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  LEITURA E INCLUSÃO SOCIAL

Honorina Maria Simões Carneiro - Prof.ª Ms em Pedagogia Profissional – Leitura Crítica - Centro Federal de Educação Tecnológica do Maranhão - CEFET-MA

Analisa a importância da leitura, como processo, para a formação do cidadão da sociedade de massa e defende que a leitura é capaz de influir diretamente na ascensão social das pessoas, pelos caminhos práticos que ela abre pelo enriquecimento cultural que proporciona e pela capacidade de diferenciação que efetiva: o leitor competente nunca será mais um na multidão.

1. INTRODUÇÃO

Pensar uma sociedade mais igualitária a partir da democratização da leitura. Possibilidade? Mito? Utopia? Sempre que se debruça a olhar a estrutura desigual da sociedade brasileira, o que se vê de mais protuberante é a distância abissal entre os incluídos e os excluídos dos benefícios que uma educação pode proporcionar ao ser humano – e inclui-se no escopo da educação todos os mínimos anos que uma pessoa deveria passar nos bancos da escola.

Há na sociedade um fosso que é, ao mesmo tempo, social, econômico, cultural e educacional. De um lado, está uma massa de alijados do acesso ao emprego e à renda, do contato e da fruição dos bens culturais e da escola, relegados, como afirma Marques de Melo, ao rádio e à televisão, únicos benefícios de entretenimento e informação que lhes restam. Do lado oposto, uma minoria com acesso, em maior ou menor escala, ao reconhecimento social (ou pelo menos à cidadania), com muito ou médio poder de compra e de empregabilidade, com acesso aos bens culturais privados e com um maior nível de escolarização, conjunto que vai lhe conferir a distinção de classe média ou classe alta.

Como reduzir essa distância, como fazer encolher esse fosso? Este artigo tem a intenção de propor, de forma bastante afirmativa, que a leitura seja, justamente, utilizada como armamento nessa empreitada de construção de um igualitarismo social a partir da diminuição das desigualdades. Pois, se “um país se faz com homens e livros”, como ficou concebido por Monteiro Lobato, é de se supor que, quanto maior for o nível de contato (e, por extensão, de prática) do brasileiro com a leitura, maior será o seu enriquecimento particular e social, uma vez que em geral o conteúdo da leitura é compartilhado.

Numa sociedade competitiva e, por natureza de princípio excludente, uma das únicas formas que ainda restaram de ascensão social das camadas menos favorecidas é a busca da possibilidade (mais remota em alguns casos, menos em outros) do enriquecimento cultural. E qual melhor forma de enriquecimento cultural (e se toma aqui o termo cultura no sentido mais ampliado, de conjunto de elementos humanizadores do homem, da sua herança histórica e produtiva) do que a leitura? Afinal, é pela leitura que o homem apreende grande (na verdade, a maior) parte do seu conhecimento, do instrumental educacional, dos valores, do “conhecimento útil” para o seu desenvolvimento no mundo do trabalho, da sua forma de se comunicar e socializar-se, enfim. É pela leitura que ele adquire o domínio das armas intelectuais para a luta (quase sempre desigual) na selva de pedra do mundo (pós) moderno.

2. ONDE ESTÃO OS LEITORES?

Sempre se acreditou, empiricamente, que, no Brasil, os leitores – assim chamados os cidadãos que, além do acesso à leitura básica e cotidiana do livro didático, de algum jornal ou revista, têm a sistematicidade de ler livros (de qualquer natureza excetuando-se os didáticos) e periódicos – se concentravam nas camadas mais abastadas da sociedade. Pois a Revista Veja, numa das suas edições de 2001, trouxe a constatação para tal.

Numa reportagem de nome bastante sugestivo Os Brasileiros Gostam de Ler, a revista trouxe os dados de uma pesquisa de cunho nacional, intitulada Retrato de Leitura no Brasil, encomendada pela Câmara Brasileira do Livro juntamente com a Bracelpa, o Sindicato Nacional de Editores de Livros (SNEL) e a Abrelivros. A pesquisa foi realizada no ano de 2001 e abrangeu brasileiros a partir dos 14 anos de idade e com o mínimo de três anos de estudos completos. O objetivo era, como a denominação já deixa transparecer, realizar a imagem mais fidedigna da prática da leitura entre os brasileiros.

Dos dados colhidos e estampados na reportagem, chamou a atenção o seguinte: 65% das pessoas que se declararam leitoras efetivas estão nas classes A e C. Ou seja: ou já estão no topo da pirâmide ou em processo de evolução para uma posição melhor, literalmente mais elevada – não nos esqueçamos de que grande parte do que se chama hoje de Classe Média habita a camada C da pirâmide sócio-estrutural brasileira.

Tal constatação, validada por números e estatísticas, acaba por fomentar uma outra: a de que as classes D e E – os efetivamente pobres – não possuem a prática da leitura. Quando muito, estes lêem pragmaticamente – a leitura funcionalizada: para tomar uma condução, para confirmar a lista de compras da mercearia do bairro, para constatar o nome certo de um medicamento, para saber das informações complementares da televisão (exibidas pelo gerador de caracteres), para ler a manchete dos jornais na banca, que não vão comprar.

O que se percebe, então? Que há uma participação socioeconômica da leitura. Quem mais possui o comportamento da leitura são os quem mais têm condições financeiras para bancá-la. O professor José Marques de Melo, no artigo O Livro e a Leitura no Brasil (1995), analisando a dificuldade que a democratização da leitura enfrenta para se estabelecer, relaciona três grandes causas para que tão poucas pessoas exercitem o comportamento diário ou freqüente, de passar os olhos sobre as letras.

Em primeiro lugar, ele aponta a pobreza estrutural. Se o pai de família não tem dinheiro para comprar o pão, a carne, o macarrão, certamente que também não terá para comprar um livro ou uma revista. É preciso fazer escolhas e, infelizmente, a barriga fala mais alto que todas as necessidades espirituais juntas – não era Camões que dizia que a alegria vinha das tripas? Em segundo lugar, Melo aponta a fragilidade da indústria gráfica brasileira, dependente econômica e tecnologicamente do mercado internacional. A conseqüência dessa dependência se expressa nas parcas tiragens de material impresso no país. O resultado matemático dessa relação é que os livros e as revistas, com pequena tiragem e com preços indexados ao dólar, têm preços proibitivos. Por último, ele aponta a má distribuição da rede pública de bibliotecas como registradora da prática de leitura. O Brasil possui, segundo o autor, uma rede de bibliotecas públicas numericamente ínfima e as que existem mais se parecem com “depósitos de livros”. Como querer estimular a democratização do hábito da leitura (que, como todo hábito, pressupõe contato, formação de gosto, freqüência, diversidade, entre outros atributos) com um quadro negativo como esse?

Os leitores brasileiros, infelizmente, ainda se encontram numa pequena faixa populacional, pois a prática da leitura também pode ser identificada com a urbanidade. Os leitores estão, em geral nas grandes cidades das regiões mais industrializadas, onde também estão as livrarias e público-alvo das editoras de revistas e dos jornais de grande circulação; e onde também há, por extensão, a maior concentração das classes A, B e C.

3. LEITURA E DIFERENCIAÇÃO NA SOCIEDADE DE INFORMAÇÃO

Vive-se a era da sociedade de informação. Por sociedade de informação entenda-se um locus dominado pelas tecnologias de comunicação, novas e tradicionais – o rádio, a televisão, o cinema, a internet, o jornal, a revista, a literatura de massa. É uma sociedade em que o conhecimento difundido elevou-se exponencialmente e as redes de distribuição deste conhecimento ganharam tentáculos mais longos. Até os anos 50, o cidadão não precisava saber tanto para se acomodar socialmente – às vezes bastava pura e simplesmente a sua rede de relações; já na sociedade de informação, eleva-se mais quem sabe mais, claro que a rede de relações ainda prevalece e é muito forte, mas isso já se dá em casos menores, não é a regra, é a exceção.

E qual a principal ferramenta (talvez fosse melhor dizer arma) para a sobrevivência nesta sociedade? Assegura-se que é a leitura. E aqui é preciso conceituar a leitura na sua natureza mais ampla. Não se trata apenas de leitura como “decifrações de sinais gráficos” (Orlandi apud Lobato, 1997). Entende-se que a leitura só terá funcionalidade se conseguir transferir para o leitor todos os sentidos que um texto encerra – todo o cabedal de intenções, todas as ingerências que ocorrem sobre a produção do texto, todas as cores, todos os sons, todas as tipologias, toda a seleção lexical e as intencionalidades que as regem, enfim toda a malha de produção de sentido que um texto, qualquer texto difundido na sociedade de massa, traz imbrincada nele e que, muitas vezes, o leitor só percebe com muito esforço analítico e muito treino.

Conquistar a competência para decifrar os discursos da sociedade de informação é condição sine qua non para a diferenciação de um indivíduo nela. Neste sentido, há que se verificar que o processo de conquista dessa competência é mais amplo do que o simples ato de ler “para se defender” (Orlandi). O processo para a formação de um leitor competente deve ir desde a habilidade para saber ler um aviso de emprego no jornal ou um contrato de aluguel com todas as suas artimanhas até alcançar a capacidade de, por exemplo, entender o que está por trás (as famosas entrelinhas, os famosos implícitos ou subentendidos) de uma informação estampada nos periódicos semanais impressos, nos telejornais ou nos boletins dos jornais on-line ou dos discursos políticos em épocas eleitorais ou ainda dos anúncios publicitários e, no campo da estética, poder apreciar e compreender uma letra de música mais elaborada, uma poesia, um romance de Saramago. Quem alcançar tal estágio – ou melhor, quem atingir esta fase do processo, pois este processo não é terminativo – certamente que terá grande possibilidade de se diferenciar.

Mas de que diferenciação é esta, afinal? Diferenciação para quê? Diferenciação por quê? A diferenciação que se concebe para este leitor está baseada em vários aspectos, entre os quais destaco três.

Em primeiro lugar, há uma diferenciação cultural: quem lê entende melhor a sua cultura, a sua história, o seu ethos. É o que afirma Orlandi quando escreve: “... o leitor vai se formando no decorrer de sua existência, em suas experiências de interação com o universo natural, cultural e social em que vive” (sd, p.64). O raciocínio que se apresenta, então, é lógico: quanto mais leitura, mais contato com estes universos, portanto maior entendimento deles, maior formação.

Em segundo lugar, há que se destacar a diferenciação no terreno das atividades profissionais. Um bom (bom=competente) leitor terá como resultado deste contato com livros e demais canais de informação da sociedade de massa uma maior capacidade de se colocar no mercado de trabalho, por exemplo, ou de, estando já nele, conseguir permanecer. Um bom leitor consegue, em condições normais de complexibilidade com maior desenvoltura e segurança. Um bom leitor tem maior capacidade de sair-se bem nas provas de seleções (seja para ocupações públicas ou privadas). Um bom leitor tem maiores condições de obter sucesso em exames vestibulares. Um bom leitor terá maior capacidade para articular um discurso mais convincente numa entrevista, numa dinâmica de grupo, numa palestra ou conferência.

Em terceiro lugar, defende-se que quem lê mais (e melhor) terá mais condições de compreender os múltiplos códigos que se apresentam: sociais, culturais, lingüísticos, dentre outros. É o consumo da informação, via leitura, que permitirá ao homem o entendimento dos discursos, dos hábitos, dos valores de uma sociedade (ou de várias ou mesmo de todas, pois com a globalização as barreiras se diluíram e todos acabamos por virar cidadãos do mundo – tal como preconizava o cartaz de um grande curso de inglês).

Na nossa sociedade de massa, um paradoxo se instalou: cada vez mais as pessoas buscam a individualização! Uma individualização multifacetada: de identidade (minha tribo sou eu, canta Zeca Baleiro no seu último CD), de religião (espiritualidade talvez seja a palavra mais politicamente correta), de valores, de conhecimento e de imagem/conceito social. E a leitura, dentre os muitos benefícios que proporciona, também traz a possibilidade de servir a essa tão sonhada diferenciação/individualização do homem. Ler para ser diferente. Ler para não ser mais um na massa!

4. CONCLUSÕES

“A leitura tem sido, historicamente, um privilégio das classes dominantes; sua apropriação pelas classes populares significa a conquista de um instrumento imprescindível não só à elaboração de sua própria cultura, mas também à transformação de suas condições sociais” (Abreu, 1995, p.48).

Qual melhor forma de uma sociedade amadurecer e desenvolver-se? Talvez a resposta mais qualificada para esta pergunta seja: pela educação, pela apropriação cultural. Acredita-se que a leitura é a ferramenta de perpetuação ou de transferência dessa educação e dessa cultura para as novas gerações, a conclusão que se apresenta, num silogismo, é que a leitura é a grande responsável pela apropriação, por uma sociedade, da educação e da cultura e, por extensão, do amadurecimento/desenvolvimento dessa mesma sociedade.

Num sentido mais individual, pensa-se também que é pela leitura que o homem incorpora o instrumental necessário para a sua sobrevivência social. Um homem que não lê não vive em sociedade (o analfabeto tem uma leitura apenas visual e sonora, o que prejudica no seu crescimento profissional, na sua inserção social, na sua capacidade de compreensão, no seu estar-no-mundo); um homem que lê pouco interage menos – ou limitadamente; um homem que lê pouco tem menos capacidade de entendimento dos códigos sociais e culturais que se lhe apresentam por todos os lados – via meios de comunicação de massa, sobretudo; um homem que lê pouco tem uma reduzida potencialidade de ascender socialmente – dentro das condições normais de competitividade, reitero, pois neste país às vezes temos a impressão de que tudo pode acontecer, menos provável.

Neste sentido, quer se registrar aqui duas experiências que foram bastante ricas e significativas. No final do ano passado, foi-se a uma cerimônia de formatura de educação infantil. Eram alunos na faixa dos seis, sete anos, que acabavam de aprender a ler e a escrever e, portanto, preparavam-se para o ensino fundamental. Entre as muitas atividades que essas cerimônias têm, os alunos estavam, também naquela noite, autografando um livro de histórias, feitas por eles em sala de aula com o auxílio das professoras. Dias antes, tinha-se assistido (crê-se que foi no Globo Repórter) ao caso de um pedreiro de São Paulo que começou a juntar livros e acabou por transformar a sua casa em biblioteca comunitária freqüentada pelas crianças do bairro suburbano onde morava. Nesses dois casos, a prática de leitura trará, pensa-se, a independência para essas crianças. E concebe-se aqui esta palavra com a maior amplitude semântica e funcional que ela pode abarcar. Por exemplo: independência de poder conhecer o mundo por si mesmo; independência de travar contato com os conceitos e optar ou não por eles; independência financeira (está mais do que provado que quanto maior o nível de informação – entenda-se leitura – maior a chance de empregabilidade e de receber maior salário); independência de fruição estética (poder conhecer e escolher as tendências estéticas que lhes aprouver e deleitar-se com elas); independência para se expressar (a relação leitura-expressão é diretamente proporcional); afinal, todo mundo que sabe falar/escrever é porque, um dia (ou vários dias) soube ler.

Quem aposta suas fichas na leitura não aposta em vão. Quem perde seu tempo com a leitura ganha a possibilidade de ser um alguém melhor no mundo, como aqueles meninos e meninas que se viu na formatura autografando seus livros, cercados por pais orgulhosos. E certamente o serão aqueles meninos e meninas que se viu na matéria, manuseando livros usados, mas novos para eles, se persistirem no caminho da leitura.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ABREU, Márcia (Org.). Leitura no Brasil. São Paulo: Mercado de Letras, 1995.

CARVALHO, Sérgio Waldec de. Compreensão e produção de textos. 5 ed. Petrópolis: Vozes, 1995.

LOBATO, Carmem Helena. Concepções sobre o processo de leitura. Cambiassu – estudos em comunicação. São Luís, vol. 7, n. 1, p.166-173, jan/jun 1997.

MELO, José Marques de. O livro e a leitura no Brasil. In: SOUSA, Luiz Marques de. Porto Alegre: Artes Médicas, 1995.

OS BRASILEIROS GOSTAM DE LER. In: REVISTA VEJA, São Paulo; ano 36, n. 2, 15 de jan. 2001.

 
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