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  REPRESENTAÇÕES DE LEITORES: SIMULACROS E REGIONALISMOS

Otávio Canavarros - UFMT/ICHS

Nesta modernidade tardia na qual sobrevivemos, plena de simulacros e/ou simulações dos artefatos culturais, o tema do regionalismo ganha nova dimensão, desde que enfocado na perspectiva do processo de globalização corrente. Sim, porque o que se observa é que à homogeneização universal dos valores corresponde uma imensa fragmentação das bases locais da cultura. É como se participássemos de um processo de integração estilhaçada. A conquista da hegemonia cultural ocidental provoca reações nas bases das culturas, daí o retorno dos localismos e a revalorização geral do local, a começar pela proliferação das identidades, conforme argumenta o antropólogo Stuart Hall em A identidade cultural na pós-modernidade. As identidades representam para os povos, principalmente para os mais pobres, verdadeiras tábuas de salvação nesta quadra histórica de re-significações impositivas e sistêmicas.
As nossas dificuldades começam nesse ponto: destrinchar o regional (provincial) de sua ganga antiga que genuinamente, bem antes dos pós-modernistas e seus novos conceitos, já continha muito de simulação, por outros chamada de assimilação antropofágica, quando em escala maior. Na verdade, ensinaram-nos os clássicos, que o universal anda de braços com o local ou com o singular. As grandes personagens das narrativas, literárias ou históricas, são aquelas que viveram a trama humana na dimensão emotiva que pudesse comover ou provocar o público leitor.
Analisando um corpus de entrevistas de leitores cuiabanos, causou-nos estranheza a unanimidade pela qual os entrevistados, pessoas cultas e de espírito crítico, representaram a vida cultural da cidade que conheceram na primeira metade do século passado. Há ali mais que uma identificação saudosista, própria dos idosos. Há ali uma afirmação cultural frente à onda de novos emboabas que a situação minoritária dos mato-grossenses na atualidade tende a esconder. O cuiabano, de repente, viu-se constrangido a bradar aos forasteiros, geralmente de fortes identidades regionais, que ali havia uma cultura própria e, até, erudita. Não era um deserto de valores. Não estava ali os confins da civilização, o início da barbárie, conforme a representação predominante na Corte, na época imperial. O cuiabano nestas novas representações quer fazer ouvir suas histórias, talvez nisso, expressando toda angústia dos amazônicos frente à imigração “invasiva” sulista e nordestina, muitas vezes descuidada dos sentimentos locais. Manifestação atual disso é o artigo recente de Márcio Souza, cujo título Afinal, quem é mais moderno neste país? (Revista Estudos avançados. USP, vol. 19, nº 53, 2005) dá o tom do seu conteúdo.
Assim sendo, vamos procurar situar inicialmente a narração dessas representações, começando pela descrição da ambiência cultural vivenciada pelos entrevistados desde as suas infâncias. Nesse sentido, é sabido, e é voz corrente, entre cuiabanos mais idosos que havia bons e eruditos professores nos dois mais importantes colégios da cidade, na primeira metade do século XX. Alguns até autodidatas. Nomes como Antônio Cesário de Figueiredo Neto, João Crisóstomo, Nilo Póvoas, Philogonio de Paula Corrêa, Firmo José Rodrigues, Benedito de Figueiredo e outros (entre os quais destacavam-se salesianos) representavam o que havia de melhor no magistério cuiabano de antanho. Talvez induzido por esse ambiente escolar, o professor Lenine de Campos Póvoas abre o prefácio de um dos seus livros com estas palavras:

A Capital de Mato Grosso sempre gozou da fama de ser uma cidade culta. Tal assertiva passou a constituir, para todos que a conhecem, uma axioma indiscutível. O grande escritor Monteiro Lobato, ao visitá-la, em 1936, escreveu:
“A elite de Cuiabá é muito fina. Cuida bastante da educação. Abundam homens de linda cultura, até filosófica”.
Esse fato, quase estranho numa cidade que vivia isolada pelas distâncias do resto do Brasil e do mundo, deve ter uma explicação.

De fato, causa estranheza, porém prestemos atenção às duas falas. Monteiro Lobato fez o elogio de uma elite, de homens de linda cultura, uma elite intelectual, portanto. Talvez, ou com certeza, não devamos incluir toda a elite, as elites. Já o professor se refere à fama de Cuiabá como cidade culta. No entanto, afirmou ser a assertiva considerada como axioma. Aí começa a questão, o problema.
Cuiabá sempre foi o espaço do poder (poder político) nesse território do Oeste brasileiro, desde o período colonial. Após a independência, a cidade ficou, mais que as demais, muito dependente do Estado, dos empregos e dos recursos. Foi o locus preferido da burocracia, provincial e estadual. Locus rei sitae, o lugar da situação da coisa, diriam os advogados do século XIX.
Analisando algumas entrevistas do projeto de pesquisa, sobre Aspectos da história de leitura no século XX em Mato Grosso, do grupo Hisleimat/UFMT/ICHS/CUR ao qual pertencemos, deparamos com reverberações dessa fama nas representações dos leitores. Parece-nos que, na vontade de proclamar uma crítica ao sistema educacional atual e demonstrar a existência de uma cultura erudita local ou, simplesmente, de atividade cultural na antiga “cidade verde”, comete-se uma generalização e divulga-se uma ideologia auto-laudadória. Uma generalização porque só agora, recentemente, a escolaridade se massificou. Não precisamos lembrar a famosa crônica de Machado de Assis, de 1876, na qual afirma que as instituições existem, mas por e para 30% dos cidadãos... A opinião pública é uma metáfora sem base; há só a opinião dos 30%. O escritor não exagerava, pois, na primeira eleição geral republicana, no Rio de Janeiro, para a Constituinte de 1890, portanto com pessoas alfabetizadas, foram alistados 28.585 eleitores...9,5% da população adulta, 5,5% da população total. Tal situação é que levou o biólogo francês Louis Couty a afirmar, em 1881, que o Brasil não tem povo. Povo no sentido de participação política de massas.
E Mato Grosso, quais os percentuais da população letrada em Mato Grosso no final do Império? Segundo Elizabeth Madureira Siqueira, citando a Baronesa de Vila Maria, a conjuntura era esta:

A província de Mato Grosso, no final do período imperial, era constituída de dois segmentos profissionais majoritários: os lavradores e os comerciantes, os quais perfaziam 1490 elementos, seguidos, em ordem decrescente, pelos empregados públicos e militares , que totalizavam 375 indivíduos. No cômputo da Baronesa de Vila Maria não foram elencados os trabalhadores manuais como sapateiros, ferreiros, alfaiates, costureiras, onde é expressivo o número de analfabetos, pois, dos 87.000 habitantes, 84.650 não sabiam ler ou escrever. (grifos nossos).

Por esses dados, os alfabetizados em Mato Grosso não somavam 3% da população, ou sejam, 10% daquele índice da Corte, provavelmente subestimado, no entanto, indicativo de tendências.
Mais de meia centúria de anos após, o censo de 1950 registra 55,56% de analfabetos no estado e 50,91% na capital, índice considerado bom, pois menor do que a média nacional que era de 57,34%. Um relatório de 1949 elaborado pelo Instituto Nacional do Livro registra a presença de 56 bibliotecas no estado, sendo 18 delas localizadas em postos indígenas. Como podemos observar, o Estado como um todo estava na média nacional e a capital, como todas as capitais, com um índice melhor, ligeiramente melhor. Mas, no censo do ano 2000, Cuiabá tem o pior índice de alfabetização entre as capitais do Centro Oeste, mesmo estando na faixa percentual das demais.
Atente-se para a precariedade da infra-estrutura de leitura em Mato Grosso de meados do século passado: 56 bibliotecas públicas apenas, sendo a terça parte do SPI, em postos indígenas. Em Cuiabá dessa época, nas chamadas casas de famílias tradicionais, predominavam os pianos e cristaleiras sobre as raras bibliotecas, a denotar sinalizações de status ou demonstração de valores simbólicos. É interessante registrar que esses móveis antigos, que davam um ambiente de século XIX aos interiores das casas, cheias de pinturas e retratos, desapareceram, como por encanto, com o aumento do consumo de automóveis e eletrodomésticos (a televisão e suas redes). Essa cultura decorativa não resistiu aos assédios dos agentes de antiquários do litoral. Não sobrou quase nada desse período, tão próximo do nosso, como é o da primeira metade do século XX: com seus cordões carnavalescos ( quem se lembra do Sempre Vivinha do Antigo Terceiro, dos Marinheiros do Baú, etc.), dos presépios mágicos dos Freitas, das festas do Divino e de São Benedito, da lavagem do São João do seu Tingo, etc, etc... Nem a cidade física resistiu, com seu espaço arquitetônico. Não resistiu ao impacto do capitalismo internacional triunfante.
Aliás, é por este aspecto, pela arquitetura e urbanismo, que desejamos retomar a nossa argumentação sobre a responsabilidade cultural das elites cuiabanas. Onde estavam quando implodiram a velha matriz? Nada contra a bela basílica atual, mas, perguntamos: não seria possível, seguindo o exemplo de tantos novos templos, inclusive catedrais, como a de Aparecida ou de São Sebastião no Rio de Janeiro, construídas em novos espaços, terem preservado a antiga igreja da Sé? Houve vozes nesse sentido, inclusive no clero, apesar dos laudos técnicos. Faltou vontade, determinação, sobrou preferência pela modernização, não tanto pela modernidade. Mas não foi o primeiro, nem o último dos tombamentos físicos (demolições). Houve outros, muitos outros. Os velhos casarões, sobrados, foram quase todos por terra. Talvez o fato de abrigar instituições, tenha salvado a casa do Barão de Melgaço. Vários casarões da sua redondeza ruíram, como o fronteiro, do Dr. Pereira Leite, o da esquina oposta, do Cel. Batinga, aquele outro, vizinho do outro lado da rua, que pertenceu à D. Maria de Lourdes Oliveira, ainda nas proximidades, o do antigo Fomento Agrícola, que foi do Cel. Laurent Saliés e tantos outros. E o Palácio Alencastro, antiga sede do Governo? E a Delegacia Fiscal do Tesouro Nacional?
Fato é que, só em meados da década de 1980, na redemocratização, houve uma lei determinando o tombamento do patrimônio arquitetônico, artístico e urbanístico, do centro histórico de Cuiabá. Este cochilo denuncia uma ideologia de modernização ( de “progressismo” ) dessa elite. Talvez o velho recalque provinciano ou o estigma do sertão (lugar da onça e da barbárie) tenham emergido para imitar paisagens ou espaços “civilizados” e de configuração moderna, em voga no Centro Oeste com a construção de Brasília.
Cabe lembrar que o movimento modernista chegou, assumidamente, a Mato Grosso em l939, com algum atraso,através da revista Pindorama, iniciativa de um grupo de jovens desvinculados do parnasianismo imperante até então. Poetas como Gervásio Leite, Rubens de Mendonça, Corsíndio Monteiro da Silva, Agrícola Paes de Barros, João Antônio Neto, Lobivar de Mattos, Manoel de Barros impulsionaram a renovação das letras em Cuiabá, alguns inclusive lançaram manifesto do Movimento Graça Aranha.
A geração seguinte, a de Silva Freire, de Wlademir Dias Pino, de Ricardo Guilherme Dick e outros, realmente deu uma dimensão mais universal à produção local, regional, desde que despida de pretensões regionalistas. Expliquemos.
A partir da expansão avassaladora do capital durante o regime militar, com a transformação de Mato Grosso em área de fronteira econômica, como frente de expansão/modernização agrícolas e seus desdobramentos (SUDAM, SUDECO, abertura da Br- 163 - Cuiabá-Santarém, pavimentação da BR- 364 – Cuiabá – Porto Velho, incentivos fiscais, imigração sulina de grandes massas, movimento divisionista do Estado, incorporação produtiva do cerrado, fundação da UFMT, etc, etc.) a população de Cuiabá, cerca de 50.000 habitantes em 1950 (atualmente a Grande Cuiabá tem mais de 700.000 habitantes), sentiu-se, de repente, multiplicada e acossada pelas concorrências nas oportunidades econômicas e culturais.
O poeta Benedito Sant’Ana da Silva Freire soube expressar esse estado de coisas no seu poema Canto murmúrio para a minha cidade, quando escreveu:

Não, Cuiabá não são as crianças quem lhe sangram de agulhas envenenadas a veia jugular da vida...
.....
Não, as crianças musificam suas dores, feridas por mãos anônimas
.....
Não façam em bagaço a Capital de Cavalcanti Proença, o ensaísta-crítico!
Não, arrivista, para ressaltar outra cidade, não é honrado diminuir à que lhe dá o sustento!
.....
São os mentecaptos da cidade, de lá e daqui, os que estão traindo a Terra de Rondon, Dom Aquino Corrêa e Rubens de Mendonça.

Parece-nos ser, também, da lavra de Freire o conceito de cuiabania, expressão problemática que tem provocado controvérsias na cidade. Isto porque veio a juntar-se à ideologia da discriminação. Pachorrentos versus paus-rodados. Os migrantes vendo os locais como acomodados, sem iniciativas, enquanto estes vêem aqueles como sem-raizes e pretenciosos. O termo cuiabania que, a princípio, pretendia designar o conjunto dos descendentes dos primeiros migrantes, os de Itu e Sorocaba do século XVIII, a população que garimpou em Mato Grosso de então, formando uma cultura de características regionais, foi logo incorporado ao arsenal regionalista, isto é, excludente e discriminador.
Os sul-matogrossenses, nossos conterrâneos, vez ou outra, também participam dessa discussão. Há pouco, o professor Gilberto Luiz Alves escrevia:

Surgidas em 1970, as atuais Universidade Federal de Mato Grosso e Universidade Federal de Mato Grosso do Sul investiram no processo de capacitação de seus quadros, com mais intensidade no Estado de São Paulo, em universidades como a USP, UNICAMP, PUC, UFSCar e UNESP. Isso aprofundou os laços de influência de São Paulo sobre as idéias e experiências educacionais difundidas no Estado. Também dinamizou a incorporação das questões nacionais da educação aos debates na região. Foi o fortalecimento desses elos que fez enfraquecer certas elaborações regionalistas, como aquela denominada Cuiabania, que tem reivindicado uma identidade cultural própria para toda uma região polarizada por Cuiabá. Esse movimento, mais verbalizado do que sistematizado teoricamente, busca fazer os seus efeitos aflorarem em momentos especiais, quando o embate pode definir o destino dos cargos públicos mais importantes da região (grifos nossos).

O autor, claramente, identifica o movimento de identidade cultural própria à conjuntura regionalista, inclusive para reserva de mercado. Quer-nos parecer que a questão da identidade cultural específica, própria da região, vem a ser uma elaboração social reagente a duas pressões concomitantes e vinculadas: o entrechoque de massas dos locais com os migrantes sulinos e a “resistência” cultural frente ao fenômeno da globalização contemporâneo. Tudo leva a crer que, aos povos, principalmente para os pobres, a identidade cultural constitui o espaço ainda “preservado”, regional, não-globalizado. Será?
O antropólogo Stuart Hall argumenta que as velhas identidades que estabilizavam o mundo social estão em declínio, surgindo novas (e plurais) identidades, fragmentando o indivíduo moderno, até aqui visto como um sujeito unificado. A assim chamada “crise de identidade”.... abalando os quadros de referência. E, em conseqüência da globalização (fenômeno desigual e contraditório), há a dupla tendência da homogeneização das identidades globais e do reforço das identidades locais, concomitantemente. O fortalecimento de identidades locais pode ser visto na forte reação defensiva daqueles membros dos grupos étnicos dominantes que se sentem ameaçados pela presença de outras culturas (grifo nosso).
Temos aí, os dois elementos referidos anteriormente: a reação defensiva e os choques culturais. Faltava-nos referência aos grupos dominantes, às hierarquias e espaços do poder. Nesta colocação é que fazem sentido as observações de Maria Luiza Canavarros Palma quando discute as vinculações entre a cuiabania e a cidadania, a propósito da análise de discursos de posse dos membros da Academia Mato-Grossense de Letras. Ela argumenta nesse trabalho que há uma “acirrada campanha regionalista de exaltação a um passado, de exaltação aos homens que mereceriam... como os professores dos cursos primários e secundários...como os fundadores da Academia...”.
Esse sentimento de cuiabanidade, conhecido mais recentemente por cuiabania, prossegue a autora, tem seus vigilantes ou guardiães da cultura local, provocando estranhamentos o seu conteúdo acentuadamente regionalista. Tratar-se-ia, aparentemente, de um discurso político de pertencimento a uma identidade relacionado a estratégias grupais de integração social entre naturais da terra e os “adotados”.
O problema maior é que a cidadania que praticamos no Brasil é excludente, daí os conflitos de grupos econômicos e/ou étnicos visando alianças e inclusão. Como a concentração das grandes propriedades rurais é das maiores no Brasil, nos dois territórios do antigo Estado de Mato Grosso, podemos inferir que concentração semelhante se dê no nível das riquezas em geral e dos poderes político- administrativos.
Em suma, haveria uma perfeita simbiose entre certos processos de “naturalização” dos imigrantes e de proclamação de “pioneirismos” dos naturais, estratégias produzindo efeitos, às vezes, os mais variados, inclusive, “discursos extemporâneos e alienados”, como acentuou Palma. O pano de fundo disso tudo é a expansão capitalista da segunda metade do século XX, acompanhado ou provocando aceleradas migrações populacionais com explosão urbana. A maior parte dos municípios de Mato Grosso foi criada depois de l970, isto é, no processo da recente colonização sulina. “Hoje, apenas 40% dessa população são mato-grossenses”. Por esse motivo há todo um movimento neo-divisionista do Estado, no Norte e no Leste, com argumentações mui semelhantes às dos antigos sulistas do atual MS.
Para a consciência crítica envolvida, a questão se apresenta como de precário equilíbrio entre discursos bem-articulados e representativos de interesses diversos. Felizmente, nesse processo todo, estruturou-se também a Universidade Federal de Mato Grosso que, apesar de todas as carências pelas quais passa, constituiu-se como centro de ensino e pesquisa, trazendo para a Região um saber mais elaborado e, principalmente, uma postura crítica não-provinciana. A fundação da UFMT teve como conseqüência imediata a formação de um mercado livreiro em Cuiabá, com livrarias, editoras e público leitor, além das obras, das publicações, em decorrência das pesquisas, principalmente nos últimos tempos, com os programas de pós-graduação em várias áreas. Chama a atenção a despreocupada naturalidade da qual dão mostras os professores não-mato-grossenses, em maioria, sobre essas questões regionalistas sem se envolver nelas, mesmo pesquisando e dando prioridade aos assuntos regionais. Em nossa opinião, isso reflete maturidade acadêmica e, principalmente, respeito e compreensão de uma problemática humana e contraditória vivida por “paus-rodados e pachorrentos” numa determinada quadra da história do Brasil.
Somos daqueles que procuram manter uma perspectiva internacional das coisas, dos processos, procurando não desconsiderar as realidades regionais, matizando-as e relacionando-as aos conjuntos maiores da nação, com todas as redes de dependências recíprocas. Por exemplo, a chamada História Regional ganha melhor sentido nos contextos nacional e internacional, pois a História de Mato Grosso não deixa de ser a História do Brasil numa parte do Centro Oeste ou, de outra forma, a continuidade da História de São Paulo colonial, ou, ainda, do Extremo Oeste paulista. Poderíamos, até, chamá-la de História Ocidental das Minas Gerais, etc, etc. Mesmo sabendo que o concreto é o local, o micro, este só ganha sentido pleno quando articulado à escala macro, nacional e internacional e as significações (valores e identidades) são as razões maiores da disciplina histórica.
Nestas considerações finais, desejamos retomar a proposta inicial, qual seja, comentar algumas representações de leitores cuiabanos. Escolhemos uma como emblemática, expressa com clareza o conteúdo do imaginário coletivo daquela elite cultural à qual nos referimos. Trata-se de um fragmento da entrevista de um conceituado médico, nascido em tradicional família da cidade, que nos relata suas reminiscências de infância:

Em 1913 a ligação direta era com a Europa, nós não éramos isolados, eu ainda menino em Cuiabá, se saía às 10:00, 11:00 horas, ou depois do almoço, você ouvia o som dos pianos, todas as casas tinham pianos e as meninas tocavam piano, aqui na minha casa teve piano, entendeu, quer dizer, todo mundo falava francês, a minha (mãe) teve quarto ano primário falava francês... em termos culturais eram pessoas muito ligadas, muito preparadas, o que houve agora foi a democratização... da mediocridade através da televisão, da mídia, etc. e tal, isso sim. Não, Cuiabá foi uma cidade muito intelectualizada, você pega o início do século, as coisas que se produziam, os jornais, né, obras primas, agora ficou esse negócio de isolamento, (em) Cuiabá eu acho que não houve isolamento, houve sabedoria, eles sabiam que era uma vida gostosa, eles quiseram manter o máximo que puderam essa vida gostosa...(grifos nossos).

Como podemos notar, há um clima belle époque, uma nostalgia, a memória lastima a perda do tempo pretérito, quando “todo mundo falava francês”. Todo mundo, quer dizer, a higth society do mundo dos usineiros e bacharéis. Ecos, desse gênero, podemos escutar a qualquer hora. Basta-nos abrir e folhear Casa Grande e Senzala. Esse foi o mundo (senhorial) que o modernismo levou. Triste Cuiabá, ó quão dessemelhante...
No que tange à questão do isolamento, o depoimento foi muito feliz: no tempo dos vapores, da navegação fluvial platina, após a Guerra contra o Paraguai, a situação de Cuiabá era apenas interiorana, mas não isolada, havia intenso intercâmbio com o litoral e o exterior, vide a importação de pianos, além de vinhos e queijos, segundo outros registros. Sobre a cidade muito intelectualizada, o mesmo depoente afirma em outro trecho da entrevista que, quando ocupava a Secretária de Estado de Educação, em fins da década de 1960, “85% das professoras de Mato Grosso eram leigas, leigas assim, não tinham escola normal”. Pode-se ver, claramente, por esses dados à qual cidade ele se referia na sua rememoração. Portanto, podemos inferir, que com aquela infra-estrutura mínima e básica de antes da II Guerra Mundial, de apenas dois ou três bons colégios secundários, a formação de intelectuais na Região tinha muito de autodidatismo e esforço pessoal, inclusive pelas dificuldades de aquisição de material escolar, como era o caso de alguns manuais importados, de Portugal, Espanha e de França.
No entanto, há outros elementos da história cultural de Cuiabá que intrigam. Por exemplo, não havia na cidade, na década de 1920, cerca de meia dúzia de jornais locais? Vejamos este depoimento:

Bons jornais são, de resto, o luxo de Mato Grosso. Na Capital, existem creio que seis jornais de apresentação agradável e redação apurada . Não deixa de causar pasmo essa abundância de imprensa no Estado considerado ficção geográfica, excessivamente longe dos centros de cultura e de população escassa (grifo nosso).

Ao jornalista carioca chamou atenção a redação apurada. É importante lembrar que estamos na “era do impresso”, tudo passava pela imprensa. “Era o registro vivo do cotidiano significativo das cidades”, conforme escrevemos em outra ocasião. Salientamos, também, que nessa época era comum a leitura coletiva, pois era elevado o número de analfabetos. Enfim, estaríamos no melhor mundo do “poder do atraso”, da “sociedade barroca, dominada pelos adornos da aparência”, da qual fala José de Souza Martins no seu precioso ensaio. Coisas modernas, ultra-chiques num meio socialmente carente. Bons jornais, salões e valsas e uma população analfabeta. O luxo de sempre da história do Brasil, luxo, porque sempre a população se encontra no lixo, só por isso.
Outro entrevistado, indagado sobre os fluxos e refluxos dos movimentos culturais de Cuiabá, informou que houve um “no começo (da década) de 20, até meado de 20, aí é D. Aquino (Corrêa), José de Mesquita... o segundo, 37, 39... e o outro o de 49, 50, 51.... sempre com essa leva de gente que chegou, foi estudar não sei o que, chegou. (....) precisa sair para receber um fôlego lá e trazer o negócio para cá, né?”.
Há, portanto, um vínculo, a velha dependência cultural entre as inovações e as chegadas das gerações que iam a São Paulo e Rio de Janeiro fazer os cursos superiores. Na volta, agitavam a pasmaceira da cultura acadêmica local. Como dizia ainda outro entrevistado, mais jovem e mais crítico: “os filhos daqui saem. Como Virgílio Corrêa e outros e tal. Fazem seus cursos fora. Os que podiam, né? Voltam com as novidades. Durante algum tempo inseminam aquelas coisas e tudo mais. Mas daí a pouco você vai percebendo um acomodar-se...”.
Voltamos à questão perene das dependências culturais e outras. Para arrematar, disse o jovem intelectual cuiabano: “Então eu gosto de dizer às vezes assim... admitamos isto, a sociedade que se constituiu aqui...construiu simulacros! (...) É gente que sabe que há algo parecido com isso, num lugar onde há outro tipo de sociedade, recursos diferenciados, uma população muito mais escolarizada, e por aí vai, etc. Então me parece importante a gente reconhecer esta realidade de simulacro, sabe? De fazer de conta que é. É uma coisa meio surreal.”
Finalmente temos um conceito, uma síntese: fabricação de simulacros. Apesar de problemático, deveríamos reconhecer seu valor, principalmente as suas intenções de valor, frise-se, porém sem perder de vista os significados: alguns toscos, outros eruditos! Variados são os caminhos do poder simbólico.
Abundantes também são os indícios desses anacronismos. Não seriam eles a marca do provincianismo, tanto na prática como na representação? Sim, porque já foi apontado pela crítica o caráter reprodutivo, imitativo e desigualmente combinado do processo de modernização burguesa contemporânea. Mas, seria injusto ou incompleto dizer que a província só reproduzia simulacros, no sentido tradicional do termo, antes das acepções recentes de Jean Baudrillard? Caso isso fosse verdade, não poderíamos conceituar os movimentos culturais, de âmbito nacional, como inovadores e criativos, pois também seriam apenas reproduções simuladas, haja vista, o modernismo no Brasil, duplamente antropofágico: da cultura européia coeva e da cultura mestiçada brasileira. Hibridismo praticado com consciência e gosto pelos autores, muitos geniais, na periferia do capitalismo. Nem por isso, menos criativos ou mais dependentes. Apenas, latino-americanos expressando suas visões de mundo.
Da mesma maneira, os cuiabanos procuraram exaltar o seu Regional, mesmo que, na maior parte das vezes, em forma de simulacros à antiga, isto é, sem a intenção neo-crítica que o pastiche, ou geléia geral, assumiu nos nossos dias.
O que, parece-nos, conta de fato na nova ordem cultural mundial são os dois mega-fenômenos desta nossa modernidade tardia: a mercantilização irrestrita do nosso cotidiano, incluindo as artes e ofícios das emoções simbólicas, articulada ao exacerbado individualismo ideológico promovido, paradoxalmente, pelas corporações cada vez mais poderosas e transnacionais, cujas políticas realizam, ao mesmo tempo, as integrações e as fragmentações, ganhando com ambas, evidentemente.

NOTAS

PÓVOAS, Lenine C. – História da cultura mato-grossense. Cuiabá, 1982, p. 15.

STEEN Edla van (org.) – Melhores crónicas/Macchado de Assis. São Paulo Global, 2003, p. 63.

CARVALHO, José Murilo de – Os bestializados – O Rio de Janeiro e a República que não foi. 3 ª edição. São Paulo, Companhia das Letras, 1987, pp. 66/85.

BARONESA de Vila Maria – “A extinta província de Mato Grosso poderá por si só constituir-se Estado?“. Revista do IHGMT, Cuiabá, tomo CXLIII, ano XLVII: 147-174, 1995 apud SIQUEIRA, Elizabeth Madureira – Luzes e sombras – modernidade e educação pública em Mato Grosso (1870/1889). Cuiabá, INEP/Comped/EdUFMT, 2000, p. 63.

MELLO, Franceli Aparecida da Silva – A prática da leitura em Mato Grosso no século XX. Campinas, IEL, ensaio de estágio pós-doutoral, 2003.

IBGE – Censo demográfico 2000. Rio de Janeiro, IBGE, 2001, p. 351.

Cf. BRANDÃO, Ludmila de Lima – A Catedral e a Cidade: uma abordagem da educação como prática social. Cuiabá, EdUFMT, 1997.

PÓVOAS, Lenine C. – Op. cit., p. 101.

FREIRE, Benedito da Silva – “Canto-murmúrio para minha cidade” in: CARRACEDO, Maria Tereza Carrión (org.) – Fragmentos da alma mato-grossense. Cuiabá, Entrelinhas, 2003, pp. 40-42.

ALVES, Gilberto Luiz – Mato Grosso do Sul: o universal e o singular. Campo Grande, Editora UNIDERP, 2003, p. 40.

HALL, Stuart – A identidade cultural na pós-modernidade. 8ª edição. Rio de janeiro, DP&A, 2003, p. 07.
Idem, op. cit., pp. 80 e 85.

PALMA, Maria Luiza Canavarros – Discursos de posse de Imortais (Academia Mato-Grossesse de Letras). Cuiabá, EdUFMT, 2002, pp. 77ss.

Idem, ibidem.

Idem, p. 84.

Cf. SILVA, Marcos A da (org.) – República em migalhas (História regional e local). 1ª edição, São Paulo, Editora Marco Zero/CNPq, 1990.

HISLEIMAT (grupo de pesquisa do UFMT/ICHS/CUR). Aspectos da leitura no século XX em Mato Grosso. Rondonópolis, projeto de pesquisa, 2002.

AMARAL, Luiz – A mais linda viagem. São Paulo, Melhoramentos, 1927 apud PÓVOAS, Lenine, op. cit., p. 72.

CANAVARROS, Otávio e SILVA , Graciela Rodrigues da – “A imprensa mato-grossense antes da era do rádio” in Revista Territórios e fronteiras – Programa de Pós-Graduação em História. Cuiabá, UFMT, v.03, n. 01, jan/jun. 2002.

MARTINS, José de – O poder do atraso – Ensaios de sociologia da história lenta. São Paulo, Hucitec, 1999.
Cf. HISLEIMAT, op. cit.
Ibidem.

 
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