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  INTERAÇÃO VERBAL ATRAVÉS DA PONTUAÇÃO: UMA EXPERIÊNCIA INTERDICISPLINAR NA EJA.

Shirley Dornelas Duarte
Vinícius Lage de Oliveira

Projeto de Ensino Fundamental de Jovens e Adultos 2º Segmento PROEF2 - Centro Pedagógico CP - Universidade Federal de Minas Gerais UFMG

O presente artigo trata da apresentação de um projeto de ensino, realizado com as turmas 41 e 46, pertencentes ao Projeto de Ensino Fundamental para Jovens e Adultos - Segundo segmento - Escola Fundamental do Centro Pedagógico da Universidade Federal de Minas Gerais.

O projeto tem uma proposta de interação interdisciplinar e surgiu da necessidade de mostrar aos alunos que as disciplinas Português e Matemática, inicialmente paralelas, podem se mesclar. Nosso objetivo é demonstrar, até para nós professores, que Português e Matemática são denominações, são divisões do conhecimento determinadas em dado momento da sociedade, mas que podem e devem ser trabalhadas juntas.

Num primeiro momento de nossa pesquisa interdisciplinar, a pontuação será focalizada por ser o seu emprego de utilidade nas diversas disciplinas, na medida em que ela é de extrema importância na língua escrita e corresponde a entonação da oralidade, além de ser utilizada na simbologia matemática.

Para isso, será usada uma frase em português e expressões matemáticas para que a necessidade do uso da pontuação seja analisada. Com base nesse uso, buscar-se-á possíveis variações de sentido como resultado desse emprego.

Adotamos como conceito de linguagem a explicitada em Magalhães , em que a linguagem é a interação com o texto, todo leitor constrói um significado, portanto todo leitor passa a ser também o autor do texto:

(...)toda e qualquer expressão lingüística, que tenha como fim a interlocução entre um eu e um tu, possa ser considerada uma forma de interação verbal. Conceber, dessa forma, a interação verbal implica adotar uma perspectiva discursiva da linguagem: uma “atividade” que desenvolve numa relação Diálogica entre um enunciador que se enuncia como eu e um enunciatário que é anunciado como tu. Esse dialogismo pode ocorrer de duas formas: a) na presença dos alocutores, como se verifica numa situação de fala em que os mesmos se colocam como enunciadores no momento em que se dá a interlocução; b) na ausência física do alocutário como é o caso da escrita ou dos monólogos. Em b) apesar de encontrarem-se distantes os alocutários eles se constroem como enunciadores/enunciatários, uma vez que quem enuncia, traz para a cena enunciativa o outro a quem sua enunciação se dirige, instituindo uma instância de enunciação. Isso significa que toda interação verbal pressupõe um dialogo construído em uma relação de interlocutores reais ou imaginários

Com base em Bakthin apud Magalhães , sabe-se que “(...) A enunciação é de natureza social”.

E assim, socialmente, é que também ocorre a interação pela pontuação. É através da pontuação que o leitor/autor se interagem dando sentido,voz e entonação ao texto escrito. Quando autor utiliza-se da pontuação para firmar determinada voz, determinado efeito de sentido, ao que o leitor também assume o papel de autor, ao ler e construir sentidos.

Uma mesma frase pode possuir diversos sentidos e interpretações, dependendo da pontuação utilizada. E uma mesma expressão algébrica pode assumir diversos resultados também segundo a pontuação utilizada. Como vemos nas Considerações finais de Villela “quem escreve sinaliza o que deseja destacar e quem lê o procura”. A pontuação seria, portanto, um processo que representa a fala, e como tal utilizado para facilitar a leitura e a compreensão do texto escrito.

A importância da pontuação e o que ela significa também e destacada pela autora :

“Se no texto falado tem-se a modulação pela entoação, pelo volume de voz, pela mudança de tessitura, no texto escrito há outros recursos já bastantes conhecidos, que vão representar esses sinais da fala: aspas para indicar ironia, ceticismo, distanciamento critico; sinal de exclamação, negrito sublinhado tudo isso são sinas com uma função discursiva importante. (...) os sinais de pontuação não são meras marcas auxiliares da escrita, mas fazem parte das próprias condições de produção e recepção de textos”.

O discurso do outro está sempre na interação da linguagem, e nesse aspecto concluímos a diferença provocada pela pontuação, pois ela representa a voz/entoação do autor/leitor do texto.

Pesquisamos em textos teóricos e diversas gramáticas para verificar o conceito de parênteses, chaves e colchetes, símbolos aplicados em ambas as disciplinas, Português e Matemática.

Para Magalhães “Parênteses, aspas (duplas ou simples), travessões, os dois pontos e os parágrafos são recursos para a constituição de instâncias enunciativas” (grifo nosso). Os parênteses são vistos como recurso exclusivo da escrita, juntamente com as aspas, os travessões, os dois pontos e os parágrafos. Segundo a mesma autora, são importantes recursos para a constituição de instâncias enunciativas. São modalizadores, instituem, no discurso, o ponto de vista de um determinado enunciador.

A instância enunciativa naquele determinado contexto foi realizada através das atividades propostas entre os alunos e os professores, ou melhor, entre os alunos e os professores-alunos, na medida que sempre aprendemos ao ensinarmos.

Sempre houve divergência em relação ao uso dos sinais de pontuação e seus respectivos significados, gerando problemas de interpretação e dúvidas quanto ao que foi realmente escrito. Como afirma Villela “Com a preponderância dos textos impressos, a escrita sofre influências dos revisores, nas editoras, provocando problemas de interpretação do mesmo texto e dúvidas quanto à pontuação original do autor”.

Analisamos, então, as gramáticas a seguir: Cunha & Cintra (2001), Cegalla (1998), Lima (2000), Infante (1997), Bechara (1999).

Em Cunha & Cintra havia parênteses e colchetes; Cegalla, também cita os parênteses e os colchetes; Lima cita somente os parênteses, mas não faz menção ao modo de utilizá-los e nem diz quando são necessários. Infante não cita a pontuação em seu livro. Já em Bechara encontramos os parênteses, os colchetes e as chaves.

Para Cunha & Cintra a pontuação é dividida entre sinais pausais e melódicos. A pontuação seria usada para “reconstituir aproximadamente os movimento vivo da elocução oral”. Os autores distinguem os sinais de pontuação que marcam pausas dos que marcam melodia. Existe uma nota de pé de página na qual diz que esta distinção entre pausa e melodia é “didaticamente cômoda”, mas não é rigorosa, porque “os sinais de pontuação indicam ao mesmo tempo a pausa e a melodia” . Os parênteses e os colchetes fazem parte dos sinais melódicos.

Os colchetes seriam uma variedade de parênteses de uso restrito, utilizada para intercalar observações próprias, para o mesmo autor o colchete serve para “isolar uma construção internamente já separada por parênteses ou quando se deseja incluir, numa referência bibliográfica, indicação que não conste da obra citada”, na observação da mesma página citada acima também mostra que o uso de colchetes é freqüente nos trabalhos de lingüística e filologia e nas edições críticas, nas quais utilizam-se esse recurso para introduzir elementos do texto. Os parênteses, no caso do trabalho em edições criticas, é utilizado para elementos que devam ser eliminados. Os parênteses na obra são utilizados para “intercalar num texto qualquer indicação acessória” o que pode ser uma explicação ou circunstância, uma reflexão, uma nota emocional.

O autor inclui , ainda, uma observação sobre o uso dos parênteses como referências a datas, a indicações bibliográficas, a citações textuais de palavras ou frases traduzidas, as indicações cênicas e também para “isolar orações intercaladas com verbos declarativos”.

Outra observação , se refere ao Formulário Ortográfico Oficial Brasileiro: “Quando uma pausa coincide com o início da construção parentética, o respectivo sinal de pontuação deve ficar depois dos parênteses; mas, estando a proposição ou a frase inteira encerrada pelos parênteses; dentro deles se põe a competente notação”. Embora na gramática já citada não há exemplo desse uso dos parênteses.

Em Cunha & Cintra o uso das chaves não foi sequer citado, aliás, as chaves não foram incluídas como sinais de pontuação. Talvez esse seja o índice do pouco uso desse sinal.

Segundo Bechara , “pode-se entender a pontuação de duas maneiras: numa acepção larga e noutra restrita” a primeira seria o “realce e valorização do texto: títulos, rubricas, margens escolha de espaços e de caracteres e indo mais além, a disposição dos capítulos e o modo de confecção do livro”.

Pelo mesmo autor A “concepção restrita” englobaria os sinais gráficos e dentre eles estaria os parênteses (), os colchetes ou parênteses retos [] e as chaves {}. Seriam sinais de pausa inconclusa os parênteses e colchetes quando as orações estão articuladas entre si.

Bechara destaca também que “parênteses assinalam um isolamento sintático e semântico mais completo dentro do enunciado, além de estabelecer maior intimidade entre o autor e o seu leitor. Em geral, a inserção do parêntese é assinalada por uma entonação especial (...) intimamente ligados aos parênteses pela sua função discursiva, os colchetes são utilizados quando já se acham empregados os parênteses, para introduzirem uma nova inserção”.

Sobre o uso de parênteses e colchetes, o autor menciona:

“Também se usam para preencher lacunas de textos ou ainda para introduzir, principalmente em citações, adendos ou explicações que facilitam o entendimento do texto. Nos dicionários e gramáticas explicitam informações como ortoépia, a prosódia etc., no que também podem ser usados os parênteses”.

Das gramáticas citadas, Bechara é a única que nos diz sobre o uso das chaves: “Chave - a chave [{}] tem aplicação maior em obras de caráter científico, como pode exemplificar sua utilização neste livro”.

Cegalla faz uma reflexão interessante sobre a pontuação: “não há uniformidade entre os escritores quanto ao emprego dos sinais de pontuação. Não sendo possível traçar normas rigorosas sobre a matéria, daremos aqui apenas as que o uso geral vem sancionando, na atual língua escrita”. Cegalla não distingue os sinais de pontuação, ele simplesmente mostra como utilizá-los, e não cita o uso das chaves.

Sobre os parênteses afirma: “usam-se para isolar palavras, locuções ou frases intercaladas no período, com caráter explicativo, as quais são proferidas em tom mais baixo(...) as vezes substituem a vírgula e o travessão”

Já no uso dos colchetes, “os colchetes tem a mesma finalidade que os parênteses; todavia seu uso se restringe aos escritos de cunho didático, filológico, científico (...)Na transcrição de um texto, indicam inclusão de palavras. ”

Lima não cita colchetes e chaves em sua gramática. Ele cita simplesmente os parênteses como fazendo parte de uma pausa rítmica, mas também não faz menção ao modo de utilizá-los e nem quando são necessários.

Já na matemática, os colchetes e as chaves também são modificações dos parênteses e auxiliam na interpretação e no resultado das expressões algébricas.

Esses sinais são utilizados para quebrar a ordem de resolução imposta pela convenção Matemática, na qual ficou decidido que a escala de preferência para a resolução seria a seguinte: potenciação ou radiciação, seguido de multiplicação ou divisão e por último adição ou subtração. Ou seja, se quisermos que essa ordem de preferência não seja seguida, utilizamos esses sinais impondo uma outra seqüência de operações, garantindo assim que o resultado desejado seja alcançado. É bom observar que realiza-se as operações que estiverem dentro dos parênteses, colchetes ou chaves; obedecendo a ordem mencionada anteriormente.

Dependendo de onde esses sinais se encontram o resultado será diferente, para uma mesma expressão algébrica. Garantindo assim, que o resultado esperado seja alcançado.

Quando surgiu os parênteses e suas modificações na Matemática? Acredito que os matemáticos fizeram a convenção da ordem das operações para garantir que seja obtida uma única resposta para determinada expressão, mas sentindo a necessidade de efetuar uma operação fora da ordem, introduziram os sinais citados acima.

Como metodologia, utilizamos um hand-out intitulado: A importância da Pontuação , com toda a explicação que seria dada em sala de aula para que os alunos não perdessem tempo copiando e prestassem atenção ao que estava sendo dito. É claro que ao prestar atenção os alunos fariam as interferências necessárias para que houvesse a aprendizagem.

Foi dada a seguinte situação:

Um homem rico estava muito mal. Pediu papel e pena. Escreveu assim:

Deixo meus bens à minha irmã não a meu sobrinho jamais será paga a conta do alfaiate nada aos pobres.

Morreu antes de fazer a pontuação. A quem ele deixava a fortuna?

Em um primeiro momento, alguns alunos afirmaram que a fortuna era para a irmã, mas depois perceberam que, como não estava pontuado, cada candidato à herança poderia fazer a pontuação que mais lhe agradasse.

Eram quatro concorrentes:

Para cada concorrente, colocava a frase no quadro e pedia a ajuda dos alunos para ajudá-lo, e fomos interagindo, descobrindo a melhor forma de pontuar a frase, de acordo é claro, com o fim desejado.

1) O sobrinho usou a seguinte pontuação:

Deixo meus bens à minha irmã? Não! A meu sobrinho. Jamais será paga a conta do alfaiate. Nada aos pobres.

2) A irmã chegou em seguida. Pontuou assim o escrito:

Deixo meus bens à minha irmã. Não a meu sobrinho. Jamais será paga a conta do alfaiate. Nada aos pobres.

3) O alfaiate pediu cópia do original. Puxou a brasa pra sardinha dele:

Deixo meus bens à minha irmã? Não! A meu sobrinho? Jamais! Será paga a conta do alfaiate. Nada aos pobres.

4) Aí, chegaram os descamisados da cidade. Um deles, sabido, fez esta interpretação:

Deixo meus bens à minha irmã? Não! A meu sobrinho? Jamais! Será paga a conta do alfaiate? Nada! Aos pobres.

Na história acima ficou bem claro que podemos interpretar de várias formas um texto, por isso é fundamental que saibamos pontuar para não deixar dúvida no que estamos querendo dizer.

Para mostrar aos nossos alunos que na Matemática, tanto quanto no Português, a pontuação é importante, ou seja, o uso de símbolos tais como: parênteses (), colchetes [], chaves {} e outros modificam o resultado das expressões numéricas utilizamos duas expressões que continham os mesmos números, mas o lugar que cada ponto parênteses, colchetes e chaves era diferenciado, modificando contudo, o resultado.

Por exemplo:

a) 5x{4+[(6+7)x2+9]}-42=
b)
5x{4+[(13)x2+9]}-42=

5x{4+[26+9]}-42=

5x{4+[35]}-42=

5x{39}-42=

195-42=153

c) 5x{4+[6+7x(2+9)]}-42=
d)
5x{4+[6+7x(11)]}-42=

5x{4+[6+77]}-42=

5x{4+[83]}-42=

5x{87}-42=

435-42=393

Essas expressões possuem os mesmos números, mas a pontuação é diferente e, por isso, o resultado não é o mesmo, como foi verificado.

Podemos notar que o que nos motivou a fazer uma aula em conjunto, foi a relação encontrada nos dois temas tratados aqui, ou seja, a pontuação em textos e em expressões algébricas e sua importância no entendimento e análise tanto do que realmente um texto pode dizer, quanto uma expressão quer transmitir.

Uma das finalidades da pontuação é auxiliar na compreensão e formação de sentidos do texto escrito. Quando o projeto foi posto em prática percebemos a interação dos alunos em sala, o que foi muito importante, já que tiveram espaço para produzir e modificar os enunciados trabalhados. Conferimos na prática que a dificuldade dos alunos, tanto em Português quanto em Matemática, se dá por falta de interação, ou seja, por falta de uma compreensão maior sobre a pontuação.

Pretendíamos, com isso, fazer com que os alunos também interagissem e percebessem que a pontuação pode ser construída de diferentes formas, dependendo do sentido que o autor/leitor deseja atribuir ao texto.

Para finalizar utilizamos a seguinte frase: Assim é a vida. Nós é que colocamos os pontos. E isso faz a diferença!

BIBLIOGRAFIA

MAGALHÃES, E. M. SA; NASCIMENTO, MILTON DO; PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE MINAS GERAIS. Construção de instancias enunciativas em textos escritos do portugues culto do Brasil. 1998 209 f vol. 33 no. 11, Novembro 1998.

VILLELA, ANA M. NÁPOLES; NASCIMENTO, MILTON DE; PONTIFICIA UNIVERSIDADE CATOLICA DE MINAS GERAIS. Pontuação e interação. 1998. 157f. Dissertação (mestrado) - Pontificia Universidade Catolica de Minas Gerais.

CUNHA, Celso; CINTRA, Luís F. Lindley. Nova gramática do português contemporâneo. 7ª impressão - 3.ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001.Referência: 469.5 c972n 2001 LETRAS

BECHARA, Evanildo. Moderna gramática portuguesa. 37 ed. Revista e ampliada. 14º reimpressão_ Rio de Janeiro: Lucerna, 2004. 672 ; 23 cm.Referência: 469.5 B391 m 1999

CEGALLA, Domingos Paschoal. Novíssima Gramática da língua portuguesa.

1998, Editora Nacional.Referência: 469.5 C389n 1998 LETRAS

ROCHA LIMA, Carlos Henrique da 1915-1991. Gramática normativa da língua portuguesa; Prefacio de Serafim da Silva Neto - 39 ed. - Rio de Janeiro: José Olympio, 2000. Referência: 469.5 L 732g 2000 LETRAS

 
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