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  CLARICE E MARCEL PROUST: INFÂNCIA E LEITURA.

Rosemar Coenga

Quem não gosta de ouvir histórias? Tanto crianças, como adultos apreciam uma boa história narrada por um contador que sabe dar vida à história. A palavra oral exerce um fascínio sobre as pessoas, e a história ouvida é o primeiro livro de diversos leitores. São histórias contadas e ouvidas que se transformam dentro do leitor e com ele vão crescendo e o transformam. Assim, elas só acompanham determinado sujeito porque alguém lhe propiciou esse contato.
Antes de mais nada, preciso expor alguns dos motivos que me levaram a tratar da questão da leitura e infância. Percebo que essa escolha começa com a minha própria história de leitura: o prazer e o gosto despertados em mim, talvez, pelas histórias lidas, contadas e reconstruídas pelo meu pai, à luz da lamparina. Na minha memória, emergem, quase como que em um sonho, as histórias que meu pai contava, quando fazia dormir a mim e a meus irmãos. Elas nos faziam perder o sono e mergulhar no mundo do sonho e da fantasia.
Nas minhas primeiras lembranças, aparece a história de Chapeuzinho Vermelho. Também não posso esquecer-me de A menina escondida na terra, história do folclore brasileiro. Essas e outras histórias revivificadas pelos contadores, entraram na minha memória pelos ouvidos, antes que eu soubesse decodificar as letras. De acordo com Freire (1996), as diversas experiências de leitura de mundo são precursoras, riquíssimas e importantes do ato de leitura formal. Ler a natureza, ler as fisionomias, ler os gestos, ler os símbolos de sua cultura preparam o indivíduo para a leitura da escrita.
Assim, tudo aquilo que estava presente no cenário da minha infância era signo à espera de leitura: o cheiro do pé de tarumã, o pio da coruja, o rio que corria próximo á minha casa, as plantas do jardim de minha mãe. Foi no livro do mundo, que me iniciei na leitura, decifrando odores, sons, sabores, imagens e sensações táteis.
Portanto, não foi na escola nem na universidade que eu adquiri o gosto e o hábito pela leitura. Foram os olhos e a voz de meu pai, na cabeceira de minha cama, que me encantaram.
Em primeiro lugar, quero refletir sobre a representação social da infância pelos movimentos da história. Phillip Ariès (1981), em sua conhecida obra História social da criança da e da família, mapeia a trajetória histórica da infância desde a história medieval: as crianças viviam misturadas com os adultos, sem merecer qualquer cuidado ou atitude especial por parte deles. Elas eram tratadas como adultos em miniatura, não se constituíam como seres sociais diferentes dos adultos. No século XVII a questão da infância começa a ser incorporada ao cotidiano das famílias. A escola moderniza-se no século XVIII, criando um espaço próprio para a educação das crianças, consolidando o sentimento da infância.
A palavra “sentimento”, segundo o autor, não deve ser entendida aqui como sinônimo de negligência ou abandono. Corresponde, isso sim, a uma consciência que não distingue a criança do adulto e que, em função disso, ela não é tratada de acordo com as particularidades inerentes a este período da vida. Por tal razão, no momento em que a criança não necessita mais dos cuidados constantes da mãe, ela junta-se aos adultos sem se distinguir destes.
No intrincado mundo das relações literárias, os escritores são movidos por uma paixão pela leitura que deflagra sua própria escrita literária. Neste trabalho estabeleço um diálogo com fragmentos literários de dois autores expressivos: Clarice Lispector e Marcel Proust. Elejo como material de análise o conto Felicidade Clandestina e a obra Sobre Leitura, buscando analisar as primeiras experiências com a leitura e o livro contemplando a história das infâncias.
Felicidade clandestina e Sobre a Leitura, são narrativas de memória pontuada por uma gradativa consciência de linguagem e pela recuperação de lembranças nas quais a palavra assume a condição de objeto. Nesse interesse pelas palavras e pelo mundo ficcional, subjaz a consciência do futuro escritor (a). Tempo e experiências interpenetram-se e acumulam-se formando um arcabouço para a existência humana. Em sua obra Memória e sociedade: lembrança de velhos, Ecléa Bosi (1995), deixa claro que, para a coexistência do passado, hoje, é preciso de uma fonte que o permita transcursar pelo tempo. E uma dessas fontes é a literatura que pode ser considerada como uma guardiã do passado. A arte literária desempenha a função social de manter acesa a chama da memória, possibilitando, assim, por meio de sua existência, consertar falhas e promover um presente e um futuro melhor.
Clarice Lispector nascida na Ucrânia, em 1925, e morta no Rio de Janeiro, em 1977, Clarice Lispector, brasileira naturalizada, passou a infância no Recife, mudando-se para o Rio de Janeiro entre os 12 e 13 anos. Em 1944, com apenas 19 anos, publicou Perto do coração selvagem, romance que causou estranheza à crítica, pelas novidades que trazia: a sondagem do mundo interior, as profundezas do subconsciente relativizando o enredo, a ação, como em Virgínia Wolf, James Joyce e Marcel Proust.
A paixão pelo livro é comum na vida de Clarice Lispector, que não esconde do leitor o seu amor à leitura. Nádia Battella Gotlib (1995) em sua obra Clarice uma vida que se conta, narra sobre a vida e obra de Lispector. O interesse pelas palavras e pelo mundo ficcional é muito intenso na vida de Clarice. “Depois que eu aprendi a ler e a escrever, eu devorava os livros! Eu pensava! Olha que coisa! Eu pensava que livro é como árvore, é como bicho: coisa que nasce! Não descobria que era um autor! Lá pelas tantas, eu descobri que era um autor. Aí disse: Eu também quero! (Gotlib, 1995:86).
Publicada em A Descoberta do Mundo (1967), com o título “Tortura e Glória” (republicada com o título Felicidade Clandestina, em 1971). Em Felicidade Clandestina é possível falar em tematização da própria leitura: trata-se da relação do leitor com a palavra, lendo-a e escrevendo os seus sentidos. Na crônica Felicidade Clandestina, a escritora relata as humilhações porque passou quando criança, no Recife, ao demonstrar sua ânsia de ler o livro As Reinações de Narizinho, de Monteiro Lobato.
Na crônica Felicidade Clandestina fica explícito o ritual de passagem experimentado pela protagonista durante a busca pelo livro; esse ritual configura-se como um percurso durante a qual algumas provas lhe são impostas, tanto pela menina dona do livro, na recusa e na promessa tantas vezes repetidas ? “enquanto o fel não escorresse todo pelo seu corpo grosso” ou até que uma “mãe boa” entendesse ? quanto por si própria, na interposição de falsas dificuldades. “Fingia que não o tinha, só para depois ter o susto de o ter [...] fingi que não sabia onde guardara o livro, achava-o, abria-o por alguns instantes. (Lispector: 1998:13). A posse total do objeto desejado não coincide com o seu recebimento, prenuncia-se apenas no final do percurso empreendido para a sua conquista, ao término da narrativa, quando: “não era mais uma menina com um livro: era uma mulher com seu amante”. (Lispector: 1998: 14).
Felicidade Clandestina narra a intensidade da relação dessa escritora com o livro. Na obra de Clarice Lispector, a palavra é colocada no centro da diegese; o motivo que leva ao clímax o enfrentamento entre a narradora e sua antagonista, num primeiro momento, e, depois, entre a leitora e o livro. É o desejo de ler que desencadeia a dura aprendizagem porque passa a narradora. E a leitura é o motivo da ficção.
Clarice mantém uma paixão por Monteiro Lobato: “Quanto a mim, continuo a ler Monteiro Lobato. Ele deu iluminação de alegria a muita infância infeliz. Nos momentos difíceis de agora, sinto um desamparo infantil, e Monteiro Lobato me traz luz” (Lispector, 1984:205). Assim, fica clara a paixão de Clarice pelo objeto livro, objeto de desejo da menina Clarice (personagem de Felicidade Clandestina).
Marcel Proust nasceu em Paris, em 10 de julho de1871 e morto em 1922. Suas primeiras experiências literárias deram-se em 1892 quando, com alguns amigos, fundou a revista Le Banquet.
Proust narra com rara beleza momentos alegres de sua convivência com a leitura, o que ele denomina de um prazer divino. Em sua obra Sobre Leitura, Proust rememora suas férias, durante as quais a interrupção de um livro para o almoço era abominável, o convite de um amigo para um jogo exatamente na passagem mais interessante, a abelha ou o raio de sol que o forçava a erguer os olhos da página ou a mudar de lugar, a merenda que o obrigavam a levar para os passeios e que deixava de lado, intocada, sobre o banco, enquanto sobre a cabeça o sol empalidecia no céu azul. O jantar o levava de volta à casa e ele esperava ansioso que terminasse para, logo em seguida, poder concluir a leitura do capítulo interrompido. O escritor francês do século XIX assim começa o seu texto:

Talvez não haja na nossa infância dias que tenhamos vivido tão plenamente como aqueles que pensamos ter deixado passar sem vive-los, aqueles que passamos na companhia de um livro preferido. (Proust, 1991: 9).

O autor diz, que tudo isso, visto à distância, são doces recordações. E como em busca de cúmplice, ele faz quase que uma indagação: “quem como eu, não se lembra dessas leituras feitas nas férias, que íamos escondendo sucessivamente em todas aquelas horas do dia que eram suficientemente tranqüilos e invioláveis para abriga-las”. (1991:10).
Proust conta que, ao retornar dos passeios matinais, metia-se na sala de jantar e instalava-se numa cadeira ao pé da lenha para ler, tendo como companhia de leitura “os pratos coloridos na parede, o calendário, o pêndulo e o fogo que falam sem pudor que se lhes responda, e cujos suaves propósitos vazios de sentido não substituem ? como as palavras do homem ? o sentido das palavras que se lêem. (1991;10).
De tempos em tempos, ouvia-se o barulho d bomba que fazia a água correr e também levantar olhos e olhá-la através dos vidros fechados da janela. Infelizmente, a cozinheira vinha com muita antecedência arrumar a mesa e, para sua tristeza, sempre fazendo comentários.
A hora passava e as pessoas começavam a chegar para o almoço. E junto com elas vinham as conversas, embora não deixassem de dizer que não iam incomodá-lo. Para ele isso significava um exemplo para que outros ao chegarem pensassem que já fosse meio dia. Motivo suficiente para que seus pais logo dissessem: “venha, feche seu livro, vamos almoçar” (1991:11)
Para ele, o almoço era interminável, permeado de muitas conversas entre os membros da família: tios, pais e avós. Qual não era sua alegria quando as pessoas se retiravam para seus quartos e ele também podia subir ao seu, para poder retomar a leitura quilômetros da vila.
Ele sempre abreviava o final da merenda, após o jogo obrigatório realizado no parque, a fim de retomar a leitura do livro que trazia consigo. Não costumava ler à noite antes de dormir. Algumas vezes o fazia quando o livro já estava chegando ao fim, arriscando com isso ser punido pelos pais e a ter insônia, que poderia prolongar-se pela noite inteira. Depois da leitura acabada e com o fim de dar outros movimentos aos tumultos neles desencadeados pela leitura, começava a caminhar em volta da cama com os olhos fixos em algum ponto, para que ele estava situado numa distância que chamou “ a distância da alma”. Distância que não é medida por léguas ou por metros como as outras. Difícil confundi-las com essas quando olhada os olhos “distantes dos que pensam em outras coisas”. E questiona: “ E aí? Esse livro não era senão isso? Esses seres a que se deu mais atenção e ternura que às pessoas da vida, nem sempre ousando dizer o quanto a gente os amava, mesmo quando nossos pais nos encontravam lendo e pareciam sorrir de nossa emoção, e fechávamos o livro com uma indiferença afetada e um tédio fingido” (1991:23).
Além disso, o autor faz outros comentários que mostram algumas frustrações ao terminar uma leitura, como por exemplo, o fato de os personagens jamais serem vistos e de sequer saber algo deles que não fosse apenas um nome numa página esquecida, ocupando um lugar estreitinho na biblioteca.
Para Proust, as leituras na infância deixam em cada leitor a imagem dos lugares e dos dias em que foram feitas. Confirma esse ponto de vista dizendo que, ao referir às suas leituras de infância, falou de outras coisas e não dos livros, porque não foram deles que as leituras lhes falaram. Mas talvez a lembrança que eles lhe trouxeram tenham conduzido o leitor pouco a pouco através de sua narrativa a recriar “em seu espírito o ato psicológico original que se chama leitura”. (1991:25).
Vida e ficção nesses textos se entretecem, servindo de substrato para esse campo chamado texto literário apontando caminhos e fertilizando a arte do autor.

BIBLIOGRAFIA

ARIÈS, Phillipe. História social da criança e da família. Rio de Janeiro: Guanabara, 1981.

BOSI, Ecléa. Memória e sociedade: lembrança de velhos. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.

FREIRE, Paulo. A importância do ato de ler: em três artigos que se completam. São Paulo: Cortez, 1996.

GOTLIB, Nádia Battela. Clarice: uma vida que se conta. São Paulo: Ática, 1995.

NOLASCO, Edgar Cezar. Restos de ficção: a criação biográfico-literária de Clarice Lispector. São Paulo: Anablume, 2004.

PROUST, Marcel. Sobre a leitura. Trad. Carlos Vogt. Campinas: Pontes, 1991.

 
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