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  POESIA PARA SENTIR E GOSTAR

Flávia Cecília de Meletti Corrêa - Colégio Uirapuru

JUSTIFICATIVA

A poesia para as crianças vem de encontro ao desenvolvimento da imaginação, da expressão e da sensibilidade, assim como, o desenvolvimento da prática reflexiva que leva à criança a novas percepções, aguça a sensibilidade, a cognição e a imaginação.
Este gênero literário, quando visto como brincadeira, como jogo de palavras; ao ser memorizado e repetido, possibilita às crianças atentarem não só aos conteúdos, mas também à forma, aos aspectos sonoros da linguagem, como ritmos e rimas, além das questões culturais e afetivas envolvidas.
Assim, ao realizar com freqüência a leitura de poesias, o professor estará propiciando às crianças oportunidade para que conheçam as características próprias deste, isto é, podendo senti-lo e identificá-lo quando escutado ou lido pela criança.

OBJETIVOS GERAIS

Propiciar no âmbito prático e reflexivo a articulação dos seguintes aspectos:

• a escuta interessada de poesias, visando a percepção do sentido que o poema propõe e a capacidade de construção de sentido, reconhecimento, análise e identificação das obras e seus autores.

• A reflexão como um pensar sobre todos os conteúdos dos poemas, compartilhando perguntas e afirmações que a criança realiza instigada pelo professor a partir do contato com a poesia.

• O fazer poesia centrado na exploração, expressão e comunicação de produção de trabalhos com a ajuda do professor, propiciando o desenvolvimento de um percurso de criação pessoal.

OBJETIVOS ESPECÍFICOS

O trabalho em torno das poesias em Educação Infantil visa as oportunidades para que as crianças sejam capazes de:

• ampliar gradativamente suas possibilidades de comunicação e expressão, interessando-se pela poesia;

• participar de diversas situações de intercâmbio social nas quais possa contar as poesias que conhece, ouvir outras, elaborar e responder perguntas;

• familiarizar-se com a escrita de poemas por meio do manuseio de livros, revistas e outros e da vivência de diversas situações nas quais seu uso se faça necessário;

• escutar poesias lidas, apreciando a leitura feita pelo professor, ampliando seu conhecimento de mundo e da cultura;

• interessar-se por criar poesias; ler poesias (quando já alfabetizado ou em processo de alfabetização) e

• fruir da poesia, sensibilizar-se com ela.

A POESIA NA EDUCAÇÃO INFANTIL

Ao se introduzir a poesia nas classes de educação Infantil, deve-se lembrar que as cantigas populares e folclóricas, as canções de ninar, os versos de roda e os jogos são as experiências mais próximas que as crianças pequenas têm no campo da poesia.
E a maneira mais fácil de se tratar Poesia com as crianças é apresentá-las: lendo, declamando, escutando, sentindo. Não descartando as que já sabem, mas sim aproveitando sua vivência para o trabalho com poetas que escrevem e escreveram para elas.
As aulas devem ser instantes mágicos, jogos de aprender e ensinar. E para isso requerem que o professor tenha mãos habilidosas que possam preparar e coordenar da maneira que escolha contextos significativos para os alunos tecerem sua rede de significações. (Martins, Picosque & Guerra: 1998, p. 129)
O professor deve estar preparado e, ao ler um poema para classe, deve conhecê-lo bem: lido várias vezes antes, sentido, percebido e saboreado. Só assim irá passar a emoção verdadeira, o ritmo e a cadência e, assim, fazer com que os alunos possam perceber as passagens, estrofes e mudanças. (Abramovich: 1991, p. 95)
E esta não é uma tarefa fácil!
Rubem Alves (2004 a) sugere que os escritores deveriam imitar os compositores e, para protegerem a beleza de suas poesias, deveriam colocar no início de sua obra a informação de como deve ser lida. Pois, há textos são marcados por uma alegria infantil e devem ser lidos ao ritmo de uma criança pulando corda e dando risada. Mas, quando o clima é de tristeza, deve ser lido lentamente, com sofrimento.
Há muitos tipos de poesia, mas poucas servem para as crianças pequenas; mesmo muitas das que são feitas para elas. Devemos fugir das que têm efeito moralizador, ou são "bobinhas" e piegas, assim com devemos separar as boas poesias daquelas que têm rimas pobres e são desprovidos de emoção e sensações.
E é o professor que deverá procurar o melhor para seu aluno, pois

(...) a elaboração e a execução de um projeto encontram-se necessariamente ligadas a uma investigação — ação que deve ser simultaneamente um ato de transformação, uma ocasião de investigação e de formação, tornando-se, portanto, uma produção intelectual (Barbier apud Smole: 2000, p. 165).

Segundo o Referencial Curricular Nacional para Educação Infantil (1998) é aconselhável que as crianças realizem uma observação livre da poesia - quando apresentada pelo professor e/ou escutada, quando musicada - e que possam tecer os comentários que quiserem, fazendo com que todo o grupo participe. E, o professor deverá atuar com um provocador da apreciação dos poemas, escolhendo e socializando as falas das crianças.
O professor deve também aceitar os conhecimentos prévios das crianças e as informações que trazem de casa. Entendendo a mudança no papel do professor, que não é mais quem detém o saber, mas sim, quem detém a porta, a passagem, é quem faz a mediação. E essa mediação não significa entupir o aluno de informações, significa, levar à criança a refletir, imaginar e criar (Sodré: 2002, p. 25).
Assim como o professor deve instigar às crianças a descobrir o mundo da Poesia, seduzindo-as com ela, buscando poesias que tenham significações para elas, como brincadeiras e outras experiências infantis.
É preciso partir das preocupações que as crianças têm, pois, do contrário, só se conseguirá que decorem sem interesse os conhecimentos que deveriam ser apropriados por elas (Cortellla: 2000, p. 116.).
Um engano que os professores cometem ao se trabalhar com poesias é imaginar-se essencial que o aluno entenda o poema, esmiuçando-o com o estudo minucioso e "tradução" cuidadosa. Ocorre que a poesia é para ser sentida muito mais que compreendida. Sendo uma de suas principais características a ambigüidade, a conotação (Cunha: 1985, p. 96).
Contudo, pode-se comentar o assunto do qual trata a poesia, fazer com que as crianças levantem hipóteses sobre o tema a partir do título, oferecer informações que situem a leitura, criar um certo suspense, lembrar de outros textos conhecidos (poéticos ou não) a partir do texto lido, favorecer a conversa entre as crianças para que possam compartilhar o efeito que a leitura produziu, trocar opiniões e comentários etc.
Tudo isto sem precisar perguntar às crianças o que o autor quis dizer com o poema. E como nos escreveu

Toda interpretação começa com essa pergunta (o que ele quis dizer?). É uma pergunta que surge numa zona de obscuridade: há sombras no texto. O intérprete é um ser luminoso. Não suporta sombras. Ele traz suas lanternas, suas idéias claras e distintas, e trata de iluminar os bosques sombrios... Não percebe que, ao tentar iluminar os bosques, dele fogem as criaturas encantadas que habitam as sombras. Esquecem-se do que disse Gaston Bachelard: "Parece que existem em nós cantos sombrios que toleram apenas uma luz bruxuleante..." O inconsciente é um bosque sombrio... ( Alves: 2004 b)

A resposta a um texto nunca deve ser uma interpretação. Deve ser um outro texto. Assim, quando um professor lê um poema para os seus alunos, deve fazer-lhe uma provocação: "O que é que esse poema lhe sugere? O que é que vocês vêem? Que imagens? Que associações?". Assim o aluno, em vez de se entregar à duvidosa tarefa de descobrir o que o autor queria dizer, entrega-se à criativa tarefa de produzir o seu próprio texto literário (Paz apud Alves: 2004 b)
A verdade é que cada criança, ou adulto, ao ter um contato verdadeiro com a poesia estará realizando uma infinidade de leituras, porque lhe é infinita a capacidade de perceber, sentir, pensar, imaginar, emocionar-se e construir significações diante das diversas formas poéticas.

CONCLUSÃO

Este Projeto tem a intenção de despertar o interesse nas crianças pelo mundo mágico da poesia (e, por conseqüência, nas professoras de Educação Infantil, que deverão, antes de apresentar às crianças, ler, pesquisar, apreciar e buscar as melhores poesias a seus alunos) e que, não deixem essa magia escapar nas interpretações do que deve ser sentido.
Acredito na educação continuada, na busca do saber sempre mais e concordo com Delors quando diz:

A educação ao longo de toda a vida é uma construção contínua da pessoa humana, do seu saber e das suas aptidões, mas também da sua capacidade de discernir e agir. Deve levá-la a tomar consciência de si própria e do meio que a envolve e a desempenhar o papel social que lhe cabe no mundo do trabalho e da comunidade. O saber, o saber-fazer, o saber viver junto e o saber-ser constituem quatro aspectos, intimamente ligados, de uma mesma realidade. (Delors: 1999, p. 106-107)

E, por fim, concluo que o professor, ao trabalhar com poesias com crianças de Educação Infantil, deve:

? PREPARAR-SE
Pesquisar e ler muito poemas antes de planejar a aula, procurando sempre coisas novas e diversificando os temas.
? VALORIZAR
Investir na hora de apresentar a poesia para os alunos. Fazendo-os gostar do poema logo no primeiro contato.
? SENSIBILIZAR
Despertar a sensibilidade das crianças, colocando uma música de fundo para que as crianças relaxem. Pode-se aproveitar o momento para sugerir imagens bonitas, como um campo ou lago.
? INTRODUZIR A CRIAÇÃO
É o momento em deve-se fazer as crianças criarem, ditando, desenhando, escrevendo. Deve-se começar pelos temas mais concretos, próximos da realidade delas. E, com o tempo, introduzir temas que exijam maior grau de abstração.
? ENCORAJAR
Fazer poesia juntamente com as crianças, poemas coletivos ou em grupos em que cada um sugere um verso. Assim, irão se sentir mais seguros para criar sozinhos.
? DAR LIBERDADE
Deixar que se expressem de sua maneira. Ler o para a criança o que ditou ou escreveu é uma boa maneira para que ela perceba que há algo de errado, como uma rima sem sentido.
? ESTIMULAR
Fechar o projeto com algum evento, isso dará mais estímulo às crianças. Pode ser uma apresentação, um livro de poesias etc.

REFERÊNCIAS

ABRAMOVICH, Fanny. Literatura infantil: gostosuras e bobices. 2 ed. São Paulo: Scipione, 1991.

ALVES, Rubem. Como ensinar o prazer de ler. São Paulo: Jornal Folha de São Paulo, suplemento Sinapse, 30/3/2004 a.

. Interpretar é compreender. São Paulo: Jornal Folha de São Paulo, suplemento Sinapse, 27/4/2004 b.

BRASIL, Ministério da Educação e do Desporto. Secretaria de Educação Fundamental. Referencial curricular nacional para a educação infantil. Brasília: MEC/SEF, 1998. Volume 03.

CORTELLA, Mário Sérgio. A escola e o conhecimento - fundamentos epistemológicos e políticos. 3ed. São Paulo: Cortez: Instituto Paulo Freire, 2000.

CUNHA, Maria Antonieta Antunes. Literatura infantil: teoria e prática. 3 ed. São Paulo: Ática, 1985.

DELORME, Maria Inês de Carvalho. Leveza: tudo o que é sólido desmancha no ar. In Série de estudos/MEC - Secretaria de Educação a Distância: Reflexões sobre a Educação no próximo milênio, 1998.

DELORS, Jaques (org.). Educação: um tesouro a descobrir - Relatório para a UNESCO da Comissão
Internacional sobre educação pára o século XII. 3 ed. São Paulo: Cortez; Brasília, DF: MEC: UNESCO, 1999.

MARTINS, Mirian Celeste; PICOSQUE, Gisa & GUERRA, Maria Terezinha Telles. Didática do ensino da arte: a língua do mundo - poetizar, fruir e conhecer arte. São Paulo: FTD, 1998.

SMOLE, Kátia Cristina Stocco. A matemática na educação infantil: a teoria das inteligências múltiplas na prática escolar. Porto Alegre: Artmed, 2000.

SODRÉ, Muniz. Cultura, diversidade cultural e educação. In: Multiculturalismo: mil e uma faces da escola, Azoilda Trindade (org.). Rio de Janeiro, DP&A, 2002.

 
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