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  O ESPAÇO GEOGRÁFICO E ALUNOS MIGRANTES

Douglas Beiro – Universidade Estadual Paulista – UNESP – Rio Claro (SP)

Introdução

A partir de alguns estudos e minha experiência em projeto de educação de jovens e adultos pretende-se estudar a relação entre alunos adultos migrantes e a migração interna brasileira do século XX no que diz respeito a ressignificação que o espaço geográfico passa a ter àqueles que enfrentaram o processo migratório.

Nesse processo que vem ocorrendo de forma intensa nas últimas décadas do século XX inúmeras pessoas tiveram que deixar o lugar de origem para procurarem melhores condições de vida nas regiões de atração migratória. Em projeto de educação de jovens e adultos na cidade Rio Claro (SP), verificou-se que a quantidade de alunos migrantes era grande. Quais razões essas pessoas atribuem ao processo no qual vivenciaram? Processo esse que faz parte das significativas transformações geográficas ocorridas nos últimos anos no Brasil, como o êxodo rural, a urbanização acelerada e sem planejamento, a industrialização, etc. Queria levantar o significado do processo justamente com aqueles que o vivenciaram como ‘atores’. O geógrafo Tuan contribui: “Todos os homens compartilham atitudes e perspectivas comuns, contudo a visão que cada pessoa tem do mundo é única e de nenhuma maneira é fútil” (1980, p. 285). Enquadro este estudo na perspectiva da percepção em geografia.

Migração

Para a idéia de migração vincula-se a migração interna brasileira e os sujeitos que migraram durante o processo de urbanização que ocorreu no país em meados do século XX. A não inclusão da migração estrangeira se refere a mudança do tipo de fluxo migratório desse período, um outro contexto se abriu com a urbanização e a industrialização do país, não sendo mais necessário o estrangeiro como mão-de-obra, o país já tinha uma reserva desse “recurso produtivo” disponibilizado. A migração estrangeira pode servir a princípio para busca de subsídios para se entender o processo migração de forma geral e para compreender a especificidade do caso de nosso país.

Geralmente, as pessoas partem de uma área economicamente mais atrasada em relação às áreas de destino. A busca de condições melhores de vida pode se repetir em escala global como local servindo de comparação com as realidades enfrentadas pelos sujeitos que se aventuram dentro do território brasileiro.

A partir de Pierre George (1978) poderíamos enquadrar esse tipo de migração ligada ao “problema imediato do emprego”: “as flutuações do emprego no mercado do trabalho têm uma repercussão direta nesses movimentos migratórios” (GEORGE, 1978, p. 106).

Os migrantes, grosso modo, na condição daqueles que buscam por emprego, que saem de uma área onde ele é escasso ou mal remunerado, “são trabalhadores não especializados, e por isso mesmo procurados pelas economias mais evoluídas cujas populações não aceitam os trabalhos ingratos e mal remunerados” (GEORGE, 1978, p. 105).

A não especialização pode traduzir os atrasos sócio-econômicos das áreas de origem dos migrantes, de suas condições de vida e pode representar também a pouca ou nenhuma escolarização dos sujeitos. Como se não bastassem, as locomoções pelo território “são especialmente ingratas para as criaturas que delas participam e que são forçadas a viver durante anos de modo anormal, expostas a todas as tentações e degradações” (GEORGE, 1978, p. 106).

Dentro de uma região de atração migratória, novas relações de trabalho e a mecanização agrícola podem provocar a movimentação de contingente humano. “Todas as vezes que o processo produtivo do momento impõe técnicas de trabalho estranhas à região onde vão ser utilizadas, inicia-se a desestruturação de sua organização, que tem nas migrações o seu mais importante reflexo” (LEITE, 1994, p. 26).

O processo migratório interno brasileiro vem “se instaurando desde 1930 quando o migrante nacional passa a substituir o imigrante estrangeiro como mão-de-obra mobilizada para promover o desenvolvimento econômico” (DURHAN, 1973, p. 16). Esse processo começa a se intensificar após a Segunda Guerra Mundial, onde a economia capitalista mundial “passou por um novo surto de internacionalização” (PINTAUDI e CARLOS, 1995, p. 11) e com o Plano de Metas do período do governo de Juscelino Kubitschek e a “implantação” da revolução verde para a modernização da agricultura (ADAS, 1989; HESPANHOL e HESPANHOL, 2004):

O rápido processo de adoção de inovações tecnológicas na agricultura e a intensificação da concentração fundiária provocaram o êxodo de milhares de colonos, parceiros, arrendatários e pequenos proprietários, os quais se deslocaram seja em direção às novas regiões de fronteira agrícola do Centro-Oeste e Norte do Brasil, seja em direção aos centros urbanos mais industrializados, principalmente São Paulo e Rio de Janeiro (HESPANHOL e HESPANHOL, 2004).

O que, nas palavras de Durhan (1973), constituiu na “destruição do modo de vida tradicional”:

Desapareceram as relações de trabalho como parceria e colonato, que davam certa autonomia ao produtor e nas quais o acesso a terra constituía parte da remuneração do trabalhador. Tanto na Zona da Mata, no Nordeste, como, de modo cada vez mais geral, no Estado de São Paulo, a aplicação de legislação trabalhista no campo vem resultando na expulsão do trabalhador da fazenda para a cidade, e na criação da categoria de ‘volante’, trabalhador rural que mora na cidade e constitui uma mão-de-obra mobilizada por empreiteiros para as diferentes tarefas agrícolas de diversas propriedades rurais (DURHAN, 1973, p. 13).

Nota-se uma intensificação do processo migratório na segunda metade do século XX, mas não podemos ignorar que ele vem ocorrendo durante toda história brasileira, acompanhando os “ciclos” econômicos e as mudanças dos espaços hegemônicos internos de atração. Mas com uma diferença, o grau de urbanização.

A urbanização brasileira, que começou a se implementar nas décadas finais do século XIX e início do XX, atingem índice ainda não conhecido pelo país até então. Para o conceito de urbanização, “pode-se dizer que uma sociedade está se urbanizando na medida em que o crescimento da população urbana é maior do que o da população rural” (BRAGA e CARVALHO, 2004, p. 105). A migração aqui tratada está intimamente relacionada com a urbanização e, conseqüentemente, a industrialização, ambos aspectos que se dão concomitantes (PINTAUDI e CARLOS, 1995), coincidindo com os anos a partir de 1950, período onde o Brasil se urbaniza.

Alunos migrantes

Em Projeto de Educação de Jovens e Adultos (PEJA), vinculado a Pró-Reitoria de Extensão, da Universidade Estadual Paulista (UNESP), campus de Rio Claro (SP), foi verificado, preliminarmente, durante o ano de 2004, que a quantidade de alunos migrantes era grande. Poderíamos relacionar com a grande urbanização ocorrida no Brasil nas últimas décadas do século XX, quando a população até a década de 60 era de maioria rural, situação invertida na década seguinte, reflexo de uma industrialização tardia tanto urbana como rural. Sem atribuir simplesmente uma relação de causa e efeito, poderíamos refletir que muitas das pessoas que se aventuraram nessa locomoção pelo território buscando formas melhores de sobrevivência acabaram ficando à margem do usufruto de algumas vantagens conquistadas pela civilização urbana, dentre elas a escolarização.

Márcia Resende (1986) apesar de não ter trabalhado especificamente com a temática, migração permeia os relatos colhidos por ela junto a alunos trabalhadores de Belo Horizonte. Nos relatos de história de vida são freqüentes a relação campo-cidade ou pequena cidade-grande cidade, como sentido obrigatório da movimentação dos sujeitos pelo espaço geográfico. Ela selecionou alguns relatos de história de vida, dos quais analisou e encontrou evidências de saberes espaciais. É percebido que as experiências de migrantes contribuem com esses saberes. Longe da idéia de que, como alunos com pouca ou nenhuma escolaridade, não tenham nenhuma concepção espacial. Pelo contrário, Resende (1986) mostra que os mesmos não só têm concepções espaciais presentes nas histórias de vida relatadas, como trazem o que chamou de “conceitos geográficos” nascidos da própria prática, vivenciada da divisão social do trabalho no qual sentiram na pele. O que, nas palavras de Damiani, constitui a divisão do trabalho para o trabalhador: “divisão do trabalho (...) o trabalho dividido como trabalho potencializado, é também, e ao mesmo tempo um trabalho alienado” (DAMIANI, 1991, p. 8).

Essas concepções, os significados que o espaço geográfico adquire com as pessoas migrantes não têm necessariamente como mediador:

informação mais ou menos livresca ou pelos padrões de apreensão da realidade físico-social-cosmológica veiculados, por exemplo, pelos modernos meios de comunicação de massa. Ou pelo menos, só é influenciada por eles marginalmente. É ‘fazendo’ a sua história, vale dizer, inserindo-se nas relações de trabalhos e produzindo, em condições sociais dadas, a sua própria vida, que elas vão construindo esta consciência (RESENDE, 1986, p.132).

O que revela a fala de um aluno de uma das turmas do PEJA contestando os termos “geográficos” usados por mim em uma aula: “Esse negócio de campo, zona rural, é muito estranho. Lá a gente era da roça mesmo”!

Teria a ver com a própria vivência, da locomoção pelo espaço geográfico, a procura de condições melhores de sobrevivência, muitas vezes motivadas por história de lugares onde pudessem encontrar emprego, bons salários e pudessem ajudar aqueles que ficaram no espaço de origem e até quem sabe voltar com dinheiro e comprar umas terras e tornar proprietários.

As vivências relatadas trazem em si conflitos sociais. É comum nos trechos analisados pela autora, e por nós como veremos mais adiante, que os “saberes”, “percepções”, “vivências espaciais” trazidos pelos alunos, são nascidos não somente da percepção particular dos sujeitos, mas das relações sociais de trabalho que estes vão estabelecendo, relações essas desiguais, onde eles são o elo mais frágil. Essa experiência cria um conhecimento original. O vivido seleciona e ordena. Vinculado ao trabalho, o “espaço de origem”, por exemplo, será sempre referência para comparação com outros espaços, o “espaço de busca”, geralmente, “idealizado, glamourizado e depois assustadoramente sofrido, mas de qualquer modo um espaço de experiência direta” (RESENDE, 1986, p. 133).

Amélia Damiani lembra que “para Max Sorre [geógrafo francês] o impulso migratório raramente é um fato simples; resume-se num acúmulo de necessidades, desejos, sofrimentos e esperanças” (DAMIANI, 1991, p.63). Podemos verificar o quanto pode ser marcante esse processo para os sujeitos envolvidos.

Esses espaços de experiência direta, de sonhos, conflitos e frustrações geram ressignificação, uma forma própria de concebê-los:

É, pois, a luta pela sobrevivência com a sua cota compulsória de medo, solidão, dor, morte, mas também de astúcia e arte em relação à natureza, bem como de tensão velada ou ostensiva face às normas da divisão social do trabalho, que forja essa visão particular, essa maneira própria de encarar a relação indivíduo/espaço que chamamos espaço real (RESENDE, 1986, p. 132).

Poderíamos relacionar ao que Weil vincula a questão do enraizamento: “Um ser humano tem raiz pela sua participação real, ativa e natural na existência de uma coletividade...” (citado em SILVA, 2004, p. 123). O espaço real e o processo de enraizamento, este podendo se dar como um processo topofílico, de criação de laços afetivos com lugares vivenciados (TUAN, 1980), podemos entendê-los a partir da experiência (TUAN, 1983), espacial, de quem os vivenciou.

Assim, além de acompanhar os alunos do projeto de Rio Claro, participando das aulas, como educador, colhendo impressões, fiz entrevistas individuais que foram gravadas em fita cassete de onde foram colhidos depoimentos sobre as razões atribuídas ao processo no qual vivenciaram.

Pareceu-me adequado, durante as entrevistas feitas individualmente – etapa de onde foram colhidas as informações propostas por este trabalho – pedir para que os sujeitos lembrassem os lugares onde viveu, o trajeto percorrido, desde o lugar natal até a cidade atual, o que poderia facilitar na reflexão sobre as razões da migração em suas vidas.

Para isso foi escolhida uma das turmas do PEJA – no ano de 2004 eram cinco turmas ao todo no projeto –, a turma do Jardim Esmeralda (bairro periférico de Rio Claro), formada por mulheres que têm seus históricos de vida ligados à migração, era justamente onde eu trabalhava como educador e já havia construído laços. Eram formadas por alunas de faixa etária que ia dos vinte e um até setenta e um anos. De oito depoimentos, analisamos alguns trechos.

Depoimentos: as razões

Dos depoimentos colhidos foram retirados trechos relacionados as razões de migrarem. Cada aluna, a sua forma, relacionou direta ou indiretamente a busca por trabalho como motivo principal de migrarem. Não é de se estranhar, pois como é conhecido nas ciências sociais, é através do trabalho que o ser humano também faz a mediação entre a sociedade e a natureza e por meio dele que os sujeitos estabelecem relações com o espaço. Parecia que não tinham dúvidas sobre isso, as razões surgiam, geralmente, sem rodeios:

“Eu precisava trabalhar, né? Eu vim trabalhar de empregada e tô aqui até hoje”.

P. H. S. S.

E a mesma forma direta parece subjacente a questão do trabalho ou a busca de condições melhores de existência era subentendido:

“Acompanhando o marido, né?”

O. P. M.

A busca por melhores condições através da locomoção pelo território era empreendida com o auxílio de redes de pessoas e informações sobre os lugares de atração:

“A gente sempre tá atrás de uma melhorazinha, né? Porque a gente tava no estado de Minas, gosto muito de lá, porque lá é minha terra que eu nascí. Nunca mais [voltei lá]. Amo minha terra, amo a minha família, amo meu povo todinho é de lá. Só que é muito difícil, a vida lá é muito difícil. Então falaram que o Paraná era muito bom, então a gente sempre procurando uma melhorazinha, né? As pessoas que às vezes viam pra cá e voltava lá e falava que aqui era muito bom e o povo vinha vindo, foi vindo mesmo, foi vindo em peso, outros pra cá, outros pra outros estados e foi deixando Minas”.

A. G. S.

Quase nunca estavam sozinhas. Geralmente, a migração é feita em família – lugar/pausa (LIMA, 1996, p. 77). Os laços familiares dos que migram eram uma forma de proteção para enfrentar os espaços desconhecidos do caminho – lugar/movimento (LIMA, 1996, p.77):

“É por causa que meu irmão veio para cá, né? E minha mãe veio atrás dele. Ele veio primeiro para arrumar serviço. Veio morar na casa de meu tio e logo atrás nós viemos”.

F. P. L. R.

“Eu acho que o motivo assim de trabalho, né? Que os pais da gente queria procurar serviço em outro lugar. Porque tinha meu irmão solteiro, então, ele veio trabalhar em frigorífico. Foi por motivo de trabalho mesmo”.

M. A. M.

“Porque depois por lá não deu certo. Depois mudamos de lá de Campinas. De lá de Jaguariúna mudamos para aqui perto de Cordeirópolis, numa chácara perto de Cordeirópolis. E depois nós trabalhava naquela chácara... tomava conta de seis chácara”.

I. L.

“A família da minha mãe morava tudo aqui. Então eles vieram... só ela morava lá. [Por que eles vieram?] Porque é um lugar melhor, né. [Lá] É muito difícil as coisas. Eu lembro que a minha mãe trabalhava na roça com meu pai, que eu ficava em casa cuidando das crianças. Meu pai [ao chegar aqui] ele trabalhava na cana”.

A. L.N. S.

Revelações da vivência das diferenças sociais sentidas na pele, a migração era também muito mais que procurar por trabalho, significava fugir da exploração, o lugar de origem deixa de ser espaço da nostalgia (como cheguei a pensar antes de iniciar este estudo) para ser de lembranças amargas. Se mais acima foi falado do processo topofílico, podemos falar que seu contrário também ocorre, topofobia, a repulsa, ou o sentimento de medo pelo lugar (LIMA, 1996, p. 77; AMORIM FILHO, 1996, p. 142):

“Por causa eu tinha muita vontade de vim embora para São Paulo, porque lá... era o seguinte, né, a gente era que nem escravo lá. Porque a gente não tinha nada, trabalhava com patrão. E a gente, a obrigação deles queria que a gente fizesse de tudo, né. Lavava roupa para... como é que fala?... Por causa que nós morava com ele, né, e nós não tinha terra. E como nós não tinha terra, nós morava com eles. E ele queria que a gente fizesse as coisas de graça pra eles, né. Lavava muita roupa para a minha patroa, sabe? Cada trouxona de roupa, sabe? E tinha vez que eu chegava em casa não tinha nada, só tinha água do pote. Tinha nada para colocar no fogo, né. E aí eu pegava as roupas dela. O que ela fazia, mandava lavá. Depois eu chegava lá com uma trouxona de roupa tudo limpa, né. Mandava entrar lá dentro, porque ela era rica, né. Ela era rica minha patroa. E ela mandava colocá lá dentro do quarto dela, em cima da cama, para as outras empregadas dela dobrar, para depois passar para ela as roupas. Mas sabe como é que era, tudo de graça. Lá não tinha pagamento de nada não, nem um pouquinho. Nós era assim que nem escravo lá... Por isso que eu tinha vontade de vim embora aqui para São Paulo. Eu achava assim que a gente viesse aqui para São Paulo a gente melhorava mais de condições, né, não ficava muito sofrendo”...

N. L. N.

E com o gravador desligado a entrevistada completa:

...“Para lá não quero voltar nunca mais!”

Através das relações entre sujeitos de classes diferentes constata-se que o espaço não é neutro, mas sim social, com suas contradições subjacentes: “Nunca é um espaço apenas ‘geográfico’, tal como nos acostumamos a estudá-lo e ensiná-lo: espaço onde correm rios, que possui tal solo, esta vegetação, aquele clima, e, ao final, uma determinada quantidade de homens, artificialmente nivelados pela estatística” (RESENDE, 1986, p.139). Os depoimentos são contundentes no sentido que as educandas tinham uma certa consciência dos processos que extrapolam uma visão alienada das contradições sociais, elas viveram (e vivem) essas contradições.

Gonçalves contribui, citando Chauí (1982): “O espaço é o lugar da política e é ali que vários sujeitos sociais concretamente se movimentam desenvolvendo múltiplas estratégias de sobrevivência, às vezes numa aparente apatia que, logo adiante, se faz revolta” (GONÇALVES, 1999, p. 83).

Além dos significados hegemônicos que o espaço têm para grupos sociais hegemônicos (“patrões”, os poderosos, etc.), que são veiculados geralmente pelos meios de comunicação de massa e de consumo e, também, nos livros didáticos, a locomoção pelo território pode significar para essas educandas muito mais do arranjar trabalho, elas buscam dignidade.

Últimas considerações

Quando foi proposto tratar da ressignificação espacial por parte de sujeitos migrantes se tentou trazer a luz à existência de formas de experienciar e conceber tão válidas quanto às de outros sujeitos (hegemônicos) sociais. Concordamos com Resende (1986) que esse saber, essa significação peculiar do espaço geográfico construído através da experiência, marcada por desejos, angústias, medos, privações, perdas, mas também com doses de alegria, pode tornar viável o acesso desses sujeitos ao conhecimento geográfico.

Pois, a relação com o conhecimento, conforme Edwards, envolve “um conjunto de relações a partir do sujeito” (1997, p. 98), mas que não devemos esquecer que essas relações só ocorrem na presença de outros sujeitos. Portanto, os chamados conhecimentos prévios trazidos pelos alunos devem ser considerados em todo processo de ensino e aprendizagem escolar não apenas no início das atividades de ensino (MIRAS, 2001, p. 73), haja vista, no caso de educandos adultos seus saberes construídos a partir da experiência estarão permanentemente intermediando os conhecimentos vinculados nas relações escolares.

A geografia não sendo aquela disciplina que apenas descreve o espaço, fazendo inventários, mas como uma área dotada de conhecimentos sobre as contradições sociais que se materializam no espaço geográfico, que pode trazer em si aquela “visão de totalidade que permite ao sujeito do conhecimento a compreensão do mundo em que vive e que, antes de tudo, permite pensar a sua superação” (OLIVEIRA, 1999, p. 54). Poderíamos lembrar Paulo Freire (1997) para quem a educação é um processo contínuo e que ela só tem sentido quando realizada de forma democrática entre os sujeitos participantes através do diálogo permanente.

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