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  A EJA E AS RELAÇÕES DE GÊNERO NO ASSENTAMENTO SÃO PEDRO-MUNICÍPIO DE RANCHARIA


Vânia Ferreira Fernandes - FCT - UNESP
Maria Peregrina de Fátima Rotta Furlanetti – UNESP

A partir dos anos 80 com o aumento do número de assentamentos rurais, surgiu a necessidade de serem construídas escolas no campo para atender a população desse setor. Com isso apareceu também a preocupação com a qualidade de ensino transmitidas nessas escolas, com a formação desses educadores e com a elaboração de uma proposta de educação para os assentamentos, tendo como fundamentação teórica as idéias de Paulo Freire.

Ao desenvolver o trabalho de acompanhamento com as educadoras da EJA nos assentamentos, surgiram-me algumas inquietações e questionamentos referentes à questão de gênero.Como nos relata a Declaração de Hamburgo e Agenda para o Futuro (1997, p.43), ”[...] uma pedagogia participativa, que tenha em conta as especificidades dos gêneros, [...] educando homens e mulheres de modo a favorecer o intercâmbio de suas múltiplas tarefas e responsabilidades”.

Apesar de existirem diferentes tipos de identidades no campo, todos devem estar unidos numa só luta, através de políticas públicas construídas pelos próprios sujeitos do campo, e não políticas vindas de fora que apenas escravizam os camponeses. Estes têm direito a escolaridade no lugar onde vive, por isso a educação tem que ser no campo e do campo, porque a sua educação deve ser pensada a partir das suas culturas e com sua total participação.

Uma das tarefas do educador do campo é contribuir na organização do povo para que lute por seus direitos, formando os camponeses no fortalecimento da identidade de sujeito coletivo, nas novas relações de trabalho e na consciência política. Isso não é formar trabalhadores do campo (mão-de-obra), que se conformem com planos e modelos que já vêm prontos, mas sim ter capacidade de resistir a esses modelos e pensar no coletivo criando novos projetos.

Um projeto de desenvolvimento que atenda aos interesses deste povo, esclarecendo que tarefas a escola do campo deve assumir, para ajudar na conscientização desse projeto, que políticas públicas, concepções e princípios pedagógicos são necessários para implementação dessas escolas. O seu currículo deve estar voltado para a sua realidade, os seus conteúdos precisam contemplar a relação com o trabalho na terra, desenvolvendo o amor nessa relação.

Essa ação educativa deve ter como objetivo, desenvolver uma tomada de consciência e atitude crítica, permitindo ao aluno chegar a ser sujeito, constituir-se como pessoa e transformar a sua realidade. “Falar em políticas públicas da educação do campo é equacionar novas posturas, novas estratégias, novas diretrizes e, sobretudo novas bases capazes de alicerçar a educação como direito dos povos do campo”.(CASTAGNA; JESUS, 2004, p.100).

Infelizmente existe uma crença no Brasil, que a população “rural” não necessita de políticas voltadas à sua dinamização, esta sendo dispensável qualquer tipo de estratégia de desenvolvimento. Isto ocorre por conta da intensa urbanização, extinguindo a população rural, dispensando uma maior atenção para o campo, já que todos acabarão indo para a cidade.

Existe sim, uma distorção nas regras de divisão territorial que permanecem em vigor. Segundo VEIGA (2001), considera-se urbanos os habitantes de qualquer sede municipal, um exemplo disso são as populações indígenas e guardas florestais de áreas de preservação, que são considerados urbanos caso suas ocas ou casas estejam no interior do perímetro de alguma sede municipal ou distrital. A vigente divisão intramunicipal entre perímetro urbano e zona rural, acaba por reforçar esse sério equívoco, que pode induzir a conclusões desastrosas sobre o processo de desenvolvimento.

Quanto à distribuição espacial dos camponeses, VEIGA (2001) percebe-se que a população rural do Brasil é de quase 52 milhões de habitantes, parte dos quais tem laços apenas indiretos com a agricultura. A população rural economicamente ativa deve estar próxima de 25 ou 26 milhões dos quais uns 20 milhões exercem algum tipo de atividade agrícola, mas com exclusividade decrescente. No máximo 20% dos estabelecimentos agrícolas brasileiros são de caráter patronal, quase 75% dos agricultores familiares são proprietários das terras que cultivam.

Desta forma,deve-se insistir na necessidade de expandir e fortalecer os agricultores familiares através de um desenvolvimento agrícola como estratégia. Entende-se esse desenvolvimento como um processo de expansão das liberdades reais que as pessoas desfrutam e não apenas ao crescimento do PIB, industrialização, avanço tecnológico ou modernização. Essas liberdades seriam saúde, educação e direitos civis.

O espaço rural deve ser transformado num local de atividades econômicas múltiplas e dinâmicas, que permitam as pessoas que ali vivem terem acesso a condições dignas de vida. Esse processo pode ser chamado de desenvolvimento local e definido como um grande mutirão da comunidade na busca de um projeto para o futuro de seu território, identificando e valorizando os potenciais e riquezas locais. O desenvolvimento é realmente um compromisso muito sério com as possibilidades de liberdade.

As sociedades com menos desigualdades são as que tendem a crescer com mais rapidez. Menos desigualdades no acesso à propriedade da terra e à educação é benéfica ao desenvolvimento, já que aumenta o efeito positivo do crescimento sobre a pobreza.

“O desenvolvimento local é o resultado da ação articulada do conjunto dos diversos agentes sociais, culturais, políticos e econômicos, públicos ou privados, existentes no município e na região, para construção de um projeto estratégico que oriente as suas ações de longo prazo. Portanto não se trata apenas de políticas públicas, mas de uma nova cultura e de ações voltadas para a construção de um objetivo comum”.(VEIGA. In: DESER, 1999, p.33).

VEIGA (2001) traz um esboço de um projeto de lei que poderia promover o desenvolvimento rural sustentável, relatando em seu art. 1º : O desenvolvimento rural tem por fim assegurar digna existência e sadia qualidade de vida aos que habitem ou trabalhem fora das aglomerações metropolitanas e grandes centros urbanos, em conformidade aos ditames da justiça social e da preservação da natureza para as presentes e futuras gerações. E observando o art. 12, temos que: As políticas de desenvolvimento rural da união e dos Estados deverão integrar pelo menos as seguintes dez dimensões das ações governamentais: l –Educação, capacitação e profissionalização.II- Assistência técnica e extensão integradas às redes de pesquisa.III- Manejo dos recursos naturais das microbacias hidrográficas.IV- Saúde.V-Habitação.VI- Infra-estrutura e serviços.VII- Crédito.VIII- Seguro.IX- Cooperativismo e associativismo.X- Comercialização.

A atividade econômica considera que os meios materiais possam satisfazer os homens, porém, o crescimento econômico não gerou melhora, nem bem-estar para a população.Ocorreram mudanças na área tecnológica, o comércio se expandiu influenciando outros âmbitos da sociedade. A globalização não trouxe igualdade de gênero, pelo contrário, as condições de vida das mulheres tem se deteriorado, intensificando a marginalização e a pobreza feminina.A competitividade no mercado de trabalho trouxe conseqüências ao bem-estar das pessoas, quem sofreu mais prejuízos foram as mulheres.

Os investigadores da nossa sociedade primitiva são homens, isso reflete numa interpretação crítica de uma ideologia patriarcal, depreciadora das mulheres. Os colonizadores eram homens, havia uma minoria de mulheres, as indígenas eram exploradas sexualmente e as faziam trabalhar. Como se essa exploração não bastasse, introduziram a escravatura no Brasil.Homens e mulheres eram capturados e convertidos em mercadorias, trabalhavam sem nenhuma retribuição ou direitos. Participação política somente os homens europeus tinham, nenhuma mulher, nenhum indígena, nenhum negro ou negra podia exercer função nessa instituição.

As mulheres reclamaram pela primeira vez o seu direito de igualdade e cidadania, a demanda aqui era a de poder votar e não de serem eleitas, porém abre-se a possibilidade ao adquirir os direitos políticos. As mulheres assim como os homens são capazes de participar de determinações das prioridades e objetivos socioeconômicos.

Sabendo-se que todos nós estamos envolvidos na área da economia, a educação nesse processo tem como desafio habilitar a mulher nos temas econômicos, fazendo com que a mesma possa participar em condições de igualdade nas determinações socioeconômicas, ”51% da população são mulheres e estas não ocupam nem 10% dos cargos políticos”.(Repem Red de Educación Popular entre Mujeres de América Latina y El Caribe, 2002).

As mulheres parlamentares têm um grande papel, pois ao pertencerem ao mesmo partido político do governo, podem ter vantagens nas negociações com o ministério de finanças, também podem saber sobre o uso dos fundos públicos. É preciso ter mulheres que recorram às demandas sociais e que levem as idéias em prática, isso pode ser realizado tanto no nível nacional como municipal, onde mulheres ocupam cargos.

Na elaboração de políticas a questão de gêneros é ignorada, contribuindo para a perpetuação da discriminação. Segundo REPEM (2002) as mulheres ocupam cargos iguais com a mesma qualificação, porém ganham só 75% do que ganham os homens, e trabalham de duas à cinco horas a mais que os mesmos. O trabalho desenvolvido pela mulher pode ser classificado em duas categorias: não remunerado, ou seja, reprodução social e biológica, que não tem valor econômico e o trabalho remunerado (para o mercado). As mulheres assumem a responsabilidade de cuidar dos filhos, da família, da casa, dos enfermos e velhos. Vale lembrar que essas tarefas são à base da sociedade.

Existem fatores de discriminação em relação à mulher no mercado de trabalho, os empregadores atribuem certas “virtudes” e “defeitos” para que elas ocupem cargos. Estereótipos negativos: as mulheres trabalham menos que os homens (meio período), não estão disponível para fazer horas extras e horários extensos, licença maternal, horário de amamentação, benefícios por causa da maternidade, se ausentam mais que os homens, também por conta da maternidade. Esses argumentos são usados para justificar os diferentes salários com os homens.

As estatísticas usadas na macroeconomia não reconhecem a contribuição das mulheres nessa economia, pois seu trabalho não é contabilizado, porque não está orientado no mercado, esses trabalhos são: produção de subsistência, o cuidado da família e o trabalho voluntário na comunidade. Esse trabalho não remunerado pode ser realizado não somente pelas mulheres, mas pelos homens também.

Para incorporar o trabalho não remunerado na macroeconomia deve-se entender a produção desse trabalho como resultado da interação de quatro setores: privado, público, doméstico e voluntário. A riqueza de uma sociedade depende dos quatro setores e não apenas do período privado. O trabalho não remunerado e voluntário das mulheres são importantes para a criação do capital social. Deve-se conceituar a economia como uma estrutura de gênero, isto implica reconhecer que as relações de gênero intervêm em todas as atividades econômicas.

Há necessidades que as mulheres conheçam as políticas públicas, que sejam investigadoras e representantes de organizações de mulheres, onde possam analisar os destinos dos gastos. Se as famílias pobres estão sendo beneficiadas, a quem está sendo destinado o dinheiro, se é para os filhos do casal, a mulher deverá participar do orçamento familiar.

A mudança nas relações de gênero ocorrem por conta da situação das mulheres em vários espaços, que recebem influências dos processos econômicos, políticos e culturais. A conquista da independência e da autonomia econômica feminina, não está somente na apropriação do capital pela mulher, mas também na aquisição de seus direitos sexuais e reprodutivos, participação de tomada de decisão no político e social e na educação, pois entre 880 milhões de analfabetos 2/3 são mulheres (Repem-Memória Del 2 Seminário Regional de Poderes y Saberes, 2000 ).

Para tanto, há necessidade de elaboração de políticas baseadas em pressupostos de gênero, ou seja, que apresentem desafios diante das diferentes necessidades, privilégios e direitos das mulheres e homens na sociedade, abordando de maneira crítica a discriminação e as desigualdades. Democratizando as relações de poder entre homens e mulheres tanto no privado/doméstico/reprodutivo, como no público/político/produtivo.

Existe uma visão limitada e parcializada desse pressuposto, que não reconhece a especificidade das mulheres, suas demandas e interesses. Os recursos para as mulheres são geralmente os programas sociais e assistenciais, mas não é um problema de gasto social, mas sim outros aspectos do pressuposto: na política educativa, nos programas culturais e de emprego, na capacitação para o trabalho, na investigação em ciência e tecnologia, nos mecanismos de apoio às microempresas criadas e dirigidas por mulheres. Agora as mulheres falam em cidadania e igualdade, se interessa pelo âmbito político, poderes econômicos e meios de comunicação. É interessante também observar o aumento que se vem verificando na participação das mulheres no sistema educativo, suas taxas de escolaridade na maioria dos países.

A alfabetização para as mulheres presta especial atenção na educação cívica e social, que permita a mulher ter uma participação mais ativa na comunidade, capacitando-a para obter a qualificação suficiente para poder desenvolver atividades ou responsabilidades que até agora eram preservadas aos homens.

As mudanças na sociedade aumentam as situações em que os homens e as mulheres devem atuar com mais responsabilidades e aumenta a necessidade de uma adequada preparação para assumir essas responsabilidades. Homens e mulheres devem ter a máxima oportunidade possível de desenvolvimento pessoal. Isto requer que todos tenham o direito ao acesso aos bens culturais da sociedade a qual pertencem.

Sabendo-se que muitas mulheres vivem e aprendem em condições de violência e pobreza, o sistema educacional deveria abordar esses temas. A educação deve contribuir para que homens e mulheres reconheçam os sérios e adversos impactos (especialmente nas mulheres) que tem causado a globalização e as políticas de ajuste estrutural em todas as partes do mundo. É essencial incentivar e desenvolver a capacidade de organização e liderança entre a população adulta, especialmente entre as mulheres, para permiti-las a participar em instituições do Estado, do mercado e da sociedade civil.

Existem dois discursos: um considera que as mulheres são seres humanos indefesos, incapazes e dependentes, são consideradas como instrumentos reprodutivos da sociedade patriarcal, são consumidoras de uma cultura gerada pelos homens. O outro discurso vê as mulheres como agentes potenciais e ativos de seu próprio destino, são autônomas com direitos e possibilidades de tomar decisões, controlar sua própria vida e determinar sua direção. Os direitos das mulheres são direitos humanos.

As mulheres têm direito à organização, participação, informação e conhecimento, ser escutada em momentos e assuntos críticos, tem direito à ampliar e diversificar seus atos, definir interesses coletivos, dialogar, constituir grupos de ação, campanha e organizações, negociar, fiscalizar, etc... As perspectivas das mulheres de hoje é intervir nas discussões sobre diferentes temas, muitas mulheres estão participando ativamente em detalhes, nos espaços de negociação, onde atuam as grandes forças do poder, elas deixaram de ser simples objeto das políticas e ações governamentais.

Essa mudança qualitativa na participação das mulheres é resultado de muitos fatores e de um processo permanente de aprendizagem. As mulheres têm aprendido que nesta nova era da globalização, existem novas forças e, portanto novos processos de participação devem ser adquiridos, novas habilidades, novos conhecimentos e capacitação para poder dialogar a nível global.

Os assentamentos são espaços privilegiados para o desenvolvimento de políticas públicas voltadas para a promoção da igualdade de gênero

[...] Aqui a educação é muito valorizada, tanto pelo homem quanto pelas mulheres, que as vêem como vias de superação das barreiras sociais existentes, como meio de ascensão social e de aumento da empregabilidade, o acesso aos bens culturais, à conscientização do mundo e a capacidade de transformar a sociedade pelo conhecimento dos próprios direitos e desenvolvimento da cidadania (RUA; ABRAMOVAY, 2000, p.280).

Segundo Rua e Abramovay (2000), nos assentamentos, as mulheres são mais escolarizadas que os homens, entretanto, a escolaridade feminina não é uma condição suficiente para a superação das desigualdades entre homens e mulheres. A educação formal não se mostrou suficiente para modificar e superar os antigos papéis reservados às mulheres.

As transformações de gênero são resultado de uma profunda mudança cultural, porém a escolarização feminina somente produzirá impactos substantivos sobre as relações de gênero a médio e longo prazo. Apesar da ascensão do movimento de mulheres, nas últimas décadas, questionando os velhos estereótipos sobre papéis atribuídos ao feminino, o trabalho doméstico ainda é realizado predominantemente por mulheres e define a reprodução do tradicional lugar e o status inferior da mulher na sociedade.

Essa discriminação remete ao termo da invisibilidade do trabalho feminino e ao desconhecimento do papel produtivo da mulher. Para Rua; Abramoway (2000) as mulheres atuam em todas as atividades do campo, porém, os discursos permanecem caracterizando o trabalho delas como uma ajuda, porque as responsabilidades pelas atividades econômicas são sempre dos homens, tanto na decisão do que plantar, como na comercialização.

Um grande número de mulheres são trabalhadoras sem remuneração, estão em atividades ditas não produtivas, acumulando diversos tipos de tarefas e compromissos. O trabalho da mulher é visto como uma extensão do seu papel de mãe/esposa/dona-de-casa que superpõe a outras atividades, principalmente na horta e no quintal.Essa divisão de trabalho é uma amostra da persistência da imersão da sociedade rural em uma cultura patriarcal.

Porém, fica claro que a mulher é geradora de renda que se incorpora no orçamento familiar. O ocultamento do trabalho feminino na cooperação familiar e o desconhecimento, por parte das mulheres, dos seus direitos sociais elementares, como o acesso a terra. O cadastramento da terra é geralmente feito em nome do marido, que é também titular de crédito e agente de comercialização da produção gestada por ambos.

A mulher também é titular desde que tenha força de trabalho na família.

Portanto, a educação nos assentamentos se destaca como uma importante condição para superar as desigualdades de gênero, através de uma mediação pedagógica baseada na igualdade, que respeite e supere todas as diferenças.O trabalho produtivo da mulher se vê invisibilizado pela ação concreta do sistema de gênero, o qual estabelece habilidades e capacidades nos homens e nas mulheres.

Segundo a ONG Rede Mulher de educação (2001), tanto mulheres como homens aprendem as formas de discriminação por meio de diversos processos educativos, que ocorrem em diversas instancias e em todos os momentos de suas vidas. A desigualdade de gênero foi se construindo na história da humanidade, formando mulheres e homens com comportamentos e papéis bem definidos e diferenciados. E que, normalmente atribuem aos homens o poder, e às mulheres o anonimato.

Diante do quadro de desigualdades aqui exposto, com desvantagem para as mulheres, é preciso tornar claro, por todos os meios possíveis que a contribuição de trabalho das mulheres para o desenvolvimento e para a economia nacional é tão valioso quanto o dos homens. É preciso planejar o desenvolvimento considerando o gênero, criando uma forte parceria entre mulheres e homens em torno de uma nova visão, que considere como objetivo fundamental do desenvolvimento da melhoria da qualidade de vida de todos os seres humanos.

As diferenças biológicas entre homens e mulheres não servem como justificativa para discriminá-las, negar-lhes a cidadania, impedir que cresçam socialmente. Pois, ao contrário deste conceito, as mulheres cada vez mais demonstram sua capacidade de conciliar os cuidados da casa com o serviço externo, desempenhando tarefas fisicamente pesadas, o sustento de muitos lares cabe exclusivamente às mulheres. Sem falar no seu desempenho escolar que tem se revelado mais alto que o dos homens, sua capacidade intelectual e de liderança em atividades profissionais ou políticas já estão mais do que provada.

As trabalhadoras do campo, que enfrentam dificuldades maiores do que as urbanas para romper as desigualdades, vêm aumentando sua participação nas atividades comunitárias e na luta pela terra. Porém, seu esforço físico no trabalho agrícola não é valorizado, consideram os homens sempre mais fortes para esse tipo de trabalho.

“Mas quando se olha para a realidade, não há tarefa que elas não executem, se não for possível prescindir de seus braços. Mulheres já fizeram destoca, araram a terra, puxando o burro ou “no muque”,e carregaram sacos de 60 Kg na cabeça. Mas toda vez que essas tarefas são mecanizadas e, portanto exigem menor força física, contraditoriamente, elas são excluídas, ou seja, é muito mais fácil ver uma mulher carpindo com a enxada do que dirigindo o trator para a realização do trabalho agrícola” (Nobre,1998,p.19)

Nos assentamentos, as mulheres são responsáveis por muitas tarefas com grande peso nas atividades produtivas, como capinar, cortar, plantar, colher, tombar a terra, tirar o leite etc...Mesmo diante do fato de que as mulheres participam de todas as atividades do campo, o discurso de ambos sexos permanece caracterizando o trabalho feminino como ajuda, porque a responsabilidade pelas atividades econômicas é sempre masculina, na decisão do que plantar ou na comercialização do produto. O padrão de subordinação e invisibilidade do trabalho da mulher faz da sua participação na lavoura uma atividade percebida como subalterna. Apesar de responder por uma parcela significativa da produção para o autoconsumo (criação, hortaliças, frutas) esta é pouco valorizada devida a escassa participação na geração de renda.

Analisando essas relações de gênero, os papéis masculinos e femininos na política, cultura e economia, e sua subordinação diante de uma sociedade antagônica, entende –se que somente será possível uma transformação dessa realidade a partir de uma mediação pedagógica consciente e crítica, proporcionando ao aluno a capacidade de elaboração, explicitação cultural e conscientização de seus direitos, na formação sócio-política de cada indivíduo. Homens e mulheres juntos podem transformar o mundo através da sua ação e de acordo com as finalidades que se propõem

As estruturas sociais que homens e mulheres, assentados rurais criaram, reproduzem as assimetrias de gênero com conseqüências sobre o exercício da cidadania. Levando em consideração que os assentamentos rurais agregam significativo capital social, o vínculo entre o público e o privado, entre o individual e o social, ou seja, um reconhecimento mútuo das relações sociais, a cooperação humana com confiança, valorizando a cidadania deveres e direitos para todos, facilitando a ação e a cooperação contribuindo para o desenvolvimento.

A pobreza e o atraso se devem em grande parte à incapacidade de seus habitantes de agir em conjunto pelo bem comum, já com a organização, cooperação coletiva e a união das organizações locais dos assentamentos, maior será a possibilidade de criação de sistemas sociais privilegiados e dotados de maiores potencialidades de desenvolvimento.

As oportunidades educacionais nos assentamentos estão relacionadas à construção da cidadania e são consideradas também umas das mais relevante condições para o desenvolvimento humano e social, a educação deve buscar o ser humano como tal, e não enquanto apenas meio de produção proporcionando a todos os indivíduos as oportunidades e instrumentos necessários para desenvolver livremente suas potencialidades e participar da evolução da sociedade

[...] a educação é vista não apenas como uma forma de as pessoas se tornarem economicamente mais produtiva, mas como uma condição para a liberdade[...] se por um lado à educação torna uma pessoa mais eficiente na produção de mercadorias por outro lado cria ou melhora as habilidades de leitura , comunicação e argumentação e amplia o leque de oportunidade e escolhas. Portanto os benefícios da educação excedem a formação de capital humano: aumentam as oportunidades dos indivíduos se desenvolverem e desfrutarem uma vida mais livre e proveitosa. (Rua; Abramoway, 2000, p.71 e 72).

Desse modo a educação exerce impacto positivo sobre as relações sociais em geral, e deste ponto de vista as autoras citadas acima, consideram que “a expansão da educação para as mulheres assentadas, por exemplo , pode reduzir a desigualdade entre os sexos e também contribuir para a redução das taxas de fecundidade e mortalidade infantil.(Rua; Abramoway,2000, p.72)

E pensando nestas questões como desafios, entendo que a educação de jovens e adultos nos assentamentos rurais pode contribuir para identidade do cidadão e dar um significado à sua vida, seu objetivo principal deve ser a criação de uma sociedade instruída e comprometida com justiça social e o bem estar geral, considerando a expansão das oportunidades educacionais para todas mulheres, respeitando sua diversidade e eliminando os preconceitos e estereótipos que limitam seu acesso à educação e que restringem os seus benefícios, adotando medidas para eliminar qualquer discriminação baseada no gênero, desenvolvendo programas de educação que propiciam a compreensão das relações homens-mulheres.

Assim sendo, convém, por meio da educação fazer com que as mulheres tomem consciência da necessidade delas se organizarem, a fim de que essa situação seja modificada e elas possam desenvolver as suas capacidades para estarem em condições de ter acesso às estruturas oficiais do poder e a tomada de decisão, tanto na esfera privada quanto na pública.

Para tanto, a educação nos assentamentos trabalha a auto-estima das mulheres, fazendo com que as mesmas adquiram apreço e consideração por si próprias e reconheçam o seu poder de iniciativa e assim possam ser positivas, defensoras de seus direitos e do seu próximo. Ao não assumir que tem poder, ela permite que outra pessoa o use em seu lugar.

Ao utilizar o seu poder, ela estará fazendo da sociedade ou do lugar onde vive, um lugar melhor, sendo capaz de negociar, tomar decisões, realizar tarefas antes realizada só pelos homens, ela passará a ser uma liderança.

Toda líder deve desenvolver e ampliar seu projeto, sem descuidar-se de si mesma.Para isso é preciso desenvolver o auto-conhecimento, a auto-estima e a auto-confiança profissional e emocional. As salas de EJA nos assentamentos são fundamentais nesse processo, pois além de contribuir na leitura e escrita dessas mulheres, desenvolve nas mesmas atividades culturais e artísticas, favorecendo uma atitude de constante formação: observando, comentando, compartilhando no trabalho em grupo.

Os assentamentos São Pedro e Nova Conquista são exemplos deste relato, ali existem mulheres que são lideranças e trabalham em prol da sua comunidade colaborando com os mais necessitados. Este fato possibilita a inserção dessas mulheres na construção e dinamização ativa desses espaços, participando em tomada de decisões.

Anualmente as mulheres assentadas organizam-se em mobilizações, reunindo-se em determinado lugar previamente escolhido. Mulheres dos assentamentos da região se encontram, são momentos importantes de trocas de experiências entre as assentadas. Trata-se de espaços de discussão e aprendizado, onde participam de palestras e oficinas.

A ação educativa nestes assentamentos tem contribuído para a conscientização dessas mulheres, pois se verifica que nas salas de EJA, a freqüência feminina lidera a dos homens. O número de mulheres nas salas de alfabetização confirma o impacto favorável que a educação traz no desenvolvimento emancipatório e participativo na construção de uma sociedade igualitária.

Observando a lista de presença dos alunos dessas salas, nota-se que nos últimos dois meses (maio e junho) a presença das mulheres superou a dos homens.

Em uma das salas houve a diferença de 56 presenças dos homens para 72 das mulheres e na outra sala a diferença foi maior ainda, de 15 presença dos homens para 60 das mulheres.Considerando que o número de mulheres matriculadas chega a ser mais de 50% do que o número de homens, ou seja, de 100% dos alunos, em média apenas 20% são homens, o restante são mulheres e são elas as possíveis agentes de mudança cultural nestes assentamentos.

Desta forma, percebe-se a importância das escolas de EJA neste setor, pois para estes alunos, o estudo é uma maneira de conhecer os seus próprios direitos, desenvolver espírito crítico e encontrar soluções para os problemas, exercendo a cidadania ativa, buscando novos conhecimentos, adaptando-se para uma transformação da sociedade.

A pesquisa de EJA no campo é relevante e ilimitada. Reconheço que estou apenas começando este processo de reflexão e conhecimento sobre este tema, há muito a ser pesquisado e analisado, pois todo novo conhecimento é provisório, nunca é completo.

A Universidade tem contribuído com a iniciativa de abrir a possibilidade de um aprimoramento dessa natureza para seus bolsistas e estagiários, ao pesquisar uma questão tão importante que é a educação no campo.

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