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  EDUCAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS: O LUGAR DO TRABALHO COMO CONDIÇÃO PARA A CIDADANIA

Flavia de Oliveira Barreto - Escola de Educação/UNIGRANRIO.

Este trabalho condensa um esforço de pesquisa que se desenvolve, no Núcleo de Pesquisa em Educação, desde 2002, envolvendo alunas do curso de Pedagogia, com apoio de bolsas de iniciação científica da FAPERJ. Os objetivos gerais da pesquisa são: debater a relação entre universidade, trabalho e sociedade e diagnosticar a relação entre educação e trabalho. Especificamente, os esforços voltam-se para o conhecimento das condições da oferta e da demanda de cursos profissionalizantes, na Baixada Fluminense; a análise dos discursos dos trabalhadores sobre como percebem a natureza da atividade de trabalho e o modo pelo qual os educadores atuam nas escolas enquanto formam alunos, cuja sobrevivência e inclusão cidadã vincula-se, intimamente, com a possibilidade do engajamento no mercado legal de trabalho.

Trabalhando com pesquisa de campo, entrevistas, aplicação de questionários em um esforço de survey, observação, contato com crianças e professores da rede pública, além da reflexão sobre a própria formação dos pedagogos e a distância em que permanecem em relação à educação profissionalizante, o grupo de pesquisa alcança, atualmente, uma reflexão crítica sobre as condições em que se encontra o processo de formação de trabalhadores.

Após a análise da literatura e dos dados obtidos durante a pesquisa, as discussões indicaram conclusões iniciais, tais como a percepção de um sintomático afastamento dos pedagogos e professores, em relação à área da Educação Profissional. Este posicionamento se deve a uma provável decorrência de variáveis, como a cultura de trabalho brasileira, a trajetória dual e reprodutivista da educação profissionalizante em nosso país, aliados à influência da análise teórica que, ao situar em campos opostos, trabalho e capital, aponta para uma questão paradoxal no debate da Educação, qual seja: como preparar para uma educação cidadã e crítica, desvinculando o processo educativo da ditadura dos interesses do capital, na formação de mão de obra acrítica e submissa e, ao mesmo tempo, atuar em um contexto, no qual, o público que se dirige às escolas, em todos os níveis, estão motivados, eles próprios ou seus familiares, pela preocupação com a possibilidade de inclusão no mercado de trabalho que a escolaridade obtida, vai lhes permitir alcançar.

Pensar educação atualmente deve ser um exercício capaz de considerar que as debilidades da educação e da profissionalização ocasionam a exclusão de milhares de trabalhadores, jovens e adultos, do mercado de trabalho legal, contribuindo para a consolidação das alternativas de sobrevivência que se oferecem para as massas excluídas. E estas possibilidades são: o mercado alternativo com subempregos e o mercado ilegal, representado, principalmente, pelo tráfico de drogas, que seduz um sem número de jovens, com oferta de dinheiro fácil e vida curta. A educação para o trabalho, mais do que um fato, apresenta-se como um dado crítico neste complexo contexto sócio econômico, apresentando-se como condição fundamental para o exercício da cidadania e a inclusão no mundo legal da produção material da sobrevivência.

No caminho das mudanças no mundo do trabalho

O trabalho ao longo dos anos vem sofrendo transformações que fizeram do mesmo objeto de estudo de inúmeros estudiosos – filósofos, sociólogos, economistas, historiadores, pedagogos – tornando-se um tema-eixo de produções teóricas. Com isso, hoje é possível discutir a natureza do trabalho sobre vários aspectos: origem, evolução importância, inserção social, estruturação de categorias (classes e setores da sociedade) intervenção políticas, entre outros.

A história do trabalho perpassa o desenvolvimento da agricultura, o aperfeiçoamento dos instrumentos e técnicas, o aparecimento de cidades, o fortalecimento do comércio e a divisão social (aparecimento de classes sociais diferenciadas: agricultores, comerciantes, artesãos, guerreiros, senhores feudais) além da separação do trabalho manual do intelectual, pois é partir dessa separação que se tem as primeiras noções de profissões e especializações.

As profissões se especializam cada vez mais por causa das necessidades que as transformações dos novos e complexos processos produtivos impuseram, com a passagem do trabalho doméstico e do artesanato para o trabalho fabril. Este advento implica na metamorfose histórica das condições de trabalho que passa de autônomo e independente para assalariado, dependente e sob controle do capital.

Nas sociedades de sistemas capitalistas o trabalho assalariado é uma das modalidades, pois existem outras formas, como o trabalho doméstico não remunerado e o trabalho autônomo. Entretanto, no assalariamento, o trabalhador troca a capacidade de trabalho por um salário (remuneração), cujo valor é estipulado pelo mercado, sendo esta a condição fundamental para a extração de mais-valia que vai possibilitar a geração do lucro, ou seja, do capital.

No interior do capitalismo, após todas as transformações que ocorreram no cotidiano humano em conseqüência da industrialização, outras metamorfoses foram se sucedendo, decorrentes das modificações na organização do trabalho. Um olhar ingênuo poderia considerar que estas modificações da ordem da administração do trabalho se restringiram aos interiores dos espaços produtivos, afetando tão somente os executores da produção, enquanto os mesmos estivessem vivenciando as atividades laborativas. Porém, sabemos que as modificações na gestão do trabalho afetaram, historicamente, não somente todos os tipos de atividade laborativa, em todos os setores da economia, como o processo educativo, as relações humanas, o imaginário social, a psiquê... É percebida como manifestação de competente erudição, a proposição de alcançar patamares de qualidade total, - uma referência própria das atividades produtivas -, na educação, nas artes...

Desde a OCT(organização científica do trabalho) taylorista, com os chefes de seção empunhando sadicamente os cronômetros que exigiam do operário a intensificação dos ritmos de trabalho, passando pelo fordismo que se apoiou no welfare state, a crise do trabalho na década de 60, a emergência do modelo japonês, trazendo a novidade dos CCQs (círculos de controle da qualidade)e dos Kanban , o just in time , até o pós-fordismo que traz a nova gramática da dominação, em que o trabalhador é conduzido a introjetar os valores dominantes, construindo subjetivamente uma consciência que lhe ordena a subordinação à lógica do trabalho no capitalismo, alteraram-se não só as formas de controlar o trabalho, como a própria cultura de trabalho e os valores sociais de modo geral.

Karl Marx, eterno mestre da análise crítica do capitalismo, antecipa esta percepção quando afirma ser uma característica deste período histórico: “tudo o que sólido se desmancha no ar” , referindo-se à solidez das tradições dos valores morais constantes, permanentes durante séculos na sociedade feudal, e que passam a ser cotidianamente destruídos e reconstruídos, na sociedade industrializada e capitalista.

A atualidade pós-moderna o capitalismo se reinventa, com a profunda revolução da informática, que veio a intensificar a comunicação e a informação, como nunca se viu na história da humanidade, oferecendo com o recurso da mídia, infinitas possibilidades de realização de sonhos criados, desejos instigados e transformados em mercadoria. Mudar o próprio corpo, construir identidades mutantes, controlar a reprodução da espécie tanto temporalmente quanto qualitativamente, tudo se resume em uma ideologia de consumo hedonista, individual e predatória.

Este é o contexto histórico que precisamos considerar quando nos dedicarmos a pensar sobre a educação profissionalizante no Brasil, sem, no entanto, perdermos de vista as especificidades da sociedade brasileira, oriunda de um passado colonial e escravocrata, com industrialização tardia e sem a necessária modernização das relações sociais e de produção. Trata-se de um país periférico econômica e intelectualmente, importador de teorias sócio-econômicas implementadas sem o contexto que as geraram, nos países de origem.

Assim, nos encontramos hoje, vivendo nossos próprios paradoxos: pós-modernos, com cultura de trabalho escravocrata; capitalistas com relações de produção impregnadas de tradição de servidão; uma rica economia com a população vitimada por uma das maiores concentrações de renda do planeta; socialmente desorganizados, numa democracia, da qual a população se encontra excluída pela própria ignorância, gerada durante o processo de formação social colonial e metodicamente alimentada durante todos estes séculos. Politicamente, neo-liberais, desmontamos o Estado do Bem-Estar Social que nunca existiu para nós. Economicamente, consolidamos a divisão da sociedade não em classes sociais, mas em incluídos e excluídos do sistema legal de produção material da vida, pois em contraposição ao emprego de parco salário, com carteira assinada e decrescentes direitos trabalhistas, se levantam as oportunidades rentáveis oferecidas pelo tráfico de drogas, pelo crime, esse sim, crescentemente organizado.

Por que os pedagogos estão de olhos fechados para a Educação Profissionalizante?

Ao analisarmos o processo de formação social brasileira, do ponto de vista do trabalho, este revela, contando-se, a partir do início da colonização portuguesa, até os dias de hoje, aproximadamente, trezentos anos de escravismo colonial, durante o qual foi utilizada a mão de obra da população trazida de várias regiões da África.

O fim da escravidão, decretado pela Lei Áurea em 1888, dista apenas cerca de 60 anos do processo intenso de industrialização que só vai se desencadear efetivamente por volta da década de 50, no governo de Juscelino Kubistchek.

Sobre este processo de intensificação da indústria é sempre relevante assinalar que a aceleração industrializante foi derivada da exportação de capital estrangeiro que veio a multiplicar artificialmente a modernização da produção capitalista no Brasil. Isto implica, em termos reais, na existência de ritmos diferentes, pois a industrialização modernizante vai gradativamente modificando as técnicas produtivas, não gerando de modo igual as transformações das relações sociais presentes na sociedade brasileira, que permanece impregnada da ideologia escravista colonial.

Enquanto no meio urbano, o trabalho caminha na direção das modernas relações de produção regidas pelas leis trabalhistas que implicam na obrigatoriedade da carteira de trabalho assinada, do horário de trabalho estabelecido, no direito às férias, sindicalização, enfim, direitos e deveres que passam a regular de modo, ora mais rígido, ora mais flexível as relações entre Capital e Trabalho, no meio rural e no imaginário social da sociedade como um todo, o que é especialmente grave, permanece arraigada a cultura do trabalho escravocrata que vai impregnar, essencialmente, as relações sociais de modo geral, culminando na desvalorização do trabalho.

Até por volta de meados da década de 70, ainda era comum encontrar anúncios “nos classificados” de empregos solicitando a empregada doméstica, mediante as seguintes condições: para todo o serviço, que durma no emprego, folgas quinzenais, salário a combinar. Ora, quem se encaixa nesse perfil de trabalhador solicitado pelo texto? Ninguém mais do que a mucama, aquela escrava colocada a serviço na casa grande e que gozava então dos privilégios de não estar mais na senzala, poder se alimentar melhor e ser “beneficiada” com o convívio com os patrões. Assim, qualquer semelhança com a situação em que as famílias apresentavam as empregadas domésticas como: “cria da casa”, “quase da família”, “come o mesmo que nós comemos”, “levamos conosco em todos os passeios”(para exercer as funções de empregada é claro...), não é mera coincidência, ao contrário, estamos diante do espelho vendo a face aristocrática e escravista que permeia as relações de trabalho no Brasil.

O mesmo traço se faz presente nas relações sociais celebradas no interior do cenário capitalista de produção, no qual, muito embora, encontrando o trabalho regido pela legislação trabalhista, materializada na carteira de trabalho, inegavelmente os contratantes dão sempre a preferência àquele candidato que demonstra uma índole passiva, submissa, que expresse a compreensão de que a função para a qual se candidata tem o caráter subalterno, em contraponto com um candidato que se apresente com autoconfiança, engajado na lide sindical e cônscio dos seus direitos legais como trabalhador. Não é preciso buscar confirmação empírica muito longe, para aquilo que o bom senso sabe reconhecer como parte da “cultura de trabalho brasileira”.

A colonização portuguesa no Brasil deixou heranças ainda presentes no pensar sobre o trabalho, especificamente sobre o valor do trabalho manual e físico desempenhado pelos escravos. Em nossa cultura, a hierarquização decorrente da divisão do trabalho manual e do trabalho intelectual antecede a divisão complexa do trabalho no processo industrializante. Com efeito, todas as funções executadas pelo trabalho escravo ocupam em nosso imaginário o lugar do degradado, daquele que está condenado ao infortúnio por não ter oportunidade melhor. A educação que eleva e dignifica o indivíduo é, por conseguinte, aquela que o conduz ao exercício das funções socialmente nobres, ou seja, a formação dos bacharéis, dos universitários, dos “senhores doutores”.

Por isto, apesar de ser também uma educação profissionalizante, esta não tem sido reconhecida enquanto formadora de trabalhadores, muito ao contrário, a crítica sobre a relação entre educação e trabalho vem sendo aguerrida e, a nosso ver, um dos fatores complicadores para a formação dos trabalhadores que permanecem sobrevivendo em condições de precariedade, em grande parte, por falta de recursos próprios para lutar em uma realidade competitiva e movediça como é o quadro atual da revolução tecnológica trazida pela informática.

Logicamente, não temos a ingenuidade de desconsiderar: o contexto de desemprego, de exploração selvagem do trabalho pela desvalorização crescente do trabalho expressa nos salários reduzidos, a situação econômica do país consolidada na concentração de renda, na reverência aos ditames do FMI e dos interesses estrangeiros representados pela política neo-liberal, mas gostaríamos de problematizar algumas formulações que podem, apesar das boas intenções, aprofundar o divórcio entre educação e trabalho, não contribuindo para que, finalmente, a mentalidade de desvalorização do trabalhador sofra uma derrocada real.

Por sua vez, a história da educação no Brasil é uma narrativa que expressa a pouca sensibilidade acerca do lugar a que foi relegado o trabalho nesta sociedade de cultura escravocrata. A descrição sobre como se instaurou uma educação dual, oferecendo para as camadas populares a educação profissionalizante que mantém a população sem acesso à mobilidade social, exercendo funções subalternas, como o são os ofícios, contrapõe essa oferta aos cursos de nível superior, de acesso exclusivo para os filhos da elite, para aqueles que terão a oportunidade de escolher as profissões nobres, emprestando uma conotação específica à idéia de exclusão. A chamada educação profissionalizante tornou-se ao longo do tempo uma espécie de denominação estigmatizante aplicada restringidamente aos cursos destinados à formação de trabalhadores de ofício nos níveis básico, para o qual não é necessário confirmar nenhum grau de escolaridade e no nível técnico, sendo exigida a conclusão do ensino médio.

Mesmo com os índices a demonstrar o aumento da média de escolaridade no Brasil, tal aumento não tem sido suficiente para dar aos jovens das camadas populares o acesso aos empregos formais, levando-os a se subjugarem a exploração do mercado, ficando a mercê do mercado informal sem qualquer direito trabalhista assegurado, ou encaminhando-os para o tráfico e a vida de crimes.

Apesar da lei 9394/96 no inciso I do Art.3º, e a nossa Constituição Federal em seu inciso I do Art. 206 garantirem que o ensino será ministrado com base no princípio de igualdade de condições para acesso e permanência na escola sabe-se que essas duas leis são infringidas, quando os jovens precisam trabalhar em detrimento de sua educação, visto que as políticas públicas fomentadas para que tal princípio seja respeitado são insuficientes. Mesmo que cronológica e legalmente a idade defina o adolescente ou jovem, este já assume responsabilidades pertinentes à fase adulta como trabalhar para se manter, ou para ajudar na complementação da renda familiar.

A democratização do acesso à educação passa a ser entendida, então, como uma questão de ampliação de oportunidades para que as camadas populares alcancem as universidades e freqüentem os cursos destinados à formação da elite intelectual do país. Mais recentemente, no ano de1997, assinado pelo presidente Fernando Henrique Cardoso, o decreto lei 2208/97 instituiu o curso técnico superior equivalente à graduação.

Contra o dualismo da educação para bacharéis e para trabalhadores: lutamos pela sobrevivência de quem?

Sair do campo de reflexão traçado pelo discurso consolidado pode oferecer uma rica gama de possibilidades de paralelos inovadores, ao mesmo tempo em que se estabelece uma tensão adjacente à audácia exigida para os questionamentos, ainda no momento de nascedouro, como é o caso aqui. Um olhar sobre a trajetória do trabalho em outras sociedades, berço da revolução industrial, como é o caso da Inglaterra nos remeteu a parâmetros distintos que balizam a cultura de trabalho.

Os países desenvolvidos apresentam um nível de valorização do trabalho que alça a classe trabalhadora a um patamar privilegiado, não apenas do ponto de vista da valorização material expressa no elevado pagamento do trabalho, mas enquanto presença na sociedade, visível na auto-estima e no pensar a própria função.

Ao observarmos o processo de formação em uma profissão de ofício como é o caso do carpinteiro inglês, nos deparamos com uma trajetória muito diferente daquela percorrida pelo carpinteiro no Brasil, quase sempre formado no trabalho, possuindo um saber prático.

Na Inglaterra, os cinco anos de formação para habilitar ao exercício da arte da carpintaria envolvem o conhecimento de botânica, química e técnicas tradicionais do trabalho para identificar na madeira o ângulo e a época do corte, a idade da árvore, as possibilidades de envergamento e torção mediante a exposição aos diferentes tipos de intempéries da natureza, ler os ciclos da natureza nos veios, escolher a madeira adequada a cada projeto, desenhar e executar um projeto conforme o planejado, restaurar peças artísticas elaboradas por carpinteiros de outras épocas. Tais são as competências exigidas na prova de encerramento da formação do mestre carpinteiro, que passa então, a ser reconhecido como integrante da Ordem dos Carpinteiros da Grã-Bretanha, instituição que remonta a seis séculos de existência.

Certamente, este mestre carpinteiro percebe a si mesmo com um status profissional relevante na sociedade, situação distinta do nosso carpinteiro, geralmente, um humilde trabalhador que não consegue realizar os cálculos básicos para definir o material requisitado para a execução de um projeto que, certamente, apresentará uma distância efetiva entre o desejo e a expectativa do contratante e a concretização pelo trabalhador, discrepância que acaba por tornar-se tema de infindáveis debates e conflitos.

A trajetória do trabalho em uma sociedade que vivenciou a corporação de ofício, celebrou a presença do artesão como trabalhador habilitado e de reconhecida fama na localidade em que viveu, perpetuou técnicas passadas no interior das famílias, dando origem em outras épocas a fábricas e, por que não, algumas indústrias, esta sociedade, por certo, vai ter uma relação com o trabalho de maior respeito, conforme a cultura de trabalho forjada historicamente. Isso é mais profundo e arraigado do que limitar historicamente o entendimento a um determinado momento da história, como a Revolução Industrial, em que uma classe operária recém formada lutou por direitos trabalhistas e garantiu, com isso, conquistas que mantém o trabalhador atual em condição privilegiada em comparação ao trabalhador que encontramos, nos países em desenvolvimento, ou subdesenvolvidos. Porque a classe operária inglesa, francesa e alemã, no momento da Revolução Industrial, traz na memória uma história de valorização do trabalho, profundamente oposta àquela experienciada no Brasil escravocrata e colonial.

Deste modo, chegamos a uma interrogação que prenuncia um rumo diferente para o debate sobre a educação profissionalizante: Por que motivo não nos ocupamos em pensar de que forma as profissões de ofício poderiam ser enriquecidas com o conhecimento que as elevasse a um patamar mais digno, apontando inclusive para a perspectiva de formação nas universidades, nos ditos cursos superiores?

Por que quando os cursos técnicos superiores são oferecidos merecem muitas vezes as críticas que lhes são feitas? Por que estão formatados como um condensado simplista do curso amplo de formação do bacharel?

Tudo indica que o modelo de formação profissional de bacharéis é o único que sabemos legitimar e as profissões tradicionais são aquelas que podem alcançar o nível superior de estudos. Mas, nos esquecemos que quando se impõe a necessidade do trabalhador especializado, como o pedreiro, com competência para ser o restaurador de construções antigas, escolhemos alguns e os enviamos para a Europa, como foi alardeado algum tempo atrás no noticiário televisivo, ou mandamos vir alguém confiável e habilitado do exterior. Assim, a perspectiva de pensar o pedreiro, o carpinteiro em um curso de História da Arte nos parece inexeqüível, especialmente, se considerarmos que se tornou um fato naturalizado a afirmação de que o trabalho manual não envolve esforço intelectual.

A situação de adversidade em que a “educação profissionalizante” permanece, relegada ao lugar dos esquecidos, sem merecer ocupar a cena teórica é extremamente preocupante no momento atual, em que o futuro da população jovem de nosso país encontra-se disputado, por um lado, pela sociedade legal com poucas ofertas de escolarização e emprego e, por outro, pela possibilidade de prover o sustento material adentrando pela vida ilegal por meio do tráfico e da criminalidade.

Conclusões:

No campo das ciências sociais, a condição de país periférico, não produtor autônomo de teorias traz também implicações para formação do campo de reflexão sobre o trabalho e a educação que forma a mão de obra trabalhadora. A importação dos modelos teóricos, quer seja no que concerne ao pensamento conservador, quer seja no tocante ao pensamento crítico, estabeleceram as balizas para a construção dos modelos explicativos da desigualdade e da injustiça social, presentes no cenário brasileiro.

O pensamento crítico, predominante dentre as produções na área das ciências sociais pós década de 80, originou explicações de caráter macrosociológico que analisam uma realidade colocada dentro dos parâmetros do sistema capitalista, fundado na exploração do trabalho, na expropriação da mais-valia, gerando o conflito Capital X Trabalho, assentado no desemprego estrutural.

O contexto internacional globalizado e neo-liberal comparece, agravando a exclusão social, o empobrecimento e a tensão derivada da luta travada pela divisão internacional do trabalho. Porém, a complexidade e a riqueza do imaginário social escapa ao modelo teórico macro, que analisa a sociedade reduzida a um sistema social, deixando escapar que a cultura de trabalho escravocrata continua a impregnar subrepticiamente o olhar e o julgamento sobre o trabalho.

Desnecessário se torna comentar o grau de rejeição que os cursos técnicos de nível superior vêm enfrentando no interior das instituições que os oferecem. Os questionamentos quanto à qualidade dos cursos e ao tipo de profissional que os mesmos formam, encontram eco na sociedade que observa, descrente dos propósitos que justificam esta oferta.

Por outro lado, os cursos regulares de nível superior, igualmente, se destinam a formar profissionais que vão exercer funções no mercado de trabalho capitalista. Porém, a esses cursos que profissionalizam para o desempenho de atividades tradicionais não se lhes pega a pecha de “educação profissionalizante” e somente aos “outros” que se destinam a formar para o desempenho de “outros tipos de profissões”, aquelas que não são as superiores, logo, devemos concluir que são as consideradas socialmente “inferiores”?

As tensões entre educação e requisições do mercado de trabalho geraram um movimento de resistência teórica que explica por quais motivos a escola e a educação não podem e não devem se curvar aos interesses do capitalismo explorador, defendendo a autonomia e a liberdade para o desenvolvimento científico.

Assim, a questão, embora corretamente colocada, estende a preocupação pedagógica exclusivamente ao ensino regular, deixando órfãos os cursos profissionalizantes, esse campo do aprendizado que permanece pensado como o lugar dos excluídos, daqueles que só se encontram nele, por não disporem das condições adequadas e democráticas para o ingresso no verdadeiro campo do conhecimento e do saber.

O que esta solução deixa de revelar é a perpetuação do olhar desqualificante sobre as profissões de ofício. A despreocupação com a formação do carpinteiro, do pedreiro, do agricultor. Para esses, ou para os que estão destinados ao aprendizado destes ofícios quando jovens, discute-se o oferecimento de cotas nas universidades públicas, a oferta dos cursinhos de pré-vestibular nas favelas e todo o tipo de medida que pretende “facilitar” a entrada da população pobre e “excluída”, das mesmas oportunidades e do mesmo horizonte de perspectivas dos filhos da elite que pretendem a medicina, o direito e a engenharia, nas Universidades Federais ou Estaduais.

Alguns autores, ainda mais preocupados com a “qualidade” do conhecimento que é oferecido nas escolas regulares propõem que o tempo para a conclusão do ensino médio seja aumentado. O que pudemos notar na literatura que aborda a educação profissionalizante é que, para além dos limites dos cursos técnicos de nível médio e do sistema S (SENAI, SENAC, SESI), o debate não se estende.

O que é, exatamente, a idéia de obter prazer no desempenho de funções subalternas, conforme nos revelou a pesquisa exploratória? Para entender melhor a colocação, aventou-se a hipótese da falta de perspectiva profissional pelo lugar de classe, conforme Bourdieu que nos remete à situação em que a ambição é limitada pelos horizontes da classe social em que o indivíduo se situa.

Como duvidar e estranhar são parte do ofício do pesquisador, nos indagamos sobre a possibilidade de, simplesmente, haver realização pessoal no exercício dessas profissões “menores”, fenômeno que acontece até mesmo entre os filhos da classe média e da elite, em alguns casos que causam espécie nas famílias em que há a opção por profissões destinadas à massa de “excluídos”.

O motivo pelo qual se impôs a indagação sobre o que os trabalhadores pensavam acerca do trabalho adveio da curiosidade surgida durante o estudo dos textos teóricos sobre o trabalho como uma categoria construída socialmente, objeto presente na produção de vários autores, especialmente no campo marxista em que o trabalho é discutido dentro do quadro da exploração capitalista, no contexto da divisão do trabalho industrial que gera a alienação social, material e subjetiva do trabalhador. Por conseguinte, nesta leitura da realidade a percepção do trabalho como fonte de prazer pessoal e realização social, aparece como uma possibilidade inatingível dentro do ambiente conturbado da luta de classes.

Surpreendentemente, o trabalho é declarado como fonte de prazer e verbalizado como elemento de realização pessoal, por um número expressivo de entrevistados atuando em atividades que envolvem esforço físico e outras atividades consideradas subalternas que aliam essa percepção à outra, a da consciência da função do trabalho prover as condições de sobrevivência material.

O debate sobre essa questão do trabalho como prazer, juntamente, com a leitura dos textos sobre a educação profissionalizante nos remeteu a outro ângulo do problema.

Em resumo, o contato inicial com o campo nos levou, durante as discussões sobre os dados a refletir criticamente sobre a literatura que trata do universo reservado a “educação profissionalizante”, nos conduzindo metodologicamente a um posicionamento em que a análise acerca do processo de formação profissionalizante, embora não exclua a percepção do papel influente exercido pelo sistema sócio-econômico e político capitalista, não se restrinja a este tipo de olhar que vem predominando,ao contrário, pretendemos doravante buscar de forma sensível, incorporar a idéia de que as variáveis culturais historicamente construídas também têm poder instituinte sobre as relações de produção e o modo de pensar a educação no Brasil.

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