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  DE LOBATO A DRUMMOND – QUESTÕES DE LÍNGUA NOS LIVROS DIDÁTICOS (1940-1980)

Suzete de Paula Bornatto - Escola Anjo da Guarda – Curitiba (PR)

Em pesquisa realizada para o mestrado em Educação, com foco na história das disciplinas, foi “rastreada” a obra de alguns autores representativos da literatura brasileira, freqüentes nos livros didáticos - Monteiro Lobato, Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Manuel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade - , em busca de suas reflexões e posicionamentos sobre a questão da língua (e da norma lingüística) no Brasil. Foi então analisada uma amostra de 14 livros didáticos (para níveis equivalentes aos de 5a. a 8a. séries e Ensino Médio atuais) utilizados entre 1940 e 1980, em que se observou como a obra desses escritores era apresentada/citada, que questões eram formuladas em torno de seus textos e a relação entre as idéias dos escritores e a concepção de língua oferecida nos livros escolares.

A LÍNGUA DO BRASIL EM DEBATE

Lobato e a paranóia gramatiqueira

Os intelectuais, à época do Modernismo, estiveram divididos em diferentes facções ideológicas, e sua postura diante da questão do idioma nacional foi da defesa da existência da língua brasileira (e de tentativas de sistematizá-la) à condenação do distanciamento do padrão local em relação ao português europeu.
Edith PINTO (1994) estuda a posição de Lobato diante dos problemas de língua e de linguagem, recolhendo opiniões explícitas e dados inseridos em seus escritos, com o intuito de verificar a coerência entre a posição teórica e sua prática de escritor. Segundo ela, da abundância de documentos ressalta o "repúdio ao absolutismo das regras gramaticais, impostas, não só ao ensino, mas também à prática da língua, escrita e até oral" (p. 51). Mas se destaca, ao mesmo tempo, a preocupação com o "escrever bem", de forma gramaticalmente correta e fazendo jus à herança dos clássicos portugueses. Um fato de caráter lingüístico que, segundo PINTO (idem, p. 56), permaneceu estável é a sátira à gramática, "fato estranho, à primeira vista, num grande sabedor dela". Lembra, porém, que a sátira se voltava contra os excessos, a mania, a "gramatiquice", sobretudo quanto a pontos de minúcia, como a colocação pronominal, como no conto “O colocador de pronomes” (publicado em 1920, escrito em 1917, conforme cartas desse ano ao amigo Rangel, numa das quais explica que na composição da personagem central entrava 'meia dúzia de gramaticantes cá de São Paulo' (apud PINTO, idem, ibidem).
Na análise de Edith PINTO (1994, p. 58), os pronomes de Lobato não escapam ao eixo das regras, "prova de que, no devido tempo, ele tinha sido empanturrado delas", e sua rebeldia era "possivelmente marca dolorosa, nunca resolvida, de uma reprovação em português, ainda no curso secundário". A tese da reprovação escolar como motivo para o ataque aos gramáticos é de larga aceitação entre os biógrafos (e cara aos professores normativistas), mas certamente é insuficiente para sustentar todo o repertório crítico do escritor sobre a língua. A compreensão da importância intelectual do autor passa pela análise dessa aparente contradição entre, de um lado, a clareza quanto à diversidade lingüística, suas origens e sua propriedade, e o desejo de mudança (ou de reforma), e de outro a conformação às normas gramaticais, a exigência de obediência ao padrão .
Em resenha de 1921, Lobato elogia a "Gramática Brasileira" de Firmino Costa como "um bom passo à frente para a criação da gramática brasileira":

Inúmeras peculiaridades do nosso falar, que as gramáticas anteriores, rigorosamente portuguesas, consignavam condenando como crimes horríveis, F.C. consigna inocentando-os, isto é, registrando-os como fatos consumados da língua. (...) E se gramática é o estudo dos fatos da língua, a gramática que nos convém é a que estude os fatos da língua pátria. (apud PINTO, 1978, v. II, p. 54)

Em 1922, aponta no livro "Dialeto caipira", de Amadeu Amaral, a primeira gramática da língua brasileira: O estudo único em matéria filológica que nos cumpria fazer, não o fazíamos. Era esse da língua nova, a língua que ao país inteiro interessa: o estudo, o retrato fiel da Brasilina arisca que atende às necessidades de expressão dos 25 milhões de jecas que somos. (idem, p. 56). No mesmo ano, trata de "O Dicionário brasileiro", de Assis Cintra, aludindo à vitória da "sintaxe tupi". Reconhece que mesmo no uso das classes cultas a diferenciação lingüística é percebida e cita, como arcaísmo luso ressuscitado por elas, o emprego do pronome pessoal "ele" como complemento direto, o que por alguns fora considerado brasileirismo:

O fato é que no país todo, na linguagem falada, o ele e o ela desbancaram o o e o a; apesar da resistência dos letrados e da resistência da língua escrita. Não nos consta que algum escritor de mérito usasse (...) essa forma. Mas dia virá em que se romperá essa barreira, porque as correntes glóssicas são irresistíveis, os gramáticos não são donos da língua, e esta não é uma criação lógica. (idem, p.59)

Adiante diz de alguns dicionaristas: "E são papões da língua! Dão-nos em cima de palmatória e ensinam-nos o que se não deve dizer, esquecidos de que não se deve dizer, sobretudo, asneiras." (idem, p. 61) Em artigo de 1926 para o Diário da Noite , “O nosso dualismo”, Lobato faz críticas jocosas à escrita de Oswald de Andrade, que trata como “futurista”. Condena a “atrapalhação” dos valores e regras (a gramática, a justa medida, a clareza; cita especificamente o uso do pronome reflexo “me” em início de período), todavia afirma que a “brincadeira de crianças inteligentes” (o movimento “futurista”) iria desempenhar “uma função muito séria em nossas letras”:

Vai forçar-nos a uma atenta revisão de valores e apressar o abandono de duas coisas a que andamos aferrados: o espírito da literatura francesa e a língua portuguesa de Portugal. (...) a tarefa do escritor de um determinado país é levantar um monumento que reflita as coisas e a mentalidade desse país por meio da língua falada nesse país. (CULT, 52, p. 61)

Para o autor, era preciso acabar com o dualismo de mentalidade e língua, já que o povo “fala brasileiro e os próprios escritores que escrevem em português não o falam em família. Em casa, de pijama, só se dirigem à esposa, aos filhos e aos criados em língua da terra, brasileiríssima” (idem, p. 62). Em entrevista à “Folha da Manhã”, em 1941, tratando das transformações da língua portuguesa no Brasil e perguntado sobre se a literatura influi para a constituição do “brasileiro”, responde: “Não. Existem, em todos os países, duas línguas: a falada e a escrita. A língua falada é a verdadeira. É o que vive, e que se transforma.” (idem, p.77-78).
A distinção oralidade/escrita está presente também em texto de 1943, o Prefácio para “Éramos seis”, de Maria José Dupré. Na voz do personagem Manuel Neto, explica:

A língua escrita veio depois, e é coisa restritíssima. Todas as criaturas humanas jogam com a língua falada, e quantas com a escrita? ...
- A correção da língua é um artificialismo, (...) Note que a gramática só se atreve a meter o bico quando escrevemos (...) Na linguagem falada, a não ser na boca dum sujeito que conheço, o verbo concorda ou não com o sujeito – à vontade (e repetir a frase para restaurar uma concordância é pedantismo) (idem, p.79).

HALLEWELL (1985) dedica um capítulo de “O livro no Brasil (sua história)” a Monteiro Lobato e afirma que “em linguagem, pelo menos, Lobato não era rebelde” (pois até pedira a um amigo que corrigisse a colocação de pronomes para a 2a. edição de “Urupês”) e nisso se afastaria dos modernistas. No entanto, talvez se possa afirmar que, além do elemento nacionalista, também na preocupação com o tema da linguagem, a ser encarado por uma perspectiva mais científica, menos arbitrária e menos autoritária, Lobato se aproximou deles. Considerando o raio de influência que o escritor, crítico e editor conseguiu traçar, sua contribuição não é nada desprezível.

Oswald, lança afiada

No caso de Oswald de Andrade, a clareza de que os erros compõem a língua, a recusa dos formalismos, do beletrismo, o respeito pela língua popular são aspectos que evidenciam sua tomada de posição no debate sobre a linguagem. O escritor foi responsável por dois manifestos: o Manifesto da Poesia Pau-Brasil, de 1924, e o Manifesto Antropófago, de 1928. O primeiro, publicado em 1924, não tem meias palavras: "A língua sem arcaísmos, sem erudição. Natural e neológica. A contribuição milionária de todos os erros. Como falamos. Como somos." No ano anterior, Oswald publicara um artigo na Revista do Brasil (que havia sido comprada por Monteiro Lobato em 1918), “O esforço intelectual do Brasil contemporâneo”, em que declarava:

Estamos assistindo ao esforço científico da criação de uma língua independente, por sua evolução, da língua portuguesa da Europa. Recebemos como benefício todos os erros de sintaxe do romancista José de Alencar, do poeta Castro Alves, (...) Enquanto o sr. João Ribeiro tratava de fundar, em trinta e duas notáveis lições, uma língua nacional, o sr. Amadeu Amaral construía a nossa primeira gramática regionalista. A obra dos dois ilustres acadêmicos esqueceu, entretanto, a contribuição do jargão das grandes cidades brasileiras, onde começa a brotar, em São Paulo principalmente, uma surpreendente literatura de novos imigrantes (PINTO, 1978, v. II, p. 200).
É difícil entender que “um esforço científico” fosse aplicado à criação do português brasileiro; no entanto, o destaque para a cientificidade tinha provavelmente a intenção de se mostrar argumento irrefutável, imune a julgamentos baseados em critérios pessoais, no sentido de evidenciar e consubstanciar a língua do Brasil. De todo modo, o reconhecimento dos trabalhos de Ribeiro e Amaral reitera as opiniões de Lobato sobre ambos.
No livro "Pau-Brasil" (1924) está um poema que, nos dias de hoje, costuma aparecer na parte dos livros escolares reservada à literatura – mas não acompanha os conteúdos gramaticais: “Pronominais”. No debate sobre a colocação de pronomes, a concisão poética diz mais do que extensos arrolados pseudo-científicos. A gramática é a da escola, a regra é lusitana, mas a Nação Brasileira, todos os dias, fala diferentemente do recomendado.
Outro poema de 1925 alude aos brasileiros que dizem “teiado”, mas seguem em frente fazendo telhados, construindo as cidades. São os operários, que ocupariam lugar importante na ficção posterior de Oswald. Nas gramáticas escolares, “vícios de linguagem” são aqueles usos arraigados na língua mas condenados pelo purismo. Oswald registra a pronúncia real de um grupo cuja fala é condenada socialmente, mas que está construindo o Brasil concretamente:
Paulo Prado, no Prefácio a “Pau-Brasil”, diz ver na poesia do livro "a reabilitação do nosso falar cotidiano, sermo plebeius que o pedantismo dos gramáticos tem querido eliminar da língua escrita". Isso porque Oswald inova, ao escrever, não apenas no nível do léxico (como Lobato), mas no nível da sintaxe, da organização estrutural do texto, motivo pelo qual seria admirado por, entre outros, seu contemporâneo Mário de Andrade.
Oswald de Andrade, além de transpor a fala para o poema, a tematiza (promove duplamente a realidade lingüística – enquanto forma e enquanto conteúdo). Em sua revisão da história do Brasil, recupera novamente a pronúncia brasileira: “farinha de Suruí/Pinga de Parati/Fumo de Baependi/É comê, bebê, pitá e caí” (em “Relicário”).
Além das condições materiais, o senso de humor, a mordacidade, bem como as opções políticas e ideológicas de Oswald podem ter sido responsáveis pelo isolamento social e intelectual em que se viu no final da vida. Enquanto sua produção poética foi resgatada e revalorizada dentro do cânone literário, suas reflexões sobre a língua foram guardadas no baú das curiosidades e ditos engraçados.

Moderno Mário de Andrade

Mário de Andrade é reconhecido como mentor e papa do Modernismo brasileiro. Intelectual de múltiplos interesses, desenvolveu, além de importantes pesquisas nas áreas de música e cultura popular, estudos sobre a língua brasileira, tema sobre o qual debateu com seus contemporâneos . No “Prefácio interessantíssimo” que abre “Paulicéia Desvairada” (1922), apresentava sua convicção: “A gramática apareceu depois de organizadas as línguas.(...) Pronomes? Escrevo brasileiro. Si uso ortografia portuguesa é porque, não alterando o resultado, dá-lhe uma ortografia”. (PINTO, 1978, v. II, p.133).
Em 1924, compõe o “Noturno de Belo Horizonte” (publicado em “Clã do Jabuti”, 1927, p. 178-189): 406 versos (entre o 246º e o 292º estão os 46 versos que falam da “Serra do Rola-Moça”, trecho que se transformou em um poema “independente” pelas mãos dos autores de livros didáticos”.
Em 1925, é procurado para uma entrevista para o que seria chamado “Mês Futurista” do jornal “A Noite”. Rejeita o rótulo de “futurista”, que é alterado para “modernista” e, a fim de evitar que os jornalistas lhe modifiquem o português, corrigindo o que, como “passadistas”, considerariam solecismos (erros de gramática), datilografa as respostas:

Moléstia-de-Nabuco é isso de vocês andarem sentindo saudade dos cais do Sena em plena Quinta da Boa Vista e é isso de você falar de um jeito e escrever covardemente colocando o pronome carolinamichaelismente. (...) Tradicionalizar o Brasil consistirá em viver-lhe a realidade atual com a nossa sensibilidade tal como é e não como a gente quer que ela seja, e referindo a esse presente nossos costumes, língua, nosso destino e também nosso passado.(idem, p.135)

No mesmo ano, em carta a Carlos Drummond de Andrade, elogia o verso “chega na estação” (do poema “Nota social“). Como este responde que, percebido o “erro”, corrigiu-o, Mário é enfático:

Foi uma ignomínia a substituição do na estação por à estação só porque em Portugal paisinho desimportante pra nós se diz assim. (...) Em Portugal tem uma gente corajosa que em vez de ir assuntando como é que se dizia na Roma latina e materna, fez uma gramática pelo que se falava em Portugal mesmo. Mas no Brasil o sr. Carlos Drummond diz “cheguei em casa” “fui na farmácia” “vou no cinema” e quando escreve veste um fraque debruado de galego, telefona pra Lisboa e pergunta pro ilustre Figueiredo: - Como é que se está dizendo agora (...)?
Veja bem, Drummond, que eu não digo pra você que se meta na aventura que me meti de estilizar o brasileiro vulgar. Mas refugir de certas modalidades nossas e perfeitamente humanas como o chegar na estação (...) é preconceito muito pouco viril. Quem como você mostrou a coragem de reconhecer a evolução das artes até a atualização delas põe-se com isso em manifesta contradição consigo mesmo. (...) O povo não é estúpido quando diz “vou na escola”, “me deixe”, “futebol”. É antes inteligentíssimo... (idem, p. 153)

Mário afirma a Bandeira não pretender que o estilo de linguagem por ele adotado venha a ser a língua (“o brasileiro”). Explica estar escrevendo sistematicamente o verbo ter em lugar de haver, salvo em alguns casos, e defende-se dos que vêem afetação em sua atitude: "Mas também não foi afetação que fez a gente policiar a sua escrita e pôr o pronome aqui porque Camões o botara aqui? Foi. (...) Depois e por isso a afetação ficou geral e mudou de nome" (idem, p. 139).
Depois de discorrer sobre o resultado de suas pesquisas em torno da colocação pronominal, contestando observação de Bandeira, reconhece ter empobrecido conscientemente seus meios de expressão e passado a usar lugares-comuns brasileiros para “humanizar” sua escrita. Concordando com algumas críticas e se indignando com outras, Mário revela o alcance e a profundidade de seu interesse pela pesquisa e a sistematização de um padrão brasileiro:

Não sei qual será num século ou 50 anos a língua brasileira. Sou um fenômeno individual, e sempre falei, (...), que trazia a minha contribuição pessoal para um fenômeno que só pode ser coletivíssimo. A principal função minha não está nas minhas “invenções” pois que sei lealmente quanto elas não são minhas, mas no trazer o problema, pros que me lêem, como uma realidade permanente (idem, p. 151).

Em 1935, respondendo a Sousa da Silveira, o escritor reconhece ter “forçado a nota” em seus primeiros textos. Porém, reafirma e justifica preferências:

Alguns me objetam que teria de levar o “pra” às suas últimas conseqüências lógicas, e escrever também “pruns” (para uns) e “praqueles” (para aqueles) etc. Como si a língua fosse uma criação de lógica intelectual, e não houvesse outras lógicas predeterminando o ser pequenamente humano...(idem, p.159).

Sobre as frases iniciadas por pronomes oblíquos, divergirá de Silveira - para quem “pessoas duma determinada instrução” jamais as utilizariam - alegando encontrá-las em todas as camadas da população. Ao final de outra missiva no mesmo ano, entretanto, o autor de “Macunaíma” diz ter usado e abusado muito do “desleixo muito brasileiro” de empregar uma preposição por outra (como em “ir na cidade”, em vez de “à cidade”) mas afirma: “Já atualmente sinto precisão de ser mais discreto e já estou sendo” (idem, p.164).
Essa necessidade de discrição depois de tanta insistência parece incompreensível, mas não se pode deixar de considerar que o escritor tinha necessidade de ser aceito por determinado círculo de leitores, sob risco de perder completamente a interlocução com seus contemporâneos. Em artigo de 1940 sobre a língua radiofônica, Mário escreve com clareza uma fórmula que hoje parece redigida por lingüistas:

A língua, no seu sentido, digamos, abstrato, é uma propriedade de todo o corpo social que a emprega. Mas isto é uma mera abstração, essa língua não existe. O tempo, os acidentes regionais, as profissões se encarregam de transformar essa língua abstrata numa quantidade de linguagens concretas diversas (idem, p.170).

Logo em seguida vem um trecho cuja afirmação inicial é citada em alguns estudos sobre a linguagem do Modernismo:

Deus me livre negar a existência de uma língua “culta”. Mas esta é exclusiva apenas de um dos grupinhos do grande grupo social. Esta é a língua escrita, por excelência, tradicionalista por vício, conservadora por cacoete específico de cultismo. Ou de classe. Mas já está mais que observado que os mesmos indivíduos que escrevem nessa língua culta, muitas vezes se esquecem dela quando falam. Essa língua escrita não é a mesma que a linguagem da classe burguesa, que é falada e não tem pretensões aristocráticas de bem falar. (idem, p.171)

Para quem tem interesse em defender o ensino da “norma culta” sem lhe questionar o status, a afirmação inicial, descontextualizada, é de fato, apropriada, assim como outros trechos do segundo artigo de Mário sobre a linguagem radiofônica, em que ele indica as razões da vitalidade da língua culta (dos colégios, dos clássicos, da tradição), mas o próprio escritor esclarece:

parecerá que me coloco em enorme contradição comigo mesmo, pois sempre tenho sido (...) um destruidor dessa linguagem culta, com meus insuportáveis “erros” de português.
(...)O fato da linguagem culta se assemelhar a uma língua morta e manifestar tendências, algumas falsas e algumas utilitárias (...), é apenas uma verdade fácil e preliminar. Outras verificações se ajuntam a essa verdade preliminar que, à revelia dos indivíduos, obrigam a linguagem culta a ir se modificando com os tempos (idem, p.174).

Conclui, então, em outro trecho prestigiado pelos estudiosos que preferem ver conservadorismo em sua obra, que nenhuma de suas ousadias justifica a ignorância e que o escritor precisa conhecer a linguagem para, então, ir além das convenções. É ainda de 1940 um texto recuperado por Sonia Sachs (ANDRADE, M., 1993), que traz uma avaliação positiva da então recente produção filológica brasileira:

Já não são mais estudos de português, mas incontestavelmente de língua nacional. Talvez a maioria dos filólogos de 1920 morresse de estupor vendo um professor do Pedro II, como o sr. Nascentes, afirmar calmamente que a exigência de colocação de pronomes à portuguesa, é coisa para nós relegada ao domínio das bizantinices anacrônicas. Vencemos uma formidável etapa. Agora só nos falta o passo definitivo, que será ver tais e tão doutos filólogos ‘errarem’ também a colocação dos seus pronomes. ‘Me parece’ que nada mais poderíamos desejar então...(p.177-178, grifo meu).

Finalmente, em 1942, o autor produz um balanço desanimado e desiludido do movimento modernista:

O estandarte mais colorido dessa radicação à pátria foi a pesquisa da “língua brasileira”. Mas foi talvez boato falso. Na verdade, apesar das aparências e da bulha que fazem agora certas santidades de última hora, nós estamos ainda atualmente tão escravos da gramática lusa como qualquer português.
(...)E hoje, como normalidade de língua culta e escrita, estamos em situação inferior à de cem anos atrás (...). Teve também os que, desaconselhados pela preguiça, resolveram se despreocupar do problema. (...) empregam anglicismos e galicismos dos mais abusivos mas repudiam qualquer “me parece” por artificial! (idem, p.183)

Mário trata ainda das “garças brancas do individualismo” que, reconhecendo a legitimidade da língua nacional, se recusam a colocar brasileiramente um pronome. E acrescenta: “A tudo isto se juntava quase decisório, o interesse econômico de revistas, jornais e editores intimidados com alguma carta rara de leitor gramatiquento ameaçando não comprar, que se opõem à pesquisa lingüística e chegam ao desplante de corrigir artigos assinados” (idem, p. 184).
Avaliando que muitas tentativas de “escrever naturalmente” resultaram artificiais, reclama de seus pares, dos filólogos - que não se debruçaram sobre as tendências e constâncias da expressão lingüística nacional – e, por fim, repudia sua própria tentativa, que teria contribuído - devido aos exageros em que incorreu – para “tornar para sempre odiosa a língua brasileira”. Reafirmando que a linguagem brasileira tem natureza característica, lança uma possibilidade: “Mas isso decerto ficará para outro futuro movimento modernista, amigo José de Alencar, meu irmão.”(idem, p.185). Aparentemente, o desgosto revelado pelo escritor convenceu muitos contemporâneos seus de que o Modernismo tinha fracassado. Isso é perceptível na análise de materiais didáticos das décadas de 40 a 60.
Sua recusa ao elitismo e sua percepção alargada da dinâmica cultural estabelecem o distanciamento entre o que é defendido por Mário e os ideários de seus contemporâneos. Nesse sentido, apesar de ter sido Oswald o "ponta de lança", o agitador cultural, é Mário quem apresenta a maior ousadia intelectual, fundamentada em pesquisa, em termos do que se poderia chamar hoje de "política lingüística". Nem mesmo Manuel Bandeira, com quem o autor manteve correspondência por mais de vinte anos, conseguiu aceitar completamente sua postura.

O Professor Bandeira

Em relação à linguagem cotidiana, Bandeira assina diversos textos em que deixa clara uma postura a favor da forma(ó) brasileira. Em 1925, colaborando na seção "O mês modernista" do jornal paulista "A noite", publicou o seguinte:

DIALETO BRASILEIRO
- Não há nada mais gostoso do que mim sujeito de verbo no infinito, Pra mim brincar. As cariocas que não sabem gramática falam assim. Todos os brasileiros deviam de querer falar como as cariocas que não sabem gramática.
- O erro mais feio de brasileiro é a contração dos pronomes me, te, lhe, nos, vos com os pronomes o, a, os, as. Ele já mo deu.
- As palavras mais feias da língua portuguesa são quiçá, alhures e miúde. (apud PINTO, 1978, vol 2, p. 209)

A respeito da seção “Mês modernista”, o poeta esclarece, em suas memórias literárias (“Itinerário de Pasárgada”, 1957, p. 82-83) que se divertiu ganhando cinqüenta mil réis por semana, o primeiro dinheiro que lhe rendeu a literatura. No ano seguinte, 1926, em resenha sobre o livro "Estudinhos de português", de José de Assis, que condenara o emprego do verbo carecer no sentido de precisar, em nome da filologia moderna, embora tivessem perpetrado esse uso escritores “de primeira água”, Bandeira argumenta: “Ora, o emprego generalizado e a adoção por escritores de primeira água não bastam para legitimar uma expressão? O contrário é pura gramatiquice”(BANDEIRA, 1978, p. 269).

Ainda em 26 o poeta escreve para a mesma seção:

TRADUÇÃO PARA CAÇANJE PRECEDIDA DE COMENTÁRIOS
Pois, minha gente, um dia, faz muito tempo, vi o (Carlos de) Laet pedir para o bilheteiro do Jardim Botânico:
- Me dá uma ida e volta ?
Eu, que então andava aprendendo com o Dr. Silva Ramos a arte degradante de colocar os pronomes, senti uma confusão danada. Todas as minhas idéias puristas se atrapalharam. (...) Mas eu não tinha nem força nem lucidez para pensar, como penso hoje, que é bobagem chamar de errada a linguagem de que espontaneamente se serve a gente bem educada de um país. É caçanje começar a oração com pronome oblíquo? usar impessoalmente o verbo "ter"? Então o caçanje é o idioma nacional dos brasileiros (apud PINTO, op. cit., p. 209).

Em outra resenha no mesmo ano, o poeta analisa uma monografia que defende a subjetividade do pronome 'se'. Retoma a lição do filólogo Sousa da Silveira, segundo o qual o pronome "se" tem a função de deixar completamente indeterminado o sujeito da oração: “É isto precisamente o que faz a beleza ideológica do seu emprego. E dizer-se que o condenam os gramáticos!"
É de 1930 a publicação de Libertinagem, de que fazem parte os poemas "Poética" e "Evocação do Recife", em que se lê: “Abaixo os puristas” e ainda “A vida não me chegava pelos jornais nem pelos livros/Vinha da boca do povo na língua errada do povo/Língua certa do povo”.
O verso “Abaixo os puristas” poderia ter sido provocação suficiente para indispor os tais puristas, que na época compunham os conselhos editoriais de algumas revistas sobre o tema, assim como poderia agregar Bandeira e Oswald na postura irreverente, o que não ocorre. Legitimar a língua certa do povo (errada na perspectiva lusitana), o falar “gostoso” (de novo, como em “DIALETO BRASILEIRO”), denominar a língua como “português do Brasil” são escolhas que irão perdendo força com o passar do tempo.
Em resenha crítica do livro “A língua nacional”, de Cândido Jucá Filho, Bandeira explicita, em 1937, alguns pontos de vista. Reconhecendo em Jucá um dos que negam a existência de língua brasileira ou de dialeto brasileiro de caráter geral, acusa os portugueses e lusófilos de não aceitarem como português as diferenciações ocorridas no Brasil, como, por exemplo, “um pronome colocado à revelia das regras peninsulares”. Diz que está nessa recusa a gênese da idéia de língua brasileira e cita, como exemplo, o julgamento do português Gonçalves Viana de que não há formação mais bárbara do que uma expressão como “Onde você mora?”, tão natural no Brasil. Conclui que:

Se os portugueses querem chamar portuguesa a linguagem que falamos, têm de aceitar também os fatos lingüísticos ocorrentes entre nós não em analfabetos boçais mas em escritores e gente de boa sociedade. (...) Acho que a língua continua a ser, por enquanto, portuguesa. Mas o nome pouco importa: o essencial é que neste, como em outros pontos, falemos e escrevamos como a gente instruída fala. Tenhamos a coragem de falar e escrever “errado” (BANDEIRA, 1978, p. 266).

De qualquer modo, a distinção que estabelece entre a linguagem dos “analfabetos boçais” e dos “escritores e gente de boa sociedade” remete aos cuidados de Monteiro Lobato e de escritores do século XIX: a língua dos ignorantes não tem prestígio e não pode se confundir com o português “oficial” do Brasil.
No “Itinerário de Pasárgada”, Bandeira avalia alguns posicionamentos e “explica” algumas produções . Afirma ter satirizado, com “Os sapos”, o poeta Goulart de Andrade. Sobre o verso “Abaixo os puristas!”, fica-se sabendo que originalmente fora escrito: “Abaixo a Revista da Língua Portuguesa”, periódico que reunia as contribuições de filólogos e gramáticos.. A respeito do “Dialeto brasileiro”, dirá que era um “poema-piada”, gênero que deu “má fama” ao Modernismo.
Sobre “Evocação do Recife”, no entanto, esclarece os versos “Capiberibe/Capibaribe” registravam, respectivamente, a forma como um professor insistia que ele pronunciasse o nome do rio e a forma como ele aprendera a falar. Note-se que a segunda se impõe à primeira, assim como se impõe a idéia de “língua certa do povo” à de “língua errada do povo” na Poética.

Drummond e o mistério da língua

Logo no início de sua carreira literária, Drummond conhece Mário de Andrade e passa a ser mais um escritor com quem Mário troca cartas. Por meio dessas cartas, compiladas e anotadas pelo poeta mineiro em “A lição do amigo” (1982), é possível acompanhar algumas orientações e interferências de Mário, mas também os pontos de vista e as insistências de Drummond.
Em 1924, Mário elogia o poema “No meio do caminho” como “formidável”, mas informa que não o encaminha para publicação na revista “Estética” porque tem medo de que ninguém goste dele. De fato, o texto só vem a público em 1930; e causa tanta repercussão que termina objeto de outro livro: “Uma pedra no meio do caminho (Biografia de um poema)” . Dilema filosófico para qualquer intelectual, mas problema para os gramáticos, que não aceitam que o verbo ter, no sentido de existir, seja elevado ao patamar literário, “culto”. Há ainda a regência variada de “esquecer-se” (“desse acontecimento”, como reza a gramática, mas “que no meio do caminho”, sem a preposição “de”).
Na mesma carta de 1924, Mário elogia o primeiro verso de “Nota social” (O poeta chega na estação): "na estação gostei da regência. Bravo!”; e censura um “acolá”: Que palavra horrível! Só se emprega em livros didáticos. Deixemos isso para Portugal.” Drummond retruca que é “pela correção”, mas diante da lição de Mário, não corrige o verso e mantém a regência próxima do uso brasileiro. E nesse fato aparentemente menor reside uma evidência da importância de Mário de Andrade, que obrigou alguém para quem a correção gramatical era valor inquestionável a rever sua concepção de linguagem e de norma e a conservar, por força dessa revisão, uma expressão que já tinha, de início, feição de língua “brasileira”.
Em 1977, Drummond publica “Discurso de primavera”, livro que no ano seguinte ganha nova edição como “Discurso de primavera e algumas sombras” e que só é retomado parcialmente na antologia “Nova reunião”, de 1983. Um dos poemas excluídos nessa seleção é o longo “Exorcismo”. Nele, o autor arrola nomes e conceitos introduzidos pelas mais diversas teorias de análise lingüística e literária em voga nos anos 70, repetindo sarcasticamente uma ladainha religiosa: “Da clitização pronominal obrigatória (...)/Libera nos, Domine”.
As regras de colocação de pronomes oblíquos prescritas nas gramáticas já haviam alimentado tantas discussões desde o final do século XIX, mas continuavam (continuam!) sendo objeto de fiscalização normativista. Nessa mesma obra aparece o poema que um ou outro lingüista preocupado com a educação cita como argumento: “Aula de português”, em que o aluno Drummond se considera atropelado, aturdido e seqüestrado pelas figuras de gramática. O poema distingue claramente a linguagem vista e cobrada pela escola da linguagem conhecida, do dia-a-dia. O aluno se sente diminuído, porque sua ignorância parece amazônica (como devem se sentir ainda muitos alunos nas aulas de português). A conclusão simples é de que o português são dois – mas o poeta assume um deles, este do dia-a-dia, a língua utilizada, enquanto o outro (das aulas) permanece mistério na superfície inatingível das letras.

O DEBATE AUSENTE

Aldrovando Lobato

Em “COMUNICAÇÃO – atividades de linguagem”, uma das coleções assinadas pelo campeão de vendas Reinaldo Mathias FERREIRA (1979), aparece, no volume para a 7a.série, a história d’“O colocador de pronomes”, de Lobato. Mas não se trata da história toda, apenas do trecho em que o escrevente, pai de Aldrovando Cantagalo, por conta do pronome escolhido para um bilhete (“Amo-lhe”), é destinado ao casamento com a irmã mais velha de sua amada.
Os exercícios exploram a seqüência da narrativa. Um deles indaga se o argumento do pai das moças para provar que o escrevente se declarara à pessoa errada é válido, o que, indiretamente, exige aplicação de conhecimento sobre o uso dos pronomes: amo-te, para a 2a. pessoa; amo-a, para a 3a.
Solicita-se um resumo do texto e a solução de uma lista de situações (comparar o namoro de antigamente com o atual, explicar como agiria se estivesse no lugar do personagem, arrolar as qualidades do cônjuge ideal...). Depois, algumas expressões do texto são “traduzidas” e pede-se a construção de frases com determinada palavra; há também um caça-palavras (recurso “lúdico”) para a localização de sinônimos. No final da unidade se lê:

O conto ‘O colocador de pronomes’ não termina com a benção do coronel Triburtino. Leia-o até o fim para resolver estas questões: 1) O escrevente se casou...? 2) Quem era Aldrovando...? 3) Que pensava Aldrovando da Língua Portuguesa? 4) Que explicação o ferreiro deu para o erro da placa da oficina? 5) Que tem o título do conto a ver...? 6) Qual foi a causa da morte...? (p.56)

Ora, o aluno não tem o texto integral do conto no livro, terá de procurá-lo, o que, por um lado, é bom porque pode levá-lo à biblioteca, a ler mais alguma coisa; por outro, pode significar simplesmente que isso não é tão importante, por isso não está no livro didático. Interessa aqui destacar a grande diferença que faz citar apenas a história do escrevente em vez da trágica experiência de Aldrovando: a primeira evidencia o problema trazido pelo uso “errado” do “lhe” – então, serve para ensinar o uso “correto”; a segunda apresenta o exagero purista que transforma Cantagalo numa caricatura, um retrato disfarçado dos puristas reais.
O livro escolar fica com a anedota e sugere a leitura do texto integral – a qual deve permitir a localização de determinadas informações. É claro que estudantes que eventualmente tenham realizado a tarefa podem ter tirado conclusões bastante pessoais sobre a questão lingüística, mas o roteiro não favoreceu a leitura crítica, não focou o objeto da ironia lobatiana. Mesmo quando pergunta a explicação do ferreiro para o erro da placa (assume-se que era erro, portanto, escrever “ferra-se cavalos”), pode ensejar unicamente a constatação de que o ferreiro (e talvez o pintor de placas) era ignorante – e a questão do “se” como índice de impessoalidade também morre no final.
Mathias FERREIRA foi, conforme MUNAKATA (1997, p. 109) o pioneiro de uma transformação decisiva no formato do livro didático brasileiro, com seu “Estudo dirigido de Português”. Na capa das primeiras edições pode-se ler: “contém: anedotas, palavras cruzadas, charadas, quebra-cabeças, curiosidades, exercícios”. O autor, então professor da Universidade Estadual de Londrina, compartilhava a autoria, a princípio, com quatro professoras. Mas logo a co-autoria desaparece e Mathias vira sinônimo de livro de português bem sucedido. Os volumes de “Estudo dirigido” são reeditados até a década de 80.
O que um autor tão importante informa aos alunos sobre Monteiro Lobato, já na virada para a década de 80? Que tem “estilo vibrante, expressivo” e que, não tendo se filiado ao Modernismo, “até o combateu”. Nesse “até” parece residir a intenção de dizer: era boa pessoa, bem que tentou combater o Modernismo. Conforme apontado no capítulo 2 deste trabalho, as relações entre Lobato e os modernistas não eram tão hostis nem seus propósitos tão antagônicos – e ele admirava Mário de Andrade a ponto de perdoar-lhe ironias e sarcasmos.

Mário de Andrade morro abaixo

Conforme já comentado, o poema mais freqüente de Mário de Andrade nos livros didáticos do período pesquisado é o trecho do “Noturno de Belo Horizonte” sobre a “Serra do Rola-Moça”. O outro trecho do poema que fala das diferenças de pronúncia pelo Brasil não aparece nenhuma vez. Mas em FERREIRA (1967) é citado um texto em prosa (p. 61-62): “Excerto de Belasarte”. No final dos dados biobibliográficos sobre o escritor, há a informação de que o trecho escolhido, sobre um violinista que se passava por maestro e enriqueceu com uma escola de música, é parte do conto “Menina de olho no fundo”, do livro “Belasarte”.
Sobre o autor, afirma-se que: “Foi músico, crítico literário, poeta e contista. Suas obras revelam nacionalismo exuberante. Utiliza-se de linguagem brasileirista.” Após as questões em torno do texto, do vocabulário, identificação do tipo de composição (descrição, narração ou dissertação?) e recapitulação gramatical, vem um exercício de linguagem oral (explicar as qualidades que deve ter um professor de música) e um exercício escrito: “Você notou que o texto retrata a linguagem popular. Você vai transformá-lo, substituindo as expressões populares por expressões cultas, dando melhor colocação às palavras, acertando a pontuação” (p. 64, grifo meu).

Ê carvoero ignorante!

Os poemas “Meninos Carvoeiros” e “Balõezinhos” são, depois de “Profundamente”, os textos de Manuel Bandeira que mais aparecem nas coleções. Ambos tematizam a condição dos meninos pobres: no primeiro, os meninos vendem carvão pelas ruas e não têm tempo de brincar; no segundo, cobiçam os balões coloridos pelos quais não podem pagar. No 3º volume de “Estudo dirigido de Português”, de FERREIRA (1973, p. 59) pode-se acompanhar o aproveitamento didático do texto. No tópico I, “Estudo das idéias”, há seis perguntas, das quais três se referem ao verso “- Eh, carvoero!”: “Os meninos carvoeiros/ passam a caminho da cidade./ - Eh, carvoero!/ E vão tocando os animais com um relho enorme.”
A expressão aparece mais duas vezes, como um refrão, ao longo do poema. As duas questões iniciais pedem que o aluno identifique quem fala “Eh, carvoero!” (há quatro opções de resposta) e qual a finalidade dessa fala (pergunta aberta). A terceira tem o seguinte enunciado: “No título do poema está escrito carvoeiros e no poema aparece carvoero (sem ‘i’). A que conclusão pode você chegar a respeito de quem exclama ‘Eh, carvoero!’?” É uma pergunta aberta. O que se espera como resposta? Talvez que o verso reproduz a fala dos meninos, enquanto o título traz a palavra grafada como prevê o dicionário. Mas isto não levaria a uma conclusão a respeito dos meninos, uma vez que, na fala do dia-a-dia, muita gente diria “carvoero” (como diz “pedrero”, “cartero”, etc.).
Os tópicos seguintes tratam de “Estudo do vocabulário e das expressões”, “Estudo da composição”, “Recapitulação gramatical”. Nesse item, pede-se, por exemplo, identificação de adjetivos, classificação de substantivo (sobrecomum? epiceno? comum de dois gêneros?), reescrita de um trecho com alteração de tempo verbal e número dos substantivos, ou ainda: “No verso 9, temos um caso de ênclise com verbo no gerúndio. Isso é correto ou não? Por quê?”, “No texto aparece um exemplo de adjunto adverbial de instrumento: (qual é?)”, etc. A recapitulação gramatical, portanto, é, basicamente, o uso do texto para aplicação da nomenclatura, com exceção da reescrita. A resposta sobre a “ênclise” depende da memorização de uma regra de colocação de pronomes oblíquos.
A comparação deste volume com o da coleção “reformulada” (cuja data de 1ª edição não foi localizada) revela alterações no padrão editorial: formato maior, mais cores, desenhos e recursos que lembram revistas de recreação. A redação das perguntas sobre os meninos carvoeiros permanece inalterada, mas algumas são suprimidas (não se pergunta o que é um “burrinho descadeirado”, nem “alimária”), outras incluídas (“escolha uma palavra ou expressão (...) e empregue-a em uma frase”). Na parte gramatical, as respostas são facilitadas por esquemas, a questão sobre a ênclise desaparece e entra um exercício de fixação de ortografia, que pode ser corrigido pelo aluno “ludicamente”.
O exemplar da edição “reformulada” consultado na Biblioteca Pública do Paraná é um “livro do professor”. E a leitura das respostas oferecidas pelo autor esclarece o objetivo da pergunta do primeiro tópico sobre a distinção carvoero/carvoeiro: “Essa diferença se deve à falta de cultura dos meninos, que pronunciam mal a palavra”. Assim, o que poderia ser reconhecimento da oralidade vira ocasião para dizer que os carvoeirinhos, além de pobres e sem infância, também não têm cultura e falam errado.
É interessante notar que, nos dados biobliográficos sobre Bandeira, consta que foi um dos primeiros a escrever poemas modernistas, mas também a informação de que se negou a participar da Semana de Arte Moderna. Diz-se também que “é considerado o poeta mais ilustre da literatura brasileira”.
Mesmo tendo se recusado a participar da Semana de Arte Moderna, seu escrachado poema “Os sapos” foi declamado no Municipal, e apesar da postura conservadora no final da carreira, Manuel Bandeira não merecia que o “estudo das idéias” de poema tão singelo como “Meninos carvoeiros” supusesse em seus versos o preconceito lingüístico.

O enterro lúdico

Além do trecho intitulado “O enterro”, na coleção didática de CRETELLA, Oswald de Andrade vai aparecer de forma inédita na coleção “Comunicação em língua nacional”, de BENEMANN e (Myrian) ELIA (6a. série, 9a. ed., 1977, p. 77) com um poema “criptografado”.O texto precisa ser decodificado pelo aluno, que chega ao seguinte:

Meu pai
papai vinha de tarde
da faina de labutar
eu esperava na calçada
papai era gerente
do banco popular
eu aprendia com ele
os nomes dos negócios
juros hipotecas
prazo amortização
papai era gerente
do banco popular
mas descontava cheques
no guichê do coração

O título "Meu pai” foi dado pelos autores do livro didático, que, por alguma razão inexplicável, eliminaram o original: "Meus sete anos" (rico por aludir ao antológico "Meus oito anos", de Casimiro de Abreu). Na codificação, o poema perde a estrofação original e as maiúsculas em "Banco Popular". Das seis questões de "compreensão", quatro checam a leitura, pedindo a identificação direta de respostas no texto; as duas últimas pedem que o aluno identifique se o gerente do Banco Popular era:

a. ( ) muito bom para todos;
b. ( ) indiferente com as pessoas;
c. ( ) excessivamente orgulhoso

A carga poética do poema, que mistura a aridez dos termos técnicos do mundo financeiro com a percepção afetiva do menino avaliando o pai (de forma que marcaria seus sete anos) se perde, em prol do ensino do vocabulário referente a transações bancárias e comerciais. Propõe-se a resolução de palavras cruzadas em que, por exemplo, a primeira palavra a ser escrita corresponde a “ordem de pagamento à pessoa em favor de quem se emite esse documento ou a qualquer portador dele”. Diante de tal clareza, talvez o aluno achasse mais fácil decodificar o poema. Para concluir as atividades sobre o texto, sugere-se a redação de um pedido de empréstimo em que a praça da cidade é dada como garantia, “em hipoteca” (afinal, o importante é o vocabulário).
Geraldo MATTOS, no 2o. volume do “Curso da língua atual” (1969), cita três textos de Oswald: o primeiro é a crônica “Arte e imitação”, que identifica os parnasianos como “máquinas de fazer versos”; o segundo é o poema “Relicário”. A teoria que acompanha o primeiro trata dos “tipos de significante” e após a apresentação do segundo, faz-se a comparação entre ambos: “As diferenças são profundas: 1. O primeiro ocupa toda a extensão da linha, enquanto o segundo desperdiça espaço. 2. O segundo está dividido em pequenas porções, ...” É uma explicação sobre prosa e verso, que conclui (p. 30): "o texto se torna poesia quando o seu conteúdo é extremamente emotivo, como neste exemplo de Oswald de Andrade":

Aprendi com meu filho de dez anos
Que a poesia é a descoberta
Das coisas que eu nunca vi

Não é tão fácil ver conteúdo “extremamente emotivo” nos versos de “Relicário”: “Pinga de Parati/Fumo de Baependi/ É comê bebê pitá e caí”. Seria preciso levar muito a sério a blague oswaldiana sobre o período colonial. E quanto à pronúncia dos verbos, transcrita da oralidade? E a contribuição milionária de todos os erros? Nenhuma palavra.

Havia um Drummond?

MATTOS, no 3o. volume da mesma coleção ("Curso da língua atual", p. 181), trata da poesia da 2a. fase do Modernismo e propõe a leitura de “No meio do caminho”, de Drummond de Andrade. A primeira pergunta sobre o texto é:

Assinale o que pertence à língua popular:
( ) No meio do caminho tinha uma pedra.
( ) Nunca me esquecerei desse acontecimento.

Espera-se que o aluno assinale a primeira alternativa, reforçando a regra de que não se deve usar “ter” no lugar de “haver”, para expressar o sentido de “existir”. No item seguinte, “Contexto”, lê-se: “Este texto causou polêmica, porque muitos pensaram que era apenas uma brincadeira do poeta. Anos mais tarde, o poeta compôs um soneto, que parece aludir a esse poema:...”
De fato, o soneto “Legado” (p. 182) termina com o verso “uma pedra que havia em meio do caminho”. A intenção de sua inclusão após “No meio do caminho” parece ter sido a de deixar claro que o próprio Drummond "corrigiu" seu “tinha” para “havia”, atitude em que deveria ser seguido pelos estudantes.
No volume da 7a. série ("Nossa língua", 2a. ed., 1972), está a crônica “Netinho”, de Drummond. Trata-se de um texto em que o narrador está às voltas com o neto: "Se tivesse mais dois anos, chamá-lo-ia mentiroso. No seu verdor, é apenas um ser a quem a imaginação comanda, e que, com isso, dispõe de todos os filtros da poesia." (p. 10). Depois de um estudo do "vocabulário" e da "mensagem", ensina-se no tópico “Estilo” a diferença entre linguagem coloquial e adloquial a partir da colocação pronominal do menino:


Em nossa linguagem coloquial fica tão meigo e delicado colocar o pronome no início do período! E é o que diz o netinho. Entretanto, a linguagem adloquial não admite variante do pronome no início de período. É como se tivéssemos que andar, os homens sempre de colarinho duro e gravata, as mulheres de maxissaia.
Linguagem coloquial: “Me dá esse lápis??”
Linguagem adloquial: “Dá-me esse lápis??”
Notou como ficou uma pergunta mais fria, mais distante, mais solene?? Então, cuidado, quando usar linguagem adloquial:
Coloquial: “Me empresta??”
Adloquial: “Empresta-me??”

Sob a fachada de “estilo” está o alerta: cuidado para não começar com “me” em linguagem “adloquial” (termo não encontrável em muitos dicionários, mas que substitui "norma culta"). Meiguice e delicadeza eram associadas à colocação pronominal proclítica já por outros autores. A lição que atravessa pelo menos quatro décadas é a de que é preciso desculpar o povo em sua meiguice e cuidar para não imitá-lo em situações sérias.
Confirma essa perspectiva a explicação de um autor de diversas coleções didáticas bem sucedidas comercialmente, Domingos CEGALLA, no prefácio de livro para a 5a. série (1976, p. 10):

A língua popular ou familiar você já a conhece bastante. Na escola estuda-se a língua culta, usada pelas pessoas eruditas, a mesma que você ouve no rádio e na televisão e vê escrita nos jornais, nos livros e nas revistas. É um pouco diferente da que usamos na conversação familiar, por ser mais rica, disciplinada e correta.
Ponha, portanto, toda a sua boa vontade no estudo desse maravilhoso instrumento de comunicação que é a nossa língua.

A "nossa" língua, "maravilhoso instrumento", que precisa ser estudada, não é, portanto, a popular, mas a "culta". Ou ainda, a língua popular não é (não pode ser identificada como) nossa língua, porque pobre, indisciplinada e incorreta. Também Magda SOARES publica uma coleção em 1968, "Português através de textos", em que frases soltas de crônicas de Drummond servem para a identificação de orações subordinadas; obrigada a adequar-se à nova LDB (1971), escreve outra coleção, "Comunicação em língua portuguesa", onde os textos continuam servindo à explicação gramatical. O mesmo procedimento é realizado por Mathias FERREIRA: novas coleções, a mesma concepção.
Tendo em vista esses exemplos, fica-se tentado a parodiar Manuel Bandeira: Havia rumor, fogueiras, vozes. Hoje já não se ouvem mais as vozes daquele tempo. Os escritores discutindo a linguagem, onde estão? Estão todos dormindo. Dormindo. Profundamente!

REFERÊNCIAS:

1. HALLEWELL, Laurence. O livro no Brasil. São Paulo: EDUSP, 1985.

2. MUNAKATA, Kazumi. Produzindo livros didáticos e paradidáticos. Tese (Doutorado em História da Educação), PUC-SP, 1997.

3. PINTO, Edith Pimentel.(org). O Português do Brasil – textos críticos e teóricos, I -1820/1920, II - 1920-1945, fontes para a teoria e a história. São Paulo: EDUSP, 1978.

4. _____. O escritor enfrenta a língua. São Paulo: FFLCH-USP, 1994.

FONTES:

OBRAS LITERÁRIAS E CORRESPONDÊNCIA REUNIDA

ANDRADE, Carlos Drummond de. Nova reunião - 19 livros de poesias (Alguma poesia, Brejo das Almas, Sentimento do mundo, José, A rosa do povo, Novos poemas, Claro enigma, Fazendeiro do ar; A vida passada a limpo, Lição de coisas, A falta que ama, As impurezas do branco, Boitempo I, Boitempo II, Boitempo III, A paixão medida e seleção de Viola de bolso, Versiprosa, Discursos de primavera e algumas sombras). Rio de Janeiro: José Olympio e INL, 1983.

_____. Discurso de primavera e algumas sombras. Rio de Janeiro: Record, 1977.

_____. A lição do amigo. Cartas de Mário de Andrade. Introd. Carlos Drummond de Andrade. José Olympio, 1982.

_____. Auto-retrato e outras crônicas. Rio de Janeiro: Record, 1989.

ANDRADE, Mário de. De Paulicéia Desvairada a café (poesias completas). São Paulo: Círculo do Livro, 1982.

_____. O Empalhador de Passarinho. 3ª ed. São Paulo, Martins; Brasília, INL, Ministério da Educação e
Cultura, 1972.
_____. Mário de Andrade. (sel., notas, estudos bibliográfico, histórico e crítico por João Luis Lafetá). São
Paulo, Abril Cultural, 1982.

_____. 71 cartas de Mário de Andrade. (Col. e anot. por Lygia Fernandes). Rio de Janeiro, Liv. São José, /s.d./.
_____. Vida literária (pesq., introd. e notas por Sônia Sachs). São Paulo: HUCITEC; Edusp, 1993.

_____.Cartas a Manuel Bandeira. Prefácio e notas de Manuel Bandeira. Rio de Janeiro, Tecnoprint, 1967.

_____. Mário de Andrade escreve. Cartas a Alceu Meyer e outros. (Col. e anot. por Lygia Fernandes). Rio de Janeiro, Ed. do Autor, 1968.

_____. Táxi e Crônicas no Diário Nacional. (Pesq., estabel. de texto, introd. e notas de Telê Ancona Lopez.
São Paulo: Duas cidades, 1976.

_____. Os contos de Belazarte. São Paulo Martins; Brasília, INL, 1972.

ANDRADE, Oswald de. Memórias sentimentais de João Miramar.10a.ed. São Paulo: Globo, 1998.

_____. Obras completas (Poesias reunidas - v. VII) 3a. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1971.

BANDEIRA, Manuel. Andorinha, Andorinha. Seleção e organização de Carlos D. de Andrade. Rio de Janeiro: José Olympio, 1978.

_____. Antologia poética.19a. Rio de Janeiro: José Olympio, 1989.

_____. Estrela da vida inteira (poesias reunidas). Rio de Janeiro: José Olympio, 1966.

_____. Itinerário de Pasárgada. Rio de Janeiro: Livraria São José, 1957.

_____. Seleta em prosa e verso (org., estudos e notas de Emanuel de Morais). Rio de Janeiro: José Olympio, 1971.

Correspondência Mário de Andrade e Manuel Bandeira (org., introd. e notas Marcos Antonio de Moraes). São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo: Instituto de Estudos Brasileiros, Universidade de São Paulo, 2000.

LOBATO, José B. Monteiro. A Barca de Gleyre – quarenta anos de correspondência literária. São Paulo, Cia. Editora Nacional, 1944.

_____. Conferências, artigos e crônicas. São Paulo: Brasiliense, 1959.

_____. Emília no país da gramática. 11a. São Paulo: Brasiliense, 1960.

_____. Urupês, outros contos e coisas. São Paulo: Brasiliense, 1946.

PINTO, Edith Pimentel.(org.) O português do Brasil – textos críticos e teóricos, I -1820/1920, II - 1920-1945, fontes para a teoria e a história. São Paulo: EDUSP, 1978.

OBRAS DIDÁTICAS

BACK, Eurico e MATTOS, Geraldo. Nossa língua. São Paulo: FTD, 1972.

BARROS, Eneias Martins. Curso de português. São Paulo: Editora do Brasil, 1948.

BENEMANN, M. e ELIA, Myrian/CADORE, A. Comunicação em língua nacional São Paulo: Ática, 1974.

CEGALLA, Domingos Paschoal. Português. São Paulo: Cia. Editora Nacional, 1969.

_____. Hora de comunicação. São Paulo: Cia. Editora Nacional, 1978.

COSTA, Aída. Português. São Paulo: Editora do Brasil, 1963.

CRETELLA Junior, José. Português para o ginásio. São Paulo: Cia. Editora Nacional, 1962.

CRUZ, José Marques. Português prático. São Paulo: Melhoramentos, 1941.

FERREIRA, Reinaldo Mathias. Estudo dirigido de português. São Paulo: Ática, 1967.

_____. Comunicação - atividades de linguagem. São Paulo: Ática, 1978.

GUIMARÃES, Magda Soares. Português através de textos. Belo Horizonte: Bernardo Alvares, 1965.

Irmãos Maristas. Português. São Paulo: Editora do Brasil, 1963.

LÉLLIS, Raul Moreira. Português no colégio. São Paulo: Cia. Editora Nacional, 1969.

MATTOS, Geraldo. Curso da língua atual. São Paulo: Editora dos professores, 1969.

 
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