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  LETRAVIVA – PROGRAMA BRASIL ALFABETIZADO EM CAMPINAS - RELATO DE EXPERIÊNCIA DE ALFABETIZAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS ATRAVÉS DE EDUCADORES POPULARES

Priscila Moreira Corilow
Fundação Municipal para Educação Comunitária – FUMEC/Campinas

Introdução

O Letraviva é um projeto de alfabetização de jovens acima de 15 anos e adultos . É uma parceria entre a prefeitura de Campinas e o Programa do Mec, Brasil Alfabetizado com recursos do FNDE . Campinas aderiu ao Programa desde o seu início, em 2003 e, em 2005, está para iniciar sua 3a. etapa . Jà alcançou nas duas etapas 3500 educandos e agora pretende atingir 3000.

É função do Mec,via FNDE, enviar recursos para o pagamento de bolsa auxílio aos educadores voluntários do projeto . A administração deste recurso é feito pela prefeitura de Campinas, via SME (Secretaria municipal de Educação ) . Também é responsabilidade da Prefeitura de Campinas,via FUMEC (Fundação Municipal para Educação Comunitária) , dar a contrapartida financeira ao Projeto , viabilizando a toda a sua estrutura funcional, administrativa e pedagógica .

Principais objetivos do Projeto Letraviva

O principal objetivo do Projeto é prioritariamente a alfabetização e o letramento de jovens e adultos. Para isto o Letraviva tem escolhido o princípio básico da Educação Popular, que é trabalhar a alfabetização através de metodologias e estratégias contextualizadas a partir da realidade dos educandos. Isto tem sido um grande desafio!

Mas temos também outros objetivos como: trabalhar noções básicas de Matemática, que sejam significativas ao dia a dia dos educandos; trazer noções de outras áreas do conhecimento como conscientização sobre a questão ambiental, noções de higiene, trabalho com a auto estima dos educandos, a reflexão sobre valores morais como os direitos humanos universalmente aceitos e etc.

Também temos trabalhado no sentido de auxiliar os educandos na obtenção dos documentos básicos . A maioria dos educandos que já passaram pelo projeto tinham o RG, mas assinados com a digital. Ver a conquista destas pessoas em tirar outro RG, assinando o próprio nome, é motivo de grande alegria a eles e a nós que trabalhamos no projeto.

Mas existe um outro grande objetivo, que ultrapassa as salas de aula do Letraviva. Que é incentivar os educandos a continuarem seus estudos na Educação Formal. Aliás, este é o grande diferencial do Programa Brasil Alfabetizado quando comparado a outros programas de alfabetização já realizados no Brasil. Pois se compreendemos a Alfabetização e o Letramento como um processo, com certeza não será em 8 meses de estudo que o educando irá completar este processo. Muitos de nossos alunos já freqüentaram o Mobral e outros programas de alfabetização, mas, por não serem incentivados a continuarem os estudos, não deram continuidade ao processo de letramento. E, apesar de viverem numa sociedade letrada , não utilizaram a escrita e a leitura no seu dia a dia, esquecendo assim , muito do que aprenderam . Estes são os analfabetos funcionais , que até conhecem as letras, às vezes lêem até palavras , mas não conseguem interpretar ou redigir um texto . Além disso, o Letraviva, não diploma ninguém. E para o mundo do trabalho é muito importante que o cidadão tenha, no mínimo, um diploma do Ensino Fundamental. Dessa forma, é objetivo do Programa Brasil Alfabetizado a continuidade dos estudos. Em Campinas, temos a Fumec, que trabalha com a educação de jovens e Adultos , e também o supletivo das escolas Estaduais . Temos realizado um trabalho de parceria com a Fumec no sentido de encaminhar todos os alunos que querem continuar a estudar . Muitos tem ido para a 3a. , 4a. e alguns têm ido até para a 5a. série . A Fumec tem aberto muitas salas novas apenas com educandos do Letraviva da 2a. etapa que foi concluída em Abril deste ano .

Como o projeto cumpre seus objetivos ?

Campinas é uma metrópole, e recebe muitas famílias de outros estados em busca de emprego e melhores condições de vida . Muitas destas pessoas que chegam aqui são analfabetas totais ou funcionais. Como encontrar estas pessoas em uma cidade de 1 milhão de habitantes? A maioria dos analfabetos, principalmente numa cidade grande, desenvolve estratégias de sobrevivência numa sociedade letrada. Muitos se escondem, não admitem sua ignorância e pior ainda, não admitem que necessitam aprender a ler e a escrever. Dizem que se viraram tão bem até agora e, por isso não precisam aprender. Sabemos, no entanto, que na maioria dos casos, eles têm é medo de fracassarem novamente, pois carregam muitas histórias de fracasso pela vida.

Diante deste quadro, a opção encontrada pelo Letraviva foi mobilizar a população no sentido de sensibiliza-la em relação ao analfabetismo e convidar pessoas interessadas em serem educadores. Estabelecemos que a responsabilidade de alcançar o educando e formar os grupos seria do educador. Esta estratégia possibilitou alcançar muitas pessoas que já faziam, ou que gostariam de fazer, um trabalho social em sua comunidade. Percebemos que, por conhecerem melhor a realidade de cada bairro, de cada região, tinham muito mais sucesso de encontrar o analfabeto e estimula-lo a aprender ler e escrever ou, a voltar aos estudos (em relação aos analfabetos funcionais) . Dessa forma, os educadores do Letraviva têm muito conhecimento da realidade da sua turma, pois muitas vezes ele também faz parte da comunidade.

Esta proximidade não possibilita apenas que o educador encontre o analfabeto, mas principalmente lhe dá muitos subsídios acerca da realidade dos educandos. Mesmo que o educador não viva na mesma comunidade que a sua turma, ele necessita ir ao encontro deles para fazer o convite da aprendizagem. E isto não acontece apenas uma vez pois, como já foi dito, o analfabeto é resistente em aprender a ler e a escrever. A seguir apresentamos um texto de uma educadora da 2a etapa em que relata como conseguiu convencer uma senhora a freqüentar a turma:

“ Dona Margarida, 67 anos. Fui até sua casa, sabia que ela não era alfabetizada. Entre uma conversa e outra, perguntei se ela não queria fazer parte do grupo que iria iniciar dentro de alguns dias. Me lembro de sua timidez.

Ela me convidou para entrar, ofereceu-me um cafezinho e disse que tinha problema com horário, toda tarde ela tinha que cozinhar feijão, pois seu filho só comia feijão do dia.

O filho , que acompanhava nossa conversa disse que ela estava “muito velha para aprender alguma coisa”. As palavras do filho, que gostava de comer feijão cozido na hora, me cortaram o coração. Que egoísmo! Esse é um jeito de escravizar as pessoas, neste caso, a própria mãe. A dona Margarida falou com um pouco de medo e como se fosse culpada que “o sonho dela era conhecer as letras para escrever o seu nome”. Nos despedimos e eu disse para ela pensar um pouco melhor.

Passado alguns dias, retornei à sua casa. Ela me indicou a sua comadre, Aparecida Jesus de Souza, que gostaria de participar do grupo só para acompanhar dona Margarida. Então preenchi duas fichas, mesmo ela estando cheia de dúvidas.

Me lembro que no primeiro dia que o grupo iria se encontrar chovia muito. Para minha surpresa, dona Margarida e sua comadre foram as primeiras a chegarem, estavam todas molhadas e com um sorriso disseram: “viemos, estamos aqui”!

Nos primeiros dias, dona Margarida era muito preocupada com o seu horário. Com o passar do tempo os minutos que ela saía mais cedo foram ficando importantes e ela passou a sair no horário do grupo. Outra novidade foi quando ela disse que se a comadre quisesse continuar poderia, mas, que não precisava ficar só para acompanha-la. Naquele dia, ela se libertou!

Dona Margarida continuou firme na decisão de conhecer as letras de seu nome e escreve-lo. No dia que ela conseguiu foi uma festa no grupo, todos participaram de sua alegria e de suas lágrimas de emoção.

Até hoje ela é presença alegre e fiel no grupo, seu corpo mudou, não anda mais encolhida, vai ao posto de saúde sozinha, faz compras, tem confiança nela mesma, já não depende dos outros.

E o seu filho, deixou de comer feijão? Claro que não! Mas dona Margarida não tem mais o compromisso de cozinhar feijão todo dia, ela se libertou disso também! E seu filho, certamente já experimentou o novo sabor e gostou, pois, toda vez que tem atividade extra no grupo, ele e toda a família de Dona Margarida participam também.”

Podemos perceber neste relato várias vantagens na opção pelo educador popular: a vantagem de acesso fácil ao analfabeto, sua sensibilidade no trato com ele , ouvindo sua história , seus desejos e seus medos. Através da receptividade da senhora em receber a educadora em seu lar, podemos perceber a ligação afetiva entre uma e outra e, a compreensão por parte da educadora em compreender seus limites psicológicos e físicos ( como em relação ao horário ) . Enfim, esta é uma história exemplar do tipo de relacionamento que existe entre os educadores e educandos do Letraviva. Muitos levam seus alunos ao médico, levam para tirar o RG, teve uma turma que a educadora levou suas alunas na praia (sendo que a maioria não conhecia o mar). Esta mesma educadora preparou uma verdadeira Formatura, com direito a salão de Beleza, foto e beca de formando. Isto não aconteceria numa educação formal, em que são os alunos que procuram a escola. Numa escola formal, os professores, na grande maioria, não conhecem a realidade de seus alunos e, por isso acontecem tantos problemas de relacionamento interpessoais e até pedagógicos entre professores e alunos . Muitas estratégias têm sido desenvolvidas para que, o professor da educação formal , conheça a realidade dos alunos a fim de que tenha referenciais para o processo de ensino- aprendizagem. Este caminho não precisamos percorrer, pois o educador popular tem “pós-graduação” neste princípio.

Entretanto, existe um conhecimento que, geralmente, o educador popular não possui , que é o conhecimento teórico e prático acerca do processo de ensino aprendizagem da alfabetização. Como suprir esta falta , tem sido nosso constante desafio ! Para isto investimos 30 horas de Formação inicial do educador e no decorrer dos 8 meses do projeto , 2horas e meia semanais de encontros, em grupos pequenos e coletivos, para estudos e troca de experiências entre os educadores . O caminho que temos adotado para a formação vai de encontro ao princípio pedagógico fundamental do projeto que é a consideração, por parte do educador, do conhecimento e da história de vida do educando. Como diz Paulo Freire “ Respeitando os sonhos, as frustrações , as dúvidas , os medos , os desejos dos educandos , crianças , jovens e adultos , os educadores e educadoras populares têm neles um ponto de partida para a sua ação . Insista-se , um ponto de partida e não de chegada. Crianças e adultos se envolvem em processos educativos de alfabetização com palavras pertencentes à sua experiência existência , palavras grávidas de mundo . Palavras e Temas .”( Freire , in Gadotti,2003, p.16,grifo meu ) .

Portanto o primeiro passo para a Formação é mostrar a importância e relevância do conhecimento prévio que o educando traz. O fato do educador conhecer a realidade do educando não é condição prévia de que saiba como utilizar este conhecimento para o processo de ensino aprendizagem. A formação portanto, tem esta 1a. função : de ajudar o educador a descobrir metodologias e estratégias de ensino que levem em conta o conhecimento que o educando já tem . Este conhecimento tem dois aspectos. O 1o. é acerca do que o alfabetizando já sabe acerca da leitura e da escrita , quais são suas hipóteses acerca de como se lê e escreve . O educador não pode considerar que o analfabeto tem nível zero no processo da leitura da escrita, pois ele vive numa sociedade letrada e ao longo de sua vida já realizou várias construções do que é ser leitor e escritor. A teoria da psicogênese da leitura e da escrita, nos mostra que o alfabetizando passa por vários níveis de concepção acerca da leitura e escrita até compreender de fato o código da leitura e da escrita e ser considerado alfabetizado . Portanto entendemos que é extremamente relevante ao educador popular a compreensão e a utilização dos princípios desta teoria na prática alfabetizadora. Este estudo tem mudado bastante a concepção dos educadores acerca dos “erros “ dos seus educandos , passando a considerar tais erros como hipóteses no processo de aprendizagem. Pretendemos aprofundar cada vez mais este estudo a fim de que o educador realize escolhas metodológicas conscientes, sabendo como intervir no processo de aprendizagem tanto individual quanto coletivamente.

Outro aspecto importante do conhecimento que o alfabetizando têm e que deve ser considerado no processo de aprendizagem da alfabetização é a sua história de vida e seus conhecimentos prévios acerca das outras áreas do conhecimento . Em relação ao mundo do trabalho , por exemplo , o alfabetizando adulto tem muita experiência e muito o que contribuir . Requer muita reflexão teórica e prática para que o educador saiba como utilizar todos estes conhecimentos dos educandos, na criação de vários contextos significativos à sua turma. É preciso que o educador popular não entenda alfabetização apenas como a aquisição do código escrito, é preciso que ele entenda que ler e escrever é muito mais que palavras e sílabas isoladas. Se o educador não discutir a relação entre alfabetização, letramento e cidadania corremos o risco dele se utilizar apenas dos mesmos referenciais e recursos tradicionais que provavelmente foram usados na ocasião de sua alfabetização. E ainda, corremos o pior dos riscos, dos educandos experimentarem o fracasso de não conseguirem se alfabetizarem mais uma vez.

Da mesma forma que consideramos o conhecimento prévio do educando, também consideramos os conhecimentos que o educador já possui. . Provavelmente, ele já teve outras experiências de ensinar alguma coisa em sua comunidade. Muitos, por exemplo, já foram professores de Catequese ou de Escola Bíblica evangélica, outros já ensinaram artesanato ou culinária. E, mesmo em relação a sua própria alfabetização, os educadores trazem consigo muitas recordações educacionais. Toda esta vivência deve ser aproveitada e servir de referencial para reinventar novos procedimentos. Em matéria de conhecimento sabemos que o novo se estrutura a partir de algo que já existe. Portanto é tarefa de qualquer processo de ensino aprendizagem recuperar, no educador e no educando seus próprios conhecimentos para, a partir deles, avançar a um nível superior. Assim, compreendemos a Formação, como um momento que o alfabetizador se torna aprendiz, para refletir coletivamente suas hipóteses acerca de como se ensina e de como ele, educador, aprende. É um momento em que ele confronta sua prática num diálogo constante com a teoria . E assim o educador popular vai construindo e reconstruindo sua prática alfabetizadora baseado em teorias consistentes e não apenas no senso comum. Pois compreendemos que realizar um processo de alfabetização apenas na “experiência” do senso comum, ignorando todos as descobertas científicas no campo do ensino aprendizagem da leitura e da escrita é fada-lo ao fracasso .

Tem sido gratificante ver o interesse dos educadores em estudar o campo teórico da alfabetização e letramento. E como conhecimento é poder , muitos têm se sentido “empoderados” até o ponto de rever e mudar sua prática. Sobre isto deixamos aqui a palavra do grande teórico da Educação Popular , Paulo Freire , em um dos seus livros que discute exatamente sobre a relação entre “Teoria e Prática em Educação Popular“ - “ Entendo a educação popular como o esforço de mobilização , organização e capacitação das classes populares : capacitação científica e técnica . (...)É preciso termos em mente que os grupos populares são perfeitamente capazes de aprender a significação do discurso teórico . E isso é aprendido em outra linguagem , com outra vestimenta ; o que eles não entendem é a linguagem difícil e complexa” (Freire e Nogueira , 2002, p.19 e 37, grifo meu ). E ainda em outro artigo intitulado “ Alfabetização na perspectiva da Educação Popular “ nos coloca o conceito de alfabetização que o educador popular deve trabalhar : “ Nós temos que partir do respeito do saber popular explicitado na leitura que o povo traz do seu mundo , da sua realidade . Por isso que a alfabetização , em sendo o processo de aprendizagem da leitura e da palavra , parte da leitura do mundo e volta à leitura do mundo , (...)Então, essa alfabetização assim vivida, assim encarada, fundando-se nos achados da teoria , inventando metodologias , essa alfabetização se inscreve como instrumento limitado , humilde, mas indispensável para a obtenção , a criação , aplicação e a produção da cidadania .” ( Freire, 2001, p.134, grifo meu ) .

Portanto, compreendemos que a Formação dos educadores deve ser pautado em dois pontos fundamentais : teoria e prática . Como estabelecer este diálogo é e será sempre nosso desafio ! Terminamos com a frase que tem sido nosso lema nesta 3a. etapa do projeto Letraviva :

“ nunca é tarde para aprender sempre é hora de ensinar “!

 
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