Voltar    
  O USO DOS PORTFÓLIOS COMO AUXÍLIO DE INTERVENÇÃO NO FRACASSO ESCOLAR

Regina Helena da Silva Cerminaro - Universidade Federal de São Carlos - UFSCar

Trabalhei na Educação Infantil de 1988 a 1995 como professora pela Prefeitura Municipal de São Carlos. Ingressei como professora efetiva na rede pública estadual em 1995 onde passei por diferentes experiências de alfabetização – trabalhei com classes regulares e dois anos consecutivos em classes de aceleração. No ano de 2000 fui designada Professora Coordenadora onde permaneço. Estou cursando o último semestre de graduação no curso de Pedagogia da UFSCar.
As primeiras informações que tive a respeito do que vem a ser um Portfólio e para que serve, foi no ano de 2002 em capacitações oferecidas pela CENP – Coordenadoria Estadual de Normas Pedagógicas – do Estado de São Paulo, sobre Classes de Aceleração e Salas Multseriadas ( classes compostas por alunos regulares e alunos repetentes do ciclo I, ou seja de 4ª série do ensino fundamental. Essas capacitações acontecem na cidade de São Paulo. São encontros bimestrais, com duração de três a quatro dias, com o objetivo de capacitar ATPS ( Atendentes Técnicos Pedagógicos ), de várias Diretorias de Ensino do Estado. Trabalham com esses profissionais para que os mesmos multipliquem os conhecimentos viáveis e próprios para o atendimento dessas turmas que enfrentam dificuldades múltiplas no processo de alfabetização.
Participei desse trabalho durante o ano de 2002 como Professora Coordenadora convidada pela Diretoria de Ensino de São Carlos. Fiquei muito interessada na proposta apresentada nos encontros acerca da avaliação através dos Portfólios. Este tipo de avaliação proporciona aos alunos e professores as reais evidências – avanços e defasagens no processo do ensino e da aprendizagem.
Portanto, Portfólio é um registro permanente de atividades do aluno – especialmente de suas produções de textos espontâneas, visando um acompanhamento individual, subjetivo. Desta forma, auxilia a avaliação contínua fornecendo aos professores um material rico de conteúdos que o ajudam na identificação de que o aluno já sabe e do que ele precisa saber. Para o aluno esta reunião de trabalhos – Portfólios – oferece a oportunidade de registrar, de forma contínua, experiências e êxitos que sejam significativos, levando-os a perceberem seus avanços e suas dificuldades, isto implica no compartilhamento de responsabilidades e no auxílio da auto-estima, porque o mesmo percebe os objetivos das atividades, colocando-o a par das metas a serem atingidas. Sendo assim, o professor tem no aluno um aliado importante no ato de ensinar e consequentemente a aprendizagem se torna significativa.
Para o professor – que é onde foco meus objetivos neste relato – a avaliação através dos Portfólios aponta caminhos. Implica uma reflexão individual para cada aluno. O remédio deixa de ser o mesmo para todos , o olhar passa a ser individual, exigindo do professor um estudo de novas práticas metodológicas para atender as diversas realidades e dificuldades encontradas no processo de alfabetização e letramento.
No campo familiar – para os pais dos alunos – os Portfólios ajudam no acompanhamento da vida escolar do filho. Nos encontros – reuniões – o professor pode apresentar um material rico que registra as dificuldades e os avanços, assim como, as intervenções necessárias que o professor já fez e o que este pretende ainda fazer.
Em suma, com este estudo, reflexões e oficinas me convenci de que a avaliação através dos Portfólios ajudaria muito o trabalho que fazemos na escola onde coordeno. Esta nova maneira de avaliar iria contemplar várias defasagens no processo de ensino e de aprendizagem.
Portanto, trago neste relato de experiência a tentativa de implantação dessa metodologia de avaliação, as formas de resistência dos professores, as alternativas encontradas e os resultados até agora obtidos.
As tentativas de implantação para essa nova metodologia de avaliação foram feitas de maneiras múltiplas: explicações generalizadas sobre objetivos e formas de registro, sensibilizações, dinâmicas, oficinas e estudo teórico.
No ano de 2003 – no planejamento do início do ano – o tema escolhido foi “Portfólio”. Durante os três dias de planejamento, estudamos textos teóricos, discutimos, refletimos, fizemos oficinas, enfim tentei fazer um trabalho onde não ficasse dúvidas a respeito. Ficando assim determinado que a partir daquele ano tentaríamos avaliar de uma nova maneira nossos alunos. Não exigi que os professores abandonassem – conforma decisão coletiva – a avaliação sistemática e sim que esta continuasse a acontecer de acordo com a necessidade do professor, para sua segurança. Mas, que junto com a sistemática que eles iniciassem outro tipo de avaliação que seria com os Portfólios, fazendo assim, um desligamento gradativo do sistema avaliatório tradicional.
Poucos resultados puderam ser avaliados durante o ano. O combinado praticamente não aconteceu. Foram apenas três professores, num total de dezoito, que se aventuraram. Os trabalhos dos alunos foram colhidos – produções de textos espontâneas – mas resumiam-se em cadernos de redações, sem objetivos registrados, comandas que desse para perceber o contexto da atividade, faltava datas, e não havia nenhum tipo de comentário sobre o que o aluno fez ou deixou de fazer e muito menos qual a intervenção sobre as dificuldades ortográficas ou estruturais da produção.
Conforme combinado, no final do ano esse material – os Portfólios – deveriam ser passados para o próximo professor do aluno. Sentindo-se cobrados, os professores, apressados com o final do ano letivo trataram de cumprir o combinado de forma apenas e unicamente burocrática – como fazem as papeladas que lhe são exigidas pela secretaria – pediram que os alunos fizessem vária produções completamente descontextualizadas, sem objetivo e as deixaram da forma como apontei no parágrafo anterior. Fizeram para cumprir uma exigência – que para mim era um tratado coletivo – e não para uma avaliação do aluno e principalmente como um instrumento precioso de auxílio. Cadernos e cadernos circularam nas trocas no início do ano seguinte e ao olharem para esse material, eram com desprezo e críticas, não só para o colega, mas também para quem inventou mais uma trabalheira burocrática com o objetivo de infernizá-los.
Mas eu não desisti! Em 2004, mesmo presenciando todo aquele desdém e ouvindo as críticas, achei que deveria continuar, reavaliar, ser imparcial e aceitar as criticas procurando caminhos. Achava que desistir era andar pra trás. Em parceria com uma nova diretora que comungava com meus ideais, mais uma vez – tanto no planejamento inicial, como no replanejamento na metade do ano – tentamos sanar as dúvidas, ouvir as críticas, fazer oficinas, sensibilizar... e foi mais um ano de frustração. Praticamente todos fizeram os Portfólios, mas mais uma vez poucos possuíam indícios de registros reais e precisos que pudessem levar a um suposto leitor ( professor ), evidências que comprovassem o desempenho do aluno - dono das produções.
Havia Portfólio de todo tipo: caderno de atividades escolarizadas , resumindo-se em exercícios de marcar X, completar palavras e/ou frases; responder questionários, cujas perguntas e respostas são óbvias, retiradas de textos, ou melhor, “pontos”; produções, redações sem contexto, tiradas do nada; cópias de cartilhas, onde em nenhum momento observa-se a escrita espontânea do aluno e tudo isso sem o registro de datas e a pobreza de registro do professor. Os professores geralmente demonstram grande dificuldade de registrar. Ficam ansiosos, não sabendo de que forma escrever o que o aluno sabe, sempre conseguem enxergar o que não sabem e é difícil também registrarem qual será a intervenção individual para aquele caso.
Neste mesmo ano, comecei a participar de uma grupo de estudo com a Prof.a. Dra. Emilia Freitas de Lima do DME da Universidade Federal de São Carlos. Estudávamos algumas obras de Maurice Tardif, sobre os saberes docentes. Com base neste referencial teórico e com a orientação desta professora, comecei a entender o porque das dificuldades e resistências do corpo docente quando a questão é mudança de metodologia.
Com as leituras e reflexões no grupo de estudo, fui adquirindo conhecimentos que me levaram ao cominho que apontava para uma luz. Este caminho exigia, acima de tudo, a tolerância, a competência em entender o porque da resistência desses profissionais. Enfim “descobri”- sei que não descobri nada, apenas entendi – que os saberes dos professores além de serem temporais: adquiridos num processo que vem desde quando estes adentram numa sala de aula enquanto discentes e continua até o final de suas carreiras, portanto, este é contínuo. São saberes plurais: são múltiplos, advém de várias fontes – família, convívio social, formação, dos pares, dos alunos etc. São personalizados: transformados de acordo com seus princípios, valores, formação social e personalidade. E por estes três fatores os “novos” saberes – conhecimentos – que lhes são apresentados, como, no caso, a avaliação através dos Portfólios, precisam de um certo tempo para serem testados, criticados e avaliados. Mas, não é só isto, é necessário que estes novos conhecimentos sejam, acima de tudo, significativos para o professor, que venham a atender suas dificuldades reais.
Em suma, tentei juntar todas essas conclusões extraídas do referencial teórico em estudo de TARDIF, mais a experiência prática que possuo no campo da alfabetização e letramento, a orientação da Prof.a. Dra. Emília Freitas de Lima e apresentei um projeto ao corpo docente da escola no início do ano de 2005.
A partir do momento em que os docentes perceberam um sentido concreto para a implantação desta nova metodologia, que este tipo de registro não ficaria apenas no burocrático e que de forma coletiva – como explico no projeto – faríamos a intervenção de forma coletiva, usando não só de conhecimentos teóricos, mas também e principalmente dos saberes práticos dos professores, onde estes seriam autores e atores no processo de intervenção, onde a proposta não seria de imposição e sim de construção de um projeto, os horizontes se abriram, uma nova energia tomou conta dos nossos encontros nos HTPCs , enfim, o interesse mudou de cara, as preocupações ultrapassaram as paredes de cada sala, tomou um sentido coletivo, estas estão sendo compartilhadas e discutidas abertamente.
Os resultados começam a aparecer, assim, como novos desafios e dificuldades. Continuamente precisamos reavaliar e replanejar as ações, exigindo novos estudos e novas reflexões das ações. Não descobrimos nenhuma fórmula mágica que dê conta do fantasma do fracasso escolar, mas acreditamos que procurar caminhos é nossa maior obrigação. Enquanto profissionais temos que ser pesquisadores, achar caminhos é possível. Mas, não apenas no teórico ou então só no prático e nem em atitudes extremamente individuais, cercando-se dos muros acadêmicos ou das paredes das salas de aula, é necessário a força do trabalho coletivo, a valorização dos saberes docentes, o conhecimento teórico dos especialistas acadêmicos, em suma, é necessário que todos se façam responsáveis e pensem nessas crianças consideradas fracassadas, abandonadas nos fundos das salas de aula, passando de ano em ano muitas vezes sem conseguir escrever o próprio nome.

ANEXO I

DESCRIÇÃO DO PROJETO

TÍTULO: INTERVENÇÃO NO FRACASSO ESCOLAR NUMA PERSPECTIVA INTERATIVA: registro, estudo, reflexão teórica/prática, ação e reflexão da ação.

PROPONENTE: E. E. Péricles Soares – Diretoria de Ensino de São Carlos

NOME PROF. RESPONSÁVEL: Professora Coordenadora Regina Helena da Silva Cerminaro

DISCIPLINA / AREA DE ESTUDO: Português – alfabetização e letramento

PÚBLICO ALVO: Professores do Ensino fundamental – ciclo I

DATA / PERÍODO DE REALIZAÇÃO: ano de 2005 ( primeira etapa )

JUSTIFICATIVA: O motivo para realização deste projeto derivou-se da necessidade de atender professores e alunos em suas necessidades reais de ensino e aprendizagem. Após muitas tentativas em melhorar a qualidade de ensino da U.E. – estudo de teorias e metodologias, capacitações, reflexões, avaliações – o corpo docente / direção / coordenação, acumularam conhecimentos, experiências e coletividade capazes de dar início a um trabalho – Projeto – com objetivo ousado e inovador para o enfrentamento do fracasso escolar.
Para o projeto contamos com o auxílio dos resultados do último SARESP ( Sistema de Avaliação do Rendimento Escolar do Estado de São Paulo ), onde nos últimos dois anos estão retornando as escolas – de maneira cada vez mais detalhada e que nos vem auxiliar no sentido de intervenções mais direcionadas e planejadas para a melhoria da qualidade de ensino.
Assim, como também, com as avaliações feitas através de Portfólios dos alunos desta U.E. – avaliar através de Portfólios significa acumular as produções dos alunos ao longo de seu percurso escolar ( no caso no decorrer do E.F. ciclo I ), produções estas, que servem como um dos recursos avaliatórios individual que proporciona ao professor e ao aluno uma observação direta e consciente de seus avanços e de suas dificuldades . Através da avaliação com o Portfólio o professor desmistifica a própria avaliação, tornando-a um instrumento de intervenção precioso para a elaboração do planejamento.
Portanto, com a preocupação de socializar e garantir o uso dos Portifólios na escola, aproveitar da melhor forma possível os resultados do SARESP, de tornar o trabalho de superação do fracasso escolar com de responsabilidade de todos, decidimos por este projeto.

OBJETIVOS:
- Através dos resultados do SARESP, do registro do aluno e do professor, do estudo de teorias e metodologias, dos saberes docentes – experiências práticas construídas ao longo da profissão docente -, de estudo de casos, das reflexões, das ações pensadas e planejadas no coletivo, do auxílio de parcerias – Oficina Pedagógica e UFSCar - da avaliação das ações e do replanejamento, procurar caminhos pensados coletivamente que possam auxiliar num melhor desempenho dos docentes no que se refere aos problemas de ensino – aprendizagem enfrentados por estes no cotidiano escolar e conseqüentemente na melhoria do desempenho dos alunos que estão chegando ao final do primeiro ciclo do ensino fundamental em condições de analfabetismo.

METAS:
- auxiliar os professores em suas necessidades reais de ensino, ou seja, procurar de maneira coletiva partilhar as dificuldades, procurando caminhos no estudo de teorias, metodologias, experiências práticas e nas parcerias com a Oficina Pedagógica da D.E. de São Carlos e na Universidade Federal de São Carlos;

- usar o horário de HTPC – horário de trabalho pedagógico coletivo – de forma eficaz, onde aconteça realmente as trocas – tão solicitadas pelos professores – de forma direcionada e produtiva, assim, como também o estudo e a reflexão necessários aos docentes que procuram a competência profissional;

- fazer dos resultados do SARESP, instrumentos para os planejamentos individuais e coletivos, na busca da melhoria da qualidade de ensino oferecida por esta U.E.;

- tornar o uso dos Portfólios significativo para professores / alunos / pais, ou seja, com o uso desse material: desmistificar a avaliação sistemática e sem sentido para os alunos; ter um tipo de avaliação que possa – através do erro – mostrar caminhos para a intervenção do professor; proporcionar aos pais um registro claro e real do andamento da vida escolar do aluno.

- elevar a auto-estima dos professores, onde que através de um projeto efetivamente coletivo, todos possam demonstrar seus valores com suas experiências práticas – saberes – como autores, produtores de conhecimentos, estudantes e pesquisadores na busca de soluções possíveis construídas, planejadas e estudadas por eles ;

- diminuir a dicotomia entre teoria e prática, fazendo com que ambos os saberes tornem-se significativos para os professores, trazendo a Universidade para o cotidiano escolar para que o professor possa fazer uso do conhecimento científico.

PROCEDIMENTO METODOLÓGICO:

A metodologia a ser usada será baseada na concepção: estudo de um caso real / reflexão / estudo teórico e metodológico / ação / reflexão da ação. Usaremos de um cronograma de HTPCs onde periodicamente um professor apresentará um caso de aluno que possui problemas para estar se alfabetizando e para cada caso estaremos seguindo esses passos:

a) Para essa apresentação o professor deverá dispor de produções de textos espontânea da criança – xerocadas em transparências – registro dos objetivos das produções, datas das mesmas, um parecer sobre o que ele acha que o aluno já sabe e o que ele acha que o aluno precisa aprender e das ações ( atividades ) que ele proporcionou ao aluno. Nesse momento os demais professores poderão estar questionando sobre o caso e as ações empregadas;

b) Os professores reunidos em grupos diversificados – no máximo 4 elementos – elaborarão sugestões de atividades baseados em suas experiências práticas e nas teorias estudadas em capacitações – utilizaremos muito o referencial teórico do Curso Letra e Vida oferecido aos professores no ano de 2004, quando uma grande parte dos docentes foi capacitada – teorias propostas pelas parcerias ( Oficina Pedagógica e UFSCar – DEME );

c) Nesse terceiro momento, todos os grupos farão suas apresentações de propostas, o grupo todo fará a reflexão e avaliação das propostas. Um elemento ficará encarregado do registro da proposta final;

d) Para essa última etapa fica reservado o momento para a confecção de materiais e explicações práticas para o desenvolvimento das atividades;

Nesse andamento de ações estaremos propondo estudos teóricos relacionados de acordo com as necessidades percebidas. Estaremos, também, intercedendo com palestras e orientações de profissionais das nossas parcerias ( ATPS – Atendentes Técnicos Pedagógicos da D.E. e professores e alunos Do Curso de Pedagogia da UFSCar – DEME ).

NOTA: Após um tempo necessário para as intervenções propostas ao caso estaremos reavaliando – avaliação da ação – para um novo planejamento quando se fizer necessário.

BIBLIOGRAFIA:

TARDIF, Maurice. Saberes Docentes e Formação Profissional. Petrópolis: Vozes, 2003. 3 ed.

VILLAS BOAS, Benigna Maria de Freitas. Portfólio, Avaliação e Trabalho Pedagógico. Campinas: Papirus, 2004.

 
Voltar