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  A ESPECIFICIDADE DOS RELATÓRIOS DE ESTÁGIO DE ALUNOS DE LICENCIATURA EM LETRAS

Daniela Eufrásio (Universidade de São Paulo – USP)

O trabalho a ser apresentado é um estudo de um conjunto de relatórios de estágio escritos como trabalho final para a disciplina Metodologia do Ensino de Português, ministrada pelo professor Valdir Heitor Barzotto, nos anos de 2001 e 2002, na Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo.A intenção deste estudo é verificar em que medida encontramos nestes relatórios características que permitam perceber a incorporação de traços que caracterizem um perfil profissional específico da área de Letras. Tentaremos nesta comunicação apontar para alguns destes traços, principalmente no que concerne ao modo de recolher e textualizar dados da língua portuguesa. Defenderemos aqui a idéia de que o profissional de Letras tem de estar capacitado a tratar o objeto próprio de sua área cientificamente, não se deixando levar, simplesmente, pelos discursos do senso comum. Neste sentido, entendemos o estágio como uma possibilidade de formação do profissional de Letras em que o rigor no tratamento dos dados de língua, coletados na sala de aula, seja privilegiado. A experiência mostra que o simples contato com o cotidiano escolar e sua conseqüente descrição não fazem do estágio uma atividade essencialmente formadora, pois não exige do estagiário uma postura mais ativa enquanto observador e profissional capaz de intervir futuramente nas situações escolares de forma mais precisa e menos leiga. Os relatórios estudados por esta pesquisa dão conta do registro de 40 horas de observação e 20 horas de regência e têm, predominantemente, a seguinte composição: descrição física e administrativa da escola, bem como de sua inserção no contexto, o relato das aulas, as devidas análises, o registro da experiência da regência, com o anexo dos materiais utilizados. Ao estudarmos estes relatórios de estágio o foco de nossa atenção não foi o que o estagiário observava, mas como ele lidava com o dado observado. A partir deste critério de análise, atentando-nos para a parte do trabalho em que o estagiário apresentava os dados coletados durante a observação, classificamos os relatórios em três tipos:
1º) conjunto de dados + análise
2º) análise
3º) conjunto de dados
Mas como esta apresentação ficaria muito longa caso tratássemos destes três tipos de trabalho, falaremos somente sobre os relatórios classificados como “análise”, tendo em vista que estes foram os de maior número na nossa pesquisa. Um primeiro comentário sobre este tipo de relatório é que ainda que alguns deles sejam bem escritos, falham na delimitação entre objeto de análise e análise propriamente dita. Estes relatórios, em sua maioria, apresentam “discursos politicamente corretos”, em harmonia com as reflexões desenvolvidas na área da Educação, entretanto apresentam como texto uma continuidade de análises que não se originam da observação do dado específico, baseiam-se nas impressões da vivência educativa como um todo.A fim de esclarecermos melhor a idéia desenvolvida aqui trazemos um exemplo:

Relatório classificado como “análise” - fragmentos

Relatório 1
Referência: OLIVEIRA, E. N. – Dezembro de 2001

Trabalhar com projetos, segundo a direção, é uma forma de negar o ensino dividido por disciplinas, em que cada uma tem sua própria “gaveta” e o momento certo de ser trabalhada, que tem sido condenado à falência. Essa escola tem feito um planejamento contínuo no sentido de trabalhar a Língua Portuguesa como disciplina transversal. No entanto, o que pude ver, no caso específico da professora cujas aulas foram observadas, é que, por mais que a direção e a coordenação pedagógica da escola tentem contribuir para a formação dos professores, toda tentativa se esbarra nos problemas de formação profissional dos docentes. A professora segue o projeto sugerido pela escola, mas vê este como uma tarefa à parte. Foi proposto aos alunos que fizessem uma pesquisa sobre a região Centro-Oeste. O trabalho foi feito individualmente, ficou limitado a cópias que os alunos faziam de algum livro didático, não havendo, assim, criação alguma. A avaliação deste trabalho foi feita por meio dos conceitos de A a D, pelo que notei, os critérios eram assim: letra bonita, organização e volume do texto. Ou seja, não há interdisciplinaridade neste tipo de atividade e o trabalho com a linguagem é totalmente abandonado. Assim, o projeto acaba sendo uma tarefa a mais dentro dos conteúdos tradicionais trabalhados dentro da sala de aula.

Este fragmento tem alguns indícios que demonstram uma análise generalista e não focada no dado concreto. Observe que o estagiário em nenhum momento trouxe o dado de sala de aula, não transcreve falas nem descreve situações de aula completas. Quando cita em seu texto alguma situação de aula, como o faz em “Foi proposto aos alunos que fizessem uma pesquisa sobre a região Centro-Oeste. O trabalho foi feito individualmente, ficou limitado a cópias que os alunos faziam de algum livro didático, não havendo, assim, criação alguma”,coloca a situação conforme lhe pareceu, sem fundamentá-la no recorte preciso do dado de sala de aula. Observe que dado e análise vêm juntos, não percebemos um processo que parte da investigação para chegar à conclusão, o que coloca a validade das interpretações em xeque. Como acreditar que não houve “criação alguma”, será que na análise pontual do dado esta interpretação iria se manter? Ainda que se mantivesse, como o aluno recebeu esta atividade de “cópia”, aceitou passivamente ou não? Notamos que, segundo os registros do estagiário, faltam elementos para que analisemos com profundidade a relação professor-aluno, pois não sabemos como os alunos interferem nas atividades propostas, ainda que sejam de cópia. Quando o estagiário afirma que “toda tentativa se esbarra nos problemas de formação profissional dos docentes”, de que problemas exatamente ele fala. A competência docente pode ser analisada por diferentes vieses, que ponto específico da formação docente ele está criticando? Como saber se esta fala é resultado da análise da vivência trazida pelo estágio ou da filiação irrefletida ao discurso da incompetência do professor? Neste ponto, pretendemos chamar a atenção para a ineficácia deste discurso de crítica ao trabalho docente. Ainda que a professora observada pelo estagiário não tenha respondido as suas expectativas, o discurso generalista não possibilita o aprofundamento da discussão, aproximando-se mais das falas correntes, vindas de vários setores da sociedade e bastante difundidas nos diversos textos jornalísticos. A imprecisão no tratamento do dado pelo estagiário instiga dúvidas sobre o papel do estágio, pois nos perguntamos em que medida as categorias de reflexão vindas do curso de formação básica e da licenciatura possibilitam uma formação menos moralista e mais investigativa. Observem que o estagiário critica a professora observada e logo depois coloca “A avaliação deste trabalho foi feita por meio dos conceitos de A a D, pelo que notei, os critérios eram assim: letra bonita, organização e volume do texto. Ou seja, não há interdisciplinaridade neste tipo de atividade e o trabalho com a linguagem é totalmente abandonado”. Considerando-se que o estagiário critica o trabalho de cópia da professora, esperávamos que ele pudesse trabalhar com os dados de língua de maneira mais própria ao seu papel de observador. Ou seja, se a professora não teve dimensão das possibilidades de trabalho com a língua, o estagiário também não demonstrou grande acuidade ao lidar com os dados concretos de língua em sala de aula, o que seria esperado para um estagiário de Letras. Não chega a ser mencionado o porquê de se achar que a avaliação da professora se devia à letra bonita, organização e ao volume do trabalho. E mesmo a partir da incerteza desta constatação, afirma-se que “não há interdisciplinaridade” e que “o trabalho com a linguagem é totalmente abandonado”. Precisaríamos, neste ponto, perguntar o que o estagiário entende por interdisciplinaridade e por trabalho com a linguagem. Ressaltamos que o estagiário realiza a crítica, mas não consegue fundamentá-la na análise do dado, o que seria mais próprio a uma especialista da área de Letras. Segue outro trecho do relatório em questão:

Nas primeiras aulas observadas, a professora estava trabalhando com pronomes. As aulas foram bastante limitadas aos esquemas tradicionais do tipo: “Complete com os pronomes adequados”, “Coloque IN para interrogativos e IND para indefinidos”. As atividades foram seguidas de uma provinha,“Avaliando o aprendizado”, onde se mantém os mesmos tipos de exercícios e a gramática é trabalhada de forma descontextualizada, com frases soltas esperando classificações.
Na segunda semana de observação, a professora começou a trabalhar com verbos. As definições já mostram como o assunto foi tratado de forma extremamente abstrata e tradicional: “A palavra que exprime ação na frase”; “Cândida está triste - esta frase declara um estado de Cândida, portanto, existem verbos que exprimem estado”.

Em seu relatório, o estagiário privilegia a discussão sobre a metodologia usada pela professora em sala de aula ao trabalhar a gramática do português. Percebe-se, no trecho acima, que perpassa os apontamentos do estagiário a idéia que tem sobre ensino tradicional. Se considerarmos o estágio mais que uma possibilidade de vivência no futuro ambiente de trabalho, entendendo-o como possibilidade de formação do profissional, estamos compartilhando da idéia de que o estagiário, enquanto observador, tem a possibilidade de reverter conceitos teóricos aprendidos durante o seu curso em análises que tentam esclarecer possibilidades e limites de uma sala de aula. Queremos com isso colocar o relatório de estágio entre os trabalhos que exigem uma postura investigativa. Sendo assim, no caso em questão, faltou ao estagiário delimitar seu objeto de estudo a fim de cercá-lo com o maior número possível de evidências que pudessem garantir-lhe tratamento científico. Conforme a idéia que estamos defendendo aqui, acreditamos que se o estagiário tivesse incorporado a proposta do relatório de estágio como um projeto de pesquisa, teria feito o recorte a ser estudado – o trabalho com gramática normativa em sala de aula – por exemplo. Teria recolhido o corpus para análise, a fim de discutir diferentes questões, como qual o domínio da professora em relação às normas gramaticais, como os alunos recebem estas normas, que diferenças podem ser percebidas entre os alunos de uma mesma sala na recepção das regras da gramática considerada padrão, que hipóteses sobre a formação docente podem ser levantadas a partir do corpus recolhido. Desta forma, poderia ser discutido como o ensino da gramática normativa deu-se nesta sala de aula em específico, a partir dos dados recolhidos in loco, promovendo o debate real sobre tal questão e não só a aceitação de discursos construídos por outros. Para que assim o estagiário ocupasse de fato o lugar de quem tem instrumentos para coleta, análise e interpretação dos dados retirados do cotidiano escolar. Enfim, estes são somente alguns exemplos que propiciam questões sobre a possibilidade de pensarmos o estágio e o relatório de estágio como um projeto de pesquisa, para assim nos perguntarmos quais as exigências e vantagens de entendermos desta maneira o relatório de estágio.

 
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