era considerado apenas quando se apresentava sob a forma de silêncio. A relação entre educação e sexualidade encontra-se ainda em Michel Foucault para quem os valores éticos têm prevalência nas mudanças de concepção da temática envolvida quando a entende como dispositivo disciplinar de controle social dos corpos, das mentes e da alma. Foucault investe na crítica aos trabalhos dos sexólogos por considerar a sexologia uma dimensão biologizante da sexualidade e, portanto, investida de saberes e poderes de dominação fundamentada no discurso da biologia e da reprodução. Ao identificarmos elementos comprometidos com a reprodução do modo de produção capitalista e discursos contraditórios em relação às demais diferenças sexuais sempre ocultadas, acreditamos estar contribuindo para a sua refonnulação, caso seu real objetivo seja a democratização da sociedade brasileira, quando não, chamando a atenção dos professores brasileiros que têm esse objetivo para a criticidade com que devem receber esses PCNs. Os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs) constituem um referencial para fomentar a reflexão sobre os currículos estaduais e municipais, a qual já vem ocorrendo em diversos locais. Sua função é orientar e garantir a coerência das políticas de melhoria da qualidade de ensino, socializando discussões, pesquisas e recomendações, subsidiando a participação de técnicos e professores brasileiros, principalmente daqueles que se encontram mais isolados, com menor contato com a produção pedagógica atual.(BRASIL,1996, p6) Assim, encontram-se apresentados os Parâmetros Curriculares Nacionais que contêm entre seus temas transversais a Orientação Sexual, objeto dessa análise. Para que se identifique seu entendimento sobre "a melhoria da qualidade de ensino", faz-se necessário conhecer seus objetivos e confrontá-los com os objetivos educacionais de uma tendência pedagógica progressista. A seguir, o objetivo apresentado: O conjunto das proposições expressas nos PCNs tem como objetivo estabelecer referenciais a partir dos quais a educação possa atuar, decisivamente, no processo de construção de cidadania, tendo como meta o ideal de uma igualdade crescente entre os cidadãos. Embora numa sociedade democrática, a Igualdade política possa ser assegurada pelas instituições, sabe-se que uma equidade efetiva exige o acesso pleno e indiscriminado dos cidadãos à totalidade dos bens públicos, dentre os quais o conjunto dos conhecimentos socialmente relevantes. (BRASIL, 1996, p6) Ao considerar-se que a aplicabilidade desses parâmetros se dará numa sociedade de classes distintas, onde distintos também são os interesses dessas classes, seria interessante esclarecer o posicionamento desse objetivo em sua própria apresentação. Afinal, não se acredita que a expectativa da tal equidade efetiva seja consensual entre os interesses díspares de uma sociedade de classes. Ao invés desse posicionamento, surge o comentário de intenção duvidosa: "Embora numa sociedade democrática a igualdade política possa ser assegurada pelas instituições...”. Cabe aqui perguntar se este comentário teria a intenção de nos induzir a acreditar que no Brasil as instituições políticas asseguram a igualdade política ou apenas de não comprometer a proposta dos PCNs com as instituições políticas que a geraram. Em qualquer resposta que se dê, podem-se reconhecer pistas que nos levarão a confirmação da hipótese inicialmente apresentada: Os efeitos político-sociais da inserção do tema transversal Orientação Sexual no currículo do ensino fundamental das escolas brasileiras tendem ao comprometimento com a reprodução do modo de produção capitalista. Quanto a parte final desse objetivo: a consideração do necessário acesso pleno e indiscriminado dos cidadãos a totalidade dos bens públicos (entre eles o conjunto dos conhecimentos socialmente relevantes) para a efetiva equidade, remete aos objetivos da educação segundo a tendência pedagógica crítico-social dos conteúdos apontados por Libâneo. Resta, entretanto saber quem ou o que determinará a relevância social dos conhecimentos. Ou ainda, aproximando-se dessa análise: conhecimentos relevantes para a transformação social ou relevantes para a adaptação/reprodução social? Como já foi visto, as duas perspectivas existem claramente distintas nos diferentes interesses das classes sociais que tensas dão corpo a sociedade capitalista. Outro ponto do documento (PCNs) que apresenta relevância nessa análise é sua consideração dada a função social da escola: A escola busca a inserção dos jovens no mundo do trabalho, da cultura, das relações sociais e políticas, através do desenvolvimento de capacidades que possibilitem adaptações às complexas condições e alternativas de trabalho que temos hoje e a lidar com a rapidez na produção e na circulação de novos conhecimentos e informações, que têm sido avassaladores e crescentes. No entanto, um ensino de qualidade busca formar cidadãos capazes de interferir criticamente na realidade para transformá-la, e não apenas formá-los para que se integrem ao mercado de trabalho. A escola, ao posicionar-se desta maneira, abre a oportunidade para que os alunos aprendam sobre temas normalmente excluídos e atua propositadamente na formação de valores e atitudes dos sujeitos em relação ao outro, à política, à economia, ao sexo, à droga, à saúde, ao meio ambiente, à tecnologia, etc.(BRASIL, 1996, p33). Com esse discurso, fica evidenciado que a proposta desses PCNs não considera a escola como um organismo social vivo, promotor de cultura, onde ocorrem relações sociais e políticas, afinal ela busca a inserção dos jovens no mundo do trabalho, da cultura, das relações sociais e políticas (mundos para além da escola). É importante destacar a diferença entre essa concepção e a concepção da função da educação na tendência pedagógica crítico-social dos conteúdos. A tendência pedagógica crítico-social dos conteúdos reconhece a escola como um organismo social vivo e, como tal, imbricado com as demais instâncias sociais; contudo, aponta para a necessidade de instrumentalização do aluno para que possa ter uma participação organizada e ativa na democratização da sociedade, e atribui a escola essa função. Segundo a perspectiva dos PCNs, a escola se apresenta como Aparelho Ideológico do Estado, tal qual interpretou Althusser e nos adverte Saviani "Como Aparelho Ideológico do Estado dominante, vale dizer que a escola constitui o instrumento mais acabado de reprodução das relações de produção do tipo capitalista”(1983, p33). Reconhece-se um esforço para que o discurso dos PCNs aparente ser progressista, afinal "um ensino de qualidade busca formar cidadãos capazes de interferir criticamente na realidade para transformá-la"(1996). Porém, na medida em que as divergências conceituais de adaptação e transformação se aproximam das divergências de interesses das classes sociais constituintes da sociedade capitalista, e essa proposta não se posiciona politicamente, cabe, então, perguntar se essa transformação não seria uma reorganização dos diferentes aparelhos, quer de repressão, quer ideológicos, caso a reprodução do modelo social seja ameaçada pelo desmascaramento de seus ultrapassados aparelhos de repressão ou ideológicos. Sob essa desconfiança, a proposta dos PCNs é aqui analisada, e para a testagem da hipótese de que nessa proposta ainda há comprometimento com a reprodução do modo de produção capitalista, enfoca-se entre a inserção dos temas transversais normalmente excluídos do currículo do ensino fundamental, a Orientação Sexual, afinal os incessantes discursos sobre sexualidade do século XX, postos em discussão por Michel Foucault, apresentam a repressão como o modo fundamental de ligação entre poder, saber e sexualidade. O documento dos Parâmetros Curriculares Nacionais que apresenta a proposta de inserção do tema transversal Orientação Sexual no currículo do ensino fundamental das escolas brasileiras reconhece que os valores relacionados à sexualidade tomaram-se valores éticos em nossa sociedade e que, talvez por sermos uma sociedade multipluricultural, exista grande diversidade desses valores em nossa sociedade, "(..) cabe à escola abordar os diversos pontos de vista, valores e crenças existentes na sociedade para auxiliar o aluno a encontrar um ponto de auto-referência através da reflexão”. (1996, p8). Esse discurso, no entanto, não considera que exista um conflito entre as classes que tensas formam a nossa sociedade, conflito esse que tem, entre suas muitas formas de manifestação: a formação dos valores relacionados à sexualidade. Assim, a diversidade apontada, e que segundo esse discurso deve ser respeitada, não se revela amistosa, muito pelo contrário, revela-se de modo conflituoso. Esse conflito se dá sob a distribuição desigual de força política, conseqüente e causadora da desigual distribuição de renda que caracteriza a nossa economia. Assim, um documento que se pressupõe democratizante, antes de tudo, deveria se posicionar politicamente ao defender o respeito à diversidade de valores e não apresentá-lo como um interesse consensual. Esse discurso nos faz desconfiar do próprio tratamento dado ao tema sexualidade: Orientação Sexual. Por que não Educação Sexual? Ao apresentar a concepção do tema, parece-nos que fica evidenciado o caráter normativo dessa proposta: "Indissociavelmente ligado a valores, o estudo da sexualidade reúne contribuições de diversas áreas como Antropologia, História, Economia, Sociologia, Biologia, Medicina, Psicologia e outras mais. Se, por um lado, sexo é expressão biológica que define um conjunto de características anatômicas e funcionais (genitais e extragenitais), a sexualidade é, de forma bem mais ampla, expressão cultural. Cada sociedade cria conjuntos de regras que se constituem em parâmetros fundamentais para o comportamento sexual de cada indivíduo.(BRASIL, 1996, p6)

Assim, Orientação Sexual nos remete a transmissão desses "conjuntos de regras"(grifo nosso) e não a reavaliação e produção desses "conjuntos de regras", o que se identificaria mais com a educação segundo a pedagogia crítico-social dos conteúdos. Outro fator que parece justificar a abordagem da sexualidade como orientação é a preocupação em enfatizar os objetivos relacionados a minimização dos possíveis desvios dessas regras: a gravidez indesejada entre as adolescentes e o risco da contaminação pelo HIV entre os jovens. Tendo essa abordagem a conotação orientadora e sendo os valores das diferentes classes sociais relacionados à sexualidade muitas vezes antagônicos, cabe aqui questionar a que classe pertence o "conjunto de regras" por esse documento considerado, ou que categorias sociais ficam oprimidas a partir da difusão dessa abordagem. Assim, num primeiro momento, busca-se identificar elementos repressivos nessa abordagem para depois posicioná-la politicamente.Não há como negar que o tratamento dado ao tema sexualidade a partir do século XVII tenha se revelado repressor, e que essa repressão tenha se revelado no silêncio. Há poucas décadas, sexualidade não era assunto e sexo era função biológica, reprodutora, própria da família patriarcal, de acordo com a hegemonia branco-européia aqui estabelecida. As variações em tomo do tema estavam restritas aos espaços de tolerância, em geral relacionados com o lucro (prostíbulos, consultórios clínicos...). Ao voltarem a ser tema em discussão ( a partir da década de 70 ), os discursos sobre a sexualidade sempre se apresentam como queixosos dessa repressão e a entonação dos emissores é quase sempre arrogante, como se através da linguagem seus locutores estivessem se colocado para fora do âmbito da repressão. Assim, estaria caracterizado o silêncio como repressão e o discurso como libertação, porém, o que se pretende encontrar nessa análise de proposta de discurso, ou no próprio discurso da proposta sobre sexualidade (proposta de inserção do tema transversal Orientação Sexual no currículo do ensino fundamental das escolas brasileiras) são elementos repressivos. Desse modo, acredita-se que o discurso sobre sexualidade muitas vezes é incitado, e essa proposta pode se tratar de uma incitação, como forma de repressão.

É através dos elementos que caracterizam a repressão sexual: a interdição, a inexistência e o mutismo, que se dá essa investigação. O estudo da sexualidade, ainda que apresentado como o estudo que "reúne contribuições de diversas áreas como Antropologia, História, Economia, Sociologia, Biologia, Medicina, Psicologia e outras mais."(1996) parece só estar centrado na biologia e na medicina. Assim, a sexualidade ainda é apresentada por sua função reprodutora ou pela negação dessa função: quando não se fala em órgãos reprodutores e suas anatomias e higienizações, fala-se em formas contraceptivas de relação sexual. A manifestação da sexualidade do adulto é exemplificada pela gravidez de uma professora e as possíveis curiosidades despertadas em seus alunos. Nada é dito sobre as relações homossexuais, a não ser que na adolescência são pertinentes as explorações da atração e das fantasias com pessoas do mesmo sexo ou do sexo oposto. Não se fala na anatomia dessas relações. Nem nos tipos de vínculos afetivos que podem conduzir a ela ou dela advir (afetividade não era uma das dimensões dessa abordagem da sexualidade?). Não que aqui estejamos reivindicando essa anatomia, mas é de se desconfiar que haja alguma tendência favorecendo as relações heterossexuais, afinal a propósito da função reprodutiva, a anatomia dessas relações é detalhada. Estamos diante de um caso de condenação a inexistência. As relações homossexuais estão fora desses parâmetros, mesmo que os desejosos dessas relações tragam inscritos em seus “jeitos diferentes" o peso do preconceito social. Nesse caso, os parâmetros aconselham ao professor a trabalhar com a turma a tolerância com a diversidade como se fosse uma simples relação de gênero. Isso nos remete as máximas discriminantes: "Parece, mas não é", "Só parece..." e aí estão a inexistência e a interdição de mãos dadas. Pode-se acrescentar aqui o mutismo, na tentativa desses parâmetros de dividir a sexualidade no que seria uma dimensão coletiva e uma vivência pessoal (e a vivência pessoal é o que não pode ser exposto). Ora se o documento relaciona entre seus objetivos a capacidade de compreensão da busca do prazer como uma dimensão saudável da sexualidade humana, o que, seria essa vivência pessoal que não pode ser discutida? Diante dessas contradições, pode-se imaginar que os princípios norteadores desses parâmetros, não são os mesmos enunciados por Michel Foucault, afinal respeito ao outro, negando sua existência, não é possível, assim como não é possível respeitar a verdade e pregar o sigilo, mascarando-o de individualidade. Acredita-se, assim, ter-se demonstrado a existência de elementos repressivos nesse discurso, logo o fato de ser discurso, ou incitação de discurso, nesse caso não se revela como libertário e sim como repressor. Portanto, se é para trabalharmos com as dimensões biológicas e médicas da sexualidade, e acrescentarmos a isso a tentativa de homogeneização dos valores relacionados a sexualidade de parte da sociedade, talvez seja mais libertário deixarmos a sexualidade em disciplinas como ciências ou biologia e permanecermos em nosso "silêncio", pois, se há preocupação em incitação desse discurso, é que o nosso "silêncio" pode estar fugindo ao controle do poder vigente. Uma vez identificado que existem elementos repressivos no discurso da proposta de inserção do tema transversal Orientação Sexual dos Parâmetros Curriculares Nacionais, agora será analisada a posição política dessa proposta. De acordo com a pedagogia crítico-social dos conteúdos, o conflito existente entre as classes sociais que compõem as sociedades capitalistas não pode ser ignorado pela educação, esta deve se posicionar em função do processo democratizante da sociedade, buscando reverter o quadro de exploração dominante. Conforme foi demonstrado, a proposta dos Parâmetros Curriculares Nacionais ignora a divisão de bens e serviços e a dessimetria entre os grupos sociais, ou o que é mais grave, ignora as tensões que as fazem existir, a divergência de seus interesses. Numa luta entre forças desiguais, aparentar neutralidade é se posicionar em favor do mais forte. Numa sociedade capitalista, simular neutralidade é se colocar em favor do dominador. Outras evidências dos comprometimentos reacionários dessa proposta que se diz democratizante se seguem em função do confronto entre a metodologia didática proposta e a metodologia didática da pedagogia critico-social dos conteúdos. A proposta dos PCNs espera que os conteúdos sobre o tema transversal Orientação Sexual surjam a partir da curiosidade dos alunos. A repressão sexual é um fato e para que estejamos sob repressão faz-se necessário que haja a condenação à inexistência, ao mutismo e à interdição. Portanto, como esperar que surjam dúvidas sobre o que "não existe, não se fala ou não pode"? As dúvidas surgidas, certamente serão sobre a sexualidade legitimada, ou a sexualidade em sua função de reprodução. Pergunta-se então, melhor do que o silêncio para reprimir, não seria a incitação dessas dúvidas que excluem as variantes ilegítimas da sexualidade? Talvez se o professor selecionasse os conteúdos universais relativos a sexualidade e os articulasse politicamente com a diversidade dos valores éticos de sua comunidade relevantes no momento da abordagem, a dimensão dessa abordagem fosse libertária. Tal como se apresenta, é apenas reprodutora. Outra implicação que vemos entre a Orientação Sexual e a reprodução social é a forma como o professor deve trabalhar os conteúdos abordados. Segundo a proposta dos parâmetros A escola deve informar e discutir os diferentes tabus, preconceitos, crenças e atitudes existentes na sociedade, buscando, se não uma isenção total, o que é impossível de se conseguir, uma condição de maior distanciamento pessoal por parte dos professores para empreender essa tarefa.(BRASIL, 1996, p9). Mais uma vez, num ambiente de conflitos onde existem repressor e reprimido, a escola, segundo esses parâmetros, se posiciona com neutralidade, como se o conflito se desse entre forças iguais. Ao se apresentarem com neutralidade as crenças familiares, incorre-se no riso de acontecer a "cientificização" da crença preconceituosa, que seria a equivocada elevação da crença familiar ao status de ciência pelo "respeito" dado a essa crença pela instituição que sistematiza conhecimentos (escola). Assim, faz-se necessário a divisão do que deve ser respeitado pela escola e que é função desempenhada pela família, que seria formação da sexualidade em cada indivíduo, e do que seria (numa abordagem libertária) função da escola: a educação sexual, ou a produção da forma como o indivíduo relacionará a formação de sua sexualidade com o meio social, a partir dos conhecimentos universais autônomos. Assim, a escola poderia abordar o tema sexualidade de acordo com os pressupostos da pedagogia crítico-social dos conteúdos, verificar-se-ia os dois momentos de Snyders que sustentam essa tendência pedagógica a continuidade (respeito a formação sexual individual) e a ruptura (educação sexual) e anunciar o fim das crenças preconceituosas difundidas pela ideologia da classe dominante na tentativa de garantia e de perpetuação de seu domínio. Tal como se apresenta, essa abordagem da sexualidade proposta pelos PCNs se revela com indícios de fortes comprometimentos com a reprodução social do modo de produção capitalista. Conforme foi demonstrado as evidências ocorrem em diferentes instâncias: na ocorrência de elementos repressivos em seu discurso, na neutralidade política em que se pretende configurada, na neutralidade proposta na seleção dos conteúdos e na neutralidade proposta diante da apresentação das diferentes perspectivas sociais desses conteúdos. A partir da investigação da tendência dos possíveis efeitos político-sociais da inserção da Orientação Sexual como tema transversal no currículo do ensino fundamental pode-se chegar a algumas conclusões a respeito dessa tendência. No discurso do Documento de Introdução aos Parâmetros Curriculares Nacionais, fica evidenciado que esses parâmetros não consideram o antagonismo entre os interesses dos grupos sociais dominantes construídos por nossa sociedade. Como foi considerado, isso equivale a se posicionar a favor da dominação. No Documento de Convívio Social e Ética relativo ao tema transversal Orientação Sexual, verificamos que existem em seu discurso elementos repressivos às variantes sexuais não reprodutoras. E a repressão (a condenação ao mutismo, à inexistência, à interdição) não faz parte dos valores éticos de uma sociedade democrática. Ainda no Documento de Convívio Social e Ética relativo ao tema transversal Orientação Sexual, ao compararmos a metodologia proposta com a metodologia da tendência pedagógica crítico-social dos conteúdos, certificamo-nos de que ser neutro é colocar-se a favor da dominação. A neutralidade é apregoada em todas as diferentes instâncias pedagógicas: na escolha do tema, na apresentação das perspectivas sociais. Assim, pode-se concluir que a abordagem da sexualidade proposta pelos PCNs encontra-se politicamente a favor das várias formas de dominação conforme consideramos, não obstante esta política deixe evidente em seus discursos o contrário, portanto os efeitos político-sociais dessa abordagem tendem para a reprodução de nossa sociedade e não para a democratização da mesma conforme se pressupõe.

BIBLIOGRAFIA

BRASIL. Ministério da Educação e do Desporto. Secretaria de Educação Fundamental. Versão -PCNs -10 e i ciclos / agosto de 1996.

CHAUÍ, Marilena. Convite à Filosofia. São Paulo: Editora Ática. 1995.

FOUCAULT, Michel. Microfisica do Poder. Trad. de Roberto Machado.6a ed. Rio de Janeiro: Ed Graal, 1986

__________________.História da Sexualidade I : A vontade de saber. Trad. De Maria Thereza da Costa Albuquerque e J .A. Guilhon Albuquerque.11a ed. Rio de Janeiro: Ed Graal, 1986

GADOTTI, Moacir. Pensamento Pedagógico Brasileiro. 5" ed. São Paulo: Editora Ática, 1994.

LIBÂNEO, José Carlos. Democratizacão da Escola Pública: A Pedagogia crítico- social dos conteúdos. 15a ed. São Paulo: Edições Loyola, 1985.

SAVIANI, Demerval. Escola e Democracia. São Paulo: Cotez I Ed. Assoc, 1983.


 
Voltar