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  BLOGS COMO EVENTOS DE LETRAMENTO

Daniel Dantas - Mestrando do Programa de Pós-Graduação em Estudos da Linguagem – Universidade Federal do Rio Grande do Norte (PPgEL/UFRN)

Nesta comunicação nos propomos a discutir os blogs, espécie de páginas pessoais na Internet, como eventos de letramento digital. Para isso, nos apropriamos das noções de eventos, práticas e mundos de letramento (Barton, 1993; Street, 1993; Hamilton, 2000; Marcuschi, 2001) e tentamos abordá-las a partir da perspectiva do letramento digital. Além disso, discutimos a escrita vernacular e colaborativa com Camitta (2000) e Gollin (1999), procurando encaixar tais conceitos no evento de letramento proporcionado pelos blogs. Assim, tomando o hipertexto como espaço para realização de eventos de letramento, podemos caracterizá-los, em particular os blogs, como próximo do modelo de escrita colaborativa incidental, segundo a classificação de Gollin (1999: 269), já que costuma ser o produto final de interações breves e altamente focalizadas entre dois sujeitos no campo virtual, um dos quais pode ser chamado de “escritor”, como é o caso dos autores de blogs. Concordamos com Marcuschi (2004: 64) quando afirma que a escrita é o contexto lingüístico em que se verifica maior força da computação, sendo ela a base da Internet, o que contribui na argumentação a favor deste novo letramento digital. Mais do que isso, conduz necessariamente a pesquisa à área pouco explorada do ciberespaço e da Internet.

INTRODUÇÃO
As preocupações com a formação do sujeito como agente social têm passado, nas últimas décadas, pela discussão das noções de letramento e alfabetização, inclusive pelas tentativas de relacionar esses campos teóricos. Acreditamos que o campo virtual da Internet e a cibercultura a ele filiada e correspondente são importantes espaços onde se inserem questões de letramento. Tais questões se tornam nítidas e necessárias em relação ao nosso campo de pesquisa, os blogs, e ao nosso objeto, os processos de intersubjetividade virtual na leitura de blogs. Na tentativa de entender o letramento, ou letramentos diversos, é interessante a definição de pelo menos quatro conceitos mais básicos: o próprio conceito de letramento, as noções de eventos, práticas e mundos de letramento.
Assim, em primeiro lugar, quando nos propomos a discutir o letramento, buscaremos uma forma de conceituação. Corroborando com Marcuschi (2001: 15, nota 2), definimos letramento como se constituindo em eventos nos quais se manifestam a escrita, a compreensão e a interação de forma profundamente imbricada. Ainda nesse sentido, destacamos que, para Soares (2000), letrar-se é adquirir condições de fazer uso social das habilidades de ler e escrever. Ampliando esta noção, Macedo (1990: 107) defende que um sujeito se torna letrado quando pode fazer uso da língua para a reconstrução social e política, ou seja, quando se torna capaz de ler o mundo.
Uma outra definição importante do conceito é dada por Street (1993), que cita Rockhill, quando afirma que o letramento está mergulhado nas práticas discursivas e nas relações de poder. Dessa forma, ele é socialmente construído, materialmente produzido, moralmente regulado e carrega um significado simbólico que não pode ser captado por uma redução a qualquer destes aspectos (ROCKHILL apud STREET, 1993: 8-9). Além disso, Street (1993) afirma que a aquisição do letramento potencializa o sujeito a desafiar o discurso dominante. Como veremos adiante, esta noção aproxima-se à visão da pedagogia crítica.
Contemporaneamente tem-se falado bastante sobre formas de letramento envolvidas pelo desenvolvimento das novas mídias digitais e virtuais. O computador e a Internet têm propiciado espaço para que surja uma nova noção de letramento: o letramento digital. O ser letrado digitalmente significa ter capacidade de participar, de forma ativa, de eventos de letramento ocorridos no campo virtual, ou simplificando, na Internet. A Internet é o espaço que privilegia a interação social por meio do uso ativo da leitura e da escrita. Desse modo, fenômenos como blogs se caracterizam como eventos de letramento digital.

PRÁTICAS, EVENTOS E MUNDOS DE LETRAMENTO
O primeiro passo, então, nesse processo de entender os blogs como eventos de letramento é a compreensão do conceito em questão. Eventos de letramento são entendidos aqui como um grupo de atividades sociais específicas em que ler e escrever possuem regras definidas (BARTON, 1993: viii). Como foi dito anteriormente, no caso das mídias digitais e da Internet, esses eventos ocorrem em espaços virtuais, onde se sobressaem a leitura e a escrita, e onde os sujeitos, para serem ativos, precisam dominá-las. Hamilton (2000: 18) entende que os eventos de letramento são apenas a ponta do iceberg de onde podem ser inferidas as práticas de letramento dos sujeitos envolvidos. A posição de Hamilton já nos direciona rumo à terceira noção necessária em nosso estudo.
De modo semelhante e decorrente, as práticas de letramento são vistas como modos culturais em geral de uso da escrita e da leitura, utilizados, obviamente, em eventos de letramento (Barton, 1993: viii). Segundo Marcuschi (2001: 19), práticas de letramento são “um tipo de processo histórico e social que não se confunde com a realidade representada pela alfabetização regular e institucional”. As práticas são dados invisíveis, somente sendo possível inferi-las a partir dos eventos de letramento (HAMILTON, 2000: 18). Além disso, as práticas de letramento são aprendidas em eventos de letramento (BARTON, 1993). É necessário destacar que o artigo de Hamilton (2000) trata de uma pesquisa sobre análise de fotografias dos jornais a partir da perspectiva dos estudos do letramento. Obviamente, por trabalhar com os conceitos mais gerais do letramento, Hamilton (2000) serve, em nossa opinião, como exemplo na condução de pesquisa. Além disso, o fato de que nosso trabalho e o de Hamilton se dirigem à análise de veículos midiáticos, que reproduzem recortes de eventos sociais de letramento, mesmo que em linguagens diferentes, nos aponta a possibilidade de utilizarmos as categorias e os procedimentos de análise adotados por Hamilton.
O último conceito que julgamos fundamental no entendimento da questão do letramento é a noção de mundos de letramento. Segundo Barton (1993), os letramentos e suas práticas estão bastante situados em seu contexto sócio-cultural específico, ou seja, em seus mundos de letramento. Desse modo, cada grupo social e cultural vai ter seus particulares mundos de letramento, já que cada um vai ter suas demandas e experiências diferentes que produziram mundos de letramento distintos. Neste caso, o que denominamos anteriormente de campo virtual poderia ser entendido como mundos de letramento digital, nos quais aparecem algumas características peculiares. Por exemplo, no mundo dos blogs surgem demandas e experiências culturais e são exigidas competências de leitura e escrita diferentes daquelas demandadas pelo gênero “bate-papo” online, em suas formas. Assim, constituem de dois mundos de letramento digital distintos.
Como analisar de maneira apropriada o letramento a partir desses conceitos? Hamilton (2000: 17) indica uma possível resposta, ao descrever alguns elementos básicos dos eventos e práticas de letramento, que servem como critérios de análise e podem ser adotados de maneira coerente também no entendimento da Internet e dos blogs a partir dos estudos do letramento, apesar de serem apresentados, na pesquisa de Hamilton, focados nas análises de fotografias. Esses elementos se distribuem em dois grandes grupos: de um lado, estão os elementos visíveis nos eventos de letramento; de outro, aparecem os constituintes invisíveis das práticas de letramento.
Os elementos visíveis nos eventos de letramento são: os participantes, ou seja, as pessoas que interagem com os textos escritos; o ambiente, isto é, as circunstâncias físicas imediatas nas quais a interação tem lugar; os artefatos, ou seja, as ferramentas materiais e acessórios que estão envolvidos na interação, o que inclui os próprios textos; e as atividades, isto é, as ações desenvolvidas pelos participantes no evento de letramento.
Já os elementos invisíveis das práticas de letramento, que apenas podem ser inferidos a partir dos dados dos eventos, são: os participantes ocultos, quer dizer, as outras pessoas ou grupos que estão envolvidas nas relações sociais de produção, interpretação, circulação e qualquer outra forma de regulação de textos escritos; o domínio prático no qual o evento tem lugar e de onde tira seu sentido e propósito social; todos os demais recursos trazidos para a prática de letramento, incluindo valores não-materiais, entendimentos, modos de pensar, de narrar, habilidades e conhecimento; além de rotinas estruturadas e trilhas que facilitam ou regulam as ações, como as regras de elegibilidade, ou seja, a definição de quem pode ou não se engajar em determinadas atividades, ou quem pode ou não realizar certas ações.
Os estudos contemporâneos do letramento destacam o confronto entre o “modelo autônomo” – que tende a enfocar o aspecto técnico e individual do letramento, tomando as práticas como neutras e universais (MORTATTI, 2004: 102 – 103), privilegiando o letramento escolar de uma forma conservadora, aproximada a uma educação bancária – e o “modelo ideológico” ou “crítico”, preocupado com a sua dimensão social. Este modelo é o que destacaremos, com base em Street (1993), Street & Street (1991) e Baynham (1995). Street (1993: 7) entende que um modelo ideológico, chamado de crítico por autores como Baynham (1995), seria o mais apropriado de letramento, já que leva em conta todo o contexto sócio-cultural, político e de relações de poder da sociedade na análise do processo de letramento. Um letramento crítico implica necessariamente a operação em nível da linguagem como prática social, envolvendo identificar o que é problemático e questionar amplamente contexto e situação (BAYNHAM, 1995: 24).
Baynham (1995: 16) entende que letramento é, primeiramente, uma construção sócio-política e corresponde a uma teoria da linguagem escrita e falada. Desse modo, letramento pode ser entendido como os usos de leitura e escrita para propósitos sociais nos contextos de uso. Baynham (1995: 1 – 8) apresenta algumas premissas básicas sobre o assunto: letramento tem se desenvolvido e é moldado para servir a um propósito social na criação e mudança de significados; letramento é melhor entendido no seu contexto de uso; letramento, como todos os usos da linguagem, é ideológico; letramento precisa ser entendido em termos de poder social; letramento pode ser crítico. Por isso, as definições de letramento são sempre ideológicas e devem ser sensíveis aos propósitos sociais, demandas e processos com os quais eles são construídos.
A noção de letramento crítico se aproxima e até mesmo depende das teorias de alfabetização crítica de Paulo Freire. Freire & Macedo (1990) definem alfabetização/letramento, em sua forma crítica e radical, como um conjunto de práticas que servem para capacitar as pessoas, promovendo a mudança democrática e emancipadora. Assim, como define Giroux (1990: 11), a alfabetização, na concepção freireana, está fundamentada no engajamento da luta em torno das relações de poder e significado. Giroux (Id.: Ibid.) continua explicando que ser “alfabetizado não é ser livre; é estar presente e ativo na luta pela reivindicação da própria voz, da própria história e do próprio futuro”. Desse modo, definir alfabetização conforme Freire é fundamentar teoricamente uma ampla análise de como se produz o conhecimento e como os sujeitos se constroem nas interações sociais, nas quais, no caso escolar, professores e aprendizes procuram tomar papel ativo em seus mundos (Id.: 17). Ser alfabetizado, desse modo, é ser introduzido a uma linguagem e ética que permitam ao sujeito refletir acerca da construção comunitária em volta do projeto do possível.
É necessário destacar que os textos originais de Freire & Macedo (1990), de Giroux (1990), e de Macedo (1990) encontram-se em inglês e, portanto, usam a palavra “literacy” que foi traduzida por alfabetização. No Brasil, isso provoca uma dificuldade semântica, já que letramento e alfabetização costumam ser entendidos como conceitos relacionados, mas distintos. “Literacy”, que aparece no texto, tende a ser traduzido contemporaneamente como letramento. Desse modo, no conceito freireano, falar em alfabetização crítica é falar em letramento crítico, ou seja, de dar aos aprendizes condições materiais de se tornarem agentes ativos em seus grupos sociais, sujeitos que refletem acerca de/e questionam a sociedade.
Em um momento histórico em que se fortalece a cibercultura, dependente e construída em torno da Internet, as noções de letramento crítico se ampliam até os textos virtuais. Se ser letrado significa ser sujeito ativo na sociedade em que se está inserido, em uma sociedade marcada pela cibercultura é fundamental o letramento digital. Letrar-se digitalmente é uma forma hodierna de assumir um letramento crítico, já que capacitará os sujeitos a se portarem ativamente nessa nova sociedade da informação.
Street (1993: 1) defende que um entendimento apropriado sobre letramento em nossos dias precisa se basear em uma perspectiva etnográfica aprofundada que possa descrever seu funcionamento em cada um dos diversos contextos culturais da contemporaneidade. Nesse sentido, um dos contextos culturais contemporâneos que mais tem ganhado destaque e importância é a Internet e a manifestação de sua cibercultura. Desse modo, o estudo do letramento chamado digital redobra-se de importância diante dessa nova forma de textualidade virtual que cresce mais a cada momento.

AS NOÇÕES MAIS RELEVANTES PARA O LETRAMENTO DIGITAL
Para introduzirmos a discussão acerca do que chamamos de letramento digital e antes de definirmos os blogs a partir dessa perspectiva, achamos apropriado apresentarmos a noção da escrita vernacular (CAMITTA, 2000) ou colaborativa (GOLLIN, 1999). A partir disso, se tornará mais simples a definição do que envolve e de como se dá o letramento digital e que papel têm os blogs nesse processo. Ressaltamos que o processo chamado de escrita vernacular por Camitta (2000) e de escrita colaborativa por Gollin (1999) é, na prática, o mesmo. Por isso, intercambiaremos o uso das duas expressões ao nos referirmos a esta forma de escrita.
Camitta (2000: 231) classifica a escrita vernacular como colaborativa, recursiva e performativa. A autora (Id.: Ibid.) afirma que a colaboração, tanto escrita quanto oral, tem seu lugar no processo de escrita transformado em um tipo de performance na qual a audiência do texto é tornada real em lugar daquela que é suposta e fictícia na produção textual convencional na escola. Camitta (Id.: 238) chama de performance ao processo, tipicamente presente na escrita vernacular/colaborativa, que se dá quando o autor lê um texto para ou o deixa ser lido por uma audiência, e o altera a partir do diálogo com os leitores/ouvintes. Esse processo se dá na construção do texto colaborativo de igual maneira no caso da interação dialogada dos blogs, através da ferramenta de comentários. Na verdade, poderíamos afirmar que a disponibilização dessa ferramenta nessa espécie de página da Internet representa um convite ao processo de performance na produção textual blogueira. O blog é, ao nosso ver, um lugar de escrita colaborativa onde os autores abrem a possibilidade de que seus leitores intervenham com seus comentários a respeito do escrito. O compartilhamento pressuposto pelos processos de escrita vernacular é trazido à plena realização na interação que tem lugar nos links de comentários dos blogs.
É necessário esclarecer que utilizamos a noção de escrita colaborativa de maneira levemente adaptada. Na era do texto eletrônico, as fronteiras entre autor e leitores se tornam extremamente efêmeras: os leitores têm potencial de se tornarem co-autores (CHARTIER, 1999c: 27). Chartier (2003: 42; 1999c: 27 – 28) afirma que, com o texto eletrônico, que subverte a distinção entre o autor do texto e o leitor do livro, leitores e escritores potencialmente se tornam autores de um texto escrito a muitas mãos. Além disso, é claro, da possibilidade que o sujeito tem de construir textos novos a partir do recorte e reunião de trechos de outros textos (CHARTIER, 2003: 42; 1999c: 28).
Nossa posição fundamenta-se, desse modo, na concepção de que posts e comentários representam uma unidade de hipertexto. Assim, cada comentário se agrega ao texto postado, constituindo, afinal, um único hipertexto. Cada comentador, portanto, se torna um co-autor do blog, com suas contribuições atuando desse modo e ainda de outro: os comentários influenciam a escrita de novos posts e a reescrita de posts anteriores por parte dos blogueiros.
A manifestação da escrita vernacular e colaborativa nos textos dos blogs poderia ser eventualmente destacada em suas ocorrências por pesquisas que se voltassem a essa análise. É provável, então, que venhamos a perceber, entre outras coisas, a importância que os sujeitos dão ao arquivamento de seus escritos nos blogs, o fato de que os seus textos publicados ajudam a construir os sentidos que buscam na vida. Mais importante, a escrita dos blogs parece tirar do vácuo os sujeitos. Além de tudo, os blogs possibilitam a divulgação de intimidade e de produção textual, contribuindo para a construção de novas pontes de relacionamento e para a auto-divulgação dos sujeitos.
O entendimento dos processos de escrita vernacular e colaborativa abre caminho para que busquemos uma conceitualização do que entendemos por letramento digital. Em primeiro lugar, assumimos que os conceitos de práticas, eventos e mundos de letramento, e as questões originárias do modelo de letramento, nos conduzem a pensar na forma em que se apresentam no novo ambiente social que é a Internet. Constatamos que temos participado de eventos de letramento desse ambiente, vinculados a este particular mundo de letramento, através dos quais adquirimos práticas relacionadas às suas formas de textualização e interação, como é o caso dos blogs.
Outro elemento preponderante no surgimento de um letramento digital é apontado por Gollin (1999: 289), ao admitir que o uso mais difundido de computadores em rede e da Internet e o surgimento de programas que permitem o desenvolvimento e a escrita de textos conjuntos por escritores distantes uns dos outros no espaço estimularão cada vez mais a escrita colaborativa. Desse modo, a autora reafirma a vinculação entre o letramento digital e as formas de escrita vernacular/colaborativa, isto é, a escrita e a leitura na Internet se fundamentam nesta forma de escrita partilhada em que o leitor também se torna escritor. Isso se dá de maneira clara no caso dos blogs.
É uma necessidade contemporânea, que só tende a aumentar, o letramento digital, porque, como diz Xavier (2004: 171), a nossa participação na nova era digital deve passar necessariamente pelo aprendizado da leitura e da escrita no contexto hipertextual, que deve mediar as nossas relações de sujeito, definindo a necessidade do letramento digital. Para ele (2004: 172), a nossa capacidade de ler o mundo tende a ser alargada pelo hipertexto, consolidando o processo definido primeiramente por Paulo Freire de que, para ler a palavra é necessário ler o mundo. Na sociedade contemporânea, tanto a palavra quanto o mundo tendem a se cruzar no contexto hipertextual da Internet.
Por fim, tomando o hipertexto como espaço para realização de eventos de letramento, podemos caracterizá-los, em particular os blogs, como próximo do modelo de escrita colaborativa nomeado incidental por Gollin (1999: 269), já que costuma ser o produto final de interações breves e altamente focalizadas entre dois sujeitos no campo virtual, um dos quais pode ser chamado de “escritor”, como é o caso dos autores de blogs. E, ainda, os participantes deste grupo colaborativo peculiar que se envolve na produção textual dos blogs se relacionam a partir de posições com graus de influência diferenciados, uma vez que o autor do blog, que tem espaço maior e mais privilegiado para a escrita nos posts, detém, certamente um maior grau de poder do que os seus leitores, que participam apenas nas ferramentas de comentários. Em outras palavras, ao tomarmos os blogs como espaço virtual para a produção de escrita colaborativa se faz necessário dizer que essa colaboração é estruturada e hierarquizada, já que a maior parcela de poder e influência na relação recaí sobre o autor da página.
E, concluindo, depois dessa discussão, tendemos a caracterizar os blogs como eventos de letramento digital que instauram novas formas de relação entre o sujeito e o letramento. Os blogs serão, então, vistos como eventos de letramento dos quais podemos inferir as práticas de letramento digital que apontam e constituem formas de escrita colaborativa e vernacular. Desse modo, a escritura de textos nos blogs é uma ação social compartilhada por blogueiros e seus leitores que manifestam novas práticas de letramento nesse evento contemporâneo que tem lugar no espaço virtual da Internet.

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