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  A PRESENÇA E A INFLUÊNCIA DA EDUCAÇÃO FÍSICA NA VIDA DE MENORES INFRATORES

Juliana Moreira da Costa - UNESP
Profa. Dra.Maria Peregrina de Fátima Rotta Furlanetti


Para entendermos o papel da Educação Física hoje faremos um breve histórico de sua presença na humanidade.

MARINHO (1983), esclarece que a atividade física esteve muito presente na vida do ser humano. No período denominado pré-histórico os seres humanos dependiam do movimento, do ato físico para sua sobrevivência. Os motivos destas dependências eram muitos, a situação de nomadismo em que viviam, que fazia com que as pessoas realizassem longas caminhadas ao longo das quais lutavam,corriam, saltavam, nadavam e a forma com que eles se alimentavam, pela caça, pela pesca e faziam seus utensílios e armas.

Uma das atividades físicas mais significativas em muitos momentos históricos,para o autor e até hoje muito utilizada é a dança, que é uma das formas do ser humano mostrar suas qualidades físicas, de expressar seus sentimentos, e esta pode ter um caráter lúdico ou ritualístico.

O autor salienta ainda, que outra manifestação importante é o jogo, pois o homem apresenta comportamentos que independem do seu estágio cultural, que é um papel social da maior relevância.

Os egípcios, que deixaram seus registros através de murais de seus templos e monumentos funerários destacam-se numerosas imagens de luta, pois foram obrigados a se exercitarem provocando um treinamento muito rigoroso de seus soldados, assim podemos observar que a atividade física mais uma vez é utilizada em razões de acontecimentos sociais.

A civilização grega marca o nascimento de um novo mundo civilizado, agora o ocidental. A pedagogia que determinou os caminhos a serem percorridos pela educação grega tem o grande mérito de não divorciar a Educação Física da Educação Intelectual e da Educação Espiritual.

A Educação Grega nos mostra a importância do homem completo, aquele que pensa, sente e que mantém seu corpo físico em ordem “Men sana em Corpore Sano”, isto dava o significado de todos os princípios humanistas, onde se considerava que o homem era somente humano quando completo. O povo grego veio se caracterizar pela sua Educação Guerreira, porém não deixavam de lado as artes musicais e a retórica.

Refletindo sobre a historicidade da prática da Educação Física podemos salientar que apesar de que nem sempre houve o mesmo significado para todos as civilizações, as atividades físicas sempre puderam ser consideradas como elemento característico na escala cultural e social da humanidade.

MARINHO, (1983) esclarece que a origem dos famosos jogos gregos, entre eles os Olímpicos, está situada na Antiguidade Ocidental, eram realizados como em rituais na morte de uma pessoa importante. Mais tarde os jogos Olímpicos se ampliam e tornam-se festas populares e religiosas em homenagem a Zeus onde todos participavam e além de envolver competições atléticas tinham provas literárias e artísticas.

Este autor declara que os Romanos tiveram influências de vários povos, mas as mais significativas foram a dos gregos, porém a aspiração humanista que animava o esporte grego nunca atingiu o cenário romano.

Acreditamos que ao longo da história o homem na separação de quem trabalhava e quem pensava separou o corpo do intelecto, a atividade física muito influente para os nobres ficou sendo esportiva, e atividade intelectual para os momentos de decisão e do trabalho científico, de elite. A Educação Física foi se moldando com o contexto histórico e cultural

Hoje, o campo de debates se fertilizou e as primeiras produções surgiram apontando o rumo das novas tendências da Educação Física. Muitas entidades estudantis, sindicais e partidárias identificados com tendências progressistas contribuíram para o desenvolvimento da Educação Física no Brasil, e, isto está claro na Metodologia do Ensino de Educação Física.

Considerando que a sociedade em que vivemos hoje é marcada pela presença de classes sociais antagônicas, cujo conflito se manifesta também no interior da instituição escolar, possível (e de certo modo é necessário) ao professor dentro da especificidade do trabalho que realiza, direciona-lo no sentido da crítica e da transformação da realidade em favor das classes oprimidas. (SILVEIRA,1995)

Acreditamos que a Educação Física tenha um papel importante a desempenhar na sociedade, principalmente com os adolescentes e jovens. Mas, numa prática que construa no cotidiano uma vida saudável, isto é, onde a importância esteja no ato de viver bem , em buscar condições de qualidade de vida, e não nos modismos de época, como hoje temos jovens se agredindo através de muita malhação em academias.

Acreditamos, também, que prática educativa depende da competência profissional do professor, se ele está disposto a se colocar a serviço da transformação da realidade, ou se está a serviço do esporte como meio de competitividade. (Silveira,1995)

Paulo Freire, 1997, declara que para essa transformação o educador deve estabelecer uma relação maior com o educando, ele deve ser sensível à linguagem popular, pois o que não é sensível não pode se comunicar com o educando, perde a eficiência e é incompetente. A partir daí o educador tem que conhecer a práticas culturais dos seus educandos, pois assim, estará mais próximo dos desejos, anseios e sonhos de seus alunos.

Para SiILVEIRA, 1997, além de ser transformadora a prática educativa é também política, por isso um professor deve ter um posicionamento, pois a neutralidade é impossível na medida em que o educador se posiciona na neutralidade ele ficará em concordância do sistema atual.

Falando especificamente dos adolescentes em conflito com a lei nós utilizamos estabelecer um vínculo afetivo com eles, de confiança, e credibilidade, (FURLANETTI,2001). Confiança para que eles possam nos contar seus sonhos, e através destes, as suas necessidades e a partir daí a credibilidade, saber o que conhecemos e podemos colaborar com eles.

Em nosso trabalho procuramos através de atividades físicas e lúdicas, uma consciência crítica de desalienação e de humanização onde os façam enxergar a situação de violência e opressão que existe sobre eles, identificando-se como sujeitos de uma sociedade, que possuem valores e que os reconheçam e consigam se libertar através também do resgate da auto-estima.

Começamos, o trabalho na Secretaria de Assistência Social de Presidente Prudente em maio deste ano no projeto Alerta, este trabalho visa incluir o adolescente na escola através de atividades de educação física, cinema,artes, e de leitura e escrita.

Freqüentam o grupo 25 adolescentes, tendo idade entre 13 e 18 anos. Apesar de que não são todos que aparecem todos às vezes,há uma mobilidade de pessoas, pela própria estrutura das mediadas sócio educativas.

Nos primeiro encontros eles estavam tímidos, sem conversar muito conosco, mas ao longo dos encontros eles tem se soltado mais, é claro que com exceções. Para que pudessem nos conhecer e nós a eles, fizemos uma apresentação através de desenhos de seus nomes, e assim participamos junto com eles contando a nossa história e de nossos nomes.

Como já dissemos as relações afetivas são muito importantes para que se estabeleça um vínculo de confiança e credibilidade; sabemos, hoje, que a conquista é o caminho para melhor integração e melhores resultados.

No segundo encontro levamos os adolescentes para conhecer a UNESP, que fica a duas quadras da Secretaria e muitos deles nunca tinham entrado. Muitos ,ainda,não sabiam que existia uma universidade pública em sua própria cidade, e também, a quem servia esta universidade. Esta visita foi muito importante para que eles pudessem compreender quem são os estagiários que estão ali lidando com eles.

No caminho para a Faculdade eles fizeram muitas perguntas, quando chegamos na parte de Educação Física perguntaram se os portões sempre ficavam abertos, se no final de semana eles poderiam entrar, quem estudava lá, quanto custa para estudar, se poderiam usar a piscina, quadras, enfim, eles perguntaram muitas coisas, demonstraram bastante interesse no espaço e nos materiais da Educação Física.

Apesar de todo este interesse alguns queriam ir embora e reclamavam o tempo inteiro, outros se distraiam tanto que nem lembravam que tinham colegas esperando para conhecer outro lugar, foi assim no laboratório de anatomia, na academia e na pista de atletismo, lugares que a maioria deles só tinham visto pela televisão.

Em outro encontro levamos os adolescentes para conhecer o Centro de Ciências, os laboratórios de Física e de Química. A participação e o interesse foi bem parecido com o da Educação Física, dava para ver nos olhos deles o encantamento das experiências e objetos que eles nunca tinham visto de perto.

Acredito que o grande interesse demonstrado é devido ao fato de conhecer algo novo, de entrar em contato com materiais e objetos que eles nunca imaginaram poder ver de perto e da forma e finalidade que foi proposta a visita, conhecer para escolher o que querem utilizar na Faculdade através do projeto e sem muito compromisso

Em outros encontros fizemos oficinas em forma de debate, viabilizando o tema através da música hip hop, muito conhecida por eles, por desenhos, onde o material para a pintura foi escolhido por eles (tinta, canetas, lápis de cores, etc) e dependendo da letra da música ou de seus desenhos buscamos os significados de seus sonhos, da violência, todas com o caráter central do nosso objetivo, buscar a conscientização da opressão existente, da violência que sofremos, buscando criar um vínculo afetivo, de confiança e credibilidade, e felizmente até agora, dentro do possível os objetivos iniciais estão sendo alcançados para o objetivo final, o da conscientização com uma posição transformadora de um mundo com qualidade de vida, para a inclusão, seja ela escolar ou social.

Referências Bibliográficas

COLETIVO DE AUTORES. Metodologia d ensino de Educação Física,1992, Cortez, São Paulo, Brasil
FREIRE, P. Política e Educação. 3ª Edição,1997, Cortez, São Paulo, Brasil.
FREIRE, P. Pedagogia do Oprimido, 17ª Edição, 1987, Paz e terra, Rio de Janeiro, Brasil.
OLIVEIRA, V.M. O que é educação física. 8ª.Edição, 1990, Brasiliense, São Paulo, Brasil
SILVEIRA,R. O Professor na Transformação da Realidade;NUANCES, VOL.1-nº 1, 1995.Presidente Prudente,São Paulo, Brasil

 
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