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  FORMAS DE APRENDER E DE ESTUDAR DE ESTUDANTE DE PEDAGOGIA DE UMA UNIVERSIDADE PÚBLICA

Ivanilson Bezerra da Silva
Luiz Percival Leme Britto

RESUMO: O estudante de Ensino Superior possui várias estratégias de aprendizagem no processo de formação acadêmica. Porém, delimitou-se a atenção ao uso da Biblioteca como uma das estratégias de construção do conhecimento e como um espaço interdisciplinar capaz de contribuir para uma prática educacional que valoriza o ensino-pesquisa. Neste sentido, o presente artigo tem como preocupação central analisar os modos como o estudante de Educa-ção Superior usa a biblioteca e o efeito disto em sua formação. Os dados foram estruturados conforme resultados do questionário aplicado a alunos do 2o, 5o e 6o períodos do curso de Pe-dagogia da Universidade de Sorocaba.

Introdução
O presente trabalho visa investigar como o estudante universitário usa a Biblioteca e o efeito disto na sua formação, num contexto de investigação sobre hábito de estudo. Esta com-preensão nos remete para o universo bibliotecário, que se pressupõe, é um lugar em que o estudante de Educação Superior desenvolve práticas de estudo e de pesquisa.
A relevância do problema é evidenciada à medida que se compreende que o conheci-mento não somente se constrói no espaço interativo da sala de aula e pelo desenvolvimento de uma práxis pedagógica centrada na ação discente, mas também, dentro de outros espaços acadêmicos.

A matéria central da desta pesquisa fundamenta-se em duas questões:
1a) Por que é difícil estabelecer um comportamento acadêmico-científico adequado por parte da maioria dos estudantes, em particular em "universidades periféricas"? e
2a) Quais são e de onde vem as dificuldades de estudar, ler e produzir do estudante u-niversitário?
A primeira resposta, respondida apressadamente, seria a de que o estudante divide seu tempo com outros afazeres, como, por exemplo, trabalho. Isto não justificaria, em princípio, a falta de hábitos acadêmicos que colaborassem para construção do seu conhecimento e, conse-qüentemente, da sua maturação acadêmico-científica. Porém, não se pode negar que este ar-gumento constitui uma realidade para este segmento.
Quando à segunda questão, cabe notar que a função precípua da Educação Superior se-ria a de formar o estudante de tal como que, ao concluir seu curso, ele tenha uma experiência acadêmica que o capacite para atuar critica e criativamente em seu campo de interesse. Neste sentido, a sala de aula não é o único espaço possível de construir o saber necessário. Nossa preocupação centra-se em pesquisar em que medida a Biblioteca atua como parte do universo acadêmico-científico capaz de construir o saber, se utilizada e explorada adequadamente.
Referencial teórico
Parte-se do pressuposto que o conhecimento é construído à medida que o sujeito inte-rage com o seu meio social e cultural. O ser humano não está isolado de um contexto histórico social. É parte integrante de um processo social. Sua relação com o mundo é mediada. Vy-gotsky diferenciou dois elementos mediadores: os instrumentos e o signos. A mediação é um processo que o sujeito sofre em sua relação social, resultando da maneira que internaliza o que ocorre no mundo à sua volta. Pode-se afirmar que a relação do ser humano com o mundo é uma relação mediada por sistemas simbólicos.
É através da relação interpessoal concreta com outros homens que o indíviduo vai chegar a interiorizar as formas culturalmente estabelecidas de funcionamento psicológico. Portanto, a interação social, seja diretamente com outros membros da cultura, seja através dos diversos elementos do ambiente culturalmente estru-turado, fornece a matéria-prima para o desenvolvimento psicológico do indiví-duo (Oliveira, 1997, p. 38).
Este processo não é passivo. É dinâmico e transformador. Ao longo do seu desenvol-vimento, o sujeito internaliza formas sociais e culturais fornecidas pelo mundo que o cerca. Britto, referindo-se do pensamento de Vigotsky, afirma que
a aprendizagem é vista como um processo impregnado pelas formas culturais e que tem lugar num contexto de relação e de comunicação interpessoal. Ao dar destaque ao papel do outro como mediador entre o sujeito que aprende e o objeto do conhecimento, Vygotsky salienta o papel da escola – e, especificamente, do professor no processo de aprendizagem e de desenvolvimento humano. A escola e ao professor, enquanto agentes sociais, cabe o papel de criar condições para que se produza uma interação construtiva entre aquele que aprende e o objeto de conhecimento (2002:6)
O segundo referencial está fundamentado no pensamento do sociólogo francês Pierre Bourdi-eu, no que tange a compreensão da sua teoria a respeito do capital cultural herdado pelo estu-dante universitário em seu contexto sócio-familiar. Para Bourdieu (2002, p.5), o sucesso esco-lar do aluno não está relacionado a um hipotético potencial inato, mas ao contexto histórico social em que ele se formou, mais especificamente sua origem social. Conforme Bourdieu, o ser humano é um ser social, por isso, o sucesso de uma pessoa no decurso da sua formação intelectual não está somente relacionado a sua capacidade individual, mas está mediada por sua origem familiar, ou na linguagem de (Nogueira e Alice, 2002, p.7), por “atores socialmen-te constituídos”. Até que ponto a origem sócio-familiar determina o sucesso escolar de uma pessoa? Qual é a influência da família na formação do capital cultural de uma pessoa? Qual é a relação de herança cultural com o conceito de capital cultural no pensamento de Pierre Bourdieu?
A noção de capital cultural impôs-se, primeiramente, como uma hipótese indis-pensável para dar conta da desigualdade de desempenho escolar de crianças pro-venientes das diferentes classes sociais, relacionando o "sucesso escolar", ou se-ja, os benefícios específicos que as crianças das diferentes classes e frações de classe podem obter no mercado escolar, à distribuição do capital cultural entre as classes de frações de classe (Bourdieu, 2002, p.73).
o capital cultural diz respeito à herança cultural legada pela família, sociedade ou ou-tras instituições. As pessoas desprovidas do capital cultural tendem a ser pessoas "menos la-boriosas". Bourdieu notou diferença significativa nas oportunidades de trabalho de tais pesso-as. Os privilegiados pelo capital cultural tiveram fácil acessão profissional, comparativamente aos que não tiveram esta oportunidades e se viram obrigados a submeter-se a trabalhar em profissões pouco privilegiadas.
Na realidade, cada família transmite a seus filhos, mais por vias indiretas que di-retas, um certo capital cultural e um certo ethos, sistema de valores implícitos e profundamente interiorizados, que contribui para definir, entre outras coisas, as atitudes face ao capital cultural e à instituição escolar. A herança cultural, que di-fere, sob dois aspectos, segundo as classes sociais, é a responsável pela diferença inicial das crianças diante da experiência escolar, conseqüentemente, pelas taxas de êxitos (Bourdieu, 2002, p. 42).
Um dos conceitos importantes para compreensão da teoria social de Bourdieu é a idéia de reprodução. Ele compreendeu que a sociedade, em toda sua estrutura e Instituições, repro-duzem e reforçam a desigualdade social. O conceito de reprodução está relacionado ao con-ceito de capital cultural, pois a medida em que determinada família investe na formação cultu-ral e intelectual do filho, ela contribui para seu capital cultural. Este binômio está presente em todas as Instituições, principalmente, na Universidade, a qual não se caracteriza por ser um veículo de formação intelectual, é sim um lugar de reprodução da desigualdade social.
Na sociologia de Bourdieu, o indivíduo, conforme a análise de Cláudio Nogueira e Maria Alice Nogueira (2002, p.7): “é um ator socialmente configurado em seus mínimos deta-lhes. Os gostos mais íntimos, as preferências, as aptidões, as posturas corporais, a entonação da voz, as aspirações relativas ao futuro profissional, tudo seria socialmente constituído” (p. 07).
Tal pensamento elucida que o sujeito, para Bourdieu, é constituído não de forma sub-jetiva, mas de forma concreta no seu contexto histórico. Nesta linha de pensamento, que a capacidade do estudante de interagir no universo acadêmico depende em muito da capacidade adquirida em seu contexto familiar. As aptidões familiares determinam seu modus operandi e determinará o grau de sucesso em sua vida acadêmica. O habitus familiar conduz o compor-tamento por todo o processo de vida e em todas as relações sociais e estruturais, ou seja, “a estrutura social se perpetua porque os próprios indivíduos tenderiam a atualizá-la ao agir de acordo com o conjunto de disposições típico da posição estrutural na qual eles foram sociali-zados” (Nogueira:2002, p.8).
Para Bourdieu o capital cultural tem mais relevância no sucesso acadêmico que o capi-tal econômico. O capital cultural, conforme Cláudio e Nogueira (2002, p.8) é mais importante porque: 1) favorece o desempenho escolar na medida em que facilita a aprendizagem dos con-teúdos e códigos escolares. 2) as referências culturais, os conhecimentos considerados legíti-mos (cultos, apropriados) e o domínio maior ou menor da língua culta, trazidos de casa por certas crianças, facilitam o aprendizado escolar na medida em que funcionam como uma pon-te entre o mundo familiar e a cultura escolar. A educação escolar, no caso das crianças oriun-das de meios culturalmente favorecidos, é uma espécie de continuação da educação familiar, enquanto para as outras crianças significa algo estranho, distante, ou mesmo ameaçador.
Nossa proposta de pesquisa fundamenta-se na seguinte questão: Como o estudante u-niversitário usa a Biblioteca e o efeito que isto tem em sua formação? Parte-se do pressuposto que: o comportamento do estudante universitário no Universo da Biblioteca tem que trans-cender a pesquisa obrigatória. A Biblioteca, neste sentido, deveria ser compreendida como estratégia útil e necessária à construção do conhecimento acadêmico. é justamente nesta ques-tão que desenvolvemos nossa proposta de pesquisa: avaliar como o estudante universitário usa a Biblioteca e o efeito dela na sua formação.
O estudante da Educação Superior
Quando falamos do perfil do estudante universitário, pressupomos que este seja um sujeito que reconhece e convive com os objetos e discursos de escrita, uma vez que passou pelos vários níveis de escolarização. Isto implica que ele deve ter adquirido de autonomia intelectual e capacidade de se posicionar na história e no universo acadêmico. Por isso, quan-do se pensa em letramento, entende-se, conforme Britto:
letramento entendido como o estado ou a condição de quem interage com dife-rentes discursos, saberes e comportamentos articulados em função da cultura es-crita . Quanto maior for o nível de letramento, maiores serão, entre outras coisas, a freqüência de manipulação de textos, escritos variados, a de realização de lei-tura autônoma (sem a intervenção ou apoio de outra pessoa), a interação com discursos menos contextualizados ou mais autoreferidos, a convivência com do-mínios de raciocínio abstrato, a produção de textos para registro, comunicação ou planejamento, enfim, maiores serão a capacidade e as oportunidades do sujei-to de realizar tarefas que exigem monitoração, inferências diversas e ajustamento constante (2002, p.3).
Britto (2003, p.176) apresenta uma relevante análise a respeito do estudante universi-tário e sua relação com os objetos de cultura letrada, ou mais, especificamente com as “formas de produção do conhecimento formal”.
Seu texto focaliza a queixa levantada pelos professores de que os estudantes não sa-bem ler e escrever. O autor afirma que a falta de habilidade intelectual do estudante universi-tário é fruto de um processo em que as práticas educacionais ofereceram um mínimo de le-tramento, suficiente para desenvolver algumas habilidades, mas insuficiente para que possa desenvolver praticas culturais mais elaboradas e complexas. Por isso, antes de analisar o por-quê do estudante universitário ter dificuldade de escrever e ler, é necessário analisar o proces-so de letramento que obteve, sua origem sócio-familiar e, por último, suas habilidades e sua relação com as formas culturais constituídas no universo acadêmico.
Ao usar a biblioteca, o estudante universitário tem, hipoteticamente, acesso a uma forma de construção do conhecimento diferente daquele que encontra no espaço-aula. A rela-ção que estabelece com este sistema contribui para seu desenvolvimento. Porém, o uso mera-mente periférico, trará pouco ou nenhum benefício. Muito pelo contrário, solidificará a falta de habilidade de usufruir de mecanismos formais da cultural universitária.
O que se postula é que estar na biblioteca não torna o estudante um pesquisador. A diferença está em maneira de utilizar os produtos culturais de forma crítica, autônoma e cria-tiva. Subtende-se, assim, que o uso da Biblioteca pode ser um hábito específico de estudo e produção de trabalho do aluno universitário. Esta relação pode produzir um conhecimento acadêmico criativo e crítico, pois leva-o a um universo cultural interdisciplinar.
O docente universitário
É válido analisar o comportamento do estudante no que respeito ao uso que faz da Bi-blioteca, visto que este, com freqüência atribui seu fracasso escolar ao professor. Esta legiti-mação está exemplificada em frases do tipo: “o professor não incentiva!”; “O professor não tem didática!"; “O professor não compreende sua função!” Seria o professor responsável pela falta de hábito de estudo do aluno na Biblioteca, ou seria o aluno responsável pela sua falta de iniciativa em usar a Biblioteca? O que está por trás desta situação?
É inquestionável que o professor exerce grande influencia na formação do comporta-mento do estudante. Sua postura didática pode colaborar para que ele seja ou não um pesqui-sador, pois a relação que estabelece no processo de ensino e aprendizagem é um processo interativo, dinâmico e mediado.
O professor é um elemento importante na formação da postura acadêmica. Porém, não é o único responsável. O estudante é um sujeito social, que possui características culturais e sociais próprias, adquiridas ao longo do seu processo de desenvolvimento psico-social e de letramento. Sua relação com agentes mediadores determina seu modo de ser e seu viver aca-dêmico. Neste sentido, o pensamento de Vygostsky e de Bourdieu elucida o comportamento do aluno no processo de aprendizagem. Seria demasiado simplista atribuir as dificuldades de aprendizagem dos alunos universitários à sua pouca escolarização. Neste sentido, o docente tem um papel muito significativo. Ele está constantemente com o aluno e participa de forma mais efetiva no processo de ensino-aprendizagem. Sua mediação não somente é importante, mas também necessária para que a construção do conhecimento seja um processo dialético e social. Ele não é aquele que simplesmente ensina, mas aquele que a medida que ensina, a-prenda.
Precisamos de um professor com um papel orientador das atividades que permi-tirão ao aluno aprender, que seja um elemento motivador e incentivador do de-senvolvimento de seus alunos, que esteja atento para mostrar os progressos de-les, bem como para corrigi-los quando necessário, mas durante o curso, com tempo para que seus aprendizes aprendam nos próximos encontros ou aulas que tiverem. Um professor que, com seus alunos, forme um grupo de trabalho com objetivos comuns, que incentive a aprendizagem de uns com os outros, estimule o trabalho em equipe, a busca de solução para problemas em parceria, que seja um motivador para o aluno realizar suas pesquisas e seus relatórios, que crie condições contínuas de feedback entre aluno e professor. É importante que o professor desenvolva uma atitude de parceria e co-responsabilidade com os alu-nos, que planejem o curso juntos, usando técnicas em sala de aula que facilitem a participação e considerando os alunos como adultos que podem se co-responsabilizar por seu período de formação profissional. (Masseto, 2003, 22).
Masseto ressalta a importância do professor no processo de ensino e aprendizagem. O modelo atual de docência na Universidade pode comprometer o aprendizado face às mutações que vem passando a Educação Superior no Brasil, em função dos ajustes mercadológicos e das políticas governamentais.
A biblioteca universitária
A Biblioteca constitui o maior espaço interdisciplinar da Universidade, tendo um im-portante papel informacional (Campello, 2002, p.10). Não estamos falando no livro somente como instrumento capaz de influenciar a formação do estudante, mas de um conjunto inter-disciplinar de informação no espaço da Biblioteca que pode trazer benefícios para a formação acadêmica. O estudante universitário pode usar este espaço interdisciplinar como um meio de desenvolver suas habilidades intelectuais ou o seu amadurecimento científico.
Destro (1994), ao estudar a biblioteca universitária desenvolveu o seguinte tema: Bi-blioteca Universitária – um estudo sobre seu papel na formação do aluno leitor. A autora realizou sua pesquisa com estudantes da Universidade de São Francisco, avaliando a situação do alunado em relação ao uso da Biblioteca. Ela afirma que:
O professor deve mostrar o caminho para se chegar ao conhecimento, mas os a-lunos devem procurar um meio para fazê-lo. Os alunos deveriam ter consciência de que eles também são responsáveis pela autoformação. Assim, cabe ao profes-sor orientar seus alunos sobre a importância da auto-educação e que esse é um processo que deve ocorrer durante toda a vida do aluno. Mas o aluno só vivencia esse processo se tiver consciência de que apenas o que ele aprende na universi-dade é muito pouco em relação a tudo o que ainda precisa aprender e que esse foi só o primeiro passo, uma mostra do que há sobre o conhecimento no assunto na sua área (1994, p. 15)
A autora mantém uma postura tradicional, cometendo alguns erros interpretativos sig-nificativos: atribui ao professor a responsabilidade de ser o orientador para que o aluno de-senvolva o hábito de leitura; não avalia as condições históricas, sociais e culturais dos alunos; apesar de dizer que o universitário tem que ter consciência da importância do estudo na vida universitária, tendo o professor como seu grande estimulador, não reconhece que tal debilida-de é fruto de uma situação do seu contexto histórico; e propõe analisar a influência na Biblio-teca na formação do aluno, porém o foco analítico não é a Biblioteca, mas a postura do aluno como leitor. Apesar deste posicionamento, afirma que ”a biblioteca é um assunto relacionado à educação, à qualidade de ensino e ao processo de ensino-aprendizagem" (1994, p. 21). Sem dúvida, a Biblioteca está relacionado à educação e ao processo e ensino e aprendizagem, e por esta razão, analisaremos seu efeito na formação do estudante universitário.
No livro Letramamento no Brasil (Ribeiro 2003), Serra analisa as atuais políticas go-vernamentais de incentivo a leitura. Para ela, tais políticas surgem de sociedades organizadas que estão a serviço do poder: “As políticas nunca são neutras. Embora, teoricamente, repre-sentem o resultado de muitas participações, na prática, expressam, principalmente, as inten-ções e idéias dos grupos que detém a hegemonia política e econômica” (Serra 2003, p. 67). Para esta autora, as políticas educacionais fundamentam sua abordagem no campo das técnicas e teorias pedagógicas, sem articular e integrar a educação e a cultura. Isto representa uma deficiência na prática pedagógica atual, pois educação e cultura deveriam estar intrinse-camente ligadas. Serra defende que o livro é o principal referencial da educação e, neste sen-tido, crítica as iniciativas políticas que motivam a leitura, mas não dão subsídios para que o estudante brasileiro, principalmente os da escola pública, tenha acesso a Biblioteca. Algumas escolas brasileiras não possuem Bibliotecas. Isto significa que a política de incentivo a leitura é demagógica, pois “o Plano Nacional de Educação não contemplou a obrigatoriedade de Bi-bliotecas nas escolas do Ensino Fundamental. Somente a partir do 3o grau é que a obrigatori-edade de biblioteca escolar aparece” (Serra 2003, p. 78).
Simbolicamente, há a compreensão do valor da biblioteca na formação intelectual do aluno, porém está compreensão pode estar somente no imaginário acadêmico, visto que na prática, observe-se que o aluno universitário não faz o uso ideal da biblioteca. Podemos atri-buir isto: à falta de incentivo do professor no que tange o uso da biblioteca; à falta de habili-dade do estudante universitário com as formas culturais do universo acadêmico; à falta de habilidade cultural-acadêmica originária do processo deficitário de letramento que o estudante submeteu-se ao longo da sua formação; ou ao modelo de universidade que está sendo implementado na atualidade. Pesquisar demanda tempo, não somente habilidade. O modelo de universidade leva o estudante a ter menos contato com os meios culturalmente constituí-dos, que por sua vez, colaboram para a formação do aluno.
A Educação Superior hoje
Há muitos estudos sobre a Universidade analisando o caráter mercantilista que ela vem adquirindo: Bittar (2002), Silva JR. E Squisardi (2001); Catani (2002), Chauí (2001), Britto (2003), Castanho (2002). Este caráter tem sido construído por causa das políticas educacio-nais estabelecidas nos últimos anos. Segundo a maioria dos estudos, a universidade vem dei-xando de ser uma agência de construção crítica do saber, para ser uma agência de produção de mão de obra qualificada para o mercado econômico.
No início deste artigo destacamos o crescente e assustador números de universidades privadas em nosso país. Catani e Oliveira (2002) descrevem as políticas educacionais que estão por trás desta metamorfose que a Universidade vem sofrendo.
O atual processo de reconfiguração da educação superior no Brasil baseia-se em uma política de diversificação e diferenciação que associa flexibilidade, competi-tividade e avaliação, objetivando uma expansão acelerada do sistema. Isso signi-fica, em outras palavras, que o novo modelo de expansão caracteriza-se, sobretu-do, pela diferenciação do perfil das Ieis e pela diversificação e flexibilização da oferta, o que tende a se aprofundar, nos próximos anos, em razão das políticas de ajustamento do sistema ao crescimento da demanda e ao atendimento das exi-gências do mercado (2002, p. 49).
Frente ao modelo de acumulação flexível do capital, as políticas educacionais exigem que a Educação Superior se enquadre no modelo mercadológico. Neste sentido, a educação passa a ser um produto sistema capitalista existente, preocupada em produzir mão de obra e auferir rendabilidade.
A Universidade pode ser um veículo que colabore na construção do conhecimento do estudante. Pode motivar a pesquisa, desenvolvendo aquilo que os pesquisadores vem cha-mando de ensino-pesquisa (Castanho, Balzan, Lima, Veiga 2002). Para isso, não basta a inici-ativa de motivar o estudante a ser um pesquisador. Faz-se necessário analisar este tem esta habilidade, observando se ele desenvolveu esta habilidade no decorrer do seu processo de letramento. O pensador italiano Antonio Gramsci propõe uma visão muito relevante a respeito da educação:
Assim, escola criadora não significa escola de inventores e descobridores; ela in-dica uma fase e um método de investigação e de conhecimento, e não um 'pro-grama' predeterminado que obrigue à inovação e à originalidade a todo custo. Indica que a aprendizagem ocorre notadamente graças a um esforço espontâneo e autônomo do discente, e no qual o professor exerce apenas uma função de guia amigável, como ocorre ou deveria ocorrer na universidade. Descobrir por si mesmo uma verdade, sem sugestões e ajudas exteriores, é criação (mesmo que a verdade seja velha) e demonstra a posse do método; indica que, de qualquer mo-do, entrou-se na fase da maturidade intelectual na qual se pode descobrir verda-des novas... Por isso, nesta fase, a atividade escolar fundamental se desenvolverá nos seminários, nas bibliotecas, nos laboratórios experimentais, é nela que serão recolhidas as indicações orgânicas para orientação profissional (1985, p. 125).
Gramsci (1985) desenvolveu seu pensamento de acordo com a análise feita nas cama-das sociais do seu tempo. É um pensador extremamente crítico a respeito da educação. Ela não pode ser uma instituição que mantenha as estruturas alienantes e dominadoras do poder. A grande contribuição da educação seria formar pessoas capazes de percorrer o próprio cami-nho da descoberta científica, ou seja, seria a construção da autonomia intelectual do estudante universitário. Pressupõe-se que a Universidade seja um instrumento exeqüível no processo de autonomia intelectual e maturidade científica.
Na universidade, o aluno está inserido num contexto formativo que não se reduz à sala de aula. Seria de esperar que ele tivesse várias oportunidades intelectuais e culturais fora do espaço-aula, tendo contato com atividades formativas tais como: estudo em grupo, pesquisa científica, palestras, semana cultural, teatro, orientações acadêmicas, biblioteca, internet, ati-vidades políticas e outras.
Veiga (2000, p. 184),.ao comentar a aula, traz a seguinte idéia:
O professor fundamenta seu processo de ensino em projeto de pesquisas elabo-rados e executados por alunos de graduação e pós-graduação. Esse é, sem dúvi-da, um procedimento não usual na universidade podendo ser considerado uma al-ternativa propulsionadora da qualidade na produção do conhecimento.
Veiga afirma que a pesquisa não é um procedimento usual na universidade. Também aponta o caráter inovador deste procedimento e, mais do que isto, insiste no fato de que a pes-quisa é uma ferramenta exeqüível na construção do conhecimento e da autonomia do aluno universitário.
No entanto, a maior parte da construção do conhecimento do aluno está associado à sala de aula. Esta não é a única responsável por construir o conhecimento do aluno, embora, seja de muita relevância. Isto denuncia o caráter antagônico e, porque não dizer, incongruente da proposta atual de universidade, que, apesar de todo o discurso moderno, demonstra uma práxis pedagógica conservadora, comprometida com o que está instituído.
Por estas e outras razões, a Universidade tem papel relevante na construção do conhe-cimento e na formação cultural do aluno. Ela não se restringe à sala de aula. Ela vai além des-te micro-universo cultural e de formação intelectual. O problema é que quase sempre, o aluno restringe sua vida acadêmica à sala de aula. Seu comportamento não vai além daquilo que é exigido pelo professor. Há professores e não são poucos, que limitam e restringem o aluno a ousar outros vôos no universo acadêmico, pois estes passam a maior parte do seu tempo den-tro da sala de aula.
A pesquisa
Tem-se em mente que uma pesquisa neste sentido poderia ser feita em vários tipos de universidades, tais como universidade confessional, universidade comunitária, universidade pública (regionais e nacionais), universidades particulares, e outras. porém, limitamo-nos, neste primeiro momento, a pesquisar o curso de Pedagogia da Universidade de Sorocaba, que trata-se de uma Universidade comunitária, de caráter regional.
Tal pesquisa foi desenvolvida com estudantes da Universidade de Sorocaba do curso de Pedagogia do 2º Período, 5º Período e 6º Período, totalizando 45 alunos, sendo que 27 de-les pertencem ao 2º período, 9 alunos pertencem ao 5º e 9 deles pertencem ao 6º período. Os alunos do 2º período estudam de manhã. Os dos 5º e 6º período estudam à tarde. Os alunos do 5º e 6º período formam uma só turma.
Para fazer o levantamento empírico, foram aplicados dois questionários. O primeiro objetivou caracterizar o perfil do estudante universitário em seu contexto familiar, econômico e social. O segundo buscou caracterizar seu comportamento no uso da biblioteca. O questio-nário foi aplicado com a aquiescência dos professores. Foi feita uma explicação das perguntas contidas no questionário. Porém, mesmo realizando este procedimento houve respostas preju-dicadas pela incompreensão ou por não estarem suficientemente claras.
Análise do questionário
Os dados obtidos foram através da aplicação de um questionário contendo 15 ques-tões. Esta parte do trabalho está estruturada da seguinte maneira. Na primeira parte, temos o objetivo de caracterizar o perfil do estudante universitário: estado civil, renda familiar, grau de escolaridade dos pais e o grau de escolaridade deles. Na segunda parte, o objetivo é mos-trar os dados obtidos da relação aluno/biblioteca.
A maioria dos estudantes são casados. 99% são mulheres, característica própria do curso de Pedagogia. A renda familiar gira em torno de 6 a 10 salários mínimos. Apenas 3,5% dos alunos do 2o período afirmam ganhar mais de 20 salários mínimos. 50% dos alunos do 5o período afirmam ganhar de 11 a 20 salários. Isto mostra que os estudantes analisados enqua-dram num grupo social de classe média baixa.
Em relação à escolaridade dos pais, obtivemos os seguintes resultados, apresentados nas tabelas III e IV. 7% dos alunos do 2o período afirmam que seus pais fizeram pós-graduação. Em relação aos pais dos alunos do 5o período, 14,2% afirmam que seus pais têm pós-graduação. Em relação aos pais dos alunos do 5o período 37,5% não foram à escola e 37,5% completaram a 4a série do ensino fundamental. O índice de pais que cursaram ensino superior é baixo nas três turmas analisadas. no 2o período, 13% apenas cursaram o ensino su-perior. No 5o período, 12,5% fizeram o curso superior. Na turma do 6º período, não há apon-tamentos. Uma fato nos chama atenção. No 6o período 14,2% de pais fizeram pós-graduação. Um fator relevante à presente pesquisa é que os pais das três turmas apresentam baixa escola-ridade.
Vejamos os dados concernentes ao grau de escolaridade das mães, conforme tabela IV. No 2o período apenas 3,5% das mães não foram à escola; no 5o período 25%. No 2o período, 20 % não completaram a 4a série do ensino fundamental. No 5o período, 12,5% não completa-ram este nível de ensino e 28,5% do 6o período não completaram. Apenas 23% das mães dos alunos do 2o período completaram o ensino médio, contra 28,5% das mães dos alunos do 6o o período.
O que se observa é que o grau de escolaridade dos pais dos alunos analisados é baixo. Isto impõe duas considerações: a realidade histórico-cultural dos alunos universitários anali-sados é fator determinante nas habilidades culturais e acadêmicas deles; e os alunos oriundos de contexto histórico-familiar de baixa escolaridade demonstram mais dificuldades no proces-so de ensino-aprendizagem.
Hipoteticamente, quanto maior a escolaridade de uma pessoa, mais habilidades soci-ais, pessoais, culturais e acadêmicas ela terá. A comparação do nível de escolaridade dos pais com os o nível de escolaridade dos alunos analisados representa um salto gigantesco. De certa forma, tais alunos, oriundos de contexto familiar de baixa escolaridade, representam uma par-cela significativa à analise neste artigo.
Sendo baixa a escolaridade dos pais, pressupõe-se que eles pouco investiram na for-mação cultural dos seus filhos. É possível afirmar que, segundo (Bourdieu, 1998), quanto mais escolaridade uma pessoa tem, maior serão suas habilidades com os bens culturais. Isto significa dizer que a escolaridade é fator determinante nos hábitos culturais de qualquer pes-soa. Em outras palavras, quanto mais maturidade intelectual uma pessoa tiver, sua geração terá mais oportunidades de compreender a importância dos bens culturais.
Vejamos em seguida a origem acadêmica dos estudantes analisados, conforme tabela V e VI. Observa-se pelos dados obtidos que a maioria dos alunos analisados, em média geral 80%, é oriunda da escola pública. A formação acadêmica influencia em muito as habilidades dos alunos. É de esperar que quanto maior o acesso aos processos de formação cultural, quan-to maior a alfabetização e o letramento da pessoa, maior será sua capacidade de se inserir nu-ma sociedade cultural e socialmente letrada.
É certo que as escolas privadas, por atender clientela hipoteticamente diferenciada e com maiores recursos procuram maneiras de oferecer um ensino de melhor “qualidade”, dado caráter extremamente competitivo do capitalismo contemporâneo. Em contrapartida, as esco-las públicas, que dependem exclusivamente das iniciativas governamentais, estão produzindo alunos numa situação de plena desigualdade, ainda que se reconheça o esforço de muitos edu-cadores em praticarem uma educação de “qualidade”. Chamamos esta desigualdade de desi-gualdade cultural.
Com este perfil dos alunos analisados, passemos para o segundo aspecto da pesquisa, que se refere ao uso que estudante universitário faz da Biblioteca. Esta segunda parte tem como obje-tivo caracterizar a postura do estudante universitário diante da biblioteca. Atualmente, a ques-tão em torno da leitura tem sido muito discutida. Galvão (2003), em estudo comparativo de escolaridade e alfabetismo entre gerações distintas. revela que 63% dos entrevistados tiveram pais que não liam e 72% mães que não liam.
Constata-se, desse modo, um grau de reprodução no que se refere aos usos da leitura e da escrita, entre as diferentes gerações: quanto maior o nível de alfabe-tismo do entrevistado, mas provavelmente teve pais e mães que sabiam ler – e ler bem. (Galvão 2003:128).
É inquestionável que existe relação muito forte entre o grau de escolaridade dos pais com o grau de escolaridade dos alunos analisados. Neste sentido, a atual pesquisa corrobora com os estudos em torno do assunto. Batista afirma que:
É que sendo as famílias dos docentes pouco dotadas de capital cultural, particu-larmente pouco dotadas dessas competências, disposições e crenças que consti-tuem um leitor, não podem elas mesmas transmiti-las a seus membros. (Batista 1998, p. 35).
Pode-se dizer que as estratégias familiares para a reprodução do capital cultural não acontece, ou acontece menos intensamente, nas famílias de pouco capital cultural. Cabe per-guntar: A relação aluno/biblioteca seria norteada pela sua herança cultural?
Os dados obtidos mostram que o aluno universitário freqüenta a biblioteca. No 2o pe-ríodo, 70% afirmam que usam a biblioteca com freqüência. Dos alunos do 5o período, 75% afirmam que usam a biblioteca com freqüência. Em relação ao 6o período, 52,2% utilizam a biblioteca com freqüência. Em comparação aos outros períodos, o 6o período demonstrou que sua freqüência à biblioteca é inferior, um resultado no mínimo estranho, já que era de esperar que quanto maior for escolaridade do estudante, maior seria sua participação nos mecanismos capazes de ajudá-lo em sua formação.
A questão número IV objetivou analisar como o aluno universitário vai à biblioteca: sozinho ou em grupo. Do 2o período, 53,3% afirmaram que vão sozinhos à Biblioteca e 30% vão em grupo. Do 5o período, 62,5% dos alunos afirmaram que vão sozinhos à biblioteca e 25% vão em grupo. Do 6o período, 71,4% afirmaram que vão sozinhos à biblioteca. Se fizer-mos uma comparação com a tabela 6, observa-se que a freqüência dos alunos analisados à biblioteca está relacionada ao próprio horário de estudo. Apenas 10,2% dos alunos do 2o perí-odo afirmaram que utilizam a biblioteca à noite, ou seja, fora do horário de sala de aula. A biblioteca é utilizada durante o período de estudo. Parece que existe da parte do professor a preocupação em utilizar os recursos da Biblioteca como estratégia de ensino. Este dado sugere também que a relação do estudante com a universidade tende a se limitar ao tempo de aula, sem outras vivências acadêmicas, à exceção daqueles que fazem estágio ou iniciação científi-ca.
Os estudantes analisados demonstraram que o estudo individual é um hábito mais fre-qüente no contexto universitário. Apesar de representar uma estratégia acadêmica, o estudo individual priva o aluno universitário de manter uma relação dialógica mais intensa no pro-cesso de ensino-aprendizagem com os demais
A tabela VII revela o tempo de uso da biblioteca. Dos alunos do 2o período, 23,5% a-firmam que usam a biblioteca durante 30 minutos, 43,5% afirmam que a utilizam mais de uma hora. Dos alunos do 5o período, 37,5% utilizam a biblioteca mais de uma hora, enquanto que 26,5% dos alunos do 6o período utilizam mais de uma hora. Observa-se com estes dados que os alunos do 2o período têm freqüência maior e utilizam por mais tempo a biblioteca. A tabela V demonstra que 62,5% dos universitários do 5o período freqüentam mais de uma vez na se-mana a biblioteca. Em relação ao 6o período, a pesquisa revelou que 28,6% freqüentam a bi-blioteca mais de uma vez na semana. Outro dado interessante é que 30% dos estudantes do 2o período afirmam que vão à biblioteca somente quando solicitados.
Alguma coisa está errada em relação ao uso, se compararmos a tabela V com a tabela VII. Pode-se pressupor pelo menos três possibilidades: os 5o e 6o períodos utilizam a bibliote-ca apenas para retirar livros; os 5o e 6o período utilizam a biblioteca apenas para fazer consul-tas bibliográficas; 3) os estudantes não têm verdadeira compreensão da importância da biblio-teca para sua formação acadêmica e intelectual, uma vez que a maior parte afirma que a bibli-oteca é um veículo capaz de ajudá-la em sua formação, conforme se verifica na tabela X.
Pode-se postular, por esta análise, que, apesar da importância biblioteca na sua forma-ção, o uso que o estudante faz dela está aquém de capacitá-lo, uma vez que sua freqüência parece estar meramente relacionada a consultas bibliográficas ou a empréstimos de livros para fotocópias. Isto sugere que é consistente a tese de que a cultura acadêmica se sustenta em uti-lizar a fotocópia de partes de livros para realização de trabalhos ou de estudos direcionados por professores. Esta cultura da não aquisição de livros pode ser alimentada pelos próprios professores, que selecionam textos de diversos livros com a finalidade de expor sua disciplina, o que implicaria uma metodologia praticista e disciplinar.
Dos alunos do 6o período, conforme tabela V, 28,6% afirmam que usam a biblioteca raramente, 14,2% afirmam que utilizam a biblioteca somente quando solicitados, e 28,6% afirmam usar a biblioteca uma vez na semana. São índices muito baixos para o nível de esco-laridade.
Em relação ao que o estudante lê na biblioteca, o suporte livro foi o mais destacado: 66,5% dos alunos do 2o período afirmam que lêem livros, do 5o período 87,5% e do 6o perío-do 57,1%. A pergunta da tabela XII revelou que os alunos não conseguiram mencionar os últimos livros que leram da biblioteca, visto que 46,5% dos estudantes do 2o período afirma-ram que emprestam de 1 a 5 livros por semestre. Dos estudantes do 5o período, 25% afirma-ram que emprestam de 1 a 5 livros por semestre. Em relação aos alunos do 6o período, 42,8 afirmaram que emprestam de 1 a 5 livros por semestre. Co mo, então, não foram capazes de mencionar os últimos livros lidos, conforme solicitado no questionário?
A pesquisa procurou analisar como aluno universitário avalia os recursos oferecidos pela Biblioteca. Dos estudantes do 2º período, 47% afirmaram que os recursos oferecidos pela biblioteca são ótimos; 25% dos estudantes do 5o período fizeram a mesma afirmação, contra 28,6% dos do 6o período. Porém, a maioria do 5o período e do 6o período afirmam que os re-cursos oferecidos são razoáveis, conforme tabela XIV.
A tabela IX aponta um dado interessante a respeito do valor que estudante dá à biblio-teca: 63,4% dos alunos do 2o período afirmam que a biblioteca é indispensável, do 5o período 75%, em contrapartida apenas 28,6% dos alunos do 6o período afirmam que a biblioteca é indispensável, sendo que 57,1% destes alunos afirmam apenas que é necessária. Este dado é intrigante se levarmos em consideração a idéia de que quanto mais avançado em seus estudos acadêmicos, maiores seriam as habilidades de construção do conhecimento, o que incluiria um uso mais diversificado de bibliografia e, conseqüentemente, maior uso da Biblioteca. No entanto, os alunos do 6o período, conforme não parecem dar valor à Biblioteca. Isto sugere uma postura acadêmica aquém da que se esperaria de universitários prestes a terminar a gra-duação.
Para que fins o estudante universitário utiliza a biblioteca? Sobre esta questão (tabela VIII), 25,9% dos alunos dos 2o período apontaram a necessidade intelectual como maior mo-tivação para utilização da Biblioteca e 33,3% dos alunos apontaram o trabalho de conclusão de curso como último recurso para utilização da biblioteca, sendo que 40,9% do total dos alu-nos do 2o período, não responderam adequadamente a esta pergunta.
Dos alunos do 5o período, 22,2% apontaram a tarefa escolar individual como a princi-pal motivação para o uso da biblioteca e 33,3% apontaram o trabalho de conclusão de curso como menor motivação para o uso da biblioteca, sendo que 55,5% não responderam apropria-damente à questão. Dos alunos do 6o período 22,2% apontaram a tarefa escolar individual e 33,4% apontaram o trabalho em grupo como principal meio de utilização da biblioteca, e 44,4% dos alunos não souberam responder.
Das três turmas, o que mais ficou evidente foi a dificuldade em responder as questões colocadas, mesmo tendo as perguntas sido previamente lidas e explicadas pelo pesquisador. Podemos levantar duas hipóteses: o grau de dificuldade ou interesse dos estudantes entrevis-tados em responder questões mais complexas; ou a dificuldade pode estar associada a ansie-dade em responder as questões, pois muitos se sentiam incomodados com seu conteúdo.
Se compararmos os três períodos, observa-se que os alunos do 2o período estão mais motivados em utilizar a biblioteca, para a construção do conhecimento, do que os estudantes dos 5o e 6o períodos, já que as respostas dadas por estes, estão associadas a obrigatoriedade do uso da biblioteca, para execução de trabalhos acadêmicos individuais e em grupos. A questão é: por que os alunos mais próximos de completar seu período de formação não desenvolvem uma compreensão mais exeqüível da biblioteca? Isto pode revelar um comportamento acadê-mico anormal. Afinal, por que tais estudantes apresentam um comportamento diferente do que se esperaria, visto que o uso da biblioteca apontado por eles está associado à obrigatoriedade curricular: estudo em grupo e tarefa individual?
Por último, vejamos a concepção que o estudante universitário tem da Biblioteca, ta-bela XVI. Dos alunos do 2º período, 33,3% apontaram a biblioteca como um lugar de pesqui-sa; 22,2% apontaram a biblioteca como local de formação intelectual e 44,5% não souberam responder a questão.
Dos alunos do 5º período, tivemos os seguintes dados: 33,3% afirmam que a biblioteca é um espaço de pesquisa e 11,2% afirmam que a biblioteca é um espaço de estudo, 55,5% não responderam adequadamente à pergunta. Dos alunos do 6o período, 33,3% afirmaram que a biblioteca é um lugar de pesquisa, 22,3% afirmam que a biblioteca é um lugar de leitura e 44% não souberam responder.
Para um razoável número de estudantes dos três períodos, a biblioteca é um lugar de pesquisa. A concepção que têm da biblioteca é correta enquanto construção teórica, porém errônea em sua práxis, conforme se verifica pelas demais respostas (pesquisa, aqui, deve ser busca de texto para empréstimo). A porcentagem maior está atrelada aos estudantes que não souberam responder as questões, o que subentende que tais alunos não têm facilidade para lidar com questões mais complexas.
O questionário tinha uma questão referente a importância da biblioteca na formação acadêmica. Sobre este aspecto separamos três narrativas. Elas representam três visões diferen-tes a respeito da biblioteca.
Análise de três depoimentos sobre a importância da biblioteca
Neste tópico, procederemos a análise de algumas narrativas dos alunos acerca da im-portância da biblioteca na sua formação acadêmica. Podemos partir do pressuposto que existe um comportamento do aluno universitário em relação ao uso que faz da biblioteca. Em geral ficou evidente que os alunos compreendem a importância da biblioteca na sua formação.
O primeiro caso permite que construamos a cosmovisão do aluno a respeito da sua compreensão da biblioteca:
Para ter acesso a livros, pois não disponho recursos econômicos para adquiri-los”. (Paula)
Esta é, sem dúvida, a realidade de muitos estudantes universitários de universidades periféricas e de cursos de menor prestígio.. O uso da biblioteca por este aluno está associado a sua condição econômica. Paula é casada e possui renda familiar de 5 salários mínimos; seu pai completou a 8ª série e sua mãe completou o ensino médio. Afirma que o ensino funda-mental foi cursado em escola pública e o ensino médio em escola particular. Afirmar também possuir 50 livros, algo bastante relevante neste universo, ainda que demasiado limitado em outros. Quanto ao tempo de uso da biblioteca, afirmou que utiliza para seleção do material desejado. Sobre os fins que utiliza a biblioteca apontou o empréstimo de livros como sendo mais importante para sua vida acadêmica. Afirma, finalmente, que a biblioteca é um lugar de pesquisa.
Podemos a partir disto, frisar que Paula possui uma compreensão limitada da Bibliote-ca. Seu comportamento acadêmico no espaço da biblioteca está relacionado a empréstimos de livros, devido sua dificuldade econômica. Outro fator relevante do questionário de Paula é o tempo de uso da Biblioteca: não permanece mais do que o suficiente para a retirada do livro. Possivelmente, um livro esteja relacionado à disciplina cursada.
No segundo caso, temos o seguinte depoimento:
Quando necessário, pois procuro selecionar livros para a minha biblioteca par-ticular”. (Marlene)
Marlene é casada e afirma ter renda familiar de 6 a 10 salários mínimos. Seu pai fez pós-graduação e sua mãe completou a 4a série. Cursou o ensino fundamental em escola parti-cular e o ensino médio em escola pública. Seu uso da biblioteca está relacionado a seu período de permanência na Universidade. Afirma que permanece aproximadamente durante 30 minu-tos na biblioteca. O que uma pessoa faz em 30 minutos numa biblioteca? Seria este tempo o suficiente para elaboração de um trabalho individual ou em grupo? Ela afirma que tem 30 livros em casa, número relativamente pequeno para um estudante universitário..
Marlene afirma também que a biblioteca é um veículo capaz de ajudá-la em sua for-mação acadêmica. Diz possui o hábito de adquirir livros para a formação da sua própria bibli-oteca.
No terceiro caso, temos o seguinte relato:
Não pelo simples uso, mas pela necessidade de conhecimento pessoal. (Gabrie-la)
Gabriela afirma que tem renda familiar de 11 a 20 salários mínimos. Seus pais inicia-ram, mas não completaram o curso superior. Afirmou que estudou predominantemente em escola pública, tanto no ensino fundamenta como no médio. Afirma também possuir um acer-vo de 50 livros. Utiliza a biblioteca no período da tarde, ou seja, no mesmo período em que estuda. Seu tempo de permanência na biblioteca é de 3 horas, o que parece não ser real, pois utiliza a biblioteca no mesmo período que estuda. Para ela a biblioteca é um veículo capaz de ajudá-la em sua formação acadêmica. Demonstra uma pessoa com uma concepção acadêmica amadurecida.
Os que se pode concluir dos três casos? 1o) Deve observar que o capital econômico e cultural influenciam a concepção do aluno universitário quanto ao uso da biblioteca, 2o) a relação dos alunos com os bens de consumo culturais determinam seu modus operandis na universidade. 3o) Os alunos quanto mais escolarizados, melhor sabem utilizar as estratégias de construção do seu conhecimento.
No entanto, podemos afirmar que os alunos analisados, apesar de compreenderem a importância da biblioteca em sua formação acadêmica, não utilizam a biblioteca como estra-tégia de construção do saber. Seu uso está relacionado a exigência acadêmica, assumindo, desta forma, característica meramente curricular.
Considerações finais
Há muitos dados significativos que precisam ser analisados no questionário aplicados aos alunos universitários. Podemos colocar algumas considerações sobre os dados analisados até o presente momento.
A universidade é um universo acadêmico que possibilita várias formas de construção do conhecimento. A biblioteca, dentro deste universo, é uma estratégia usada pelos estudantes na elaboração dos trabalhos acadêmicos, lugar de pesquisa escolar (entenda-se realização de tarefa estabelecida pelo docente), lugar de estudo em grupo, lugar onde se adquire conheci-mento.
Como tal, teria grande influência na formação intelectual do estudante universitário, possibilitando-o construir uma postura crítica diante da sua realidade histórica-social.
Na medida que se aprofunda a análise, observa-se que os alunos que compõe a univer-sidade, apesar de reconhecerem o valor da biblioteca, sua compreensão pode facilmente se enquadrar no senso comum ou simplesmente no valor simbólico dela, não no modo como a utilizam. Seu uso está relacionado ao tempo de formação acadêmica, podendo demonstrar o fato de que a ela é usada por mera obrigação acadêmica curricular.
Fica claro em nossa pesquisa que o processo de maturidade acadêmica determina a re-lação que o aluno estabelece com os agentes de formação cultural. É evidente também que o aluno em contato com o academicismo acaba desenvolvendo potencialidades que não foram desenvolvidas previamente, possivelmente pela falta de herança cultural desenvolvido no con-texto familiar.
O professor, como um mediador do conhecimento, é um dos principais elementos na Universidade por motivar o uso da biblioteca. Isto pode ser feito no que se tem discutido atu-almente como processo de ensino-pesquisa. Este procedimento didático leva o aluno universi-tário a desenvolver sua autonomia e o pensamento crítico.
A universidade vem passando por um processo de transformação, adquirindo um mo-delo competitivo, no sentido de prioritariamente formar sua “clientela” para o mercado de trabalho. As políticas governamentais acabam impondo um modo de ser da universidade, des-caracterizando-a como lugar de pesquisa, criticidade, criatividade, autonomia. Isto acaba afe-tando o comportamento acadêmico dos alunos, que, por si mesmos, não desenvolveram du-rante sua trajetória de escolarização alguns hábitos de estudos relevantes para sua formação, por exemplo: ler, escrever, pesquisar, elaborar textos acadêmicos.
É dentro desta conjuntura acadêmica que o estudante vem sendo educado. Por isso, não basta uma mudança no sentido de motivar os alunos a pesquisar ou desenvolver aquilo que se chama ensino-pesquisa. Faz-se necessário uma mudança radical na própria universida-de, no modelo curricular, na sua organização, na sua política acadêmica, no contexto formati-vo acadêmico, nas manifestações sociais e culturais da Universidade.
O estudante universitário como ser socialmente constituído é carregado de valores i-deológicos que foram internalizados em sua vida através da sua relação com o mundo. Nas palavras de Britto:
o modo de ser e de pensar que o estudante traz é, por si só, marca de subjetivida-de e, como tal, deve ser reconhecida como legítima. Sujeito imerso numa reali-dade social concreta, ele tem sua linguagem, cultura e concepções de mundo car-regadas de valores ideológicos e fortemente marcadas por suas experiências (Britto, 2003, p. 194).
Este estudante possui características próprias formadas em seu contexto social. Neste sentido, pode se dizer que suas dificuldades em desenvolver estratégias de aprendizagem es-tão relacionadas a sua herança familiar, herdada no decorrer do seu desenvolvimento. Pesqui-sas recentes têm revelado que alunos oriundos de famílias pobres têm mais dificuldades em desenvolver os mecanismos de construção do conhecimento.
Portanto, cabe a cada educador e a universidade a responsabilidade de desenvolver uma educação democrática, comprometida com a vida e para a vida, capaz de fomentar o pen-samento crítico, desenvolver a autonomia, despertar a criatividade, gerar transformação pes-soal e social.. E, num projeto desta natureza, a biblioteca deve ser mais que lugar de estudo ou de oferta dos livros adotados nas disciplinas dos diferentes cursos.


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