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  INSTRUÇÃO PÚBLICA E IMPRENSA EM SOROCABA.(SP)

Valdelice Borghi Ferreira - Universidade de Sorocaba- Uniso.

I INTRODUÇÃO

Este estudo é parte da pesquisa, em andamento, que privilegia, como recorte espacial e temporal, a cidade de Sorocaba, S.Paulo, no período de 1889 a 1920, tendo como norte a investigação do significado do movimento operário para a história da educação escolar do município. O estudo, associado a outros, objetiva contribuir para o redesenhamento da história da educação e história dos movimentos sociais na região, para a sistematização de fontes documentais, uma vez que sua dispersão, aliada à má conservação é um problema que persiste e dificulta a pesquisa sobre a história da cidade,e, também, para a superação do caráter lacunar da história da educação escolar da cidade de Sorocaba.
Neste recorte pretendemos dar visibilidade ao tratamento dado pela imprensa à educação escolar, enfocando de maneira especial a imprensa operária, representada pelo jornal O Operário, que circulou no município no período de 1909 a 1913. O privilegiamento das especificidades locais e regionais, sem dúvida, não poderá deixar de considerar suas relações com a totalidade, com o universal ( SANFELICE,2002).
Objetivamos com isso, refletir sobre o passado educacional, reflexão esta, direcionada por novos interesses e procedimentos de análise, não fundamentados apenas na historiografia que prioriza os discursos legais ou que considera a escola como instituição atemporal, mas, sim, procurando entender a escolarização da sociedade em sua perspectiva histórica.(VIDAL; HILSDORF, 2001).
Na compreensão de Gatti Junior

Atualmente, percebe-se que há um afastamento da produção proveniente do campo da história da educação do caráter prescritivo e justificador de antes e um redirecionamento no caminho da elaboração de interpretações sobre o passado educacional brasileiro em sua concretude, mediante consulta a uma série enorme de fontes primárias e secundárias que não mais apenas a legislação educacional (GATTI JUNIOR, 2002,p.16).

Nessas reflexões reconhecemos a importância da imprensa enquanto fonte documental,seja ela especializada, pedagógica, ou representada por jornais ou outras publicações empresariais. A análise dessas publicações proporciona condições para a compreensão de uma realidade educacional, na maioria das vezes não materializada nas fontes tradicionais.

II CONTEXTUALIZAÇÃO

Para maior compreensão do tema entendemos como necessária uma breve contextualização do espaço delimitado para o estudo.
No período enfocado deu-se o início da industrialização de Sorocaba e de S.Paulo e a inserção desses espaços no modo de produção capitalista industrial, de exportação de mercadorias, principalmente têxteis (capitalismo concorrencial ), fase já ultrapassada nos países mais avançados. O final do século XIX, assistiu ao nascimento do capitalismo monopolista, industrial e bancário, que se integram, formando o capital financeiro, que leva à partilha do mundo entre os grupos capitalistas (LENIN, 1987). Inicia-se um período de imigração para a América (fazer a América), nos países de menor concentração industrial, caso da Itália, Espanha, Portugal, regiões “onde predominava a pequena indústria de propriedade individual ou familiar, na qual a organização do trabalho se baseava amplamente em trabalhadores qualificados, nos ex-artesãos convertidos em assalariados” (FAUSTO, 1976, p.67).
A entrada de imigrantes no Brasil e, principalmente em S.Paulo,.vai contribuir para o processo de industrialização, ampliando o mercado de trabalho e de consumo, aplicação de poupança no comércio e na indústria, uma vez que havia dificuldades quanto à posse de terras (FAUSTO, 1976). O imigrante pobre tinha como objetivo alcançar melhor condição de vida, ou mesmo tornar-se proprietário; seus anseios foram frustrados pela sociedade que negava muitas vezes direitos mínimos de uma vida digna. A realidade encontrada favoreceu o surgimento dos movimentos operários e as cidades ofereciam o ambiente propício para a expansão do ideário revolucionário Ao lado dos trabalhadores vieram também intelectuais, principalmente anarquistas, provenientes de países onde o movimento libertário alcançou alguma expressão, como a Itália, Espanha e Portugal. É importante reconhecer que o movimento operário ganhou expressão com a criação de organizações, partidos, centros operários, sindicatos, que atuavam na organização, incentivo e divulgação do ideário revolucionário.
No que se refere à educação, os congressos, partidos e centros operários das várias correntes ideológicas defendiam suas idéias, que aparecem esparsas nos seus programas, em meio à defesa de direitos trabalhistas, com ênfase na questão salarial e jornada de trabalho. O Programa do Centro Operário Radical, de 1892, determinava, em seu ponto 7°, a necessidade de “Reforma do ensino. Instrução primária obrigatória. (CARONE, 1973, p.222). O Partido Socialista Brasileiro, de 1902, que aglutinou tendências marxistas e anarquistas, apresentou em seu Programa, o ponto n° 9, reconhecendo a necessidade de instrução laica e obrigatória até os 14 anos, e a criação de escolas rurais e profissionais e noturnas para os operários (CARONE, 1973, p.232). O I Congresso Operário, de 1906, demonstra a sua preocupação com a educação, na resolução tomada no Tema 7, da sub-divisão “Sobre ação operária”, considerando que a escola oficial difunde apenas idéias burguesas, aconselha aos sindicatos a criação de escolas para os operários, apropriadas à sua educação( PINHEIRO; HALL, 1979,p.53)
O 2º Congresso Estadual Operário de S.Paulo, realizado em 1908, discutiu a necessidade de criação de escolas por e para operários no Tema nº 22: “É útil a fundação de escolas?”, concluindo que os sindicatos e as Federações Operárias deveriam encarregar-se da fundação de escolas livres (RODRIGUES, 1969,p.24) Em 1919, foi criado o Partido Comunista do Brasil pelos anarquistas José Oiticica e Edgard Leunroth e em 1922 foi criado o Partido Comunista de modelo russo (CARONE, 1973.p.257). No programa do partido de 1919, sobre educação, constam a obrigatoriedade do ensino integral até os 20 anos, para todos e a necessidade da educação profissional, que deveria acompanhar a educação mental. (CARONE, 1973, p. 255 e 256).
Fazendo um breve recorte para a situação educacional brasileira no período delimitado para o estudo, constatamos que o país caracteriza-se pela dependência econômica externa, que se refletia na estrutura social e, conseqüentemente, na organização escolar. Foram várias as reformas realizadas na organização escolar, revelando “uma oscilação entre a influência humanista clássica e a realista ou científica” (RIBEIRO, 1993, p.79) – Código Epitácio Pessoa (1901), reforma Rivadávia (1911), reforma Carlos Maximiliano (1915), e um pouco mais tarde, a reforma Luis Alves/Rocha Vaz (1925). Os problemas, como o analfabetismo, se agravaram, sem que as reformas apresentassem soluções. Campanhas e movimentos foram encetados em defesa da escola primária, vista como base da nacionalidade – o combate ao analfabetismo relacionava-se, assim, ao ensino do civismo ( RIBEIRO, 1993, p.83).
Surgiram os grupos escolares, mas grande parte da população continuou marginalizada. As manifestações urbanas, principalmente dos trabalhadores, refletiam seu descontentamento e a organização escolar vigente também passou a ser questionada. Carvalho considera que a época caracterizou-se pela difusão de novos modelos pedagógicos, pela introdução de instituições, como os grupos escolares, que conviverão e contrastarão com as práticas das escolas isoladas, bem como de introdução de modelos escolares não institucionalizados, como as escolas de imigrantes (CARVALHO, 2003,p.323).Lembramos que muitas dessas escolas foram criadas pelas Ligas Operárias, inspiradas na tendência pedagógica libertária (RODRIGUES, 1972).
Para Nagle as transformações econômicas e sociais favoreceram o surgimento da crença de que, o Brasil alcançaria o progresso, se grande parte da população tivesse acesso à educação escolar, sendo então, necessária ampla disseminação das instituições escolares. É a fase do “entusiasmo pela educação”, seguida, posteriormente nos anos 20, pela fase do “otimismo pedagógico”. A instrução, em todos os níveis, assume uma posição de destaque cada vez maior (NAGLE, 2001, p. 134-135).
Em relação ao cenário local, constata-se que a cidade de Sorocaba participou ativamente do movimento operário na primeira república, ação que se estendeu até 1964, encerrando-se com o golpe militar. A militância operária rendeu à cidade o epíteto de Moscou Paulista ou Brasileira. Apesar de fazer parte do cenário histórico brasileiro desde 1654, destacando-se em muitos momentos, Sorocaba tem sua história comumente relacionada ao Ciclo do Tropeiro, nos séculos XVIII e XIX. Com o final das feiras de muares (1897), a cidade não viveu um período de decadência, pois, já estava direcionada a outras atividades econômicas – como a indústria têxtil. Com o desenvolvimento da Guerra da Secessão nos Estados Unidos (1861-1865) e a conseqüente decadência na produção do algodão, o Brasil passa a fornecer matéria prima às indústrias da Inglaterra. Sorocaba se destaca, plantando o algodão já herbáceo, iniciando uma nova fase na sua economia. Além da exportação do algodão a cidade desenvolveu processo de mecanização no descaroçamento, sendo uma das primeiras cidades do interior da Província a possuir esse tipo de fábrica (Canabrava, apud Silva, 2000, p.50). O final da guerra civil restabelece a produção americana e o abastecimento do mercado europeu; os preços sofrem queda. Em 1875 foi fundada a Estrada de Ferro Sorocabana, ligando a cidade a S.Paulo, como uma das formas de incentivar a produção local. A grande produção de algodão, a falta de mercado externo e o acúmulo de capital comercial,foram fatores decisivos para o desenvolvimento industrial que se processará a seguir.
Em 1882 foi fundada a Fábrica Nossa Senhora da Ponte, com máquinas de Manchester, Inglaterra; as fábricas Votorantim e Santa Rosália, são de 1890 e a Santa Maria foi fundada em 1896 (ALMEIDA, 1969). Em 1904, a cidade foi saudada em discurso festivo, como a “Manchester Paulista” (SILVA, 2000, p.82). As fábricas, com exceção da Votorantim e S. Rosália, eram centrais, centro onde também se expandia o comércio. Os operários se instalavam em bairros próximos às indústrias, muitas vezes em vilas construídas para esse fim, como a Votorantim, S. Maria e S. Rosália. Outras indústrias se desenvolveram ao lado das têxteis: óleo, calçados, malhas, banha, chapéus, enxadas, etc... A cidade inseria-se no modo de produção capitalista industrial, de exportação de mercadorias. Duas características diferenciam o processo de industrialização de Sorocaba: a industrialização antecipa-se ao processo do país e não teve como fator gerador o capital acumulado com o plantio e exportação do café. Na cidade, o capital foi gerado no comércio tropeiro, plantio e exportação de algodão e participação de imigrantes, italianos, espanhóis, alemães, suíços e outros. Também, deve-se destacar o emprego de capitais de paulistas associados a imigrantes, “homens ricos que tiveram de empregar seu dinheiro em vista da inflação....e achavam Sorocaba a “ cidade do futuro”. É a boa face da medalha do Encilhamento” (ALMEIDA 1969). Os imigrantes que vieram para Sorocaba eram, principalmente, italianos e espanhóis. Os italianos se instalaram sobretudo no bairro do Além Linha e os espanhóis, no bairro do Além Ponte - a denominação, conservada até hoje, é devida à Estrada de Ferro Sorocabana, cujas linhas cortam a cidade, e à ponte sobre o Rio Sorocaba.
De acordo com registros bibliográficos e em periódicos da imprensa local, a participação operária nos movimentos reivindicatórios foi intensa, no período estudado.
Objetivando dar maior visibilidade às questões que envolvem a escolarização na imprensa, torna-se necessário um recorte sobre a situação educacional em Sorocaba. No período estudado a realidade escolar era bastante diversificada. Havia grupos escolares, escolas isoladas (em sua grande maioria), escola particulares laicas e confessionais. A Constituição de 1891 deixava aos estados a competência da educação, não legislando sobre a obrigatoriedade ou gratuidade do ensino primário. A Lei nº 88, de 08-09-1892, que reformulou a Instrução Pública do Estado de S.Paulo, torna o ensino primário obrigatório, dos 7 aos l2 anos. Com o Decreto nº 248, de 26-09-1894, várias escolas isoladas passam, quando há possibilidade, a funcionar em um só prédio, o Grupo Escolar, trazendo alterações positivas, como a divisão dos alunos em séries, funcionando em classes diferentes. O primeiro grupo escolar de Sorocaba funcionou somente em 1896 (Antonio Padilha) e o segundo, apenas em 1914 (Visconde de Porto Seguro), ambos na região central, com poucas vagas, ocupadas por crianças das famílias de maior prestigio da cidade. Os mais pobres continuavam a freqüentar as escolas isoladas, quando havia, inclusive nos bairros com predominância de população operária, Além Ponte e Além Linha. Somente em 1919 surgiu o terceiro grupo escolar, Senador Vergueiro, no Além Ponte, bairro com população predominantemente operária. A pressão para a criação de grupos escolares foi grande e registrada pela imprensa. Para minimizar o problema, o Estado, através do Decreto 1239, de 30-09-1904, autorizou a criação de escolas no perímetro urbano; três escolas são criadas, no centro, freqüentadas por filhos de estrangeiros ou naturalizados e da classe economicamente mais desenvolvida (MENON,2000).
De acordo com o Relatorio Anual da Prefeitura Municipal de Sorocaba, de 1919, a cidade contava com uma população urbana de 20.000 habitantes e de 20.600 nos bairros. Na população urbana havia 2530 crianças em idade escolar, das quais, 1348 iam à escola (53,2%); nos bairros havia 2606 crianças em idade escolar, das quais, 937 estavam matriculadas nas 29 escolas isoladas existentes.
Para o atendimento da população, até 1918, havia, como visto, dois grupos escolares, com 36 classes, quatro escolas urbanas mistas, quatro escolas noturnas distritais, sete distritais, 12 rurais, 10 municipais, um colégio particular (Santa Escolástica), e dois cursos noturnos particulares. As escolas particulares eram pagas e muitas tiveram vida efêmera. Havia escolas italianas, escolas protestantes freqüentadas por suíços,alemães e brasileiros, e escolas católicas, destacando-se o Colégio Santa Escolástica, criado em 1906, para meninas da elite (MENON, 2000). São inúmeros os anúncios sobre abertura de escolas de primeiras letras (inclusive noturnas), de preparo para academias, externatos para alunos de várias nacionalidades, publicados nos jornais como O Ypiranga, Jornal do Commercio, O Sorocabano, O 15 de Novembro, incluindo O Operário.A Maçonaria, por meio da Loja Perseverança III, criada por dissidência da Loja Constância, foi pioneira no ensino primário particular gratuito e noturno, para analfabetos que trabalhavam no período diurno. A escola foi inaugurada em 07 de setembro de 1869, antecipando-se ao poder público, sendo posteriormente aberta à freqüência de escravos (IRMÃO, 1969).
A necessidade de escolas noturnas era insistentemente lembrada pela imprensa representativa dos operários. Em 1910, o governo estadual autorizou o funcionamento de uma escola noturna, para os operários das fábricas S. Rosália e N. Senhora da Ponte, fato que necessita ser pesquisado, uma vez que há apenas algumas referências.
Os dados levantados evidenciam a precariedade do atendimento escolar no município, fato que foi amplamente discutido pela imprensa local.

III A EDUCAÇÃO ESCOLAR NA IMPRENSA

Nossa intenção neste recorte é a de proporcionar uma visão, embora parcial, acerca das reivindicações no campo da educação, realizadas pela população, investigando jornais que circularam na época, representativos de grupos operários ou empresariais.
Constata-se que a imprensa, além dos sindicatos, foi um dos principais meios de divulgação das lutas operárias, notadamente do ideário anarquista, uma vez que não tinham representantes legais que os defendessem e não contavam com o apoio da imprensa burguesa. Foram muitos os periódicos fundados de norte a sul do Brasil, nas capitais, proliferando também nas cidades interioranas que concentravam grande número de operários, principalmente no Estado de S.Paulo. Edgar Rodrigues apresenta um amplo levantamento sobre a Imprensa Social do Brasil até 1922 (RODRIGUES, 1972,p.425-444), relacionando inúmeros jornais dos trabalhadores, tendo a denominação “O Operário” e suas variações, como Voz Operária, Luta Operária e outros, a preferência de grande parte dos editores. Os jornais, além de distribuídos, eram lidos em voz alta para os operários analfabetos e publicavam artigos políticos, textos sobre conferências, conselhos, denúncias sobre abusos praticados pelos patrões, notícias sobre greves, reivindicações salariais, protestos contra as longas jornadas de trabalho, incluindo o trabalho infantil e o feminino.
Deve ser lembrado que, embora expressando os problemas e necessidades dos operários, os jornais não eram, necessariamente, produzidos por eles, mas, também, por intelectuais, vinculados ou não à ligas ou sindicatos operários. Sobre o jornal operário constata-se que


O seu valor como documento vivo desse período é incontestável porque é, acima de tudo, informativo e foi o resultado de uma participação efetiva do individual e do coletivo no processo histórico( FERREIRA,1988,p.13).

Para Ferreira “o jornal foi um instrumento de informação, conscientização e mobilização”(FERREIRA, 1988,p.06).
A pesquisa, em seus primeiros momentos, está sendo direcionada à análise de jornais , do município de Sorocaba, em especial, o jornal O Operário, publicado entre 1909 a 1913, que se definia como “Orgam de defeza da classe operária, noticioso, litterário e de combate”. Sua redação localizava-se à Rua Coronel Cavalheiros, nº 23, e era publicado quinzenalmente, passando depois a semanal. Em 1911 acrescentou ao título o lema “Liberdade e Instrucção”; em 1913, definiu-se como “Semanário de Combate” e, no mesmo ano, em seus últimos números, como “Orgam Imparcial”. Tinha como bandeira a defesa dos direitos dos operários; inicialmente o semanário teve orientação socialista, passando, posteriormente, para a anarquista (BARREIRA, 2003). Seus redatores, em cores fortes, denunciavam a exploração das crianças nas fábricas, os abusos contra as mulheres por seus chefes, a necessidade de educação dos filhos dos operários, mas também dos adultos; denunciava os castigos corporais, e a exploração econômica através da utilização de vales e cartões de pagamento, sistema que obrigava os operários a realizar suas compras de gêneros alimentícios e outros, nos armazéns das fábricas, evidentemente com prejuízo para os trabalhadores.
As condições de trabalho nas fábricas eram as mesmas das grandes cidades: baixos salários, 14 horas de trabalho, inclusive para crianças e mulheres; não havia descanso remunerado, faltavam escolas para as crianças e adultos analfabetos, as condições de higiene deixavam muito a desejar e o atendimento médico era péssimo. A imprensa denunciava a situação:

[...] o operariado é victima dos mais torpes abusos, e das mais dolorosas ingratidões. O operariado é um leão que dorme, mais um dia hade acordar lançando abaixo a bastilha dos exploradores....A nossa questão é nas fábricas de tecidos, porque são nellas que labutam pela vida milhares de jovens expostos a tuberculose e as engrenagens das máquinas. Por que é nellas que vivem essa immensidade de meninos pobres que necessitam da luz bendicta da instrucção, o guia abençoado do estudo da vida. (O Operário, nº 94, 1911,p.1).

Em contrapartida, atuava a imprensa conservadora que defendia os “interesses burgueses” dos empresários. Em artigo relatando a visita à Fábrica de Fiação e Tecidos S. Rosália, após inúmeros elogios, o redator registra:

O compartimento do fabrico do fio e sobremodo digno de visitar-se. Antes de tudo, funcionavam quatro machinas, com 150 fusos cada uma; e finalmente, duas machinas, trabalhando em cada uma 350 fusos. Aqui manusêa-se o fio para morim, desde o número 20 até a 28. Nestas últimas machinas, só operam crianças, meninos ágeis, que é uma viva satisfação ver para alli occupados, aproveitando santamente o tempo que outras malbaratam na ociosidade, na precocidade do vicio.
Os operários que presentemente trabalhavam no estabelecimento, montam a 120 homens e mulheres. Os meninos, de ambos os sexos, são de número de 90. De novo, santa escola do trabalho! Vimol-os alli entretidos, deligentes, numa faina suave, que de maneira alguma lhes pode prejudicar as organizações débeis, em vista do dinuto dispêndio de fôrças que demanda. (O 15 de Novembro , n° 651, 1899, p. 01.

Evidencia-se nos reclamos dos trabalhadores, a preocupação com a instrução e a visão da escola como um canal para a liberdade, para uma vida melhor para seus filhos.

[...].escolas para os operários é a coisa mais necessária e mais santa que se possa imaginar, porque se abre, é um cárcere que se fecha. [...] é n’ella que se reconhece o valor da liberdade. Existem nessas fábricas uma quantidade enorme de creanças que estão na edade de freqüentarem escolas. Coitados...criam-se nas fábricas...nesses antros de entorpecimento sem nunca lembrarem-se que com a instrução e a força de vontade poderiam melhorar essas suas sortes (O Operário, n° 96, 1911, p.02).

Observa-se, ainda, que uma das bandeiras do operariado era a diminuição das horas de trabalho infantil (e não particularmente sua eliminação), para que a criança pudesse estudar.

[...]é triste para mim e outros que como eu se prezam em ser sorocabanos [...] ver uma multidão de pequenos, completamente analphabetos, trabalharem numa escura fábrica, desde às 5 horas da manhã até às 7 horas da noite...Pobres creanças! Que ser´a d’ellas, assim ignorantes, por esse mundo de Deus? [...] devemos trabalhar pela victoria de nossa causa, devemos luctar pelas 8 horas de trabalho pois, com a diminuição das horas nos seus trabalhos elles terão tempo para se instruir para aprender a distinguir o bem do mal. Pois bem companheiros, não poupemos esforços para luctar em prol das 8 horas, ellas serão uma mensagem divina que nos livrará deste captiveiro e nos dará tempo para nos instruir (O Operário, n° 44, 1910, p.02)..

Em 1911 foi deflagrada uma greve reivindicando a diminuição da jornada de trabalho para 8 horas. O movimento trouxe como conseqüência a diminuição da jornada de trabalho para 10 horas, fato que facilitou a freqüência dos operários e das crianças às aulas. O artigo “Escolas Nocturnas” registra que com o novo horário das fábricas,
reforçou-se o elemento escolar nas escolas nocturnas da Perseverança III. [...] por quanto elle representa o effeito da grave que teve como unico objetivo a instrucção da classe menos favorecida da sociedade.

O artigo tece elogios ao “elemento massonico local”, reconhecendo que

Essa grande instituição, abrindo escolas para os míseros sedentos de luz, não faz mais do que abrir as portas do grandioso templo, onde residem o absuluto que é Deus. (O Operário, nº 97, 1911, p. 2)

É interessante observar que, em algumas publicações, os redatores procuram esclarecer os operários sobre o perigo representado pela Igreja, associada à velha ordem patrimonialista. Entretanto, em muitos textos, como os aqui apresentados, é freqüente, entre as expressões de revolta, a utilização de frases relacionadas a Deus, ou condicionando a obtenção de benesses à intervenção divina. Essas manifestações sugerem, talvez, a possibilidade de uma compreensão não muito clara da ideologia anarquista, fato que necessita de estudos mais amplos.
Pode-se constatar, em vários números do jornal, a preocupação de seus redatores com a atualidade dos informes, não só locais, mas também mundiais, cumprindo seu papel de instrumento de informação e de mobilização. Em relação à educação, nota-se essa conexão na participação da cidade nos protestos contra a prisão de Francisco Ferrer y Guardia, fundador da Escola Moderna de Barcelona, e nos comícios de solidariedade quando de seu fuzilamento, em 1909, movimentos estes, organizados em todo o Brasil. No artigo “Comício de Protestos” encontramos

Enquanto aqui nesta cidade tratamos de fazer chegar ao conhecimento dos operarios as ideas liberaes, lá fora, pratica o governo do despótico Affonso XIII, um crime bárbaro mandando fuzilar pelos seus lacaios uma das maiores glorias desse seculo – Franciso Ferrer [...] Sorocaba protestou contra esse acto de selvageria fallando brilhantemente sobre o horroroso e barbaro fuzilamento, em comício no largo da Matriz, ante-hontem, as 8 horas da noite [...] ( O Operário, de 17/10/1009, pág 03).

O mesmo artigo descreve a passeata realizada pelas ruas do centro da cidade, os inúmeros discursos e as homenagens prestadas na Photografia Luxardo, diante do retrato de Ferrer. Os redatores lamentam o fato de a Espanha não ser um “paiz livre, sem o beija pe do Vaticano”, enviando “pezames aos hespanhoes que trabalham pelo ideal do immortal Ferrer”.
Os redatores, em vários artigos, demonstram a preocupação com a educação escolar e a necessidade da criação de escolas, mas também com a divulgação de atividades educativas . O jornal nº 134, de 1912, p. 2, noticia uma reunião da União Operária, com apresentação de vários oradores, todos operários , discutindo temas de interesse da classe. Uma das oradoras, Luiza Candiotta, falou sobre a Escola Moderna e seu valor.
O jornal funcionava também como instrumento de educação da classe operária, procurando conscientizá-lo de sua realidade, instruindo-os na perspectiva de uma vida melhor.

Os operários em sua maioria detestam a instrucção e acceitam tudo quanto é crendices religiosas, tudo quanto é charlatanismo politiqueiro sem o mínimo analyses, sem a mínima reflexão. [...] é o caso desses imbecis que detestam a crencia para entregar-se desenfreadamente as supertições e crendices populares detestando as organizações que é uma escola onde todos podem trocarem idéias e adquirir pratica e conhecimentos para a aluta de se emancipar [...] [...] chega o Domingo apos seus dias de trabalho rude e pesado que deviam procurar o descanso e aproveitar o tempo na cultivação do seu intelecto, lerem, associarem-se para as coisas úteis, não, procuram gastar todo o fructo do trabalho em jogos de cartas, nas libações alcoolicas, etc... (O Operário, nº 166, 1913, p. 1).

O Jornal O Operário teve importante papel na organização da Liga Operária de Sorocaba, cujos estatutos foram aprovados em 18/11/1911; dela faziam parte o diretor e redatores do jornal (O Operário, 24/9/1911, p.2). A “Liga” foi responsável pela criação de uma escola noturna para crianças operárias, tendo como professor Joseph Revier, também colaborador do jornal (O Operário, 1º/5/1912, p.2). Edgar Rodrigues registra a existência da Escola da Liga Operária de Sorocaba, que teria sido “fundada em 21/11/1911” (RODRIGUES, 1972. p.448). O mesmo autor registra que em 15 de setembro de 1911, a ”Liga Operária de Sorocaba, que havia sido fechada pela polícia, inaugura a sua escola noturna com grande freqüência de alunos”. “O Operário”, datado de 14/4/1912, p.2, registra a “criação de uma escola moderna em Votorantim, para ambos os sexos e, uma outra em S.Rosália”. A criação e o funcionamento dessas escolas serão objeto de pesquisa.
Os estudos, até o momento, constatam que foi significativa a participação da imprensa empresarial, “burguesa”, na defesa da instrução pública.
O Jornal do Commercio, “Orgam Commercial” e noticioso, de publicação semanal e que se definia como “despretenciosos, não se filiando a seitas políticas, religiosas”; registra no artigo “ Instrucção” que

[...] é necessário que os templos de ensino nem uma hora sequer cerrem suas portas. Escolas diurnas para os meninos jovens que não têm ocupação livrando-os assim da vadiagem; escolas noturnas para os operários e toda a classe do trabalho, que labutam durante o dia ganhando a vida e o pão. Alimentar durante o dia o corpo com o pão ganho na fabrica ou na oficina e durante a noite alimentar o espírito com a instrucção, que também alimenta (Jornal do Commercio, nº 3, 16/01/1910, p. 2

No artigo “ Pela Instrucção” encontramos

Sorocaba tem palpitante necessidade de mais um grupo, pois sua população é ainda maior que a de Piracicaba e Jundiahy, cidades que possuem mais de um estabelecimento de instrucção primaria funccionando com toda regularidade. Era de esperar-se, mesmo, da acção prompta e efficaz dos seus ateis dirigentes políticos, que jamais desmentiram os patrióticos intuitos que os animaram sempre, pois não era admissível que um assumpto de tal relevância fosse preterido, sabendo-se que a creação de tais estabelecimentos depende unicamente dos nossos representantes no congresso estadual, delles que têm o restricto dever de ascultar cuidadosamente as necessidades publicas e suprill-as com a mais prompta brevidade e precisão. ( Cruzeiro do Sul, 04/02/1914, p.01).

A falta de escolas públicas profissionalizantes foi motivo de discussões em muitos jornais, sendo digno de registro o protesto jocoso, publicado pelo Jornal O Sorocabano “ Organ do S.C. Sorocabano”.

Sorocaba vai ser mais uma vez preterida! É nos doloroso dizer que infelizmente não temos quem se interesse lá na Câmara Federal pelo nosso progresso.
Ao passo que Botucatu que invejamos tem alguém por si, com uma Escola Normal, Escola Superior de commercio reconhecida pelo governo Federal, etc.
Sorocaba tem um manicomio (a sua custa) e tem... vontade de ter uma Escola Profissional.
E o povo da cidade de Sorocaba que concorre com os cofres da União, com renda superior a do Estado do Espírito Santo.
É possível que o Governo Federal com a criação de Escolas de Aprendizes de Artífices, localize uma em... Assis e Chavantes (Jornal O Sorocabano,nº 16, de 14/11/1920).

A criação de uma Escola Normal na cidade motivou, durante anos, redatores dos jornais de várias tendências. O jornal Cruzeiro do Sul, empresarial, manifestou-se sobre a intenção do governo estadual de instalar três escolas normais em “Caçapava, Lorena e a terceira não se sabe”. Questionava o motivo de não

[...] ser installada em Sorocaba, que é uma cidade grande, populosa, commerciante e industrial e, por conseguinte, uma das localidades que concorrem com maior renda para o Estado. [...] Demais, Lorena é uma cidade bem menor e de muito menos importância do que Sorocaba e Caçapava não lhe leva superioridade alguma. Sorocaba,está, portanto, em perfeitas condições para a instalação da escola.

O artigo termina incentivando a população à mobilização :

[...] indispensável se torna, é que o povo trate de imitar o procedimento do povo de Caçapava e Lorena, dirigindo ao governo um abaixo assignado. Trabalhe mais um pouco, seja um pouco mais animado do que é, não se contente em fallar unicamente pelas columnas dos jornaes (Cruzeiro do Sul, 24/07/1912,p.01)

A leitura dos jornais, de anos e tendências diversas, permite observar o sentimento de frustração da cidade, constantemente preterida pelos governos estaduais na escolha para instalação de grupos escolares, escolas profissionais e a escola normal.

IV ALGUMAS CONSIDERAÇÕES

O estudo, embora parcial, permite-nos reiterar a importância da imprensa,e, particularmente do jornal, enquanto fonte documental. A imprensa, enquanto objeto de análise, proporciona o acompanhamento das discussões sobre a educação escolar, sob diversas óticas, contribuindo para o desvelamento da realidade escolar do município, no período de 1889 a 1920. Revela, também, a valorização da instrução, via escolarização pública e a necessidade de sua expansão, espelhando, como visto, a realidade nacional daquele momento histórico. Este estudo, necessariamente, será aprofundado, e, certamente, revelará outros aspectos importantes para a história educacional da cidade.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ALMEIDA, Aluísio de. História de Sorocaba. Instituto Histórico, Geográfico e Genealógico de Sorocaba. 1969.

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