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O DISCURSO SOBRE A LEITURA E O LEITOR NA MÍDIA ESCRITA BRASILEIRA

Gilberto de Castro - Universidade Federal do Paraná (UFPR)

O trabalho tem por finalidade apresentar alguns resultados de um projeto em andamento sobre a leitura e o leitor na mídia escrita brasileira nos últimos trinta anos. Por ora, as fontes preferenciais da pesquisa são o jornal Gazeta do Povo, a revista Veja e o jornal Folha de São Paulo. Nosso objetivo principal é investigar que referenciais e conceitos sobre leitura e leitor transparecem e permanecem nesses veículos ao longo das últimas décadas. A inspiração teórica do trabalho vem de autores que têm contribuído para o debate metodológico da Análise do Discurso, como Pechêux, Foucault e Bakhtin/Voloshinov

A pedido da Folha de São Paulo (19/Julho/2004), o INEP (Instituto de Estudos e Pesquisas Educacionais – www.inep.gov.br) cruzou uma série de dados socioeconômicos dos participantes do ENEM/2003, buscando compreender a influência da posse de alguns bens materiais nos resultados gerais da prova. Desse cruzamento, chegou-se à conclusão de que a quase totalidade (97%) dos estudantes que participaram da prova possui televisão e que isso implica numa média final maior em torno de 8% em relação àqueles estudantes que vivem sem esse bem em casa. Já a possibilidade de ter TV a cabo gera uma média final superior em termos de 14,1 pontos, a posse de um computador dá uma média de 15,1 pontos de diferença pra cima nas médias e o acesso livre à internet se traduz em uma média final maior em torno de 15,8 pontos.
De maneira geral, creio que o que esses dados mostram é a crueza da determinação econômica no sucesso ou insucesso escolar de nossos estudantes, uma vez que parecem não deixar muitas dúvidas do quanto a posse material e a convivência e educação com pais bem escolarizados - outro dado interessante do relatório do ENEM-2003 -, podem se transformar em saber e conhecimento. Mas para nós, educadores de letras, a mensagem desses dados merece uma atenção em particular, qual seja: aquela que nos obriga a questionar e relativizar os nossos discursos em torno da leitura, pois a força do discurso-conceito sobre a leitura pautado em torno da palavra escrita e do livro é imensamente preponderante em nosso espaço social e, de certa forma, contrasta com os dados trazidos pelo ENEM – a manos que aceitemos a idéia de que essas médias a maior não foram em si fruto de alguma espécie de leitura! Esse contraste parece estar expresso com todas as letras na opinião do poeta Nelson Ascher, no seu artigo Os leitores futuros, publicado em 18 de abril deste ano na Folha de São Paulo. Para o escritor, “Gente que freqüente livros não apenas “mata”, digamos, a trama de um “thriller” antes, mas também arquiva na memória cenas e seqüências que os menos afeitos à leitura esquecem logo. Já o teatro, o cinema e a televisão, ao que tudo indica, não inserem mecanismos semelhantes na mente de seu público. Resulta disso que, se a leitura prepara alguém para se tornar um bom cinéfilo, o contrário não se verifica.” Muito embora o tom geral do texto de Ascher não seja aquele que defenda o senso comum de que precisamos nos livrar da cangalha da tecnologia (pelo contrário, ele até admite que hoje quem lê melhor aproveita mais o que a tecnologia contemporânea nos põe à disposição), por outro lado ele não consegue se livrar - assim como tantos outros escritores, educadores e intelectuais - daquele outro senso comum que tem dificuldade em abandonar a idéia da superioridade semiótica da palavra escrita. Cumpriria perguntar, portanto, se quem vira cinéfilo, vê muitos filmes na TV ou peças de teatro também não adquire bons atributos de leitor e também não poderia se transformar em um matador de thrillers!
Essa idéia do centralismo no livro e no escrito está entranhada na cabeça das pessoas, leitoras ou não, e inunda o nosso imaginário social sobre leitura. Pra se ter uma idéia da força desse imaginário sobre leitor e leitura centrados na palavra escrita e na figura do livro, que transforma o livro – normalmente o literário e clássico – na própria metonímia da leitura, vale lembrar aqui da campanha que a rede Globo de Televisão realizava durante os jogos do Campeonato Brasileiro de 2003. Naquele campeonato, no meio dos intervalos, sob o slogan que dizia que “ler também é um exercício” sempre aparecia um jogador falando de suas experiências de leitura fora e dentro das concentrações dos jogos. A grande maioria dos jogadores eram focalizados lendo livros de literatura, eventualmente aparecia um ou outro com um livro de auto-ajuda ou com a Bíblia. E, durante a entrevista, que sempre acontecia, nenhum deles se dizia leitor de jornal, revista, ou desses mesmos veículos via Internet; ao contrário, apenas ajudavam a desfiar e repetir os chavões sobre a importância do hábito da leitura nas suas vidas e na vida de todo mundo.
Mas talvez o exemplo hoje mais radical desse culto metonímico do livro como objeto único de leitura esteja representado pela propaganda do canal MTV em rede aberta. Há meses esse canal, antigo e reconhecido canal de divulgação musical – normalmente de grupos e bandas estrangeiras - e de variedades relacionadas à música, vem fazendo uma campanha curiosa sobre leitura. Em meio aos intervalos comerciais, de repente ouvimos tocar um ruído estranho, como uma sineta, e em seguida vemos a tela toda escurecer, riscada no centro, em sentido horizontal, em letras brancas, com a seguinte mensagem: desligue a televisão e vá ler um livro !
Creio que esse exemplo da MTV seja mesmo exemplar. Afinal, o que dizer de uma campanha sobre leitura de livros veiculada por um canal de música que absolutamente nunca se pautou por outra coisa senão a promoção quase que exclusiva da música americana? É claro que o fato de a campanha do canal estar voltado para o tema da leitura de livros tem lá seu lado interessante, porém talvez mais efetivo que a propaganda - que chega a ser chata e que provavelmente só estimula o pessoal a mudar de canal -, fosse o estímulo a programas que levassem o debate sobre os temas e problemas envolvidos com a leitura. A começar pelo questionamento do foco da leitura estar, ainda hoje, apesar de toda a tecnologia da imagem e do som, pautado exclusivamente sobre o escrito e o livro.
O que os exemplos do escritor, da Rede Globo e da MTV demonstram é a força e a orientação dos discursos sobre a leitura e o leitor focados no figura do livro. O livro é, como já dissemos acima, elevado à condição de metonímia da leitura.
Essa idéia, de tanto ser martelada, acaba por criar nas pessoas uma certa sensação de culpa e confusão em relação à leitura. Em primeiro lugar aparecem os reféns totais desse discurso, aqueles que passarão a vida toda tentando ler o mundo de trás para frente, engolindo literatura, livro após livro, como se essa atividade mecânica e quantitativa por si fosse capaz de descortinar as verdades do mundo. A angústia desses leitores vai ser, assim como o número de livros, igualmente interminável, evidentemente. Também vão existir os que até gostam de ler um livro eventualmente, mas que se condenam por não fazê-lo com freqüência, ou porque às vezes só lêem best-sellers, normalmente considerados como leitura menos importante. Mas há também aqueles que, por uma conjunção de fatores escolares e experiências familiares, se transformam em bons leitores de jornais e revistas, passando só muito raramente pelo livro. Para o discurso oficial sobre a leitura, esses não são leitores de fato e, curiosamente, não raro vamos perceber que esses mesmos leitores também alimentam um certo sentimento de culpa por não lerem o que a tradição nos legou como a boa leitura, ou seja: o livro. Por último, ainda dá para listar também aqueles que dizem que não gostam de ler porque ficaram traumatizados com alguma insólita experiência escolar. Mas, mesmo esses, deixam escapar e acabam revelando o seu complexo de leitor: também reconhecem que ler é importante, que precisavam se esforçar mais e superar o sono profundo que têm quando precisam ler um livro. Em suma, de uma forma ou de outra, todos somos constituídos pelo imaginário da leitura em torno do livro, principalmente do clássico, do hábito e da quantidade em torno dele.
Mas esse imaginário sobre a leitura não foi a escola sozinha que colocou na nossa cabeça. Na verdade, o discurso sobre a centralidade do livro como fonte única da leitura começa na família – até pais não-leitores cobram que os filhos leiam livros! Fora dela, o discurso vai se aprofundar na escola e estará também sendo reiterado constantemente nos jornais, nas revistas e na televisão. Podemos ler e ouvir nesses veículos da parte de intelectuais e educadores que o brasileiro não lê, que os jovens não lêem mais como antes, que é urgente que se recupere o hábito da leitura para nos salvar da barbárie intelectual, como se algum dia, nesse país de escolarização tão recente e ainda tão precária, afundado que está num número infindável de analfabetos funcionais, tivesse havido alguma situação ideal em que as pessoas vivessem debatendo os problemas da nação e devorando livros!
E parece que era exatamente contra isso que há mais de 20 anos protestava Paulo Freire. Em entrevista concedida a Ezequiel Theodoro da Silva, em 1982, o educador, ao falar sobre as suas experiências sobre leitura, revela que muitas vezes, segundo o seu ponto de vista, era mal compreendido quando avaliava os problemas relativos à leitura. Segundo ele, vivíamos (e vivemos) sob o domínio de uma “compreensão mágica da palavra escrita“ (BARZOTTO,1999) que tem sua expressão mais forte nas nossas atitudes em relação ao livro. Ele vai dizer, por exemplo, que “o aspecto mágico da palavra se expressa na leitura quantitativa: quanto mais livro eu compro, quanto mais livro eu olho, quando mais livro eu penso que estou lendo, tanto mais eu estou sabendo” (BARZOTTO,1999)
Apesar de ser já uma consideração relativamente distante de nós, essa fala de Paulo Freire, quando prestamos atenção na forma como a leitura é tratada de uma maneira geral na mídia, seja ela escrita ou televisa, ainda é muito procedente, já que a idéia do quantitativo relativo à leitura, aparece recorrentemente num certo modo de expressar a leitura e o leitor, que vai associar a importância da leitura e da formação do leitor à construção do hábito. Essa idéia do hábito (do quantitativo, indiretamente) parece ocupar o nosso imaginário e talvez seja a principal responsável, de uma forma indireta, por grande parte dos mitos e crenças que temos e reproduzimos sobre o tema da leitura, do livro e do leitor.
Assim, a fim de problematizar tudo isso e de poder verificar nossa hipótese em torno do livro e da leitura é que temos nos aproximado dos jornais Gazeta do Povo, Folha de São Paulo e da revista Veja, buscando confrontar aquilo que temos teorizado nos horizontes da academia nos últimos anos, a partir das inúmeras referências teóricas existentes, com o que temos dito e registrado (nós, os sujeitos falados pela leitura: os teóricos, intelectuais, educadores, leitores, publicitários, etc ) de forma efetiva na mídia escrita a respeito de nossa crença e dos reais valores que prezamos quando falamos de leitura e de leitor.
Pela natureza dos veículos pesquisados e pelas inúmeras possibilidades textuais e visuais em que é possível aparecer o tema do livro, da leitura e do leitor – entrevistas, reportagens, fotos, ilustrações, charges, tiras, crônicas, propagandas, etc – temos buscado inspiração nas reflexões teóricas sobre semiótica de Bakhtin/Voloshinov, cujos idéias sobre signo estão colocadas de forma bastante abrangente nos capítulos iniciais da obra Marxismo e Filosofia da Linguagem, demonstrando a intrínseca relação entre a diversidade de signos sociais e a sua relação com o mundo valorativo. Segundo os autores,

Cada signo ideológico é não apenas um reflexo, uma sombra da realidade, mas também um fragmento material dessa realidade. Todo fenômeno que funciona como signo ideológico tem uma encarnação material, seja como som, como massa física, como cor, como movimento do corpo ou como outra coisa qualquer. Nesse sentido, a realidade do signo é totalmente objetiva e, portanto, passível de um estudo metodologicamente unitário e objetivo. Um signo é um fenômeno do mundo exterior. O próprio signo e todos os seus efeitos (todas as ações, reações e novos signos que ele gera no meio circundante) aparecem na experiência exterior. (BAKHTIN/VOLOSHINOV, 1986, P. 33)

Outra inspiração teórica vem do pensamento de Michel Foucault, particularmente das obras A arqueologia do Saber e a Ordem do discurso, em que o autor – ainda que negue isso – deixa um legado sistemático de pensamento em torno das nossas relações com os discursos. Para não tomar muito do espaço aqui com aquilo que imagino deve já estar posto implicitamente a partir do viés em que estamos colocando as coisas, e entendendo que o conceito de enunciado de Foucault é central para a sua compreensão do que seja discurso e sua relação com as posições que podem ocupar o sujeito, balizo as minhas posições e interpretações sobre o tema que analiso em apenas algumas de suas palavras. Me refiro basicamente à sua descrição do que seriam enunciados:

(...) voltando atrás, apercebi-me de que não podia definir o enunciado como uma unidade do tipo lingüístico (superior ao fenômeno e à palavra, inferior ao texto); mas que tinha que me ocupar de uma função enunciativa, pondo em jogo unidades diversas (elas podem coincidir às vezes com frases, às vezes com proposições; mas são feitas às vezes de fragmentos de frases, séries ou quadros de signos, jogo de proposições ou formulações equivalentes); e essa função , em vez de dar um “sentido”, a essas unidades, coloca-as em relação com um campo de objetos; em vez de lhes conferir um sujeito, abre-lhes um conjunto de posições subjetivas possíveis; em vez de lhe dar limites, coloca-as em um domínio de coordenação e de coexistência; em vez de lhes determinar a identidade, aloja-as em um espaço em que são consideradas, utilizadas e repetidas. Em suma, o que se descobriu não foi o enunciado atômico – com seu efeito de sentido, sua origem, seus limites e sua individualidade – mas sim o campo de exercício de uma função enunciativa e as condições segundo as quais ela faz aparecerem unidades diversas (que podem ser, mas não necessariamente, de ordem gramatical ou lógica). (FOUCAULT, 1995, p.122)

Ou seja, o dizer teórico de Foucault nos alerta para o fato de que um enunciado possui uma textura bastante particular que o diferencia das noções tradicionais de palavra, frase/oração ou texto (embora as leve em consideração também), comumente utilizadas para nos referirmos as nossas atitudes interpretativas. A grande novidade do autor consiste em mostrar que, mais que o caráter verbal ou lógico dos enunciados, o que mais importa neles não é a sua semelhança ou a textura do material significante utilizado na sua construção, mas antes a unidade discursiva que eles acabam por compor, na medida que agregam uma ordem de verdade conceitual sobre um determinado objeto/tema, através da repetição simbólica variada que pode emanar de diferentes sujeitos em diferentes lugares do tempo e do espaço. Em suma, a noção de enunciado e de discurso de Foucault parece congregar muitos dos ares semióticos que o século XX ajudou a revelar e, nesse sentido, creio que essa noção pode ser compatível e complementar à idéia abrangente sobre signo colocada por Bakhtin/Voloshinov.
É com essa perspectiva de discurso, portanto, que tenho tentado ler as fontes visuais e escritas que tenho encontrado comumente na mídia impressa. Com a finalidade de ensaiar um pouco de minha análise, gostaria de apresentar e comentar brevemente algumas das fontes até agora selecionadas. Creio que elas devem servir para dar uma idéia do que tem me preocupado e que quero descrever e discutir.
Em primeiro lugar, trago um exemplo retirado de uma matéria publicada na Folha de São Paulo – caderno de informática – de 10/06/1992, que se intitula Tv vira sala de aula eletrônica.
Embora o texto aborde as características positivas da TV como veículo de ensino à distância, informando que nos Estados Unidos, cada vez mais os que não podem fazer cursos presenciais têm recorrido à mediação da televisão, ele se inicia com o relato de uma estatística perversa a respeito da leitura. O texto vai dizer que as crianças norte-americanas lêem menos de 11 páginas por semana e que, ao mesmo tempo, passam pelo menos três horas diárias diante da televisão.
Apesar da matéria se referir aos Estados Unidos, é curioso reparar na ilustração que acompanha e ladeia o texto, feita por um chargista brasileiro que resume o conteúdo do texto num único desenho. Pra isso, ele desenhou uma TV e, de dentro dela, está saindo, com mais de meio corpo pra fora, um homem com vestes de acadêmico e com uma sizuda silhueta facial. Ele tem um de seus braços esticados e está fazendo um movimento em direção a um menininho que, sorridente, está entre um livro e uma torrezinha com a qual está brincando. Ao lado desse, mais próximo da televisão, está outro menininho, igualmente sorridente, que empunha um livro sobre as pernas num gesto nítido de que está lendo. Mesmo que se considere que o chargista quis agregar os conteúdos referidos no texto (televisão/criança/leitura – educação à distância/televisão), é de se indagar por que a situação foi representada da forma que foi. Ou seja, o artista parece querer passar a idéia de que a TV, representada pela figura nada leve do acadêmico, é responsável pelo furto da alegria infantil das brincadeiras, bem como por distanciar as crianças do livro (existem dois livros no espaço da sala representada!), muito embora a temática fundamental da matéria seja sobre os cursos à distância. Enfim, por que esta representação figurativa e não outra? Por que são livros que estão diante dos meninos e não outros objetos de leitura escrita – jornal, gibi? Por que, por fim, aceitar tão tacitamente que a televisão não se presta a nenhuma forma de leitura e representar as coisas dessa maneira? Ao menos, me parece que é isso que faz a enviada especial da Folha ao iniciar o texto com essa questão, sem todavia problematizá-la, mesmo que de forma rápida. Creio que questões como essa – e a outras parecidas com ela – só podem ser respondidas via uma análise discursiva sobre o tema, cuja aproximação ao material empírico se dá com uma outra espécie de positividade e perspectiva de leitura, não aquela do reflexo transparente do sentido dos signos – verbais e não verbais -, mas sim daquela que almeja alcançar os estratos mais escondidos, à vezes quase apagados, que utilizamos para representar os saberes e as crenças que nos cercam e nos constituem.
No mesmo jornal, em 08/04/97 e 19/04/97, respectivamente, também encontramos outros dois bons exemplos de enunciados nessa linha fetichista do livro e da literatura. São duas tirinhas de Galhardo que reproduzem de forma exemplar os discursos sociais em torno do livro, da leitura e da literatura. Os exemplos falam por si.

Passemos agora para alguns exemplos retirados da Gazeta do Povo. Embora com objetivos jornalísticos diferentes, os dois exemplos apontam para aquele lado mecânico de se encarar a leitura livresca de que reclamava Paulo Freire. O primeiro deles é de 21/03/77, 3ª. página, e revela a que veio já no próprio título, onde vemos reproduzido diretamente o discurso da diretora da Biblioteca Pública de Curitiba: Diminui o hábito da leitura, diz diretora da Biblioteca. Dois parágrafos mais adiante é que vamos encontrar o discurso direto da diretora que serviu pra encetar a matéria. Encimado pela palavra Estado em caixa alta, o texto diz em seu terceiro parágrafo, que “Danúbia[a diretora] disse que o Estado não se descuida de promover a boa leitura. Afirma que todos os departamentos culturais se movimentam promovendo campanhas a fim de estimular a criança e o jovem, criando o hábito e incentivando o adulto a retomá-lo já que está esquecido há longo tempo”.
Alguns anos mais pra frente, no dia 22/04/84, na 12ª. página, também vamos encontrar a reprodução da mesma expressão lugar-comum sobre a leitura já estampada no título do texto, que diz que Encontro de escritores vai debater o hábito de leitura. E assim como a matéria anterior, também vamos encontrar a utilização da expressão reportada indiretamente a um escritor e professor da Universidade Federal do Paraná para quem “é na infância que a leitura deve ser estimulada para que, automaticamente, o hábito se forme e se desenvolva na adolescência e na vida adulta.” Creio que a associação da palavra hábito com a palavra automaticamente é exemplar para demonstrar grande parte do teor mecanicista que perpassa já há muito nossos debates sobre a questão da leitura.
Exemplos desse tipo também encontramos em matérias bem maiores na revista Veja. Em 14/03/73, em texto encabeçado por uma foto com inúmeros livros de capa dura, podemos ler em A leitura multiplicada, já no segundo parágrafo, os objetivos do empreendimento almejado pelo Círculo do Livro na época. O parágrafo se inicia dizendo que “Criar o hábito de maior e melhor leitura segundo ensinou a experiência de outros países, pode começar de diversas maneiras, mas a mais sensata delas parece ser a que visita o leitor em casa.” Embora a expressão maior e melhor leitura não seja desenvolvida, pela foto dos livros tudo indica que o pressuposto de qualidade de leitura só pode mesmo desaguar na leitura livresca de autores literários e/ou clássicos. Isso fica mais claro quando, ao final do texto, o diretor–gerente comercial do Círculo do livro – Raymond Cohen -, embora admita que não tem por objetivo fazer com que o cliente estoque livros, mas apenas “estimular-lhe o hábito da leitura” termina afirmando que a intenção de sua empresa é “aumentar o gosto pela literatura” nos clientes.
Em outro texto da revista, agora de 12/11/75, na reportagem O nosso pobre português, que vai decretar a falência da língua, abordando a velha ladainha de que vários segmentos da sociedade estão se descuidando da verdadeira língua portuguesa – principalmente a nossa juventude alienada –, encontramos a falta do hábito da leitura como a causa principal do males da língua. Associação, aliás, que muito intelectual e escritor escolado ainda fazem hoje, infelizmente, apesar de já algumas décadas de Lingüística em nosso país. O parágrafo onde está a pérola, põe todo mundo no imbróglio, juventude, escola, tv, literatura, e vai dizer que “A língua estaria morrendo, à míngua, condenada pelo descaso da juventude e pela omissão da escola secundária e superior. Diariamente ela é assaltada por modismos lingüísticos d’além-mar ou pela insubordinação da literatura de vanguarda. Diagnosticam-se insuficiências em seu metabolismo vocabular, além de traumatismos em sua vértebra gramatical. E lamenta-se o domínio massificante da televisão, diante da qual, em média, um brasileiro, já passa hoje duas horas diárias, esquecendo o hábito da leitura. (grifo nosso)
É evidente que quem lê leva muita coisa pra casa em termos de domínio de linguagem, mas também parece óbvio que a operação com a escrita é demanda de uma prática constante com ela que não se transfere passivamente e de forma mecânica com a simples leitura – principalmente se essa leitura se tratar apenas de leitura literária.
E, para encerrar essa exposição de exemplos, vale registrar aqui o aparecimento do mesmo chavão em um outro tipo de enunciado: agora numa singela propaganda de dicionário infantil, publicada também na Veja em 30/04/75. A propaganda tem como título em letras grandes o seguinte dizer: Meu primeiro dicionário e, logo abaixo, em letras um pouco menores, a informação de que o dicionário possui 200 desenhos e 200 palavras tiradas do mundo do seu filho. Embora não se trate de livro de literatura, a propaganda não abre mão da expressão hábito associada a ela. Logo no primeiro subtítulo, de um total de quatro no texto, que fica acima da foto de um garoto com o dicionário na mão, do lado do seu cachorro, lemos em Mesmo que ele ainda não saiba ler, no primeiro parágrafo do texto que “O hábito de ler surge na medida em que seu filho é estimulado e que recebe de você os materiais adequados”.
Depois dessa exposição de exemplos, e de tudo que já disse ao longo do texto, cumpre relembrar algumas coisas a fim de evitar mal-entendidos. Em primeiro lugar, dizer que a pesquisa visa basicamente descrever os discursos hegemônicos sobre a leitura de uma maneira geral. Nesse sentido, um dos discursos já identificados – que goza de indiscutível hegemonia - é aquele que centraliza tudo o que pode ser compreendido como de qualidade de leitura ao universo semiótico exclusivo da palavra escrita, livresca e, na maioria dos casos, naquele livresco já considerado clássico, como bem demonstraram as tiras exemplificadas acima. E, em segundo lugar, dizer que quando encontramos as pessoas repetindo acriticamente a lenga-lenga de que temos que desenvolver o hábito da leitura a qualquer preço, o que observamos é que essa expressão mecânica na forma e no uso já está esvaziada de qualquer capacidade heurística em relação ao saber e à complexidade simbólica da leitura no tempo presente. Ora, o que se quer não é questionar a validade estética e ética-valorativa da literatura, como bem gostava de afirmar o filósofo Mikhail Bakhtin em seus escritos sobre estética, mas simplesmente tentar por a nu a vagueza e a pobreza desse discurso que acabou por transformar o livro em metonímia da leitura. E, mais que isso, o quanto talvez esse mesmo discurso que tem impedido de nossa parte uma reflexão mais ampla e generosa sobre as possibilidades de leitura do rico universo simbólico hoje representado pela TV (a ainda hoje mais criticada de todas as mídias!), pelo cinema, pelo computador e pela internet. Creio que seja justíssimo que continuemos lutando pela expansão do acesso ao livro e à literatura – principalmente se nos desamarrarmos mais dos preconceitos com relação à literatura de massa. Creio, também, que seja justíssimo continuar lutando pelo barateamento do livro, pela criação de novas livrarias e bibliotecas, por metodologias alternativas que melhor saibam abordar a especificidade e riqueza do discurso literário sem banalizá-lo, etc.; mas creio, por fim, que é imperioso, hoje mais do que nunca, que destrocemos a metonímia cultural sobre o livro, que criamos por razões históricas que não cabem aqui desenvolver mas que têm, infelizmente, embotado nosso olhar e nossa reflexão para uma visada mais larga de leitura, aquela que já não suporta mais conviver com a idéia batida de que ficamos passivos diante da imagem! A idéia de que o cinema, a TV e adjacências são tudo mesmo uma grande uma porcaria!
O discurso sobre o livro e a educação da leitura parecem precisar um pouco daquilo que o escritor Júlio Cortazar, na entrevista É difícil entender Godard, disse à revista Veja, em 07/02/73, ao afirmar que “o livro precisa de uma daquelas sacudidelas que fazem sair voando as traças. Então entrará em uma nova dinâmica e em vez de cair de nossas mãos o veremos brincar como um gato com uma bola, cheio de vida e de exigência e de desafio”.

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