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A IDENTIDADE DO JORNALISTA

Jauranice Rodrigues Cavalcanti - PG – IEL/UNICAMP

Introdução

O objetivo deste texto é discutir a identidade do jornalista e como ela se constrói no interior da representação. Entendemos que essa construção, especialmente quando observada no espaço que aqui analisamos, não apenas cria uma imagem positiva sobre a comunidade jornalística, mas também age, incide sobre os sujeitos implicados por essa comunidade, no caso, leitores e jornalistas.

1. O conceito de identidade

O conceito de identidade está presente em diferentes disciplinas na área das ciências Humanas, com significados muitas vezes conflitantes. Hall (2003) faz uma genealogia do conceito mostrando como este recebeu interpretações divergentes: a essencialista, presente na época do Iluminismo, cuja concepção de sujeito estava baseada na idéia de um indivíduo totalmente centrado e unificado; a interativa, que aparece nos estudos sociológicos clássicos, em que o sujeito, ainda concebido como portador de uma essência interior, é formado/modificado num diálogo com mundos exteriores; e também a identidade pós-moderna. Essa última, objeto de estudo do autor, contesta a idéia de um sujeito único e coerente, composto de uma única identidade, e afirma o descentramento desse sujeito, a existência de muitas identidades, algumas vezes contraditórias e não-resolvidas.
Assim, segundo Hall (op. cit.), a partir de um período que ele denomina modernidade tardia (segunda metade do século XX em diante), o sujeito foi descentrado através de mudanças conceituais nas ciências humanas, possibilitadas pelas reflexões de autores como Lacan e Foucault. Como esse sujeito fragmentado é colocado em termos de suas identidades culturais é uma das perguntas a que o autor procura responder, preocupado especificamente com a questão da identidade nacional.
No caso da identidade nacional inglesa, Hall afirma que essa, assim como todas as identidades, é formada e transformada no interior da representação. Os ingleses só sabem o que significa ser inglês pelo modo como a ‘inglesidade’ foi (é) representada, a saber, como um conjunto de significados atribuídos a essa cultura.
Assumimos com o autor que as identidades são construídas, mas consideramos importante ressaltar o papel das formações imaginárias na formação de representações. Como lembra Pêcheux (1969), o que funciona nos processos discursivos são imagens de suas diferentes instâncias: dos sujeitos envolvidos e também do referente, daquilo sobre o que se fala. Essas representações imaginárias não ‘caem do céu’ mas resultam de tudo o que foi dito e ouvido, os saberes que circulam em nossa formação social. Com isso estamos dizendo que falar de identidade do sujeito jornalista não é a mesma coisa que falar da pessoa física do jornalista, o que implica lembrar que neste textos as duas instâncias não são tomadas como equivalentes.
No que diz respeito à construção da identidade do sujeito jornalista, trata-se de observar como esse é representado, os sentidos que lhe são atribuídos, com os quais se identifica, reconhece-se como sendo parte de um grupo, de uma comunidade. Para isso, selecionamos dois lugares que consideramos privilegiados na construção e circulação de sentidos para o ser jornalista: o espaço acadêmico e o da publicidade.

2. A identidade do jornalista nos estudos da comunicação

Existem estudos na área da comunicação voltados para a análise da identidade do jornalista. Talvez o mais difundido (levando em conta o número de edições) seja o de Travancas (1993). A autora, que é antropóloga e jornalista, para sua dissertação de mestrado, entrevistou e acompanhou 50 profissionais, tanto em sua jornada de trabalho como no convívio diário desses jornalistas.
Ao definir o jornalista como um “farejador” (p. 14), Travancas atribui a esse sujeito traços que no interior do discurso jornalístico são altamente positivos, ajudam a construir a imagem de um ser singular, herói que descobre e desvenda aquilo que é de interesse do leitor. Na avaliação da autora, aquele que reúne de forma inequívoca o traço de farejador é o repórter, o que faz com que escolha esse profissional para acompanhar, para investigar de perto as atividades:

Dentro dessa escolha, acompanhei repórteres, e não outro tipo de profissional dentro da categoria, como editores ou redatores, porque creio ser a atividade de repórter uma função paradigmática para a carreira. (...) O repórter vai para a rua apurar a notícia e volta à redação para escrevê-la. Para o grande público e o senso comum, é a sua imagem que define o jornalista (p.38).

Embora afirme trabalhar com um conceito de identidade que permite pensar a existência não de uma só, mas de múltiplas, a autora acaba por reduzir todas àquela que considera predominar sobre as demais, a saber, a de ser jornalista. Essa visão essencialista também emerge quando elege a figura do repórter como a paradigmática do campo, aquela que carregaria a ‘essência’ do ser jornalista.
O trabalho de Medina (2003), mesmo que não voltado explicitamente para a investigação de traços definidores do sujeito jornalista, é relevante para essa discussão. A autora, que é professora na Escola de Comunicação da Universidade de São Paulo, defende a idéia de uma nova pedagogia para o jornalismo, que rompa com as fórmulas que

pecam por esquematismo tanto no que se refere às decisões éticas quanto à inventividade estética. Aplica-se o modelo mental quem, o quê, quando, onde, como e por quê, equaciona-se a notícia por um lead sumário (abertura da matéria jornalística) e narra-se um fragmento da história por meio da pirâmide invertida. Aparentemente esta técnica (e suas variantes próximas), já impregnada na memória profissional, é um sucesso histórico a partir do século XIX. Estão aí as agências internacionais que consagram as fórmulas. No entanto, qualquer situação-limite da humanidade provoca nos jornalistas lúcidos e nos analistas uma angustiada reflexão a respeito das insuficiências da herança e da modernização técnica e tecnológica. De acordo com os parâmetros éticos universais, esta gramática jornalística não dá conta das demandas coletivas (p.36).

O trecho acima permite apreender o que a autora aponta em diversos trechos do livro, e que pode ser encontrado em outros autores (cf. Ribeiro, 1994 e Lago, 2002), a saber, o embate entre duas formas de conceber o jornalismo, uma dicotomia que acreditamos ser constitutivo desse discurso. Esse embate chega a ser situado cronologicamente: até meados do século passado o que existia era o chamado jornalismo romântico, depois, com a invasão da tecnologia e de idéias que equipararam jornalismo a negócio (em especial a reforma do periódico Folha de S. Paulo), surge o jornalismo “frio”, preocupado apenas com as notícias. Medina faz referência a essa “contaminação” e o que dela decorre, não apenas o empobrecimento dos textos, que passam a seguir rigidamente as cartilhas dos manuais, como também à dimensão ética do trabalho – o jornalista se fecha nas redações, dá as costas para “as demandas coletivas”. Aqui a relação com a leitura de Travancas. Aquele que mais teria condições de não se submeter a essa lógica industrial (considerada hegemônica) seria o repórter, jornalista que Medina caracteriza como o “elo da cadeia produtiva que menos poder detém” (p. 99).
A ação de ir ao encontro das pessoas, de buscar a notícia, trabalhá-la e não recebê-la pronta, dá a esse profissional condições de reunir os traços avaliados pela comunidade jornalística como definidores do sujeito jornalista. O apontado por Travancas, o de ser um farejador, aponta para uma concepção de jornalista sempre atento e defensor dos interesses do público, a mística do jornalismo enquanto quarto poder. Esse traço relaciona-se com o que aparece no trecho de Medina: a proximidade em relação às demandas sociais, ao povo.
Existe um outro traço que é atribuído ao repórter e que contribui para fazer dele a figura emblemática do campo, aquela que subsume a essência de ser jornalista. Refiro-me à autonomia, traço que aproxima o jornalista do artista. Assim como esse último, trabalha sozinho, (o gênio criador), não segue determinações ou regras (incluindo a dos manuais), sai à rua para escolher seus temas, encontrar seus personagens, para dar voz àqueles que precisam ser ouvidos. Os trechos abaixo revelam esse imaginário sobre o repórter:

Pode-se fazer uma reportagem de mil maneiras diferentes, dependendo da cabeça e do coração de quem escreve, desde que essa pessoa seja honesta, tenha caráter, princípios. Não, não estou falando da tal “objetividade jornalística”, da “neutralidade” do repórter, essas bobagens que inventaram para domesticar os profissionais que não se dobram aos poderosos de plantão, porque têm um compromisso maior com seu tempo e sua gente (Kotscho, 2001, p.8).

Que me desculpem Vinícius de Moraes, os editores e os redatores, mas repórter é fundamental. É certamente a única função pela qual vale a pena ser jornalista (...) Jornalismo, por isso, só vale a pena pela sensação de se poder ser testemunha ocular da história de seu tempo. E a história ocorre sempre na rua, nunca numa redação de jornal (Clovis Rossi, In: prefácio de A aventura da reportagem, 1990, p.9).

Nos sentidos atribuídos a repórter também aparece a habilidade de contar uma boa história, de escrever bem, o que também o aproximaria do artista. É importante lembrar que o gênero reportagem é definido por estudiosos da comunicação (cf. Lage, 1985) como aquele que abre espaço para autoria. Essa ‘permissão’ possibilita a produção de textos diferenciados, já que o jornalista pode dar a eles a sua marca, o seu estilo, romper com a linguagem burocrática e taquigráfica da notícia. Nas palavras de Medina:

O artista se integra ao sonho coletivo, mas procura nele alguma verossimilhança com a realidade; o autor de narrativas, cuja referência é a realidade, se defronta com os mistérios do imaginário. Tanto um, na fantasia emancipatória, quanto outro, no rigor e fidelidade realistas, criam uma narrativa autoral, única na poética e nas referências ao mundo concreto (p.133).

O trecho é muito interessante não só porque coloca artista e “autor de narrativas” (o repórter) no mesmo patamar, partilhando os mesmos traços positivos, como também por explicitar outro traço definidor do jornalista, aquele que, na interpretação de Medina, o diferencia do artista: o rigor e a fidelidade aos fatos.
Dessa forma, os textos apresentados, que circulam em especial nos cursos de graduação de jornalismo, constroem sentidos sobre o jornalista, atribuem a esse sujeito determinados traços, como o de farejador, defensor dos interesses da coletividade, habilidade com a escrita, autonomia, rigor e fidelidade aos fatos, com os quais os sujeitos se identificam, construindo, assim, suas identidades.

3. A construção de um saber sobre a imprensa

Nos textos apresentados acima vimos que determinados traços aparecem como constitutivos do sujeito jornalista e do jornalismo, dentre eles a autonomia, a isenção, a combatividade. Esses traços são recuperados para formar as representações que precisam circular na formação social para conferir/reiterar a legitimidade da instituição imprensa. É no espaço da publicidade, principalmente, que essas representações são postas “para funcionar”, isto é, ao atribuir sentidos “evidentes” à prática jornalística (e, por isso, inquestionáveis), procura-se manter e reforçar seu poder. Além disso, assumindo com Bourdieu (cf. 1997) a idéia de que em todo campo há uma luta pelo capital simbólico, podemos afirmar que, além da reiteração do poder do campo (a instituição imprensa), busca-se, por meio/no espaço da publicidade, o capital simbólico deste campo. Trava-se, assim, uma disputa entre jornais para mostrar qual deles seria o mais legítimo para receber a confiança dos leitores.
Assim pode-se dizer que toda representação é política na medida em que atende às predileções ideológicas daquele que representa (cf. Rajagopalan, 2003), no caso a comunidade jornalística. Para discutir essa questão selecionamos dois textos publicitários. O primeiro deles, veiculado no ano de 2002, é um anúncio do Jornal do Brasil. Na imagem aparece uma mão estendida sobre um exemplar do jornal e abaixo dela o texto:

A verdade, somente a verdade, nada mais que a verdade. Há 111 anos.

O texto é altamente polifônico, nele estão presentes vozes de diferentes campos: o jurídico, o da ciência, e também o religioso (o jornal no lugar da bíblia), e permite construir sentidos atribuídos a esses campos. Em torno de cada um deles construíram-se saberes, ‘verdades’, que legitimam esses campos, como a devoção, a isenção, a autonomia. Ao trazer essas vozes para perto de si, busca-se o efeito de analogia e equivalência, uma imagem que o texto procura criar da prática jornalística: esta deve ser identificada como também voltada unicamente para a busca da verdade, da essência, preocupada apenas com o relato imparcial dos fatos, com o rigor e a precisão. Em torno dela também deve cristalizar-se a idéia de neutralidade, de autonomia.
O segundo texto aparece abaixo:

Maquiagem fica excelente numa pessoa. E péssima numa notícia.

Ao contrário do que acontece com as mulheres, o efeito da maquiagem no jornalismo pode ser devastador. Porque, quando uma publicação maquia notícias, ela está automaticamente tirando do cidadão a sua maior ferramenta para desenvolver o espírito crítico. E, do país, o melhor caminho para uma democracia madura e consciente. Por isso, a Istoé aposta num jornalismo imparcial, com ética. Aposta na seriedade, na independência, sempre levando em conta diferentes pontos de vista. E, sobretudo, há mais de 26 anos, a Istoé vem apostando no país. Não por pura ideologia, muito menos ingenuidade. Mas por saber que essa é a única aposta onde milhões de pessoas saem ganhando.
Istoé independente
Nada além da notícia.

O texto permite fazer considerações sobre como a prática jornalística costuma ser representada no espaço da publicidade. Os traços assumidos como definidores da revista anunciada são basicamente aqueles que apontamos anteriormente: compromisso com o interesse público, imparcialidade, pluralidade, poder de ‘iluminar’ o leitor. Neste texto, ressalte-se, não se trata apenas de se auto-conferir tais qualidades, mas também de identificar um “outro”, em oposição ao qual o “um” se constitui.
Como lembra Rajagopalan (op. cit.), no processo de construção de identidades coletivas (como a de um grupo profissional), é comum a definição por meio da negação. No texto acima temos de um lado, o “bom” jornalismo, aquele identificado à Istoé, de outro, o “mau” jornalismo, o que maquia notícias, engana e manipula o leitor. O traço autonomia seria assim o responsável pela distinção entre os dois jornalismos, aquele que, mais que outros, representaria a essência da prática (não é por acaso que o nome da revista é Istoé independente).
Assim, pode-se dizer que ao reivindicar para si uma identidade como a que analisamos acima a imprensa faz mais do que falar de sua prática, de seus profissionais: ela ‘vigia’ e fortalece ainda mais seu poder – o de fazer crer.

Referências Bibliográficas

BOURDIEU, Pierre. Sobre a Televisão. Rio de Janeiro, Jorge Zahar editor, 1997.

DIMEINSTEIN, G. e KOTSCHO, R. A aventura da reportagem, São Paulo, Summus, 1990.

LAGE, Nilson. Estrutura da notícia. São Paulo, Ática, 1985.

LAGO, Claudia. O Romantismo morreu? Viva o Romantismo. Ethos romântico no jornalismo. Tese de doutoramento, Escola de Artes e Comunicação da USP, 2002.

KOTSCHO, Ricardo. A prática da reportagem. São Paulo, Ática, 2001.

MEDINA, Cremilda. A arte de tecer o presente. São Paulo, Summus, 2003.

PÊCHEUX, Michel (1969). Análise Automática do Discurso (AAD-69). In: Por uma análise automática do Discurso: uma introdução à obra de Michel Pêcheux. Org.: GADET, Françoise e HAK, T. Campinas, ed. da Unicamp.

RAJAGOPALAN, K. Por uma Lingüística Crítica. Linguagem, Identidade e a questão ética. São Paulo, Parábola Editorial, 2003.

RIBEIRO, Jorge Claudio. Sempre alerta. Condições e contradições do trabalho jornalístico. São Paulo, Olho dágua, 1994.

STUART Halll. A identidade cultural na pós-modernidade. Rio de Janeiro, DP&A editora, 2003.

TRAVANCAS, Isabel. O mundo dos jornalistas. São Paulo, Summus, 1992.

 
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