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  A QUESTÃO DA LEITURA DIANTE DAS NOVAS TECNOLOGIAS E OS MEIOS DE COMUNICAÇÃO EM MASSA.

Ana Carolina Kastein Barcellos - UNESP – Depto. de Pos graduação em Educação.

A profissão docente se desenvolve em uma sociedade em mudança com alto nível tecnológico e vertiginoso avanço do conhecimento. O mundo contemporâneo neste momento da história está marcado pelos avanços na comunicação e na informática e por tantas outras transformações tecnológicas e científicas. Essas transformações intervêm nas várias esferas da vida social, provocando mudanças econômicas, sociais, políticas, culturais, afetando também as escolas.

Assim, essa revolução tecnológica que se concentra nas tecnologias de informação, está remodelando a base da sociedade em ritmo acelerado. Há uma nova forma de relação entre a economia, o Estado e a sociedade devido a interdependência global em que as nações se encontram.Essas inovações exigim uma mudança organizacional com enfoque na adaptabilidade e flexibilidade o que garantiu a velocidade e eficiência no sistema produtivo.

Mas e a escola? Como ela desenvolve as competências leitoras neste universo?

A escola se apresenta, nos dias atuais, no mesmo modelo que há cem anos atrás, como o sapateiro e o alfaiate, que continuam até hoje com a mesma técnica de trabalho. No caso do alfaiate, às vezes, com o mesmo instrumento – a tesoura - que passa de geração a geração. A escola neste contexto, era o centro detentor da informação. Atualmente, a escola divide esse espaço com as mídias. Como pode ser a escola o centro de uma grande reforma se os professores ministram suas aulas sem vincular a sua disciplina à realidade que os educandos estão vivendo desconsiderando as informações que eles trazem para a sala de aula?

Neste diapasão, Gramsci diz sobre o momento de crise em que vivemos – “momento no qual o velho está agonizando ou morto, e o novo ainda não acabou de nascer, momento, portanto, de incerteza (a morte do velho também aniquila as velhas certezas) e de fragmentação ( o vigente está em pedaços e não se sabe como recompô-lo).” Estamos diante de uma nova forma de ver o tempo, o poder, o trabalho, a comunicação, a informação, as instituições. E sabemos que a escola é um organismo vivo, e não estático.

A escola precisa de educadores que estejam em sintonia com as informações veiculadas pelas mídias relacionando-as as suas respectivas disciplinas a fim de obter resultados positivos no processo de ensino aprendizagem.

Vejamos sobre como esses recursos podem ser utilizados no processo ensino aprendizagem.

Segundo Perrenoud ( 2000: 139) “as novas tecnologias podem reforçar a contribuição dos trabalhos pedagógicos e didáticos contemporâneos, pois permitem que sejam criadas situações de aprendizagem ricas, complexas, diversificadas”. Ainda segundo o autor, a grande questão é se as tecnologias serão utilizadas pelos professores como um recurso de apoio, ilustração e motivação da aula, ou para “ mudar o paradigma e concentrar-se na criação, na gestão e na regulação de situações de aprendizagem.”

Para o autor, há razões para se pensar que a inserção em verdadeiras redes de comunicação aumenta o sentido dos saberes e do trabalho escolar. Podem - se associar os recursos tecnológicos aos métodos ativos, uma vez que eles favorecem a exploração, a simulação, a pesquisa, o debate, a construção de estratégias e de micromundos.

Na atualidade os meios eletrônicos de comunicação correspondem à sensibilidade dos jovens, visto que são dinâmicos, rápidos, “tocam primeiro o sentimento, depois a razão” ( Moran, 1993:21)

Os meios de comunicação em massa sob a liderança da televisão cativam também os iletrados. Dessa forma, desempenham um papel decisivo na formação da população brasileira. Enquanto a maioria das pessoas tem como leitura habitual apenas a mídia, elas ficam com uma visão tubular da coisas, segundo Abreu ( 2000:35 ) “ é como se olhassem apenas a parte da realidade que ela nos permite olhar, e da maneira que ela quer que nos a interpretemos”.

Esses meios atuam como educadores coletivos. Bourdieu (1997) fala da revolução simbólica promovida pelos profetas, artistas, cientistas e do poder de fazer uma revolução simbólica que a televisão é capaz enquanto instrumento tão poderoso. Contudo, para o autor, essa revolução seria detida, pois a televisão esta ajustada as estruturas mentais do público, oferecendo aos telespectadores produtos como talk show, exibições de experiências de vida formas de voyeurismo e exibicionismo. Os apresentadores dos jornais televisivos e locutores esportivos tornam-se diretores de consciência (p.65) sendo representantes de uma moral pequeno burguesa orientando os telespectadores sobre os problemas sociais e o que devem pensar sobre eles. Se a televisão é capaz de deter todo esse poder, torna-se necessário dentro do processo educativo considerar que a escola deve conhecê-la o suficiente para não criar cidadãos passivos, sujeitos ao seu domínio, usando então o poder da mídia a seu favor. Essa é a razão principal que leva àqueles que estão envolvidos com a educação conhecerem melhor os meios de comunicação em massa para integrá-los ao processo educacional, explorando, assim, os potenciais da comunicação.

As sociedades contemporâneas e as do futuro nas quais vão atuar as gerações que agora entram na escola requerem um novo tipo de indivíduo e de trabalhador em todos os setores da dinâmica social.

Dentro dessas novas tendências, se encontra o desafio do educador saber orientar e utilizar a informação. Uma nova relação com o saber deve ser entendida, pois o que é preciso aprender não pode ser mais previamente planejado, nem precisamente definido.

Os novos paradigmas educativos que substituirão os antigos supõem diferentes aplicações tecnológicas. Logo, a escola precisa deixar de ser uma agência transmissora de informação e transformar-se em um lugar de análises críticas e produção de informação. Para que isso seja possível é preciso prover a formação cultural básica, assentada no desenvolvimento das capacidades cognitivas e operativas.

Colom ( 1994: 78) explicita a idéia da escola como “espaço de síntese”:

(... ) um espaço onde seja possível em uma sociedade culturalizada pela informação das mídias e pela intervenção educativa urbana, realizar a necessária síntese doadora de sentido de razão crítica de todas as mensagens- informação acumuladas de forma diversa e autônoma através dos meios tecnológicos. Síntese e significado enquanto re- ordenação e re- estruturação da cultura recebida no mosaico. Desta forma, conceber a escola como um espaço de síntese é acreditar nela como estrutura possibilitadora de significado mais do que como estrutura possibilitadora de informação.

É claro que a leitura dos signos disseminados pela tecnologia da reprodução cultural, se alicerça na leitura do mundo proporcionada pela educação considerando que a escola modifica o conteúdo e o espírito da cultura que transmite, e sobretudo, cumpre a função expressa de transformar o legado coletivo em um inconsciente individual e comum. ( Bourdieu:1974)

Este poema de T.S. Eliot permite que façamos uma reflexão sobre a linguagem neste contexto

Where is the life we have lost in living?

Where is the wisdom we have lost in knowledge?

Where is the knowledge we have lost in information? (T.S. Eliot)

Sabe-se que a linguagem é o instrumento para o indivíduo participar da vida social. É muito comum os educadores dizerem: “ os alunos não lêem”. Isso é um mito, pois os alunos lêem muito; tv, novela, clips, músicas que escutam em rádios, salas de chat, jornais de esporte, Folhateen (encarte do jornal a Folha de São Paulo direcionado para adolescentes), Capricho, Atrevida, sendo estas últimas revistas femininas para adolescentes com altíssimas tiragens. O que acontece é que eles não extraem muito dessas informações, fazem apenas uma leitura superficial, sem olhar clínico. Sem fazer uma leitura mais aprofundada dos textos aos quais se submetem acabam sendo passivos quanto à informação apresentada.

Ler bem é melhor do que ler muito e os alunos só poderão ter um ávido interesse por livros da literatura universal, textos científicos, dentre outros, quando descobrirem o prazer e a importância de se fazer leituras críticas.

Segundo Marques de Mello em seu livro Para uma leitura critica em educação, o conceito de leitura hoje não pode se restringir à decodificação da mensagem quer seja ela oriunda de um livro, propaganda, letra de uma música. A mensagem possui uma conotação mais abrangente, pressupondo a compreensão de mundo proporcionada pela educação.

Para Bloom (2001:17), o aluno precisa aprender a diferir conhecimento de sabedoria. Ele afirma que nos dias de hoje a informação é facilmente encontrada, mas onde está a sabedoria? E conclui que caso se pretenda desenvolver a capacidade de formar opiniões críticas e chegar a avaliações pessoais, o ser humano precisará continuar a ler por iniciativa própria. Neste caso o ser humano se refere ao aluno e ao professor que nos dias atuais também muito se distância deste ideal.

Neste contexto podemos dizer que vivemos em um mundo digital uma vez que há uma linguagem digital comum na qual a informação é gerada, armazenada, recuperada, processada e transmitida através de meios eletrônicos. Segundo Kenski ( 1996:133), todos que vivemos nessa época de acentuada inovação devemos aprender a ler sons, imagens, movimentos e a lidar com eles.

(... ) Os alunos aprendem em múltiplas e variadas situações. Já chegam à escola sabendo muitas coisas ouvidas no rádio, vistas na televisão, em apelos de outdoors e informes de mercado e shopping centers que visitam desde pequenos. Conhecem relógios digitais, calculadoras eletrônicas, vídeo games, discos a laser, gravadores e muitos outros aparelhos que a tecnologia vem colocando à disposição para serem usados na vida cotidiana.

Estes alunos estão acostumados a aprender através dos sons, das cores, das imagens fixas das fotografias, ou em movimento, nos filmes e programas televisivos. O mundo destes alunos é polifônico e policrômico . É cheio de cores, imagens e sons, muito destante do espaço quase exclusivamente monótono, monofônico e monocromâtico que a escola costuma lhe oferecer.

De 1450, quando Gutenberg criou sua prensa, até por volta de 1950 foram anos da escrita. Como competir o lento folhear de páginas com a tecnologia atual (salas de bate papo, com recursos de vídeo fone, e vídeo mail, as centenas de canais de tv)?

Em um ambiente no qual a internet faz parte do cotidiano dos alunos, os professores precisam desenvolver as competências leitoras. A leitura na web é diferente da leitura de textos impressos. O computador não se limita ao acesso a informações, mas implica também novas formas de organização textual. A competência para ler hipertextos deve ser trabalhada visto que na web cada link conduz a outro texto pois fazem usos de referencias cruzadas.

Muitos erros ocorrem quando se tenta uma abordagem educativa com os recursos tecnológicos. Por exemplo, um filme jamais pode ser apresentado substituindo a obra literária. Normalmente o leitor ao ver o filme baseado em uma obra que já tenha lido, considera o filme inferior à obra, já que através das palavras sua imaginação alçou vôos livres enquanto as imagens produzidas por um cineasta, a limita.

É preciso que os professores modifiquem suas atitudes diante dos meios de comunicação, mas não apenas vendo esses meios como recursos didáticos, as mídias e multimídias fazem parte do conjunto de mediações culturais que caracterizam o ensino. A função do professor, principalmente de língua materna, é auxiliar o educando a tornar-se leitor autônomo e um produtor competente de textos. Os educandos encontram dificuldades para se expressarem visto que é o mundo que os cerca é difícil de ser compreendido: o jornal que assistem na televisão, o aparelho eletrodoméstico, as leis de trânsito. É muito difícil adentrar em uma cultura centralizada na escrita quando por exemplo, não conseguem relacionar os fatos veiculados pela mídia por não ver através das entrelinhas o discurso demagógico, e perceber o poder que as palavras carregam. “Aí, palavras, ai, palavras, / que estranha potência a vossa!”( Cecília Meireles)

Finalizando, se os educadores utilizarem as novas tecnologias, como aliadas, otimizando-as no processo educativo, isto possibilitará ao educando tomar uma decisão critica e de valor e não só de consumo indiscriminado, precisa entender as chaves das linguagens audiovisuais e informáticas, ter capacidade para saber aprender, critério para saber situar e relacionar a informação e conhecimento básico para atribuir sentido a informação recebida e convertê-la em conhecimento pessoal, social e profissional.

Contudo, para que isso seja possível, é necessário que o educador adquira sólida cultura geral, competência leitora apurada, capacidade de aprender a aprender, competência para saber agir na sala de aula, habilidades comunicativas, domínio da linguagem informacional e dos meios de informação, habilidade de articular as aulas com as mídias e multimídias.

BIBLIOGRAFIA

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BLOOM, Harold. Como e porque ler. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001.

BOURDIEU, P. Sobre a televisão. Rio de Janeiro: ZAHAR,1997.

____________. La reproducción. Barcelona, Laia, 1977.

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COLOM, A. La educación como comunicación. In: CASTILLEJO, J. Teoria de la Educación. Madrid, Taurus Universitária, 1994.

IBERNÓN, F. A educação no século XXI Os desafios do futuro imediato. Porto Alegre, Artmed, 2000

KENSKI, V. M. O ensino e os recursos didáticos em uma sociedade cheia de tecnologias. In: VEIGA, I. Didática, o ensino e suas relações. Campinas, Papirus, 1996.

MORAN, J. M. Leitura dos meios de comunicação. São Paulo, Pancast, 1993.

MORIN, E. Cultura de massas no século XX. O espírito do tempo. Rio de Janeiro, Forense, 1967.

PERRENOUD, P. Novas competências para ensinar. Porto Alegre, 2000.

WRIGHT,C. Comunicação de massa. Rio de Janeiro, Bloch Editores, 1968.

ZILBERMAN, R. & SILVA, E.T. (orgs) Leitura: perspectivas interdisciplinares, São Paulo, Ática, 1999.

 
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