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  LEITURA DE MUNDO, LEITURAS DE CLARICE: PRÁTICAS DE LEITURA E DE ESCRITA NA OBRA CONTISTA DE CLARICE LISPECTOR

Jessé Camatari Reis - Unesp - Pedagogia - Departamento de Educação - Instituto de Biociências - Campus de Rio Claro.

Maria Rosa R. M. de Camargo - Unesp - Pedagogia – Departamento de Educação - Instituto de Biociências - Campus de Rio Claro.

O trabalho busca e analisa a leitura e a escrita como temas nos contos de Clarice Lispector. Assumindo a leitura e a escrita como práticas culturais, tomou-se como referenciais teóricos as noções de representação, apropriação e práticas culturais. Tal possibilidade investigativa se configura porque, no decorrer da pesquisa e no tratamento dado ao material, fomo-nos apercebendo que nos escritos de Clarice Lispector ‘aparecem’, se revelam, uma leitura e uma escrita que eram, sobretudo, práticas representativas de múltiplas situações e configurações. Ela, a escritora, parecia querer nos dizer em palavras e nos mostrava em ações, com seus modos de fazer ou de operar seu ato criador, maneiras de se praticar o ato da leitura e da escrita. A relevância deste trabalho está em buscar na obra de uma escritora, autora de contos, elementos para ampliar as noções de leitura e escrita, temas constantes em sua obra. Relacionar a obra contista de Clarice Lispector numa vertente da história cultural e das práticas de leitura como produtoras de variadas representações, apropriações e (re) significações levou-nos a buscar a presença da leitura e da escrita no interior de seus contos, num ato de reconhecimento de variadas representações possíveis para esses textos, bem como suas práticas existentes no próprio cerne da obra dessa autora; práticas que são por ela indicadas. Reconhecer o traço das práticas, suas representações, é o tipo de investigação pretendida pela História Cultural, e é o que foi intencionado quando da nossa busca pelos seus contos, nos quais se descortinaram novas possibilidades para o entendimento do que seja ler e escrever, na obra da autora. No cerne dos seus escritos foram encontradas possibilidades para ampliar-se as noções das práticas de leitura e escrita – temas recorrentes por ela desenvolvidos. Realizado o levantamento por temas na obra contista de Clarice, esse proporcionou uma nova construção de sentidos para sua obra, convertendo-se numa experiência, indelével e prazerosa para o professor-pesquisador

Leitura de mundo, leituras de Clarice: práticas de leitura e de escrita na obra contista de Clarice Lispector se originou no projeto: “A Leitura e a Escrita como Temas nos Contos de Clarice Lispector” que se propôs a buscar e analisar a leitura e a escrita como temas nos contos de Clarice Lispector. A opção pelos contos justifica-se por ser uma parcela importante da produção literária da autora e pela sua característica, enquanto gênero, que deixa registradas maneiras de análise e uma certa visão dos fatos. Assumindo a leitura e a escrita como práticas culturais, tomamos como referenciais teóricos as noções de representação, apropriação e práticas culturais propostas por Roger Chartier que une uma criteriosa investigação acerca da história do livro e da leitura versando sobre o ato (criador) da leitura e, por extensão, da escrita, concebendo-os como práticas culturais, produtoras dos mais variados sentidos e significações.

Para a realização deste projeto de leitura, tivemos como eixo norteador a seguinte pergunta: em que medida a análise da leitura e da escrita como temas, nos contos de Clarice Lispector, pode contribuir para a ampliação das noções sobre a leitura e a escrita?

Com base nos primeiros levantamentos da obra literária de Clarice Lispector apercebemo-nos de que, em seus escritos, poderíamos buscar referenciais para um aprofundamento da compreensão do ato de ler e, por extensão, do ato de escrever. Em primeiras sondagens, de posse de uma parte do material, pudemos constatar que tais temas ‘emergem’ de sua vasta obra. Dos desafios postos pelas primeiras leituras, e da necessidade de adequar esforços fomos dedicando um enfoque mais específico sobre os contos.

O conto, como gênero literário, destaca-se pelo seu modo específico de narrar os acontecimentos, pela sua unidade de ação, ou seja, um só conflito, um só drama, atos estes praticados pelos protagonistas, estes sempre em número reduzido, no decorrer da história (Moisés, 1979). Na literatura, o conto é tido como o gênero de maior destaque, em termos de vigor e criatividade brasileira (Bosi, 1975). O gênero conto atinge seu apogeu como forma literária e erudita no século passado e a ele tem sido atribuído papel privilegiado na arte de narrar situações vividas pelo homem contemporâneo, estando então, relacionado com os fatos cotidianos.

Ainda sobre o gênero literário conto lembramos de uma análise feita por Machado de Assis (1873) quando o afirma como um “gênero difícil a despeito de sua aparente facilidade e creio que essa mesma aparência de facilidade lhe faz mal, afastando-se dele os escritores e não lhe dando, penso eu, o público toda atenção de que muitas vezes é credor”.

Em nossas descobertas sobre a atenção dispensada pela autora ao gênero literário conto vemos, que esta se dedica desde muito cedo à escrita de textos curtos os quais são reunidos e publicados pela primeira vez com o título Alguns Contos, pelo Serviço de Documentação do Ministério da Educação e Cultura em 1952 reunindo os contos: Mistério em São Cristóvão, Os laços de família, Começos de uma fortuna, Amor, Uma galinha e O jantar. E cf. (FERREIRA, 1999), Massaud Moisés admite que as narrativas curtas de Clarice Lispector não eram mero exercício para os romances, enquadrando-se perfeitamente nos moldes do conto.

Tal possibilidade investigativa se configurou porque, no decorrer da pesquisa e no tratamento dado ao material, fomo-nos apercebendo que nos escritos de Clarice Lispector ‘aparecem’, se revelam, uma leitura e uma escrita que eram, sobretudo, práticas representativas de múltiplas situações e configurações. Ela, a escritora, parecia querer nos dizer em palavras e nos mostrava em ações, com seus modos de fazer ou de operar seu ato criador, no desenrolar de suas narrativas, maneiras de se praticar o ato da leitura e da escrita.

A relevância deste trabalho está em buscar na obra de uma escritora, autora de contos, elementos para ampliar as noções de leitura e escrita, temas constantes em sua obra. No interior do tecido narrativo dos contos clariceanos é possível depreender temas ligados à leitura e escrita. Os trechos que nos remetiam ao ato de ler e escrever, foram agrupados e, delineando-se o que pensamos ser categorias, constituindo um efetivo exercício de delimitação. Tais categorias nos remetem à significativa presença do conteúdo narrativo representado na obra de Clarice pelas figuras de leitura e de escrita ali presentes.

Relacionar a obra contista de Clarice Lispector numa vertente da história cultural e das práticas de leitura como produtoras de variadas representações, apropriações e (re) significações leva-nos a buscar a presença da leitura e da escrita no interior de seus contos, num ato de reconhecimento de variadas representações possíveis para esses textos, os quais abarcam múltiplos sentidos para o entendimento dessa leitura e dessa escrita, bem como suas práticas existentes no próprio cerne da obra dessa autora; práticas que são por ela indicadas. Reconhecer o traço das práticas, suas representações, é o tipo de investigação pretendida pela História Cultural, e é o que foi intencionado quando da nossa busca pelos contos de Lispector, nos quais se descortinam novas possibilidades para o entendimento do que seja ler e escrever, na obra contista de Clarice. No cerne dos seus escritos foram encontradas possibilidades para ampliar-se as noções das práticas de leitura e escrita – temas recorrentes em sua obra.

Ao enfocar os contos escritos por Clarice Lispector que envolvessem em sua trama a presença da leitura e da escrita, narrados pela própria autora, atentamos também para as interações com os possíveis leitores, visto que estes ‘mergulham’ na vastidão e profundeza de seus contos que possuem alta carga de tensão e se deixam ‘levar’ pela história, (ficando ansiosos para que tenham sua curiosidade satisfeita e, este (leitor) diante do conto é de quem deseja às pressas desentediar-se e ao mesmo tempo enriquecer-se mentalmente).

Entendendo o conto como uma fração literária dramaticamente carregada, partimos do pressuposto que a autora consegue, de forma singular, reter a atenção do leitor, pelo seu modo de desenvolver a escrita e pela sua maneira de analisar os fatos, visto que a partir de um discurso, às vezes ficcional, a contista explora uma hora intensa e aguda da percepção do leitor. Nessa perspectiva, fazendo-nos leitores intencionais de seus contos, transformando-os em objeto de estudo, neles buscamos a intensidade que a autora pode revelar quando, escrevendo, trata do ato de ler e escrever.

Como referenciais teóricos para a análise do material, nos embasamos nas noções de representação, apropriação e práticas culturais propostas por Chartier (1990; 1996; 2001) tomando como eixo basal o processo que inter-relaciona autor-texto-leitor.

A relevância do projeto que propomos esteve em buscar, na obra de uma escritora, autora de contos, elementos para ampliação das noções de leitura e escrita, que, para nós, são temas recorrentes na obra de Clarice Lispector.

Realizado o levantamento por temas na obra contista de Clarice, esse proporcionou uma nova construção de sentidos para sua obra, convertendo-se numa experiência, indelével e prazerosa para o professor-pesquisador.

Neste ato de revelação e descoberta ocorrida através de nosso ato de pesquisar a obra contista de Clarice, houve o encontro de dois mundos: “o mundo do texto e o mundo do leitor” ao valorizarmos o complexo “mundo” da autora, dos editores e dos leitores no qual Chartier (1999) contempla “o mundo como representação”. Ao fazermos a aproximação da obra contista de Clarice e esse referencial teórico foi criado um novo conhecimento e também construído um novo e peculiar caminho (metodológico) para entendimento e análise da obra de Clarice. Para o educador Paulo Freire (2002) um dos motivos que o leva sempre a pesquisar (e para nós também) é a necessidade “de conhecer o que ainda não conheço e anunciar a novidade” (p. 32) – já que não conhecíamos a riqueza da obra contista da autora e anunciamos essa “boa-nova” nessa conclusão.

A noção de representação num viés da história cultural, consiste numa pedra angular porque possibilitou-nos articular as seguintes modalidades de relação com o mundo: em primeiro lugar, o trabalho de delimitação e classificação empreendido por nós com bse nos contos de Clarice Lispector, que produziu configurações intelectuais múltiplas (variados sentidos e possibilidades para a análise e entendimento da presença da leitura e da escrita nos interior desses contos), por meio da narrativa, uma dada realidade é construída. Seguidamente, as práticas de leitur/escrita representadas pela narrativa do conto visam “reconhecer uma identidade, exibir uma maneira própria de estar no mundo [significa simbolicamente] um estatuto e uma posição” (CHARTIER, 1990, p. 23).

Ao vivenciarmos nele o intenso momento de sua revelação (ao encontramos significativas passagens com referencias à da leitura e da escrita na obra de Clarice) E esta nossa descoberta somente foi possível porque Clarice nos proporciou pelo seu ato de escrita e da narrativa um momento de intensa força vital (SCORSI, 1995).

Moisés (apud SÁ 2000), admite que as narrativas curtas de Clarice Lispector não eram mero exercício para os romances, enquadrando-se perfeitamente nos moldes do conto. É interessante notar que, num exercício de negação da narrativa empreendida pela própria Clarice, para quem os, os gêneros literários, em determinado momento de sua trajetória deixaram de interessá-la, conforme suas próprias palavras:

“Vamos falar a verdade: [...] Isto é apenas. Não entra em gênero. Gêneros não me interessam mais” (Grifo nosso) (LISPECTOR, 1999, p. 347).

Mesmo com esse exercício de negação de seus dotes literários, é possível reconhecer em sua obra as verdadeiras qualidades do conto verdadeiro: “este sempre tem, direta ou indiretamente, um propósito definido” (BENJAMIN, 1975, p. 65), mesmo que esse o seu propósito seja de negação como o neste momento, elaborado por Clarice.

Podemos também, apontar como uma das contribuições para o entendimento da leitura e escrita, ainda com Chartier (CHARTIER apud CERTEAU 1999, p. 77) que “a leitura é sempre apropriação, invenção e produção (de novos) significados. E o leitor é pensado como um ‘caçador’ que percorre terras alheias.

Encontramos, nessa busca por referências à leitura/escrita, nos contos de Clarice Lispector, uma possibilidade para sua (re) significação, ocorrendo aquilo que Larrosa (1996, p. ) ao comentar o que ocorre “com a palavra literária é que ela tem, em si mesma seu processo de decifração”. Nossa postura enquanto pesquisadores foi a de quem segundo Larrosa (1996, p. ): “ao submergirmos de um abismo, acreditamos ter descoberto objetos maravilhosos” e, retornamos transformados. “Nossos olhos apreenderam nova insatisfação e não se acostumam mais à falta de brilho e de mistério daquilo que se nos oferece à luz do dia. E algo que em nosso peito nos diz que, na profundidade, ainda resplandece, imutável e desconhecido, o tesouro”.

Brilho este que só a narrativa cintilante de Clarice pôde proporcionar.

Referências:

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II teóricas e sobre Clarice Lispector

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