Voltar    
  GÊNERO E EXCLUSÃO SOCIAL EM MEMÓRIAS PÓSTUMAS DE BRÁS CUBAS

Ana Helena Cizotto Belline – PUC-Campinas

A antiga discussão sobre a propriedade de se considerar o romance Memórias Póstumas de Brás Cubas, de 1881, como o iniciador do romance realista no Brasil, tem a seu favor, sem dúvida, a descrição dos amores do defunto autor, não pelo que possam conter de crueza de detalhes mas pela caracterização e pelo destino das suas personagens femininas, as quais analisaremos sob o enfoque de duas oposições: em primeiro lugar entre tais personagens e as da primeira fase do romance machadiano, e, em segundo lugar, entre a protagonista – Virgília – e as demais mulheres da narrativa, personagens secundárias.

Talvez como influência da técnica das oposições da estética realista, constata-se um jogo de contrários entre as personagens femininas da narrativa, o qual, centrado em Virgília, pode resumir-se a várias dicotomias: riqueza e pobreza, classe dominante e classe dominada, juventude e velhice, dignidade e desonestidade, abrangendo planos em que se interligam o social, o econômico, o moral e o físico.

Virgília surge aos dezesseis anos na vida de Brás Cubas como o oposto das heroínas dos romances anteriores de Machado: bem-nascida e rica, filha de um conselheiro do império, é apresentada pelo pai do jovem como uma perfeita opção para o futuro, representando fortuna e carreira política e, portanto, possibilidade de ascensão, numa situação de gênero inversa à das heroínas da primeira fase. Lembre-se de Helena, de Estela, de Iaiá Garcia e de Guiomar, todas pertencendo a uma classe inferior pelo nascimento e pela situação econômica, mas com educação superior, as quais só poderiam ascender socialmente pelo casamento. Virgília, no entanto, revela-se ambiciosa como Guiomar, de A mão e a luva, ao trocar Brás por um outro pretendente mais ambicioso.

Na segunda vez em que aparece na vida de Brás, casada e mãe, transformada numa “mulher esplêndida” “a tal ponto a natureza e a arte lhe haviam dado o último apuro” (Assis, 1992b: 80-81), tornam-se amantes. O adultério em Memórias póstumas, descrito sem paixão, do ponto de vista moral escapa a um clichê do realismo, a punição da adúltera, como em Madame Bovary, O primo Basílio ou Ana Karênina. Ao contrário, Virgília convive bem com ele, como revela em três ocasiões. Primeiramente, quando Brás convida-a a fugirem, ela se nega porque, segundo o narrador, “era impossível separar duas coisas que no espírito dela estavam inteiramente ligadas: o nosso amor e a consideração pública.” (p.99) Num segundo momento, quando o narrador reconhece as lágrimas sinceras da ex-amante no enterro do marido: “Virgília traíra o marido com sinceridade, e agora chorava-o com sinceridade.” (p.70) Num terceiro momento, aos 54 anos, quando visita Brás Cubas doente, no seu leito de morte, chega a censurar uma senhora de suas relações, que tinha “amores ilegítimos”:

“Virgília estava serena e risonha, tinha o aspecto das vidas imaculadas. Nenhum olhar suspeito, nenhum gesto que pudesse denunciar nada; uma igualdade de palavra e de espírito, uma dominação sobre si mesma, que pareciam e talvez fossem raras” (p. 24)

Para Abel Barros Baptista, Virgília negará a Brás, pela segunda vez e pelo adultério, o prestígio e a fama que ele perseguia (veja-se, por exemplo o episódio da invenção do emplastro). Não se casando com ele, ao invés de tirá-lo da obscuridade, Virgília contribui para que ele permaneça nela. “Virgília, em suma, derrota pela segunda vez o pai de Brás Cubas” (Baptista, 2003: 218)

Quanto às personagens femininas secundárias, a única mulher da mesma classe social de Virgília é a irmã de Brás, Sabina. As demais são pobres, três delas jovens e bonitas: Marcela, a cortesã, Eugênia, a jovem mal-nascida e digna, e Loló, a quase noiva. Como a narrativa acompanha todas as personagens no decurso da vida de Brás, sabe-se que Marcela, na velhice, torna-se rica em decorrência da ambição que a fez explorar os homens com quem conviveu, numa oposição clara à célebre cortesã de Alencar, a romântica Lúcia, de Lucíola, de Alencar.

Eulália, ou Loló, a noiva escolhida por Sabina, jovem de 19 anos, pareceu deselegante na primeira vez em que Brás a viu, mas elegante na segunda, por força do vestido que causou surpresa no narrador, pois o pai da jovem “ganhava apenas o necessário para endividar-se” (p.127). Ao notar que Loló envergonha-se do pai, e esforça-se para “mascarar a inferioridade da família” por meio da imitação de Brás, o narrador considera o fato positivo: “Este sentimento pareceu-me de grande elevação; era uma afinidade mais entre nós.” (p. 149) A morte repentina da jovem, porém, frustra a ascensão desejada, numa clara oposição às heroínas da primeira fase.

Eugênia é a jovem bonita e pobre cujo destino melhor exemplifica tal oposição. É filha de Dona Eusébia, personagem do episódio em que Brás, menino, denuncia o beijo que ela recebe de Vilaça, homem casado de 47 anos, oculto numa moita. A ironia do título do capítulo em que a jovem surge na narrativa, “A flor da moita”, parece grosseira a Schwarz (1990:81), que analisa a personagem como digna: “a única figura estimável do livro”. Para ele, Eugênia “encerra a generalidade da situação do homem livre e pobre no Brasil escravista”, por depender do favor da classe dominante a qual, por capricho, reconhecerá ou não o seu valor. Por seu caráter e agentividade, Eugênia aproxima-se de Estela, de Iaiá Garcia – é ela que recusa um romance com Brás, reconhecendo a sua inferioridade - mas tem um destino pior: no antepenúltimo capítulo – “Dois reencontros” – Brás a encontra num cortiço, e não procura saber as causas dessa decadência. Sobre a escolha dos nomes próprios na ficção de Machado de Assis, da qual a crítica tem-se ocupado muito, esta análise limita-se a apontar a ironia do nome de Eugênia, que significa “bem nascida”, mas era, além de filha ilegítima, coxa de nascença.

A quarta mulher pobre da narrativa, Dona Plácida, não é jovem, e configura a mais impressionante das mulheres pobres. Para Schwarz, trata-se “um dos momentos mais altos e duros da literatura brasileira” (1990:100) A antiga costureira e agregada da casa de Virgília, de início com relutância, cuida da casa onde Brás e Virgília se encontram. No capítulo “Dona Plácida” o narrador, com muito cinismo, conta como venceu o nojo da pobre senhora: com invenções românticas e cinco contos de réis. Quando ela narra sua própria história, descobre-se que era filha natural de um sacristão da Sé e de uma mulher que fazia doces para fora. Viúva pobre e jovem, com uma filha de dois anos para criar e a mãe velha para sustentar, recusa ofertas de homens que queriam sustentá-la, mas sem casar-se. Trata-se da única mulher que trabalha em Memórias póstumas: fazia doces, costurava para três ou quatro lojas, ensinava crianças do bairro “para comer e não cair” (p.105). A filha foge aos catorze anos, quando ela, triste, é amparada pela família de Virgília. O tom de cinismo do narrador desaparece no curto capítulo seguinte, “Comigo”, que registra a reflexão sobre o motivo da existência de D.Plácida, que seria uma resposta do sacristão e da doceira:

“Chamamos-te para queimar os dedos nos tachos, os olhos na costura, comer mal, ou não comer, andar de um lado para outro, na faina, adoecendo e sarando com o fim de tornar a adoecer e sarar outra vez, triste agora, logo desesperada, amanhã resignada, mas sempre com as mãos no tacho e os olhos na costura, até acabar um dia na lama ou no hospital; foi para isso que te chamamos, num momento de simpatia.” (p.106

Sobre o tom amargo do narrador que resume o destino da mulher pobre e só, não amparada por pai, marido ou filho, faz-se necessário ponderar com Schwarz que, sem dúvida,, é um achado extraordinário o narrador em primeira pessoa pertencer à classe dominante, salientando a irresponsabilidade dos ricos, os quais decidem relacionamentos de favor futilmente. Esse narrador da segunda fase substitui o narrador constrangido da primeira, ou seja, a visão do dependente é substituída pela do proprietário. No plano biográfico, pode-se imaginar que “Machado havia completado a sua ascensão social, mas não alimentava ilusões a respeito, nem esquecia os vexames da situação anterior” (1990:214).

O trecho transcrito, porém, escapa ao tom sarcástico com que foi narrada a aquiescência da própria Plácida a servir de alcoviteira, e aproxima-se da piedade e da revolta, que reaparece fugazmente por um momento, no final da narrativa, quando Brás recebe um bilhete de Virgília pedindo que vá visitar D. Plácida, que se encontra muito mal. De início pensa “pobre Dona Plácida!”, mas depois lembra-se dos cinco contos de réis que lhe dera, acha-se muito generoso, em tom exclamativo: “Cinco contos! E que fizera deles? Naturalmente botou-os fora, comeu-os em grandes festas, e agora toca para a Misericórdia, e eu que a leve! (p.164) Somente por atenção a Virgília visita a moribunda “um molho de ossos, estendido em um catre velho e nauseabundo”, fá-la transportar para a Misericórdia, onde ela morre uma semana depois. O narrador volta então à reflexão do capítulo “Comigo”, para concluir cinicamente, numa perspectiva de classe dominante, que a utilidade da vida de D. Plácida foi acobertar seus amores com Virgília.

Em relação à dicotomia mocidade velhice, ressalte-se que a narrativa, acompanhando o destino das cinco mulheres aqui analisadas, revela que apenas Virgília tem um final de vida digno, decorrente da sua classe social.

Completa-se, assim, pelo procedimento narrativo do contraste, a visão machadiana da mulher de sua época, rompendo com estereótipos românticos da primeira fase e mesmo realistas. A vida correria doce e tranqüila para as mulheres da classe dos proprietários, sem preocupações de ordem prática ou moral. Para as pobres, contudo, nenhuma solução poderá ser encontrada, seja pelo trabalho ou pelo casamento.

Apenas num ponto todas as mulheres são igualadas: a dissimulação, cujo elogio não cessa. Mesmo a digna Eugênia, quando é apanhada pela mãe entregando-se “candidamente” ao seu primeiro beijo, dado por Brás, finge consertar as tranças, ao que o narrador comenta: “Que dissimulação graciosa! Que arte infinita e delicada! Que tartufice profunda! E tudo isso natural, vivo, não estudado, natural como o apetite, natural como o sono. Tanto melhor!” (p.66)

No capítulo “Materiais para uma genealogia do olhar machadiano”, Bosi (2000) elenca citações de autores que teriam contribuído para a ideologia e a estética do autor de Dom Casmurro. Entre elas, a máxima de La Rochefoucauld: “As pessoas fracas não podem ser sinceras.” (p.194), sem dúvida, aplica-se a todas as mulheres do universo romanesco do autor. Já foi afirmado pela crítica feminista que à mulher do passado, sem opções de trabalho remunerado, o fingimento era forma de sobrevivência, no qual ela se formaria desde a infância. Machado intuiu a situação dos seres menos aquinhoados socialmente de diferentes classes sociais da época– as mulheres – e construiu personagens para expor, discutir e criticar a sua situação.

Bibliografia citada

ASSIS, Machado de. A mão e a luva. 10ª ed., São Paulo, Ática, 1993

____. Helena. 17ª ed., São Paulo, Ática, 1992a

____. Iaiá Garcia. 9ª ed., São Paulo, Ática, 1993

____. Memórias póstumas de Brás Cubas. São Paulo, Ática, 1992b

BAPTISTA, Abel Barros. A formação do nome – duas interrogações sobre Machado de Assis. Campinas: Editora da Unicamp, 2003

BOSI, Alfredo. O enigma do olhar. São Paulo, Ática, 2003.

SCHWARTZ, Roberto. Um Mestre na periferia do capitalismo. São Paulo: Duas Cidades, 1990.

 
Voltar