Voltar    
  PROJETO LEITURA SOLIDÁRIA

Milva Morelli Shandra - UNIANCHIETA – Sociedade Padre Anchieta Ensino S/A LTDA
Rita Rabelo Nobre Belli - UNIANCHIETA – Sociedade Padre Anchieta Ensino S/A LTDA

1. A ORIGEM DO PROJETO LEITURA SOLIDÁRIA

O Projeto Leitura Solidária foi criado após o diagnóstico feito pela equipe da Escola Estadual? “Professor Alberto de Souza” que está localizada na Rua Francisco de Paula, 142 no Jardim Vera Cruz na cidade de Várzea Paulista – São Paulo. A referida equipe teve como embasamento os resultados da prova da SARESP, os quais evidenciaram uma deficiência na disciplina de Português, nos alunos de 4ª série do Ensino Fundamental, daí a idéia da elaboração do Projeto.

2. JUSTIFICATIVA:

A escola está inserida em um contexto social de um bairro de periferia no qual é composto por algumas indústrias e alguns pequenos estabelecimentos comerciais. A maioria dos moradores, pessoas de baixa renda são operários destas indústrias e o restante divide-se em profissões como: pedreiros, diaristas, lavadeiras, vendedores autônomos etc .Diante deste contexto, esta escola sofre diariamente interferência desta sociedade, segundo a Diretora, a escola tem por objetivo contribuir para uma sociedade mais justa e igualitária, pensando deste modo a equipe escolar deste estabelecimento deve estar atenta as demandas sociais atuais e deve estar principalmente compromissada com o desenvolvimento de habilidades necessárias para que o aluno possa com autonomia tratar saberes acumulados e construir novos saberes. E ainda, dar-lhes condições para participar ativamente desta sociedade para “lutar” por mudanças necessárias ao bem estar comum.
Conforme relato da equipe escolar, o comportamento, atitudes e depoimentos de uma parte significativa do alunado denunciam a realidade cruel que enfrentam ainda em sua tenra idade.
Em uma pesquisa estatística realizada pela escola, constatou-se que grande parte da clientela provém de famílias com baixo poder aquisitivo, baixo nível sócio-econômico-cultural e ainda oriundos de pais com o Ensino Fundamental incompleto.
Constataram-se também problemas como:

? Carência efetiva;
? Uso de bebidas alcoólicas;
? Uso de drogas;
? Gravidez precoce;
? Restrito hábito de leitura;
? Desemprego;
? Alienação diante dos fatos políticos e sócio-econômicos que afetam sua vida.
Este é um circulo vicioso: família de baixa renda; mora num lugar de fácil propagação de doenças; a doença atinge, facilmente, os desnutridos; os pais precisam trabalhar demais e não dão a atenção necessária aos filhos que deixam de ir à escola por estarem doentes, subnutridos ou por terem de trabalhar e não receberem incentivo dos pais que diante da questão social vivida pouco podem fazer, sem mencionar os outros problemas já detectados pela equipe escolar desta unidade. Vale a pena lembrar, entretanto que:

“Um jeito de quebrar esse circulo tenebroso é investir em educação. Isso porque uma pessoa instruída pode defender melhor os seus direitos e saber quais são as suas obrigações. São muitos os países que progrediram porque investiram nas suas crianças”. (DIMENSTEIN, 2002, p.163)

Estes problemas são entraves que às vezes dificultam um bom relacionamento com o corpo docente e administrativo da escola.
A Unidade Escolar em questão, alicerçada em sua Proposta Pedagógica e Educacional fundamentada na melhoria da qualidade do ensino tendo, o aluno como centro de qualquer ação, procurará solucionar os problemas elencados, através deste Projeto Leitura Solidária...

“ Penso que a Literatura Infantil num país como o nosso é, hoje, uma questão de patriotismo. É uma “Postura Política” a favor dos alijados da cultura e, por isso mesmo, presas mais fáceis da alienação e da miséria (...) creio ainda que a literatura não deve ser algo elitista. É lógico que as massas populares brasileira têm pouco ou nenhum acesso ao livro, más sou convicta de que teríamos um país mais digno e competente em todos os níveis sociais se todos tivessem este acesso.
A arte de um modo geral é humanizante.
Diante da crescente desumanização em que vivemos, imposta pelo progresso numa sociedade que separa e distancia as pessoas com blocos de cimento, poluição, violência e ganância desmedida (...) a arte deverá ter um papel relevante.” (DINORAH 1987,p 22/ 23)

Reportando-nos a Literatura diante do contexto em que a escola está inserida acreditamos na fundamental importância dela para um desenvolvimento positivo da instituição.
E por que a leitura? Porque a leitura faz-nos fantasiar, imaginar, sonhar e transportar-nos; porque leitura humaniza, emociona, e sensibiliza; porque leitura instiga, denuncia e critica; porque leitura leva à criação e provoca mudanças.
3. OBJETIVOS:

- Envolver os alunos das séries finais da escola no trabalho solidário de levar às série iniciais momentos ricos e prazerosos de leitura;
- Proporcionar maior contato dos alunos da escola com livros da literatura infanto-juvenil;
- Trabalhar sistematicamente para que o alunado desenvolva sua leitura de maneira fluente e autônoma;
- Cultivar um clima de entrosamento e respeito entre os membros voluntários para que toda equipe assimile valores éticos no convívio em grupo através do teatro.

4. PÚBLICO ALVO:

Consideramos que todos os envolvidos, coordenação do projeto, equipe voluntária, alunos e professores que vivenciarão as leituras serão “contagiados” pela emoção e prazer da leitura. Quem lê sabe o porquê.

5. RECURSOS:

Os recursos necessários serão os livros, fantoches, marionetes, fantasias, e etc. e o espaço adequado para o trabalho de preparação da equipe.
Utilizaremos para tanto os livros dos MÓDULOS DO PNLD além dos já existentes na escola.

6. PROCEDIMENTOS:

Aqui, passamos a relatar, resumidamente, como se desenvolveram as atividades que deram encaminhamento ao Projeto.

No primeiro momento, a diretora visitou as classes de 5ªséries. No princípio muitos alunos não se sentiram motivados.

Horário do projeto, os encontros aconteciam no horário da manhã e foi necessário enviar aos pais destes alunos uma autorização para que estes pudessem participar.

Número de alunos voluntários, por se tratar de um grupo grande de voluntários, os alunos foram divididos em dois grupos e os encontros aconteciam duas vezes por semana.

Dinâmicas de socialização para estreitamento dos laços de amizade:
DINÂMICA DO LEITE
DINÂMICA DO TOQUE
DINÂMICA DAS TOCAS

Organização da biblioteca, a biblioteca estava fechada e os livros encaixotados e foi preciso a colaboração de todos.

Maiores dificuldades, os alunos recusavam-se a ir embora, pois queriam entrar em contato com aquele novo mundo, e por isso, esse trabalho durou mais ou menos dois meses.

O trabalho propriamente dito:
Distribuição de crachás;
Divisão dos grupos;
Escolha dos livros;
Ensaios.

Regras de convivências, como muitos desses alunos vêm de famílias com dificuldades diversas sentimos a necessidade de estabelecer as regras para que todos “falassem a mesma língua”, para que predominasse um ambiente de respeito no desenvolvimento do Projeto:
? Respeitar os horários estabelecidos para os encontros, procurar não faltar e vir sempre com o crachá;
? Cada integrante do grupo tem o direito de escolher um livro de seu gosto;
? Respeitar a escolha do outro;
? Todos têm o direito de contar a sua história e de ser ouvido;
? Respeitar a opinião do outro em relação a história ouvida;
? A história escolhida e a forma de apresentá-la no teatro (fantoches, marionetes, fantasias, leitura interrompida, teatro relâmpago, flanelógrafo e etc.), deve ser aprovada por todos. Se um dos integrantes não concordar, deve explicar o porquê de sua opinião e dar uma sugestão;
? O grupo deve sempre se lembrar de que a história a ser apresentada deve ser clara para que o público alvo, crianças de 1ªsérie a 4ªsérie, entenda e desperte o desejo e o gosto pela leitura;
? Respeitar o horário de aula da turma da manhã, evitando barulho nos corredores da escola.

Locais de apresentação, as apresentações foram feitas ora nas salas de aula, ora no palco que ficava no pátio coberto.

Resultado, após as primeiras apresentações dos teatros, os alunos das séries iniciais e das quintas séries – séries as quais os alunos do Projeto pertenciam - passaram a exigir da professora de classe que os levassem à biblioteca para retirarem os livros.

Resistência dos professores, os professores que não deram a devida importância ao assunto, sofreram pressões dos alunos que se queixaram para diretora do ocorrido. Comenta Maria José Nóbrega, consultora da Secretaria Municipal de Educação de São Paulo em entrevista dada a PRADO (2002) na Revista Nova Escola que “Uma escola que tem um projeto de leitura permite a adesão de professores que não têm hábito de ler. Ou essa inversão curiosa de papéis, quando a criança é quem nina a mãe com uma história.”(p.52)

Funcionamento da biblioteca, devido a falta de uma bibliotecária, os próprios alunos do Projeto, com a autorização da diretora, passaram a revezar-se em duplas e trios no plantão com o intuito de receber as visitas e organizar os livros devolvidos. Estes alunos aproveitavam mais estes momentos para ler!

Auto-avaliação, em meados de junho, conforme orientação da diretora fizemos uma pequena avaliação com o intuito de saber dos alunos como eles estavam se sentindo em relação ao Projeto.

O segundo semestre, começou a todo o vapor, pois as professores de 3ª, 4ª e 5ªséries vieram nos procurar, a pedido de seus alunos, para que eles pudessem participar do Projeto Leitura Solidária. Por se tratar de muitos alunos, foi necessário que se fizessem sorteios de vagas.

No mês de setembro, lançamos um desafio aos alunos, se eles seriam capazes de escrever seus próprios livros que deveria conter texto e ilustração. Eles aceitaram o desafio com grande euforia. As produções, em pouco tempo, começaram a aparecer e a cada etapa cumprida, os alunos, vinham nos mostrar. Diante da grande dedicação dos alunos e do resultado tão positivo, resolvemos fazer, no final do ano, mais precisamente no dia 13 de novembro – dia da “Família vai à Escola”- lançamento oficial dos livros produzidos pelos alunos.

 
Voltar