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POR TRÁS DOS CADERNOS: ANÁLISE SEMIÓTICA DO DISCURSO UTILIZADO EM MALHAÇÃO

Michelle Regina Alexandre Cabral - mestranda Em Semiótica, Tecnologias de Informação e Educação na Universidade Braz Cubas, SP E-mail: michelleracabral@hotmail.com

Considerações Iniciais

Esse trabalho propõe-se a examinar a estrutura narrativa presente na ação do casal actancial principais de um programa diário exibido pela Rede Globo de Televisão em formato sitcom: a novela adolescente Malhação.
A novela Malhação, veiculada pela Rede Globo de Televisão desde 1994, é amplamente assistida pelo público adolescente brasileiro. A novela possui uma característica própria: a alternância de protagonistas.
Há mais de dez anos no ar, Malhação já contou os encontros e desencontros de nove casais. Sempre após as férias escolares de verão, a novela começa uma nova “temporada” e, com ela, um novo casal de protagonistas começa seu Programa Narrativo.
O casal que atua como principal nessa temporada (2004) está resolvendo seus últimos dilemas e começa a viver seu tão esperado relacionamento. Seus nomes são Gustavo e Letícia.
O presente trabalho analisa as estruturas que compõem esse programa narrativo o qual os protagonistas precisaram seguir para alcançar seu Objeto de Valor.
Essa análise será feita tanto na semântica narrativa, quanto na semântica profunda, na qual tentaremos observar os sistemas de valores que são transmitidos aos telespectadores através dos encontros (e desencontros) amorosos desses dois jovens a partir do esquema canônico e da relação entre Sujeitos propostos por Greimas (1976 e 1978), Courtés (1979) e Pais (1999) – nortedores teóricos do trabalho aqui apresentado –, possibilitando um maior entendimento dos Programas Narrativos principal e auxiliares dos actantes do percurso de ação e o que está por trás destes.
O corpus desse trabalho contitui-se de vários capítulos/episódios da novela, veiculados diariamente, no final da tarde, pela Rede Globo de Televisão. Esses capítulos/episódios foram assistidos rigorosamente para que permitam uma análise real e embasada.
A análise irá dividir-se em dois capítulos.O capítulo I, versará sobre o esquema canônico das estruturas narrativas e do quadrado semiótico estático proposto por Greimas (1976). No capítulo II, trabalharemos com a semântica profunda baseando a análise no octógono semiótico dialético de Pais (1999), sobre o universo de discurso da afetividade na cultura e na estrutura social brasileiras.
Esperando elucidar esses fatores existentes na colcha narrativa que se forma em torno do casal actancial principal da novela, Gustavo e Letícia, seguiremos para a apresentação analítica dos dados levantados.

Capítulo I. Estrutura Narrativa

Quando falamos em estrutura narrativa, estamos nos referindo ao conceito desenvolvido por Greimas e retomado por Courtés, no qual esses autores demonstram o programa narrativo que cada actante deve realizar para alcançar seu “Objeto de Valor”.
Faz parte desse âmbito o Programa Narrativo principal (PNp) e os Programas Narrativos auxiliares (PNas) vividos pelos nossos protagonistas.
Segundo Greimas (1975), a sintaxe narrativa se organiza em torno de um “Sujeito” (S), que manipulado por um “Destinador” (Dor) realiza uma busca por um determinado “Objeto de Valor” (OV). É o “Destinador” – razão pela qual o “Sujeito deseja o “Objeto de Valor” – que determina (instaura) o “Sujeito” (ou “Destinatário”–Dário) assim que este determina o “Objeto de Valor” a ser conquistado no percurso de ação de que se fala. Esse “Sujeito” possui outros actantes que o auxiliam – os “Adjuvantes” (Ad) – e/ou atrapalham – os “Oponentes” (Op) – na conquista do dito “Objeto de Valor”.
Uma narrativa pode apresentar vários sujeitos actanciais e cada um apresentará seu próprio programa narrativo. É essa condição que permite que o “Sujeito” de um programa seja o “Anti-Sujeito” de outro, ou que um “Destinador” se transforme num “Anti-Destinador”.
A análise da estrutura narrativa do cito sitcom parte das relações entre os actantes. Para isso segue o esquema canônico desenvolvido por Courtés, em 1979:

A partir dessa primeira estrutura, começa o desmembramento das ações dos Sujeitos actanciais para que seus Programas Narrativos fiquem claros.
Para isso, seguimos uma nova estrutura básica, na qual entende-se que o “Sujeito” possui um grande Programa Narrativo a ser realizado, que nada mais é do que a conquista de seu “Objeto de Valor”. Mas para alcançar seu objetivo principal, o “Sujeito” necessita cumprir outras etapas precedentes à conquista final. Essas etapas consistem em conquistas menores que permitem – ou facilitam – a realização do Programa Narrativo principal:

Sendo que o Sujeito é sempre o mesmo actante e a variação ocorre apenas no “Objeto de Valor” a ser conquistado. Vale ressaltar que o “Objeto de Valor1” é o principal objeto a ser conquistado, justamente por isso será a última “prova” a ser realizada pelo “Sujeito”.
A essa última conquista dá-se o nome de “Prova Decisiva”. Se esta for bem sucedida, passa a chamar-se “Prova Glorificante”, pois consagrará a conquista do “Sujeito”.
As outras etapas são consideradas “Provas Qualificantes” e devem ser interpretadas em ordem numérica decrescente (OV4, OV3 e OV2), ou seja, o primeiro objeto a ser conquistado é o “OV4”, depois o “OV3”, e assim sucessivamente.
Vejamos como esse esquema canônico – com Programas Narrativos Principal e Auxiliares – aplica-se ao casal actancial principal de Malhação: Gustavo e Letícia.
1.1. Programa Narrativo de Gustavo

Gustavo (S1) deseja o afeto de Letícia – que, portanto, é o seu Objeto de Valor (OV1) – e para conseguí-lo usa a música como Adjuvante (Ad1). Mas, para poder compor a música que conquistou definitivamente o coração de Letícia (PNp), Gustavo teve que cumprir uma série de Programas Narrativos auxiliares (Pna).
Observe:

Para conquistar o amor de Letícia (OV1), Gustavo precisou comprar um violão, aprender a tocá-lo, compor uma música e cantá-la para Letícia, a fim de que a mesma acreditasse na verdade do amor de Gustavo. São essas pequenas realizações prévias que formam o “Programa Narrativo auxiliar” do “Programa Narrativo principal” do “Sujeito” actancial.
Como Programa Narrativo principal de Gustavo temos o seguinte esquema:

Gustavo (Dário) amor (Dor)


música (Ad1)
Gustavo (S1) Letícia (OV)
Felipe (Op1)

Sendo que, Gustavo quer a amor de Letícia e almeja esse “Objeto de Valor” depois que ele próprio passa a amá-la. Para ajudá-lo nessa empreitada temos a música – “Adjuvante” – e para atrapalhar seu objetivo temos Felipe – Oponente –, colega de classe de Gustavo.

1.2. Programa Narrativo de Letícia.

Por outro lado, Letícia (S2) deseja o afeto de Gustavo – portanto, seu “Objeto de Valor” (OV1) – e para conseguí-lo usa o fato de trabalharem juntos numa Organização Não-Governamental como “Adjuvante” (Ad1). Mas para poder conviver com Gustavo e conquistar definitivamente o coração deste (PNp), Letícia teve que cumprir uma série de Programas Narrativos auxiliares (Pna).
Observe:

O “Sujeito” instaurado é Letícia, que para obter êxito em sua prova decisiva precisou obter sucesso nas provas qualificantes, ou seja, para conseguir um bom “Adjuvante” (o Amparo Social), Letícia precisou inscrever-se para a seleção, participar e ser aprovada na mesma, trabalhar no Amparo Social diariamente, conviver com Gustavo pacificamente e de forma harmônica para possibilitar uma aproximação efetiva, para, finalmente, convencê-lo de que seu amor era verdadeiro e sincero.
Todos esses aspectos compreendem o Programa Narrativo auxiliar que Letícia precisou cumprir para alcançar seu “Objeto de Valor”.
Por sua vez, o Programa Narrativo principal de Letícia apresenta o esquema abaixo:

Letícia (Dário) amor (Dor)

Amparo Social (Ad2)
Letícia (S2) Gustavo(OV)
Natasha (Op2)
por Gustavo e namorava com ele até Letícia se mudar para o Colégio Múltipla Escolha, sede de todas as aventuras do sitcom. É capaz de qualquer No qual, o amor instaura em Letícia o desejo pelo carinho de Gustavo, opondo-a a Natasha (companheira de Gustavo numa banda de rock in roll) e sendo auxiliada pelo convívio com sua fonte de desejo no Amparo Social.
É importante ressaltar que os “Oponentes” também são “Sujeitos” em outros Programas Narrativos, mas estes não serão analisados em momento oportuno.
Felipe é um colega de escola, estuda na mesma sala de aula que Gustavo e disputa com este o afeto de Letícia. É um rapaz calmo e discreto, mas decidido a lutar com Gustavo (vocalista de uma banda de rock) por seu principal objetivo: provar para Letícia que é o rapaz certo para namorá-la.
Já Natasha é a grande companheira de Gustavo e forma com ele e um outro amigo de infância (o Catraca) uma banda de rock in roll denominada Vagabanda. Natasha é apaixonada coisa para reconquistar o namorado.
Parece lógico que Felipe seja o “Anti-Sujeito” de Gustavo e, conseqüentemente seu “Oponente”. Por sua vez, o mesmo ocorre com Natasha, que é “Anti-Sujeito” de Letícia e sua “Oponente”.

1.3. O Quadrado Semiótico

A partir da análise e dos esquemas acima expressos e baseados no quadrado semiótico estático exposto por Greimas, podemos concluir que a relação entre os “Sujeitos” actanciais protagonistas da novela Malhação ocorre da seguinte maneira:

O esquema acima significa que Gustavo é um “Sujeito” instaurado em relação à Letícia (“Objeto de Valor” de Gustavo), que por sua vez também é um “Sujeito” instaurado em relação a Gustavo (“Objeto de Valor” de Letícia). Natasha é “Oponente” de Letícia, pois tem igualmente o amor de Gustavo como “Objeto de Valor”. Já Felipe se opõe a Gustavo por também ter o amor de Letícia como “Objeto de Valor”.
Natasha e Letícia formam um par de elementos contraditórios, pois se opõem de forma incompatível. O mesmo vale para o par Felipe e Gustavo.
Já Letícia e Gustavo são elementos contrários, pois, mesmo diferentes, se completam ao invés de se oporem. Da mesma forma, Felipe e Natasha são contrários porque – embora tenham desejos diferentes em primeira instância – se unem no momento em que querem evitar a relação entre os sujeitos actanciais.

Capítulo II. Estrutura profunda: octógono semiótico dialético

O quadrado semiótico de Greimas visto até agora é um modelo estático. Após analisar o modelo citado, o grupo de estudos comandado por esse teórico criou um modelo dinâmico ou dialético para o quadrado. Greimas vai além, explorando a união entre os termos contrários (S1 e S2 – que se completam) e contraditórios (S1 e S1 – que se opõem), originando o octógono semiótico dialético, a partir de metatermos cada vez mais complexos.
Baseados em PAIS (1999), demonstraremos um octógono semiótico dialético do sistema de valores que julgamos serem transmitidos pelo relacionamento amoroso de Gustavo e Letícia:

Considerando que todos os termos expostos podem ser ampliados em seu universo de discurso e trabalhados não mais em seu efeito de sentido – como acima –, mas sim em sua modalidade, propomos um outro octógono formado por esses termos complexos: os metatermos.
Com base nesses termos, temos:

Dessa maneira, demonstramos, com base em PAIS (1999), os valores existentes nas relações amorosas que ocorrem na cultura brasileira e presentes na novela Malhação.

Considerações Finais

O presente trabalho buscou elucidar a estrutura narrativa do casal actancial protagonista da novela Malhação, bem como demonstrar as relações entre os sujeitos actanciais, seus adjuvantes e oponentes e os percursos narrativos que os protagonistas precisaram seguir para alcançar seu objeto de valor.
Nesse ponto, Gustavo e Letícia tiveram suas provas decisivas de caráter glorificante, uma vez que obtiveram sucesso em seu intento.
É sabido também que através da análise da semântica profunda do programa narrativo desenvolvido por Gustavo e Letícia, pudemos perceber o octógono semiótico dialético que traz os valores transmitidos aos jovens telespectadores diários deste sitcom.
Comprova-se mais uma vez que a televisão, como veículo de comunicação de massa, é uma importante transmissora de valores da cultura brasileira para as gerações em formação, ampliando sua visão de mundo através de conceitos sociais pré-definidos pela situação histórico-social em que esses telespectadores se inserem.

Referências Bibliográficas

COURTÉS, J. Introdução à semiótica narrativa e discursiva. Coimbra, Livraria Almedina, 1979.

GREIMAS, A. J. Semiótica do discurso científico. Da modalidade. Tradução PAIS, C. T. São Paulo, Diefel, 1976.

___________. “O contrato de veridicção.” In: Acta Semiótica et Lingvística, v. 2. São Paulo, Hucitec/SBPL, 1978.

HJELMSLEV, L. T. Prolegômeros a uma teoria da linguagem. São Paulo, Perspectiva, 1975.

LOPES, E. Fundamentos de Lingüística contemporânea. São Paulo, Cultrix, 1993.

PAIS, C. T. “Lazer, trabalho, afeto, paixões e valores na cultura e na sociedade brasileiras: ensaio em semiótica das culturas.” Revista Brasileira de Lingüística. São Paulo, Plêiade, vol. 11, p. 151-168, 1999.

 
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