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  O ENSINO DE MATEMÁTICA NAS SÉRIES INICIAIS, CONCEITOS ESPONTÂNEOS E CONCEITOS CIENTÍFICOS.

Profª Jane Carvalho Costa – UNICSUL - Mestranda no Ensino de Matemática
Profª Titular Dra. Laura Marisa Carnielo Calejón – UNICSUL

Mediante a realidade em que estou inserida, onde profissionalmente atuo como professora coordenadora da rede Estadual de Ensino, após quinze anos lecionando nas primeiras séries do Ensino Fundamental, deparei-me com posturas que menosprezavam a importância e o grande papel da Matemática na vida e, por conseguinte na escola, limitando-a a transcrição de algarismos e operações efetuadas entre estes, não se apropriando de conceitos fundamentais como: aprender a valorizar a matemática, tornar-se um solucionador de problemas; aprender a comunicar matematicamente; e aprender a raciocinar matematicamente.

Considero que a matemática é presente na vida social de qualquer indivíduo: na ida ao supermercado, na construção civil, nas contas a pagar, ou mesmo na receita daquele “bolo da vovó” e as crianças trazem esses conceitos que devem ser explorados e veiculados a saberes científicos que tenham significados e utilização em suas vidas, no entanto na escola a Matemática perde sua intensidade.

Infelizmente incompreendida por muitos, que a transformaram em “disciplina escolar”, fora do contexto; com “conceitos” que devem ser aprendidos, tais como: a memorização de números, formas geométricas, em cima, em baixo, entre, menor que, maior que, uma longa lista que deverá ser alcançada com conteúdos mínimos para cada série, a serem seguidos e não vinculados à prática do educando.

A cobrança de bom desempenho e controle acaba por transformar a Matemática em matéria obrigatória, pouco interessante e aversiva para muitos alunos, que mesmo antes de tentarem aprende-la já a concebem como algo intransponível a qual somente alguns privilegiados por uma “inteligência superior” podem ter sucesso.

Faz-se necessário um questionamento: Por que a grande maioria dos educadores transforma a Matemática num grande ”monstro de sete cabeças?” E não veiculam conteúdos que incorporem conceitos que tenham significado e utilização em suas vidas? Vemos como essencial que o professor conheça a realidade social de seus alunos para que possam assim relacioná-los aos conceitos científicos que devem ser viabilizados pela escola.

A escola, foco da pesquisa, atende ao primeiro ciclo do Ensino Fundamental, situada em um bairro periférico, carente de oportunidades de lazer e cultura, em meio a invasões de terras, onde encontramos famílias numerosas e com baixa renda mensal, a maioria não possui salário fixo, dependendo assim de serviços esporádicos para manutenção da família, poucos pais são presentes na vida escolar de seus filhos, deixando para escola a tarefa solitária de criar situações de aprendizagem através da autonomia do educando.

Nesta Unidade Escolar há profissionais que não por displicência, mas por desconhecimento da amplitude que a Matemática exerce em suas vidas, e na de seus alunos, a desvalorizam; cabe aqui ressaltar que professores do Ensino Fundamental de 1ª a 4ª série não tiveram uma formação acadêmica direcionada para o Ensino de Matemática.

Com facilidade estes professores repetem o que vivenciaram em sua própria formação, onde tiveram “sucesso” ao memorizar enormes listas de números, ou regras incompreensíveis sem entendê-las e sem se importar com elas, e após a prova, estas eram esquecidas com enorme satisfação, pois “nunca iriam servir para nada”.

Pude observar na conversa entre professoras no Conselho de Classe, a fala de uma delas e, por conseguinte o apoio das demais, posicionava-se em relação ao Ensino da Matemática, ao referir-se às notas insuficientes dos alunos em Língua Portuguesa afirmou: “A matemática nas primeiras séries é só reconhecimento de números e algumas operações, a minha preocupação está na leitura”.

Um olhar crítico sobre a fala desta professora, afirma a grande desvalorização do conhecimento matemático, não desmerecendo o ensino da língua materna. O reconhecimento do número parece ser, pelo discurso, algo muito simples e fácil. O que a preocupava era a leitura.

Algumas questões surgiram na minha mente. Seria tão simples e fácil o reconhecimento do número? O número pode ser reduzido à grafia de um símbolo? A aquisição de conceitos matemáticos não implica na necessidade de leitura? Todas essas questões foram contribuindo para organizar e constituir um problema de investigação.

A construção do problema inicia pelo questionamento sobre a necessidade do desenvolvimento matemático desde as séries iniciais e as relações entrem a aprendizagem da matemática e desenvolvimento das funções psíquicas superiores. Além disso, sendo a aquisição de leitura e escrita uma aquisição e capacidade de compreender uma linguagem simbólica, entendemos que a matemática constitui-se em uma das linguagens simbólicas que o sujeito deve compreender.

Desta forma, tão importante quanto aprender a ler palavras e textos, como uma forma de linguagem, torna-se necessário que o aluno aprenda a ler outras linguagens e entre elas a linguagem matemática que expressa relações existentes na vida e no cotidiano.

Um número não se reduz à grafia de um símbolo, ele indica quantidades existentes na natureza. Assim nossos alunos devem aprender ler algumas palavras ou textos, porém a vida exige muito mais, e a leitura e o conhecimento Matemático, assim como as demais áreas do conhecimento são essenciais para o pleno desenvolvimento do educando, constituindo-se em uma forma de leitura da realidade.

O processo de aprendizagem não se limita à escola e ao iniciar o ensino fundamental o aluno deve ter construído conceitos que foram organizados no espaço da educação informal como aquele oferecido pela família e pela educação pré - escolar. Freire já apontava que a leitura das palavras e poderíamos acrescentar de outros símbolos é precedida pela leitura do mundo.

O Enfoque Histórico – Cultural permite compreender o movimento dialético e em espiral que permite a criança passar de um pensamento concreto situacional a um pensamento abstrato e generalizador. A aquisição da leitura e da escrita, o domínio de símbolos garante a emergência do pensamento abstrato e generalizador. O ato cognitivo resulta de uma síntese cognitivo-afetiva. As vivencias, as emoções, o aval dado pelo outro que olha o trabalho e a ação do sujeito constituem-se em condições de formação do sujeito.

Desta forma, a compreensão e valorização do contexto histórico cultural destes alunos constituem-se em condição importante para a organização de ações pedagógicas capazes de promover o desenvolvimento do educando. Oliveira diz que para Vygostky “A trajetória do desenvolvimento humano se dá, de fora para dentro(...)o qual jamais existe enquanto está fora de um grupo cultural específico, estes são sempre definidos culturalmente”.

Estas condições do desenvolvimento psíquico podem ser mais bem compreendidas a partir das leis de desenvolvimento elaboradas por Vygotsky. A lei genética fundamental do desenvolvimento indica que a função psíquica existe duas vezes, primeira como relações interpessoais que ocorrem no contexto social em que o sujeito vive e depois como funções intrapsíquicas, ou seja, de fora para dentro. Dito de outro modo, o interpessoal antecede o intrapsíquico. Assim não se pode esperar que uma criança tenha autodisciplina ou uma organização dos seus atos quando a realidade ou o contexto em que essa criança viveu não apresentava nenhuma ordem ou regra para sua organização.

Características culturais diferem entre países, cidades, bairros e famílias, o reconhecimento que o aluno é um ser único que deve ser respeitado em suas habilidades e limitações, não podemos deixar de ressaltar a influência da Globalização, que ultrapassa o convívio cotidiano, a mídia indiretamente cria uma “cultura”, impossibilitando culturas “puras”, ou seja, criadas somente pelo convívio direto entre pessoas daí a importância do grupo social na mediação entre cultura e o individuo e na promoção do desenvolvimento, segundo Oliveira “(...) a importância da atuação dos outros membros do grupo social na mediação entre cultura e o indivíduo e na promoção dos processos interpsicológicos que serão posteriormente internalizados”. As relações entre relacionamento e desenvolvimento humano são fatores que definem culturalmente uma pessoa.

Para Vygotsk a transformação que o individuo vivencia, ganha essencial destaque, entender o curso de seu desenvolvimento, não somente a valorização do acabado. O professor tem o papel de intervir, neste processo provocando avanços que só serão possíveis com esta interação.

Professor e aluno devem ser ativos no processo, ainda que a atividade de cada um seja de natureza diferente. Resulta daí a concepção de mediação como processo de mão dupla em que o professor produz ressonância no aluno e esse no professor. Resulta ainda o conceito de Zona de Desenvolvimento Proximal em que o professor é um outro que demonstra intencionalidade e a partir do domínio do conteúdo que ministra pode organizar níveis adequados de ajuda a partir do desenvolvimento real do aluno, adiantando-se ao desenvolvimento já adquirido.

A Zona do Desenvolvimento Proximal é à distância entre o desenvolvimento real e o potencial, que está próximo, mas ainda não foi atingido. Na perspectiva de Vygotsk não podemos ignorar os conhecimentos consolidados gerados por um amplo convívio social e tentarmos iniciar o processo de aprendizado como se nossos alunos fossem “nulos” e ignorassem toda construção realizada através da interferência do meio em que estão inseridos.

Estas intervenções não devem levar a uma postura espontaneista, como uma volta ao “tradicionalismo educacional”, mas sim a valorização do meio cultural e as relações entre indivíduos. Vygotsk entende que os significados transmitidos pelo grupo social são reconstruídos e reelaborados pelo indivíduo, estas constantes recriações da cultura são responsáveis pelas transformações da sociedade humana.

Não há como conceber uma Educação Matemática onde foram criados paradigmas como: a ordem que se segue ao ensinar as quatro operações: adição, subtração, multiplicação e divisão, seguida rigorosamente esta ordem. Sendo que as vivências destas crianças são pautadas por divisões de brinquedos, roupas, e por que não comida. Será que o conceito divisão não está bem presente em suas vidas?

Além, da operação de divisão estar presente no cotidiano da criança, ela está associada e produz emoções que organizam a compreensão da realidade na forma de vivências, daí a relação cognitivo-afetiva.

Há a necessidade de um olhar do educador para além do momento atual, do produto finalizado, o “olhar prospectivo” de Vygotsk, para além do que já é conhecido. Outros conhecimentos presentes no cotidiano, que o aluno já incorpora, são ignorados, quando poderiam ser criados procedimentos de ensino capazes de promover o desenvolvimento.

Segundo D`Ambrósio o conjunto de conteúdos e de reflexões que o individuo domina, isto é, a teoria serve de apoio para definição de sua prática, estas estão vinculadas pelo processo de geração do conhecimento, através de novas teorias as práticas são renovadas e ampliadas.

Procurando entender as dificuldades que algumas crianças apresentam no aprendizado e desenvolvimento matemático, inicialmente foi composto o grupo, “objeto da minha pesquisa atual”, com doze crianças, suas idades variam entre seis e oito anos, freqüentam as primeiras e segundas séries do Ensino Fundamental, e em comum apresentam dificuldades ao se depararem com situações matemáticas, essas foram apontadas por seus professores e a partir deste grupo constitui minha pesquisa.

A metodologia adotada é qualitativa, a primeira parte da pesquisa será composta de: entrevista com os alunos, entrevistas com as famílias, estabelecimento de visitas na comunidade em que os alunos residem e se possível conhecimento do ambiente familiar e quais aspectos matemáticos estão sendo contemplados, conhecimento do ambiente escolar anterior, visando reconhecer como as escolas de Educação Infantil vêem o aprendizado da Matemática. Estas são algumas estratégias para conhecer a realidade histórica cultural que estes alunos estão inseridos.

Através da pesquisa espero poder conhecer quais aspectos matemáticos estão presentes na vida destas crianças, possibilitando uma reflexão, e o aprendizado, articulador do desenvolvimento, acreditando que os processos interpsicológicos promovidos por membros de grupos culturais, mediando cultura e individuo serão posteriormente internalizados. Conhecer o que a criança é capaz de fazer sozinha porque já tem um conhecimento consolidado, conhecimento Real.

O conhecimento deste contexto histórico ajudará no entendimento e direcionamento da pesquisa segundo Beatón :

“Está relación entre lo biológico y lo ambiental y, em particular, com lo sociocultural em el ser humano, se puede ver em análisis Del por qué este resulta tan indefenso em el nacimento em comparación com otras espécies, Este hecho nos dice que hay um control biológico diferente, que se basa em uma mayor plasticidad en relación com el ambiente, que exige que en se adquirem los recursos para la vida, la adaptación y su dessarrolo em el médio social y cultural que lo rodea. Solo a través del contacto activo com los adultos que lo rodean, el ser indefenso que nasce, se convierte em los adultos que lo rodean, el ser independiente que no solo se adapta, pero que lucha y transforma conscientemente el médio que lo rodeia.”

Bibliografia

BRASIL, Ministério da Educação e do Desporto. Secretaria da Educação Fundamental. Parâmetros curriculares nacionais: Matemática. Brasília: MEC / SEF, 1997.

BEATÓN, Guilherme Arias. Evalución y Diagnóstico - en la Educacacioón y el Desarrollo – Desde el Enfoque Histórico Cultural. São Paulo, Cromosete, 2001.

D`AMBROSIO, Ubiratam. Uma Relação entre Teoria e Prática Pedagógica na Educação Infantil e Fundamental. Etinoamigos de Ubiratan D’Ambrósio, Documentos relatos & Livros, Página do Site Oficial de Ubiratam D’Ambrosio, 2000.

DUARTE, Newton. Vigotski e o “Aprender a Aprender” – Crítica às Apropriações Neoliberais e Pós-Moderna da Teoria Vigotskiana, Campinas/ SP, Autores Associados, 2000.

FREIRE, P. Pedagogia do Oprimido. 6 ed. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1976.

FONTES, Martins. A Construção do Pensamento e da Linguagem, São Paulo, Martins Fontes Editora, 2001.

______________ O Desenvolvimento Psicológico na Infância, São Paulo, Martins Fontes Editora, 1999.

_____________ Pensamento e Linguagem, São Paulo, Martins Fontes Editora, 2000.

OLIVEIRA, Marta K. O pensamento de Vygostky como fonte de reflexão sobre a educação, Cadernos CEDES, ano XX, n.35, 2000.

 
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