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  PROJETO SALA DE LEITURA

Marlene Scheller Boos - Secretaria Municipal de Educação - E.B.M. WILHEM THEODOR SCHURMANN

Resumo: Projeto que envolve em média 400 alunos do ensino fundamental, professores, coordenação pedagógica, direção e pessoas da comunidade. Tem por objetivo propiciar um ambiente prazeroso e em condições adequadas para a prática da leitura; desenvolver nos alunos (as) e professores (as) o gosto pela leitura; dinamizar o espaço de leitura da biblioteca escolar e implantar uma política de aquisição de livros de qualidade para o acervo da escola. Cabe destacar a leitura como um processo de busca da curiosidade, do prazer e do conhecimento. Falamos de prazer, pois a responsabilidade da escola não é apenas fazer com que as crianças aprendam a ler e a escrever, mas que aprendam e o façam com emoção e significado para o desenvolvimento humano.

Justificativa: Entendendo que a linguagem é o principal fator de mediação nas interações sócio-culturais do indivíduo, na sistematização do planejamento do processo de ensino–aprendizagem para o desenvolvimento do educando a nossa escola privilegia a linguagem nas formas de escrita, de leitura e de fala em todas as etapas do desenvolvimento, de 06 a 14 anos. Entendemos que através da linguagem podemos estimular o desejo do conhecimento. Grotta contribui ao dizer que “É por intermédio da leitura que as pessoas têm acesso ao conhecimento produzido pela humanidade, buscam informações, ampliam sua visão de mundo e têm a possibilidade de exercer a cidadania de maneira consciente e crítica” (p.130, 2001).

Quanto maior for a habilidade e competência lingüística do educando, maiores serão suas possibilidades na busca de conhecimentos, no seu desenvolvimento cognitivo e na aquisição de saberes de um modo geral. Não há conhecimento ou pensamento estruturado sem a competente intermediação organizada da linguagem. Cabe destacar que a leitura exige ser percebida como um processo de busca da curiosidade, do prazer e do conhecimento. Falamos de prazer, pois a responsabilidade da escola não é apenas fazer com que as crianças aprendam a ler e a escrever, mas que aprendam e o façam com emoção.

A preocupação com a formação de leitores é algo antigo, há constantes reclamações acerca da falta de interesse e hábito da leitura, acrescidas ao fato que as dificuldades ao ler, compreender e interpretar acarretam conseqüências graves para o processo de aprendizagem. Para mudar este quadro o primeiro passo é desvincular a leitura da idéia de cobrança. Precisamos estimular uma leitura sem cobranças pré-determinadas e rígidas, mas acompanhada de um papo crítico, para que a criança possa formular seus critérios e suas opiniões. É de fundamental importância que a escola tenha a leitura como um valor cultural e a pratique de maneira envolvente para professores e alunos.

Um dos principais objetivos da E.B.M. Wilhelm Theodor Schürmann é fazer com que todos os educandos tenham o direito de aquisição das habilidades de leitura e escrita. Garantir o domínio e o poder da palavra escrita e falada para que se tornem cidadãos de fato. Trabalhos significativos vêm sendo desenvolvidos pelos educadores em cada turma neste sentido, porém a escola está concretizando mais um passo nesta caminhada com a inauguração do espaço de leitura. Não é fruto do acaso, é o resultado da colaboração e do trabalho de pessoas especiais, que abraçaram este sonho conosco.

Agora já não é mais sonho, começa a fazer parte da realidade. O que desejamos agora em especial, é que este espaço possa acender o brilho nos olhares das crianças na relação com o livro, que através do mundo da leitura todos nós, educadores ou educandos, possamos viajar pelo mundo das sensações, dos cheiros, das cores, dos sabores, das cidades, dos planetas, pelo sonho e pelo possível, pelo imaginário e pelo real.

Referenciais Teóricos:

A leitura é concebida como a busca da produção de sentidos ao texto pelo leitor, ou seja, o texto possibilita um diálogo entre autor (suas idéias impressas no texto) e o leitor. Sendo assim, possibilita uma pluralidade de sentidos possíveis, pois as experiências anteriores de leitura de um sujeito e seu contexto histórico, social e cultural interferem nos sentidos possíveis que ele pode produzir a partir de um texto. O leitor, ao produzir sentidos a partir da leitura, constitui-se por meio dela, modificando seu modo de pensar a respeito de si mesmo, do mundo e de suas relações.

Nas palavras de Larrosa (1998), “ler e escrever é colocar-se em movimento, é sair sempre para além de si mesmo, é manter sempre aberta a interrogação acerca do que se é. Na leitura e na escrita, o eu não deixa de se fazer, de se desfazer e de se refazer” (p.51). Neste sentido a leitura é uma atividade que pode participar da formação do sujeito, uma vez que lhe possibilita repensar e ampliar constantemente suas visões de mundo, modificando sua forma de agir sobre a realidade.

Acrescentando, de acordo com Grotta “podemos dizer que a formação de leitores vai se constituindo a partir da natureza e da qualidade da relação que o sujeito vai estabelecendo, ao longo de sua vida, com o material escrito, seja direta (lendo por si mesmo) ou indiretamente (leitura do outro para si)” (p. 134). Sendo assim, quando pensamos em formar leitores, devemos estar atentos aos eventos de letramento que os educandos participam, mas também ao contexto social, cultural e afetivo que permeia ou media as relações do sujeito com a leitura. Eventos de letramento entendidos na definição de Kleiman como “toda prática social que envolve situações de leitura e escrita, como sistema simbólico e como tecnologia, em contextos específicos para objetivos específicos”.

O ambiente escolar precisa ser caracterizado como um espaço relevante para a formação de leitores, promovendo interações significativas envolvendo a leitura. O professor tem um papel de destaque neste processo à medida que demonstra entusiasmo, prazer e paixão pela leitura, ou seja, demonstra-se leitor para seus alunos. Além de ler e comentar suas leituras, o professor deve indicar livros, refletir com alunos a respeito deles, apresentar obras e autores, enfim, envolver-se na leitura com eles e para eles. “O professor, ao demonstrar-se leitor para os alunos, transforma-se em modelo de leitor para eles, em alguém que, por demonstrar prazer e entusiasmo pela leitura, motiva o aluno a ler” (Grotta, p. 149).

Tornar constante o nome verdadeiro da história, do escritor, do ilustrador e atribuir valor às imagens contribuem para a compreensão do que significa uma obra completa e autoria. Podemos lembrar ainda que através dos eternos e belos contos de fadas, mexemos com conteúdos essenciais da condição humana, com questões, valores e conflitos pessoais (Abramovich, 1985). Além destes fatores, o indivíduo, ao ler desinteressadamente e voluntariamente quaisquer que sejam os suportes escolhidos, estará exercitando de maneira fecunda toda forma de inter ou pluridisciplinaridade, uma vez que a literatura reúne em uma obra horizontes variados nos campos do conhecimento humano.

Quanto mais variados e interessantes forem os textos apresentados aos educandos, maior será a chance de eles tornarem-se leitores e de atingirmos e contemplarmos a individualidade de cada um. Além da relação íntima que o leitor pode e deve ter com o texto, é sabido que este precisa relacionar-se com os mais diversos tipos de textos. Os interesses diversificados e diferenciados pela leitura existentes em qualquer grupo que interage, gera um desencadear de expectativas que levam seus integrantes à pluralidade e ampliação de suas leituras e, conseqüentemente, dos seus saberes. Foucambert destaca:

“Para aprender a ler (...) é preciso estar envolvido pelos escritos os mais variados, encontrá-los, ser testemunha de e associar-se à utilização que os outros fazem dele – quer se trate dos textos da escola, do ambiente, da imprensa, dos documentários, das obras de ficção. Ou seja, é impossível tornar-se leitor sem essa contínua interação com um lugar onde as razões para ler são intensamente vividas” (1994, p. 31).

Para fazermos uma outra reflexão, podemos citar “Quem somos nós, quem é cada um de nós senão uma combinatória de experiências, de informações, de leitura, de imaginações? Cada vida é uma enciclopédia, uma biblioteca, um inventário de objetos, uma amostragem de estilos, onde tudo pode ser continuamente remexido e reordenado de todas as maneiras possíveis” (Italo, 1997).

Ouvir histórias, ler, ou simplesmente folhear os livros, brincar com eles, descobrir palavras e imagens, são maneiras e possibilidades de encantamento, da construção da personalidade e enriquecimento do imaginário do indivíduo. Finalizando citamos Rubem Alves “A educação terá completado sua missão se conseguir despertar o prazer de ler”.

Desenvolvimento:

Explanação do projeto aos professores: no planejamento inicial do ano de 2003, a coordenação lançou a idéia da escola se engajar na luta pela construção de uma sala ambiente de leitura. A idéia foi aceita pelo grupo e a partir de então todos ficaram responsáveis em colaborar de alguma forma.

Recursos para a sala: como a escola (APP) não disponibilizava de recursos financeiros, a coordenação sugeriu e foi feita uma rifa de páscoa para angariar fundos. Tivemos a colaboração de todos (pais, professores e alunos) na venda da mesma e o dinheiro arrecadado foi gasto com: tintas, baús, tecidos, livros, tapetes, etc. Em relação à política de aquisição de livros, a escola se utiliza do seguinte: 1) destino anual de uma parte da verba do PDDE; 2) destino de grande parte da verba do projeto do Lixo; 3) parcerias com empresas da região na doação de livros.

Montagem da sala e compra dos livros: 1) pintura das paredes: o servente da escola colaborou pintando todas as paredes de branco e a professora Débora pintando um painel em uma das paredes; 2) baús: para a pintura dos baús tivemos a colaboração da professora Susana e uma de suas turmas; 3) cartaz da porta: colaboração da professora de artes Renate; 4) placa “Aguarde, estamos ouvindo histórias”: colaboração da professora Cátia; 5) seleção e sugestão de livros: professores e coordenação; 6) confecção de porta-livros e almofadas: colaboração da D. Traude, uma senhora do clube de mães; 7) compra de livros, tapetes, tecidos, fantoches e outros materiais: coordenação.

Inauguração: para marcar a inauguração deste espaço a coordenação fez a leitura da história “O monstruoso Segredo de Lili” de Angélica Glitz e Annette Swoboda até a parte que antecedia o conhecimento do segredo. Aí mencionava que também tinha um segredo para eles e que iria levá-los para conhecer. Neste momento os alunos eram levados à sala de leitura e era terminada a leitura do livro citado, bem como os alunos tinham oportunidade de conhecer e manusear os livros existentes ali. Também recebiam como lembrança um marcador de páginas.

Formação dos professores: para que o professor torne-se um leitor e aponte caminhos para seus alunos, provocando-os constantemente à novas leituras, é necessário debates e reflexões constantes sobre a temática. Neste sentido, estão sendo possibilitados vários momentos de formação com palestrantes, em nossos encontros de parada mensal ou reunião pedagógica, entre eles: Demerval Mafra (leitura, escrita, lingüística), Davi Hülse (projetos de trabalho), Vera e Delaine (leitura e escrita, dificuldades de aprendizagem), Luciane Schilindwein (leitura e escrita).

Uso da sala: os alunos freqüentam este ambiente uma vez por semana (com cronograma previamente agendado), ou mais (de acordo com a necessidade da turma), onde os professores promovem atividades diversificadas num ambiente próprio com: som, fantoches, almofadas, livros de qualidade, tapetes coloridos, entre outros. Estamos sempre buscando novas estratégias para o uso da sala, onde todos (alunos, professores, coordenação, direção, pais), em algum momento tornam-se leitores para si e para o outro.

Relato dos professores sobre as atividades realizadas na e a partir da sala de leitura, bem como de sua importância:

“A sala de leitura trouxe contribuições importantes para professores e alunos, como subsídio para a melhora na qualidade de ensino. O despertar para o hábito de ler, a curiosidade, o manuseio, bem como a responsabilidade pelos livros ficaram evidentes com o uso deste novo espaço. Notamos também o envolvimento das famílias a partir do interesse de seus filhos pela prática da leitura, solicitando para que os mesmos levassem livros para lerem em casa. Podemos citar algumas atividades que passaram a ter mais ênfase, devido ao incentivo que a sala de leitura nos proporciona: teatro, atividades de escrita, recorte e colagem, trabalho com valores, conversas com alunos, trabalho com pais em reuniões, leitura, enriquecimento do vocabulário, entre outras”. (Nair, Heliete, Lúcia, Ursulina).

“A sala de leitura foi o primeiro passo para o incentivo à leitura. Foram adquiridos livros de qualidade para a aquisição e desenvolvimento da leitura e escrita. Através de um ambiente adequado e diversos recursos como: livros, fantoches, CDs, fantasias, foi possível desenvolver vários trabalhos, entre eles: dramatizações, leituras, interpretação de imagem e de histórias, etc. Por ser uma sala aconchegante, com tapetes coloridos, desenhos infantis e almofadas, atraiu a atenção e o gosto de participar das atividades propostas. Observamos nos sorrisos, nos olhares e na expressão de alegria dos alunos uma nova motivação para com a leitura em nossa escola”. (Professores: Nádia, Vanderlei, Marlete, Cátia).

Relato dos alunos sobre as atividades realizadas na e a partir da sala de leitura, bem como de sua importância:

“A sala de leitura é um incentivo para as crianças lerem mais. As crianças escolhem o livro que querem ler, tanto de aventura, como de piadas, poesias e muitos outros. Toda teça-feira, na última aula, a gente vem com um professor para a sala de leitura. Eu já peguei muitos livros legais, como de bichos, de piadas e aventuras. Quase sempre um aluno pega um livro para ler para toda a sala. A sala de leitura tem som e CDs, fantoches e fantasias. Quase toda a escola vai à sala de leitura”. (Lenon Antônio)

“Gosto dos livros: O sapo e a princesa, Coleção Risadinha, Um porco vem morar aqui, Dani, Esta é a Silvia, Vovó Nana, O mundo dos bichos, charadinhas, pelo Avesso, Superclássicos, piadas, etc, enfim, eu gosto dos livros da sala de leitura. Eu gostaria que ligassem o som baixinho enquanto nós estamos lendo”. (Luciene da Silva)

Depoimento de pais sobre as atividades realizadas na e a partir da sala de leitura, bem como de sua importância:

“ ‘Eu gosto muito da sala de leitura’. Minha filha diz esta frase a diversas pessoas. E é por gostar tanto deste espaço que sua casinha de boneca transformou-se em sala de aula e a dispensa em sala de leitura. Ela organizou livros didáticos, livros de histórias, revistas e outros, colocou toalhas de plástico representando o tapete emborrachado com letras, e semanalmente dá aulas para três crianças da rua, levando-as em sua sala de leitura, onde primeiramente as crianças escolhem o que querem ler e depois a ‘professorinha’ faz a leitura de um texto. A Brenda diz que na sala de leitura da escola os alunos deveriam cuidar mais dos livros e que gostaria de usar as fantasias e os chapéus para ler as histórias. Como mãe, sinto muita alegria em perceber que um espaço diferente possibilita tanta riqueza. Lá as crianças desenvolvem a imaginação, despertam à criatividade, ampliam as linguagens, e sem dúvida, o prazer de ler. Acredito que é através destas possibilidades, em espaços alternativos, que a escola mostra sua preocupação com a formação de seu aluno”.

Deise Zanella – mãe da aluna Brenda Caroline Zanella (9 anos)

“Soube desse projeto através de meus filhos e fiquei curiosa. Na primeira oportunidade fui visitar a tal ‘sala de leitura’. Fiquei impressionada com tamanha criatividade (pois sabe-se que os recursos são poucos), carinho e capricho com este espaço. Essa idéia foi e é estimulante, pois despertou ainda mais o interesse de meus filhos pela leitura, refletindo inclusive nas atividades deles. Os responsáveis por este projeto estão de parabéns e tomara que muitas instituições de ensino possam ter um ambiente tão prazeroso e educativo como este”.

Luciana Beatriz da Silveira da Silva – mãe dos alunos Mateus Eduardo Silva (6 anos) e Laura Gabriela Silva (9 anos).

ENCAMINHAMENTOS PERMANENTES:

• Continuidade do projeto (conscientização em relação ao uso e importância da mesma).

• Busca de recursos através de parcerias, doações, promoções, projeto Lixo, para compra de livros, fantoches, etc.

• Busca de palestrantes que tragam contribuições na formação dos professores;

• Viabilização de novas estratégias no uso da sala de leitura, entre elas a Semana da Literatura.


BIBLIOGRAFIA:

XAVIER, Marcelo. Asa de Papel. Belo Horizonte: Formato, 1993.

FOUCAMBERT, Jean. A leitura em questão. Porto Alegre; Artes Médicas, 1989.

ITALO, Calvino. Seis propostas para o próximo milênio, 2a Ed. Tradução Ivo Barroso. São Paulo: Companhia das Letras, 1997.

KLEIMAN, A.B. Modelos de letramento e as práticas de alfabetização na escola, in AB. Kleiman (org.), Os significados do letramento: uma nova perspectiva sobre a prática social da escrita. Campinas: Mercado de Letras, 1995.

LARROSA, J. Pedagogia profana – danças, piruetas e mascaradas. Porto Alegre: Contra Bando, 1998.

GROTTA, Ellen C. B. Processo de Formação do leitor: relato e análise de quatro histórias de vida. Dissertação de Mestrado, Faculdade de Educação, UNICAMP, Campinas, 2000.

 
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