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  RODAPALAVRA

Verbena Maria Rocha Cordeiro - Pós-graduação em Educação e Contemporaneidade - Universidade do Estado da Bahia/UNEB (Coordenadora)
Luciana Moreno – UNEB (Assistente de Coordenação)
Hildete Magalhães – (Assistente de Coordenação)

A presente comunicação relata as ações do projeto de extensão Rodapalavra, em espacial, as práticas de leituras literárias, no hospital Santa Izabel, em Salvador, com crianças e jovens portadoras de câncer e cardiopatia. Dentre as ações socialmente relevantes, no período de 2004 a 2005, destaca-se, a experiência de Contação de histórias propriamente dita e a formação de agentes mediadores de leitura - constituído por um grupo muldisciplinar de professores e alunos dos cursos de pedagogia, letras e psicologia, parceiros dessa aventura. Inicialmente, as atividades de formação dividiram-se entre a oferta de oficinas de Contação de histórias e os Círculos de estudos e de leitura, mobilizando saberes e sensibilidades para alicerçar intelectual e emocionalmente os mediadores em seus contatos com esse público em situação de risco e de dor.

A CONSTRUÇÃO DA ROTA

A presente comunicação relata as ações do projeto de extensão Rodapalavra , em especial, as práticas de leituras no campo da literatura infantil, no Hospital Santa Izabel, em Salvador, com crianças e jovens portadoras de câncer e cardiopatia. Dentre as atividades socialmente relevantes, realizadas no período de 2004 a 2005, a formação de agentes mediadores de leitura e a experiência de Contação de histórias ilustram o que há de mais vigoroso neste percurso.
O primeiro movimento se inicia com a formação do grupo de mediadores de leitura - aberto à comunidade universitária e ao público externo – tendo sido selecionados vinte integrantes, dentre os cinqüenta inscritos, que apresentaram não só interesse em participar de um projeto dessa natureza, mas, sobretudo, revelaram um certo fascínio e afinidade com a obra literária.
Assim, o Rodapalavra começa a se mover, acolhendo, de forma ampla e plural, um grupo multidisciplinar de professores e alunos dos cursos de Pedagogia, Letras e Psicologia, além de educadoras-voluntárias da Secretaria de Educação do Estado da Bahia, parceiros dessa aventura.
O Rodapalavra, portanto, enquanto núcleo de formação de leitores e de promoção da leitura, previu e realizou três ações de formação em fluxos interrelacionados, a saber: a Oficina A arte de ler e contar histórias: a voz, o canto, o ritmo, o estudo – percurso da história contada; os Círculos de leitura e Encontros com uma psicanalista, a fim de mobilizar saberes e sensibilidades para alicerçar intelectual e emocionalmente os mediadores em seus contatos com esse público em situação de risco e de dor.

TOMANDO O LEME E A BÚSSOLA

Maria Betty Coelho, contadora e autora de historias infantis, assume o leme e indicia os caminhos dessa arte milenar. Com olhar calmo, voz suave, a pequena grande mulher entra em cena, instigando os participantes a contar a própria história – história do nome, chamando a atenção para a sonoridade contida em cada um, expressa no olhar, no gesto, na fala, conforme Receita de Roseana Murray (1997). E o nome abre a trilha da vida, convida ao passado, rememora, põe à mostra alegrias, tristezas, decepções e até reinventa a própria vida: fundamental para Mariana, aprendiz de contadora, que se deixou banhar pela imensidão do mar contido no seu nome.
E a força da história toma conta do ambiente: narradora e aprendizes caminham juntos, atribuindo sentidos ao enredo. Uma vibração recíproca de sensibilidades acontece a ponto de diluir-se o cenário real ante a magia da palavra que comove e enleva. A ação se desenvolve e os aprendizes de contadores, magicamente envolvidos com os personagens, de repente, são arrastados por Betty, fazendo força, puxando a corda para salvar Tonho, o elefante que ficou preso numa armadilha (Souza, 1971). O enredo convida à razão e à sensibilidade, quando em cada um faz aflorar o riso, mas também faz refletir sobre as armadilhas do cotidiano e as tentativas de superação, permitindo a discussão de estereótipos, preconceitos ou fortalecendo valores como solidariedade, união e companheirismo, possíveis sentidos que se produzem no ato da leitura.
Com a firmeza e autoridade de uma pesquisadora nesse campo, Betty assinalou que, aliado ao gosto e ao prazer de contar, impõe-se o estudo sistemático para se fazer contador. A arte de contar tão remota quanto a origem da humanidade ainda se constitui em um espaço de permanência, de vida, de sonhos e utopias. Por meio desse ofício milenar, as experiências fundamentais se perpetuam de geração em geração, ainda que muitas vezes se situem na ordem do inexplicável. Alinhada às idéias de Benjamin (1985), Betty alerta para o desafio que essa geração há de enfrentar para fazer preservar esta arte. Esse projeto é a resposta, ainda que frágil, porquanto limitado, à memória, à tradição oral e à figura emblemática de Sherazade, artesã da palavra.
Palavra, enredos, cenários, heróis, princesas, fadas, bruxos, duendes, monstros, animais, magia, musicalidade, sonoridade, versos, sentidos, gestos, risos, gritos e sussurros compõem a cena, fazendo do ato de narrar histórias um deleite para quem conta e para quem ouve. Um ofício, sem dúvida artesanal, que requer memória, talento interpretativo e inventividade, acrescidos à sensibilidade e ao bom senso para aprofundar-se no conhecimento da literatura infantil, quando se trata especificamente da formação de leitores.
São cuidados, diz a Mestre, de extrema relevância, sobretudo, na delicada situação a ser vivenciada pelo grupo na mediação de leitura com crianças hospitalizadas: estabelecer critérios para a construção do repertório e dos indicadores que orientam na seleção das histórias, saber discernir e escolher as obras a partir de sua qualidade literária, da faixa etária e interesses dos leitores-ouvintes.
Era uma vez.... e lá vêm histórias: O pescador, o anel e o rei e Sopa de pedra de Bia Bedran; O reizinho mandão, Procurando firme e Quem tem medo de monstro? de Ruth Rocha; Menina bonita do laço de fita e Ah, Cambaxirra, se eu pudesse de Ana Maria Machado; Tonho, o elefante de Mário Souza; Adivinha quanto eu te amo de Sam McBratney; O Prato azul-pombinho de Cora Coralina, essas, outras e outras e quem quiser que conte outra...
E assim, foram se tecendo as histórias, misturando-se às dos aprendizes de contadores, rememorando relatos ancestrais, dialogando com autores e obras contemporâneas, além de clássicos universais e "causos" regionais. E conto a conto, foram - e ainda vão - se desvendando os segredos da arte de contar histórias.
História não acaba quando chega ao fim, diz Betty. Ela imprime marcas na alma, permanece na mente daqueles que a incorporam como um alimento de sua imaginação criadora. Alguns aprendizes de contadores, apenas iniciaram a viagem. Outros fortaleceram sua rota. Juntos, soltaram as amarras e partiram ao sabor do vento e das ondas, singrando outros mares.

DE VILELA A BAUDELAIRE: ENCURTANDO DISTÂNCIAS, EXPANDINDO LEITURAS

Navegar em águas desconhecidas, experimentar outras cartografias, optar entre o distanciamento, a contemplação, o sonho, a realidade. Criar atalhos, mergulhar nos segredos de narrativas perigosamente belas. Saborear percursos mais longos, ora apagando, ora alargando o tempo-espaço.
Presença no tempo presente, presença em tempos imemoriais. Ida e volta. Circunavegação. Leituras circulares ao sabor das ondas e das marés... Círculos de leituras .
Os Círculos de leitura, enquanto estratégia de formação, pretendem alicerçar a formação dos mediadores de leitura, tornando a leitura pública, divulgando um acervo de obras literárias, como um apelo a desvelar os encontros imprevistos surgidos nas dobraduras do texto e do leitor. Ou seja, é o entendimento da leitura como o caminho mais eficaz para acesso ao outro, nesse processo único de reflexão interativa que é o ato de ler (Melo, 2005:p.1).
No Rodapalavra, Os Círculos constituíram-se em dois movimentos: um que privilegia uma base teórica sobre leitura e literatura, e outro que promove e instiga a leitura de obras literárias clássicas e contemporâneas, previamente selecionados pelo grupo e conduzida, a cada sessão, por um de seus participantes, na função de leitor-guia, que busca instaurar o diálogo entre autor, texto e leitores. A leitura compartilhada de natureza livre abre-se à discussão, comentários, diferentes emoções, trocas de opiniões controversas, identificações, discordâncias, entre outras tantas formas de ler.
O que mais importava nesse momento era desafiar o leitor-guia- ainda em formação - para eleger seu autor preferido e a partir daí ter a oportunidade de uma leitura mais verticalizada sobre o autor e a obra. No mais era confiar em sua sensibilidade e de seus pares, todos igualmente investidos nessa tarefa de se fazerem mediadores e contadores de histórias. Foi surpreendente ver como Rodrigo, Denise e Heli – leitores guias - mobilizaram a todos com seus comentários ou questões que incitavam os leitores-ouvintes a um diálogo caloroso com a obra, ao proporem a leitura de Se um viajante em noite de inverno de Ítalo Calvino, fazendo circular outros títulos.
Ainda nesse espaço, ocorre a leitura de obras de literatura infantil possível de se constituir no repertório dos aprendizes de contadores. Dentro de um amplo e diversificado acervo de obras clássicas e contemporâneas, o grupo elege aquelas que mais lhe sensibilizaram para exercitar uma leitura dramatizada e/ou memorizar. Em busca de uma técnica da arte de contar história, ocorria em um próximo encontro, a contação experimental.Tal procedimento revelou-se produtivo, na medida em que os livros, ao circularem por entre todos, terminavam por suscitar um debate sobre a temática, o enredo, as personagens, a estrutura narrativa, e também a performance de cada um.
Luz sobre a porta de Vilela abre o Círculo de leitura, em seguida Venha ver o pôr do sol e O menino de Lygia Fagundes Teles, Entre as folhas do verde ó de Marina Colasanti, A arte de ser feliz de Cecília Meireles, Mil anos de perdão de Clarice Lispector, entre outros contos brasileiros, demarcam o ato de leitura num campo de significações, resultante da interação da obra com seus leitores. Os Círculos prosseguem, abrindo outros horizontes interpretativos, ampliando repertórios e instigando seus leitores, muitas vezes, a romper com certos valores rotineiros e normativos. O efeito da leitura em cada leitor vai depender de sua percepção e sensibilidade em relação ao mundo ficcional e do lugar social que cada um ocupa (Cordeiro, 2003). Os Círculos não param, alargam-se com a entrada de outros autores, a exemplo da prosa arguta de Osman Lins ou a sensibilidade de um Graciliano Ramos. Nessa aventura, atravessam os Espelhos de Machado e Guimarães, conhecem os contos de Sérgio Faraco e se banham na poesia drummoniana. Cada vez mais familiarizados, os leitores se arriscam e se deleitam com o universo ficcional de Ítalo Calvino, Guy de Maupassant, Juan Rulfo, até desaguar em Baudelaire, cujo convite é tentador para o grupo celebrar com seu canto o último Círculo do ano:
É hora de se embriagar!
Para não serdes os martirizados escravos do Tempo, embriagai-vos; embriagai-vos sem tréguas!
De vinho, de poesia ou de virtude, a vossa escolha.
A escolha foi a poesia. A cada nova leitura, novos horizontes. A essa altura era visível a agilidade e o prazer do grupo quando ousava ultrapassar sua compreensão de mundo, apreender a estrutura formal do texto, desvelar o jogo intertextual, reconhecer o estilo das obras, para enfim desprender-se e aventurar-se nos labirintos da obra literária, adentrando a sua dimensão estética.
Nesse percurso, era igualmente visível o encantamento e o envolvimento do grupo. A riqueza de leituras se manifestava nos singulares e múltiplos olhares que cada obra literária possibilitava, desencadeando as mais inesperadas reações, ora silêncio-encanto, ora silêncio-desencanto. Ora a obra literária, ora o leitor-guia envolvia com mais ou menos força o leitor nos ardis da leitura.
Assim, foi extremamente gratificante constatar que não só o repertório do grupo se ampliava, mas o gosto pela leitura foi aguçado a tal ponto que entre eles, sem agendas nem formalidades, outros Círculos foram se constituindo nas margens, albergando amigos, colegas e familiares, comenta Denise. Isso significa dizer que vivenciar e compartilhar essa diversidade de leituras configurou-se em uma experiência de rara importância para os mediadores, ao permitir a troca de saberes e o fortalecimento de identidades individuais e sociais, plenas e singulares, contribuindo para a constituição de sujeitos mais sensíveis, críticos, criativos e plurais no trato com a realidade social, cultural e pessoal. O relato de Silvia confirma como esse espaço favoreceu o seu reencontro com a literatura: [...] devo confessar que estar em contato com pessoas tão apaixonadas e envolvidas com a literatura, me fez, novamente uma delas. A literatura retomou seu lugar especial na minha vida.
Tal depoimento renova e atualiza as idéias de Antônio Cândido (1972:p.806): a literatura não corrompe, nem edifica, portanto; mas, trazendo livremente em si o que chamamos o bem e o que chamamos o mal, humaniza em sentido profundo, porque faz viver.

PORTOS DE ANCORAGEM

Içadas as velas, tripulantes-contadores a bordo. O cristal das águas turva-se à aproximação de densas nuvens. Ventos velozes. Mar revolto. Rostos pálidos. Corpos em desalinho. Prenúncio de tormenta. As profundezas dos oceanos humanos vergam sob o peso da tempestade. A força das ondas agita o peito em descompasso e os olhos sentem o gosto do mar. As crianças e jovens em seus leitos, entre silenciosas e retraídas, ansiosas e desejantes, aguardam o desembarque dos contadores.
A dor humana expressa por Rodrigo se anuncia e pede espaço de escuta e acolhimento:[...] então comecei a mostrar-lhe as figuras dos livros e brincar com ela, mas a minha vontade era de sair correndo e defenestrar-me pela primeira janela que encontrasse. Saí!
Buscar um porto. Jogar a âncora, recolher as velas. Aportar. Parada obrigatória. Porto. Reedita emoções, alinha sentimentos. Lugar de encontro. Consigo mesmo e com o outro. Encontro com a força de Cândida , a leitora-guia dessa travessia ainda por se fazer.
Os encontros com a psicanalista Maria Cândida constituíram-se, enquanto parte do processo de formação, espaço importante de apoio aos contadores, que, atuando no Hospital, precisavam de suporte psicológico e emocional para aprender a lidar com os tênues limites entre a vida e a morte.
Nesse processo de escuta, emergiram questões que afligiam o grupo, a exemplo da proximidade quase física com a morte, que puderam, nesse espaço, ser ressignificadas a partir do entendimento de que tais situações são inerentes à condição humana e o enfrentamento e a capacidade de lidar com essas circunstâncias dependem, quase sempre, das histórias de vida de cada um, carregados de medos, fantasias, desejos e projeções que se atualizam diante de certas situações limites.
Um outro cenário ameaça os contadores. As interrupções para os procedimentos: o vai-e-vem das enfermeiras: medir pressão, temperatura, verificar os aparelhos, ministrar medicação foram cenas trazidas para a escuta sempre atenta de Maria Cândida, dada à intensidade com que foram vivenciadas no hospital. A criança enferma torna-se um ser passivo, tendo seu corpo submetido a uma série de manipulações e intervenções. Com um bracinho imobilizado pela medicação, o pequeno paciente explica a Hildete - não é soro, não. É quimioterapia - com ar de sabe-tudo, ciente do procedimento a que estava sendo submetido. Curioso, atento, ansioso. Vivo! A vida que insiste em lembrar a morte. Dualidade morte-vida. Sentimentos contraditórios enchem o meu ser. Sentimentos humanos: alegria, tristeza, medo, coragem...tantos..., acrescenta Hildete.
Nessa travessia, o lugar do não saber e o medo de lidar com situações ainda não experenciadas foram se desdobrando em acolhimento e minimizando a sensação de tristeza que o clima hospitalar provoca. Relatos como o de Teresa expressam esse sentimento: Ao cumprimentá-lo, perguntei como ele estava. Pergunta que graças aos encontros tomou, oportunamente, o lugar do descabido ‘tudo bem’.
Os encontros com a psicanalista navegaram ora por águas turvas, ora por águas claras, singrando espaços para que os contadores de história pudessem elaborar seus medos e seus fantasmas mobilizados ou atualizados no contato com as crianças hospitalizadas e seus familiares.
Escutar as crianças, suas falas, seus gestos, seus sorrisos, seus silêncios, suas demandas quase imperceptíveis promoveram lentamente o estreitar-se de vínculos, o respeito às vontades, fortalecendo-se alianças. Crianças e contadores criam expectativas, aguardam-se mutuamente.
Acolher é imperativo, entretanto deve-se estar atento para não se identificar com o sofrimento do outro, anuncia sabiamente Maria Cândida. Vincular-se, criar laços é diferente de identificar-se com o sofrimento do outro, essa foi uma lição duramente aprendida pelos contadores. O desafio experimentado por Camila reflete bem isso:
Noite. O espelho das águas reflete a luz da lua. Lua , a menina, vê a luz, mas não ouve o doce canto do mar. Lua é surda. Sinto-me impotente: Como vou contar histórias para uma menina surda? Ela não vai me ouvir, minha linguagem é a fala! Que sentidos vou usar? Cheia de limitações, desafiada a lidar com essa situação, deparei-me com uma menina sorridente que, ao meu simples gesto de mostrar-lhe os livros, acenou-me afirmativamente, veementemente com a cabeça. A mágica aconteceu. Nem eu deixei de usar a voz, nem Lua deixou de ser surda. Nos comunicamos, nos tocamos, nos olhamos, gesticulamos. Momento de compreensão, cumplicidade, desprendimento, entrega. A luz da lua derramou-se e a linguagem do coração tomou conta daquele espaço. Saí com uma sensação de plenitude, compreendendo melhor, ressignificando a atividade de contação.

Outra lição aprendida: abrir as comportas da criatividade, da imaginação:

Ela queria ouvir uma história sobre cavalos e eu não tinha nenhuma para contar. Tive que inventar. Inventei uma sobre um pônei que batizamos de Tufe. Meu saldo, no fim da tarde, foram três histórias contadas, vários desenhos produzidos por eles, três sorrisos lindos e a indignação de que certos momentos não possam ser eternizados,
relata Júlio, que se permitiu mergulhar nas águas da incerteza, do não saber.
A importância do registro, enquanto instrumento de distanciamento e reflexão, foi um recurso fundamental, na ótica da psicanalista. É difícil permitir que as marcas ‘trazidas-deixadas’ na própria história e na história do outro venham à tona e aí escrevam e inscrevam-se. À medida que se mergulha na memória para buscar fatos e reconstruir sua cronologia, adentra-se em espaços mais profundos, espaço-tempo para a leitura do vivido, para a reedição do "não-visto", do "não-tão-óbvio", do "não-saber", que, ao desestabilizar, podem apontar para a necessidade de construir novos modos de ver, sentir e pensar.
Assim, nesse movimento de rotação, de claro-escuro, noite-dia, de luas e de marés, espaço entre o cais e o alto mar, algo novo e esperançoso se inaugura: a construção da arte pessoal de contar história foi - e vai - se configurando na vida dos contadores.

NAVEGANDO EM MARES NUNCA DANTES NAVEGADOS

A ação de contação segue seu curso e o grupo de contadores é convidado a embarcar numa viagem ainda não experimentada, permeada de ansiedade, insegurança, mas contraditoriamente de um desejo de partir rumo a um universo desconhecido.
O relato de Mariana expressa a forte emoção do primeiro contato com essa realidade:
A assistente social me entrega um jaleco colorido e me guia até o local onde estão as crianças. As enfermeiras são amistosas e me recebem de forma super-positiva. Entretanto, não é a elas que eu vim contar histórias. Quem deveria me receber bem eram as crianças! Será? A primeira sala que a assistente entra ‘Bom dia, meu amor! A tia veio contar histórias, você gostaria de ouvir?’.‘Não’. Tanto preparo e a criança me rejeitou! Tantos ensaios e ela facilmente disse ‘Não!’. Está aí o resultado óbvio de tantas expectativas. A segunda criança, no entanto, foi mais receptiva.

O Rodapalavra, único projeto que realiza atualmente a contação de histórias no Hospital Santa Izabel , na Unidade de Oncologia Pediátrica Eric Loef e na Enfermaria Santo Antônio tem periodicidade quinzenal, com cronograma previamente estabelecido e os aprendizes, agora contadores, agrupados em duplas ou trios, revezam-se entre esses setores hospitalares.
O repertório de histórias é selecionado e discutido também nos Círculos de leitura. Sua escolha considera a situação das crianças, as diferenciadas faixas etárias – entre 03 e 16 anos. Narrativas leves, agradáveis, divertidas, que favorecem a participação dos ouvintes, estimulam a alegria e espontaneidade. História de sonhos humanos, de descobertas, e tantos medos e outras coragens (Murray, 1994).
A sensibilidade e a intuição têm papel fundamental na definição da história a ser contada Os resultados mais significativos se apresentam à medida que a história se aproxima de alguma forma da história de vida da criança, conforme relato de Hildete que confessa escolher contar as histórias que sente, que a encantam:

Mais um quarto. Lá estão Lara – 04 anos e Marcos, 06 anos. Olho para os dois. Estão bem debilitados, no leito, submetidos à quimioterapia. Mais uma vez me entrego à intuição e Tanto, Tanto vem à minha cabeça e à mão. Conto para eles. Os rostinhos abatidos são iluminados por olhos que brilham, cada vez mais, à proporção que a historia toma conta do quarto, das crianças, dos acompanhantes e da contadora. Estamos juntos. Embarcamos. Marcos antecipa e espera ansiosamente a chegada do aniversariante, o pai do bebê. A cada “Triiiiiimmmmmm!!!!” os dois se perguntam: quem será que chegou? “Surpresa!!!!!”. E a história mais uma vez confunde-se com a realidade. Bem no momento da chegada do aniversariante - o pai do bebê, chegou, imagine quem? O pai de Lara! Olhar iluminado, ficção e realidade misturadas, Lara sorri, encantada. O pai não entende, fica meio confuso e a gente o inclui na história. Na história do livro e da vida.

A narrativa infantil organizada em enredos, tempo, espaço e personagens acaba por realinhar idéias dispersas, histórias de vida nos fios das histórias ouvidas.
No decorrer ou após a contação tudo podia acontecer, desde a criança não esboçar qualquer reação, ou inesperadamente reagir de forma viva à história contada. Era estimulante perceber a força da narrativa atuando sobre seu imaginário, a ponto de revigorar, ainda que por um instante, aqueles corpos tão debilitados pela enfermidade. O envolvimento com o enredo ou a identificação com as personagens eram a porta de entrada para a fantasia, apostam os contadores. Algo mágico acontecia: a história a libertava por um momento daquele sofrimento. O grupo diante de situações tão díspares e inusitadas improvisava, recorrendo a sua criatividade e sensibilidade a essa altura já bem aguçada.
Isto se comprova, mais uma vez, no relato de Teresa:

[...] o menino me contou também da visita de Papai Noel, que havia deixado alguns presentes dispostos sobre a cômoda, ao alcance dos seus olhos. O manuseio dos carrinhos cansava muito à criança, submetida a um tratamento rigoroso e a brincadeira com movimentos não era recomendada. Brincamos por algum tempo de palavras. Percebi o tamanho do significado que vestia a história naquele instante. Uma história com tema relevante, contornada de poesia... O texto constituído por versos permitiu a brincadeira com as palavras para quem estava impossibilitado de brincar de bola, de papagaio, de pião. Brincar com sonoridade, brincar com rimas... Parecia que a leveza das palavras fazia cócegas na infância do menino, escondida pelas limitações do tratamento [...]. O menino ria, interrompia, [...]. Brincadeira permitida, ilimitada, recomendada, [...] sem contra-indicações.

Outro aspecto interessante, quiçá inesperado, foi a reação dos familiares ou acompanhantes e até dos profissionais do hospital: assim aconteceu no quarto de Cléber.

Sua mãe foi a mais interativa do grupo. Seu pai, não se mostrou muito atento, entretanto no fim da contação, começamos a fazer um barquinho de papel. Ele acabou por nos ensinar a arte de fazer balões de papel e um tipo de chapéu muito engraçado, que se moldou muito bem na cabeça de Dona Maria, que ria com os olhos brilhando,
relata Júlio. Momento mágico: uma cena familiar, pai, mãe, filho. Por alguns instantes saíram daquele asséptico quarto de hospital. Voltaram para casa, para o lar. Pai, mãe e filho.
Assim, muitos deles tornaram-se público cativo, escutando atentamente as narrativas, teciam comentários, solicitavam outras histórias. Tal como as crianças também pediam que as repetissem incontáveis vezes.
Isto é um pouco da historia que se conta do Rodapalavra. Há muito mais a dizer, mas isso é de somenos, a experiência iluminará o que está por se fazer e dizer. O que importa sim, é ponderar que, em quase dois anos desse projeto, embora não se constitua num trabalho terapêutico, não deixou de funcionar como um momento de superação, considerando-se que as narrativas infantis concorreram de certa forma para dar um sentido mais ordenado à vida dessas crianças tão frágeis.
Ademais, esse projeto comporta outros ganhos que se revelam na formação de alunos mediadores de leitura que, hoje, desenvolvem um trabalho social, no campo da pesquisa-ação, cada vez mais reconhecido por instituições hospitalares, constituindo-se em propostas de humanização e voluntariado. Nesse sentido, há de se reconhecer o lugar da universidade no desenvolvimento da sociedade na qual se insere e da qual se alimenta, respondendo com um programa dessa natureza a demandas que se colocam para além das questões estritamente acadêmicas.
As respostas às ações do Rodapalavra no Hospital Santa Izabel tocam minimamente as questões mais profundas que produzem esse cenário de desordem social. O Rodapalavra, entre outros projetos similares, proporciona a luta por um destino mais fraterno, buscando sua substância na narrativa e no lirismo da poeta Heriqueta Lisboa (1985:383).

Aleluia.Talvez exista um novo reino
para muito além das fronteiras
do mineral, do vegetal, do animal.
Talvez a desaguar do oceano
salpicada de primevas espumas
outra aurora se faça. Talvez.
Aleluia por esse talvez. Aleluia.


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