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  A LITERATURA INFANTIL COMO DOCUMENTO HISTÓRICO

Thaís Otani Cipolini - Universidade Estadual de Campinas – FE/Unicamp

“Eles tinham a força e a gente a coragem.”
Oliveiros Ferreira

Nós deixamos marcas no mundo.
Algumas profundas, outras suaves.
Às vezes marcamos conscientemente.
Às vezes marcamos sem ao menos querer. Mas, mesmo que não queiramos , essas marcas denunciam-nos e eternizam-nos no espaço e pelo tempo que existirem.
Tais marcas foram denominadas e estudadas por diversos autores de diversas áreas: antropologia, psicologia, sociologia, historiadores. Le Goff chamou-as de documento/monumento. Ginzburg, de indícios. Já Thompson, de evidências.
Em comum, os três consideram as “marcas” como vestígios, rastros, evidências, documentos que registram (e que foram registradas por) nossa estada passageira no mundo. Mas também podem significar muito mais que isso. Elas carregam consigo nossos pensamentos, culturas, sentimentos, religiões, crenças, gostos e valores. Também exprimem a “realidade” de determinada sociedade, com seus empates sócios-culturais num determinado contexto histórico.
As futuras gerações estarão encarregadas de ressignificar tais marcas, evidências, documentos para produzirem o conhecimento histórico.
O que torna legítimo o uso destas fontes para a produção de tal conhecimento? O conhecimento histórico não é produzido através de documentos oficiais? São essas fontes, oficiais?
Nas palavras de Febvre, pesquisador da história nova:

“A história faz-se com documentos escritos, sem dúvida. Quando estes existem. Mas pode-se fazer-se, deve fazer-se sem documentos escritos, quando não existem. (...) Numa palavra, com tudo o que, pertencendo ao homem, depende do homem, serve ao homem, exprime o homem, demonstra a presença, a atividade, os gostos e as maneiras de ser do homem. (Febvre apud Le Goff, 1984, p. 98)

Nesta mesma concepção de documento, complementa Thompson, “a evidência de comportamento (inclusive comportamento mental, cultural) acontecendo no tempo” (Thompson, 1987, p. 49). Deste modo, pode-se considerar como evidências contos, histórias orais, imagens iconográficas, cinematográficas, diários pessoais, jornais, parlendas....
Nesta concepção, a literatura também é uma evidência, já que, segundo Chartier a escrita é uma representação do mundo vivido e experimentado pelo autor. É uma (re)construção da “realidade” social na qual ele está inserido. Tal representação também é ressignificada pelos personagens envolvidos na produção literária, como o editor, ilustrador...
Mas não só a literatura dos “clássicos” como Machado de Assis ou Camões, mas também a literatura de cordel e a literatura infantil, sendo esta discutida aqui.
Como já dito, o objeto da pesquisa foi a literatura infantil, mais especificamente o “quarteto” de reis de Ruth Rocha. Mas antes, seria interessante que soubessem como a autora define “escrever”:

“E escrever é sempre um ato de existência. Quando se escreve conta-se o que se é.
Parece que se inventa, mas não: vive-se. Parece que se cria mas na verdade aproveita-se.
A história como que está pronta dentro da gente.
(...) Ela existe antes que o escritor suspeite.
A história é mais real do que qualquer explicação.
A realidade do que sou está mais no que escrevo do que nas racionalizações que eu possa fazer” (Rocha, s.d.)

A autora, assim como Chartier, considera a escrita como sua forma de representar e expressar-se o mundo.
Mas qual mundo representa Ruth Rocha?

Ela nasceu em 1931, na cidade de São Paulo e gostava de ler livros de Monteiro Lobato – seu preferido era Reinações de Narizinho.
Fez sua graduação (1949-1952) na Escola de Sociologia e Política, também em São Paulo, formando-se socióloga com grande influência de Karl Marx.
Foi orientadora educacional por 15 anos no Colégio Rio Branco.
Escreveu artigos sobre educação em revistas, participou da criação da revista Recreio, onde publicou suas primeiras histórias. Também foi editora, redatora e diretora da Divisão de Infanto-Juvenis da Editora Abril.
Quando tinha a idade de 45 anos, a socióloga tornou-se também escritora de livros infantis. Seu primeiro livro foi “Palavras, muitas palavras”.
Depois deste, vieram outros: “Marcelo, marmelo, martelo” – com mais de 1 milhões de cópias vendidas, “Uma história de rabos presos” e “Azul e lindo - planeta Terra nossa casa”.
Mas os livros – que formam o “quarteto” de reis - analisados, foram: “O reizinho mandão” (1978), “O rei que não sabia de nada” (1980), “O que os olhos não vêem” (1981), “Sapo vira rei vira sapo – ou a volta do reizininho mandão”(1983).
Com jeito de “Era uma vez”, ops, esqueci-me da “linguagem acadêmica” – Recomeçando:
A autora, apropriando-se e ressignificando a estrutura narrativa dos contos de fadas, conduz-nos (segurando-nos deliciosa e delicadamente pelas mãos e asas da imaginação) a reinos e feudos. Apresenta-nos a reis e princesas, a ministros e povo, a velhos e crianças. De forma despretensiosa e metafórica, Ruth Rocha narra a vida das pessoas naquelas terras longínquas. Nem os reis e reizinhos escapam! Como veremos adiante.
Mas, se a escrita é uma representação do vivido, do experimentado pelo autor, do que está falando Ruth Rocha?
Voltando às datas do livros: 1978, 1980, 1981, 1983. Nesta época, vivia-se no Brasil a ditadura militar e sua censura, que impedia as denúncias aos mandos e desmandos dos governantes brasileiros e à violência para a manutenção do sistema.
Neste “reino” de terror e silêncio, houve também a resistência de quem acreditava em outro modo de governar, em outro modo de ser brasileiro.
A resistência e a denúncia aconteciam de várias formas: através dos jornais – que sofriam duras censuras , das apresentações teatrais, das músicas compostas e dos livros produzidos. Ruth Rocha, também descontente com a situação nacional, resiste narrando para as crianças. Em tais narrativas a linguagem é clara e atrativa, com rimas, provérbios e frases feitas, proporcionando ao leitor um contato diferente com a tradição oral e belas imagens iconográficas. Com esta linguagem simbólica, Ruth Rocha representa sua “realidade” através de roteiros fictícios. Contraditório? Não: as histórias narradas não aconteceram realmente, mas é o lugar onde se entrecruzam a criação da autora com sua vivência, o que torna difícil a distinção entre o que é ficção e o que é a “realidade”.
Para Gramsci, a linguagem (em seu sentido mais amplo) é fonte de contradição social, pois é a principal forma de atuação sobre a consciência, já que é o meio de formação de conceitos e de cultura. Deste modo, o governo militar utilizou-se de diversas linguagens para legitimar-se diante da população civil. Segundo Thompson, os dominados apropriam-se da cultura dominante, ressignificam-na e empregam-na na luta de classes. Assim, a autora utiliza-se desta linguagem para resistir ao governo e faz dela seu campo de resistência, transgressão e contestação, mostrando aos seus leitores a dura “realidade” de um povo e as relações de poder existentes em uma sociedade (que, não se esqueçam, é bem longe daqui).
Para esta produção de conhecimento a base teórica utilizada foi a lógica histórica de Thompson. Esta lógica é adequada à pesquisa por apresentar flexibilidade, não necessitando de uma “verificação experimental”, que não é possível quando o assunto é história, pois esta não é estática, fixa ou fundamentada em repetições de eventos. Além disso, o objeto do conhecimento histórico é a “história real”, cujas evidências são incompletas e imperfeitas.
Para Thompson, o conhecimento histórico não é referente somente ao econômico, mas deve voltar-se também para as dimensões sócio-culturais, as quais passam integrar a produção do conhecimento histórico. Neste caso, a teoria historiográfica é concebida como uma ferramenta exploratória do “real”.
Segundo este autor, para se produzir conhecimento histórico é necessário um diálogo entre o pesquisador e a evidência. Neste diálogo o pesquisador interroga os objetos com um olhar crítico e algumas hipóteses, que poderão ser refutadas, reformulas, aceitas diante das especificidades das evidências. Assim, não é possível que o historiados estabeleça uma “verdade” histórica sem realizar este diálogo. Mas cada pesquisador interroga e interpreta a evidência de seu modo, com novas e diversas perguntas, novos e diversos olhares, sempre respeitando os limites dela.
Realizando o diálogo com o quarteto, pode-se perceber a autora denunciando a ditadura.
E as histórias começam:

“Eu vou contar pra vocês um história
que o meu avô sempre me contava

Ele dizia que essa história aconteceu
há muitos e muitos anos,
num lugar muito longe daqui” (Rocha, 1997, p. 6)

“Era uma vez um lugar
muito longe daqui...
Neste lugar tinha um rei,
muito diferente dos reis
que andam por aqui
(...)
Tudo muito diferente daqui. ” (Rocha, 1980, p. 11)


Analisando estes fragmentos, podemos perceber as metáforas utilizadas pela autora com o intuito de evitar a repressão, existindo até um exagero em dizer que isso foi há muito tempo atrás, em um país muito distante e que existia um rei, para deixar MUITO claro que não é do Brasil que se fala. Além das metáforas, há também fragmentos da oralidade, como uma forma de valorização da cultura popular brasileira.
Depois de esclarecido o local onde as histórias (NÃO) acontecem, a autora conta um pouco sobre a vida nos reinos. Parece que eram reinos pacíficos, tranqüilos, com bons reis:

“Como esse rei
Era rei de história,
Era um rei muito bonzinho,
Muito justo...
E tudo o que ele fazia
Era pro bem do povo.

Vai que esse rei morreu,
porque era muito velhinho,
e o príncipe, filho do rei,
virou rei daquele lugar” (Rocha, 1997, p.7)

“Havia uma vez um rei
num reino muito distante;
(...) Reinar pra ele era fácil,
Ele gostava bastante.

Mas um dia, coisa estranha!
Como foi que aconteceu?
Com tristeza do seu povo
Nosso rei adoeceu” (Rocha, 1981, s.p)

Os reinos são aparentemente pacíficos sofrem terríveis tragédias: um rei adoeceu, outro rei morreu. Já no “Sapo vira rei vira sapo – ou a volta do reizinho mandão”, a ruptura também é representada com a morte do rei. Mas, ao contrário do primeiro rei morto, descrito como bonzinho e justo, o último não era tanto:

“O povo, em vez de chorar pelo rei que morreu,
Tratou logo de fazer muitas festas, na esperança
De que o novo rei que entrava fosse melhorzinho
Que o velho que tinha morrido” (Rocha, 1983, s.p)

Essa euforia e esperança foram sentimentos presentes em parte da população das camadas médias e urbanas brasileiras no início do governo militar. Tais sentimentos devem-se à promessa de restabelecimento da ordem econômica e política , devido à “ameaça comunista” que rondava o país.
Essas rupturas foram as formas encontradas pela autora de representar o golpe militar sem ser censurada. A metáfora dos novos reis pode ser a representação da própria ditadura, que perdurou no país por ininterruptos 21 anos enquanto, no Brasil, os presidentes ficavam alguns anos no cargo.
Após essas tragédias, a vida se torna triste, perigosa, silenciosa naqueles reinos bem distantes daqui...
E mesmo a população que tinha alguma esperança, aos poucos também foram percebendo os defeitos de seus reis. Em “Sapo vira rei...” depois das festividades para o novo rei ,

“(...) todo mundo foi percebendo que reizinho chato, implicante e mandão que ele era, como só sapo que vira rei...” (Idem)

O novo rei conseguia ser pior que anterior, criando leis absurdas e não gostando de ouvir as “verdades” ditas pelas pessoas.
Enquanto este reizinho ouvia as verdades, não gostava e mandava prendê-las, em “O que os olhos não vêem”, temos a descrição da doença do rei:

“(...) pessoas grandes e fortes
o rei enxergava bem.
Mas se fossem pequeninas,
e se falassem baixinho,
o rei não via ninguém” (Rocha, 1981, s.p.)

Antes o rei ouvia, via todos – grandes e pequenos, o que nos remete a um governos mais democrático, ao de João Goulart, hipótese justificada mais adiante na própria história:

“todas aquelas pessoas,
com quem ele convivia,
que ela tão bem enxergava,
cuja voz tão bem ouvia,
como num encantamento,
ele agora não tomava
o menos conhecimento” (Rocha, 1981, s.p.)

Depois só conseguia perceber os grandalhões, ou seja, ministros, militares, políticos e a elite, demonstrando um regime alheio às necessidades dos súditos. As manifestações dos menores nunca, nunca eram ouvidas ou percebidas. Foi assim na história. Foi assim no Brasil, através de diversas formas de controle, como a censura, que veremos mais adiante.
Mas a população não aceitou calada tais transformações. Em “O que os olhos...”:

E o povo foi percebendo
que estava sendo esquecido (...)
Eles então se juntaram,
Discutiram pelejaram; (Idem)

Como as pessoas das histórias em questão, havia grupos sociais no Brasil que também estavam descontentes e insatisfeitos com a situação. Pelas citações acima, podemos perceber que o povo estava mobilizando-se para transformar a situação. Nas iconografias deste livro percebemos que a idéia inicial foi de um estudante e que houve a união de várias esferas sociais para colocá-la em prática. Neste espaço, autora e ilustrador dão vozes ao “povo”, destacando entre eles os intelectuais, as donas de casa, os padeiros, pedreiros, marceneiros entre tantos outros.
Este ideal democrático encontra-se presente em “Sapo vira rei...”, quando todos os cidadãos, presos no sótão do castelo e unidos pela tristeza, cantam suas canções. E como nos conta a história, delas pupulavam as verdades que começam a se espalhar e, ocupando todos os cantos e recantos, fazem com que não houvesse mais lugar nem para as pessoas e nem para as verdades, que iam, cada vez mais, aumentando. Assim,

“o palácio foi rachando,
desde o teto até o chão,
despejando todo mundo
que caiu de trombalhão.” (Rocha, 1983, s.p)

Com a união de todas as vozes, o “povo” consegue escapar da prisão e destituir o rei do poder.
Em “O rei que não sabia...”, o avô de Cecília anuncia:

“Mas sabe? (...) a gente já estava juntando um grupo pra ir falar com o rei.
Nós íamos lá pra dizer pra ele o que está acontecendo” (Rocha, 1980, p. 39)

Nesta citação a autora dá voz ao sujeito idoso, tantas vezes calada em nossa sociedade, assim como a criança e a mulher, personagens deixados, geralmente no segundo plano. Deste modo, no momento da arrumação do reino, cada um se responsabilizou de alguma forma para poder contribuir: o avô desliga a máquina, o pai despede os ministros, a mãe fecha o castelo (símbolo da monarquia) e a irmã de Cecília resolve chamar todo mundo para dar uma idéia, pois “uma porção de cabeças trabalham melhor que uma só” (Rocha, 1980, p. 43). Com o trabalho e união de todos, o reino foi melhorando.
Em todas as histórias analisadas, quem solucionava os problemas do povo não foi nenhum herói ou super-herói. Foi o próprio “povo”, unido pelo bem (que se espera ser) comum e consciente de seu papel enquanto grupo social ativo que constrói a possibilidade de mudanças e, este mesmo “povo”, é quem pode transformar a possibilidade em “realidade”, através da ressignificação das formas de dominação e utilizando-na para resistir aos dominados – assim como fez e faz Ruth Rocha.
Desta forma, a autora acreditava que também no Brasil quem conseguiria “derrotar” o governo militar não seriam os próprios militares, mas o “povo”, através de lutas, de idéias e de manifestações. Mas a autora não denuncia somente a ditadura, seus métodos de legitimação e controle também são apontados, dentre eles a censura. Em “O rei que não sabia... ” a autora nos fala sobre o controle que o Estado passou a ter na vida dos cidadãos, sem que estes percebessem, assim como o rei da narrativa abaixo:

“A máquina fazia de tudo (...)
Controlava as aulas nas escolas,
As estações de TV.
Os filmes dos cinemas” (Rocha, 1980, 11)

Neste trecho percebemos o controle exercido pela máquina na história e podemos relacioná-lo com o controle exercido pelo controle da “máquina” estatal brasileira, com proibições de publicações, apresentações teatrais e censura. Já em “Sapo vira rei” e em “O reizinho mandão”, o controle vem diretamente dos reizinhos (aliás, termo bem pejorativo, assim como a representação iconográfica, que se aproxima muito da representação de bobo da corte. ) com suas leis absurdas e seus “CALA A BOCA”.

“No fim do mês todo mundo
tem de dar a o rei metade do
que ganha, que é pro rei
comprar confetes pro carnaval ” (Rocha,1983, s.p.)

“Era só um conselheiro qualquer abrir a boca
para dar um conselho, e ele ficava vermelhinho de raiva,
batia o pé no chão e gritava de maus modos:
- cala a boca! Eu é que sou o rei. Eu é que mando!” (Rocha, 1997, 12)

A arte imita a vida ou a vida imita a arte? Seja como for, o fato é que nessas duas histórias quem ousasse dizer alguma verdade era preso – naquele reino distante no sótão do castelo - mas como o Brasil não era aquele reino, as pessoas foram presas em delegacias, torturadas, mortas e exiladas (viu como o reino não se refere ao Brasil?).
Voltando à censura, segundo Berg, ela possui a função de ser um dos elementos de sustentação da ideologia do regime, buscando o apoio e a legitimidade da/na sociedade civil. Mas para que isso fosse possível, ocorria concomitantemente a propaganda, enaltecendo os valores nacionais, voltada para a criação da nação brasileira. Nos trechos citados, assim como na “realidade” brasileira, o governo ditatorial, não conseguia calar todos. Segundo um guarda real: “É que as pessoas continuam a dizer as verdades, Majestade” (Rocha, 1983, s.p). O mesmo ocorria no Brasil. Compositores, jornalistas, artistas, estudantes, políticos, advogados, professores – só para citar alguns – denunciaram, falaram e gritaram enquanto a ordem reinante era a do silêncio.
Será que acabaria, um dia, este silenciamento?
Como ele acabaria?
Em “O reizinho mandão”, o próprio rei, cansado do silêncio instituído por ele mesmo, resolveu procurar um velho sábio para resolver seu problema. O sábio “passou um pito” no reizinho, que lhe explicou o que fazer: bater de porta em porta até encontrar uma criança que ainda soubesse falar.
E foi o que o reizinho mandão fez. Ao encontrar a criança, depois de muito insistir para que ela falasse acabou perdendo a paciência. O papagaio do reiznho grita, então “cala a boca! Cala a boca! Cala a boca!” (Rocha, 1997, p. 33). Ouvindo o cala a boca, a menina retruca:

“Cala a boca já morreu!
Quem manda na minha boca sou eu!” (Idem, p.34)

Depois disto foi um turbilhão de sons, mas o barulho foi deixando o reizinho apavorado, que saiu em disparada.
O avô – perpetuador da história através da oralidade – não conhecia o final da história. (afinal, como poderia saber algo que ainda não foi vivido?).
Para a autora, que nos dá esperança de um futuro melhor, o reino do silenciamento poderia ter diversos finais, diversas hipóteses, mas sempre com a população tendo consciência de seu papel ativo na sociedade: nos outros livros, um rei abdica o poder em prol do governo popular; o rei doente foge e o sapo/príncipe/reizinho volta a ser sapo depois da queda do castelo e está a espera de alguma menina que queria lhe dar um beijo. E pode-se pensar que era assim mesmo que a autora esperava que acontecesse no Brasil: uma mudança na forma de governo, onde o povo seja escutado, ouvido e atendido (o que não necessariamente implica em uma transformação no sistema capitalista, responsável pela hierarquização e exploração dos dominados)

Nós deixamos marcas no mundo.
Algumas profundas, outras suaves.
Às vezes marcamos conscientemente.
Às vezes marcamos sem ao menos querer. Mas, mesmo que não queiramos, essas marcas denunciam-nos e eternizam-nos no espaço e pelo tempo que existirem.
Mas do mesmo modo que deixamos nossas marcas, o mundo nos marca também, a ferro, fogo, sentimentos e conflitos, afinal vivemos em sociedade.
E se elas eternizam-nos e denunciam-nos para a prosperidade. Se elas são as lembranças de nós para o mundo, elas também fazem-nos lembrar do que vivemos, sofremos, sentimos. O que nós gostamos ou não. O que foi bom ou o que foi ruim. O que poderia ter sido, mas que não foi.
Elas também lembram-nos o que esquecemos (e que, por vezes, é isso mesmo que queremos).
Mas, Ruth Rocha, sabendo dos riscos e perigos dos esquecimentos, deixa sua marca na história e nas histórias.
Nas últimas através de instrumentos que lembram a população do ocorrido.
Em “O que os olhos não vêem”, depois de conseguir chegar ao palácio real com suas pernas de pau e de expulsarem o rei e “toda a corte reinante”, a população e

“todos naquele reino
guardam muito bem guardadas
as suas pernas de pau.
Pois temem que seu governo
possa cegar de repente.
E eles sabem muito bem
Que quando os olhos não vêem
Nosso coração não sente” (Rocha, 1981, s.p.)

Deste modo, a população protege a memória em cada perna de pau, relacionando o vivido com o presente, para que ninguém esquecesse o sofrido durante a doença do rei, durante o período militar e perpetuam esta história.
Já em “O rei que não sabia...”, a forma de não esquecer está no uso que deram para a máquina e o castelo real:
“Transformar o castelo
num enorme parque de diversões,
com a máquina tomando conta de tudo,
que é pra isso que a máquina servia (...)
E até hoje o povo de lá lembra desta história
e trabalha contente (...)” (Rocha, 1980, p.45)

Ruth Rocha deixa sua marca na história brasileira como alguém que falou quando era mandado calar; escreveu quando a ordem era apagar; e que gritou com o silêncio da escrita, porque era preciso.

E até hoje as histórias dos reinos muuuuitoooo distantes daqui e que aconteceram há váááários anos atrás com reis bem diferentes dos reis que andam por aqui lembram-nos de um país chamado Brasil em um tempo não muito atrás, com um governo não muito diferente das narrativas analisadas...

Ruth Rocha deixa suas marcas para no/para o mundo através da narrativa de histórias.
Walter Ono deixa suas marcas através de seus desenhos, suas ilustrações. Como faz também José Carlos de Brito.
E eu, encontrei uma forma de marcar o mundo: sendo professora.
Em nosso contato diário com as pessoas, deixamos nelas impressões sobre nós. E a educação possibilita um contato com várias pessoas, de e com diferentes culturas.
A proposta pedagógica que tenho em mente baseia-se na lógica histórica de Thompson para a produção de conhecimento histórico. Isto é, produzir este conhecimento na relação pesquisador (no caso os alunos) e a evidência (as obras de Ruth Rocha), estimulando-os a perceberem que a relação entre o conhecimento histórico e seu documento não ocorre de forma determinado, um em função dou outro, mas na forma de um diálogo..
Desta forma, o objetivo é trabalhar com os alunos a percepção de que a história não é algo pronto e acabado, mas sim algo em constante transformações, sendo que estas só são possíveis com a participação das pessoas, percebendo-se, assim, como atores atuantes na história e atuantes na produção de conhecimentos históricos.
Também é preciso que percebam que não há uma única verdade, a mentira ou o certo e o errado, mas diversos pontos de vista sobre algum acontecimento, mas que estão relacionados ao objeto pesquisado e às vivências e valores do pesquisador.
Para se trabalhar nesta perspectiva, o papel do professor é fundamental, pois ele será o mediador entre as crianças e os conhecimentos históricos, estimulando-as, questionando-as e criando problemáticas para a discussão, dando condições para que os alunos participem da construção deste conhecimento.
Como pesquisei a obra de Ruth Rocha, para esta proposta (ainda não aplicada) sugeri o quarteto de reis.
É importante que nesse primeiro momento, os alunos tenham um contato inicial livres com as obras: deixá-los ler calmamente, à vontade. Em seguida conversar com eles sobre suas impressões que tiveram dos livros, se sabem quem é a autora, o que sabem dela, se conhecem outras obras escritas por ela.
Em seguida, separaria a sala em grupos – sendo que cada grupo leria um livro específico - e proporia a leitura do livro para a classe feita pelo grupo.
Em uma outra aula, proporia uma terceira leitura, mas agora mais direcionada, com questionamentos para serem pensados e conflitados.
- qual o problema da história?
- como resolver um problema assim?
- qual(is) o(s) personagem(ns) da história? Todos têm o mesmo “poder” e reconhecimento? O que sentem e por quê?
- como ele(s) agia(m) com as pessoas?
- por que vocês acham que ele(s) agia(m) assim?
- há uma mensagem na história? Qual?
- vocês conhecem alguém que age como ele?
Também proporia um roteiro para ser discutidos com os pais:
- em que ano foram escritas as histórias?
- o que estava acontecendo no Brasil nesta época?
- e também questões específicas à cada livro.
Acredito que surgirão diversas respostas, sendo muitas conflituosas o que será ótimo para enriquecer o trabalho. Depois disto, cada grupo exporá para a classe as conclusões que chegaram, observando o que há de diferença e semelhança entre as obras.
Depois das apresentações e em outro momento, abrir a discussão para as metáforas presentes nos textos, procurando seus significados, a justificativa para seu uso e outra forma de dizer-se o que foi escrito.
Também há a possibilidade de discutir com eles o que é expressão da “realidade” sob a ótica da autora e o que é ficção, focalizar a noção de documento, perguntando
- o que é um documento;
- qual a importância do documento;
- quais documentos eles conhecem;
- o que ele representa;
- se é possível que uma história infantil possa ser um documento e por quê.
Tal discussão teria por objetivo que concluam que o documento é o que possibilita uma expressão da “realidade”, não existindo um documento verdadeiro ou falso, mas várias versões sobre um fato. E que nestes documentos literários não estão expressas as “verdades” da época, mas sim visões de Ruth Rocha, do ilustrador e, também, da editora sobre este mesmo período histórico.
E, após esta discussão, deles, alunos, também.

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