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  LEITURA E TELEMÁTICA NA EDUCAÇÃO INFANTIL

Nadjane Maria do Rêgo B. Freitas - Prefeitura do Recife / Secretaria de Educação

Leitura e Telemática na Educação Infantil

O projeto MMM (Mini Web, Multilíngüe, MaxiAprendizagem) consiste em um intercâmbio de conteúdos e atividades realizadas entre professores e alunos de dois países visando conhecer a realidade cultural desses países que mantêm contato. Esse projeto é de suma importância para os alunos, professores e equipe envolvida no seu desenvolvimento, já que desperta, nos alunos, curiosidade pela sua língua-mãe a partir do significado e tradução dos textos e vocábulos enviados pelos colegas do outro país e nos professores, o desafio de buscar novos conhecimentos e elaborar um planejamento englobando o novo idioma, bem como aprimorar seus conteúdos para oferecer uma língua estrangeira de maneira significativa. No que se refere a equipe envolvida, o desafio de acreditar e empenhar-se na articulação de um projeto diferente e inovador.
O objetivo principal do projeto MMM é contribuir para a alfabetização de crianças entre 5 e 7 anos de idade, usando o texto da correspondência via e-mail em situação real de uso, como auxílio de ensino.
Os países envolvidos na execução do projeto foram o Brasil e a França, com alunos de escolas públicas, na faixa etária de, em média, 6 a 8 anos, da Escola Municipal Professor Solano Magalhães (Recife-PE/BR) e Ecolege Gerard Philipe (Vernouillet/FR). As turmas eram compostas por 33 alunos – 22 meninas e 11 meninos (no Brasil) e 21 alunos –13 meninas e 8 meninos (na França).1 As professoras mediadoras do projeto foram Nadjane Freitas e Delphine e Yannick, respectivamente.
Para a implantação do projeto e a escolha da turma foi realizada pela Secretaria de Educação através do interesse dos professores em fazer intercâmbio com outros países através do correio eletrônico, desejo manifesto pela professora Nadjane em uma troca com a França. A partir deste interesse, o projeto começou a ser implantado seguindo um modelo já em desenvolvimento de “Telemática na Educação Infantil” e alguns passos trazidos para dar início às correspondências.
Após o acerto da implantação do projeto, os passos seguintes foram repassados para os alunos de forma simples, clara, objetiva, numa linguagem acessível, despertando tão logo o interesse e aguçando a curiosidade, termômetro para medir a relevância que a novidade traria para o desenvolviemento pedagógico e ampliação cultural dos alunos.

Interação através do correio eletrônico

O desenvolvimento do trabalho com os alunos na telemática, a partir do projeto Mini Web, Multilingüe, Maxi Aprendizagem (MMM), aconteceu considerando o gênero textual Chat (bate-papo), que consiste num gênero novo, pois com o uso do computador houve uma ampliação notável e uma “explosão de novos gêneros e novas formas de comunicação, tanto na oralidade quanto na escrita” (MARCUSCHI, 2002: 19) e um deles é o computador. Como todo gênero, ele apresenta elementos que o caracterizam. Assim, como afirma Abreu (2002), o Chat apresenta diferentes finalidades e podemos encontrar em diversos provedores, além de possuir algumas regularidades, ainda não bem definidas, como, por exemplo, o uso de sinais gráficos para a expressão de emoções. Quanto ao tema a ser escolhido para o desenvolvimento das atividades com o gênero em sala de aula, ele deve ser suficientemente interessante e permitir a emergência de posições controversas e uma progressão ao desenvolvimento das capacidades dos alunos.
Por ser um gênero emergente na sociedade, alguns participantes do intercambio do projeto MMM apresentavam, às vezes, dificuldades em produzir o Chat, tendo, portanto, que se adaptar à situação de uso e às formas do gênero, ou seja, ao tipo de conteúdo que se espera em tal gênero, ao tipo de estilo e de construção composicional de seus enunciados que são, para Bakhtin (1986), os três elementos que caracterizam um gênero. Dessa forma, ao utilizar o gênero mencionado, os estudantes, juntamente com a professora, foram adquirindo as


1 Ver foto em anexo
especificidades inerentes ao mesmo, possibilitando, assim, a interação entre os participantes do intercâmbio.
No entanto, essas especificidades do Chat não são completamente novas, mas fruto de experiências com outros gêneros que já circulam há mais tempo na sociedade, pois, como já percebido por Bakhtin (1997), os gêneros sofrem ‘transmutação’ e na assimilação de um gênero por outro surgem novos gêneros. Assim, a tecnologia favorece o surgimento de formas inovadoras.

Brasil – França: o desenvolvimento da alfabetização

A alfabetização é um processo através do qual as pessoas aprendem a ler e a escrever. Estes procedimentos, porém, vão muito além de certas técnicas de translação da linguagem oral para a linguagem escrita. O domínio da leitura e da escrita pressupõe o domínio da linguagem oral, da consciência metalingüística (isto é, da capacidade de manipular e refletir intencionalmente sobre a linguagem).
No processo de alfabetização é necessário que o mediador desse processo, que na escola é a professora, possibilite que os estudantes estejam sempre em contato com os diversos gêneros textuais, a fim de tornar tal aprendizado significativo e mais prazeroso. Dessa forma, alfabetizar letrando é um dos papéis primodiais da escola, onde o alfabetizando deverá estar envolvido com texto reais e que circulam na sociedade.
Nesta perspectiva, é que o Projeto MMM viabilizou um trabalho de intercâmbio dos alunos brasileiros com os alunos franceses. Esse intercâmbio aconteceu através da correspondência eletrônica, via internet. Nessa interação houve a elaboração e recepção de textos de ambas as partes, textos estes que se materializavam através das necessidades dos grupos de se interagirem.
A priori, os alunos foram preparados oralmente sobre o que é correio eletrônico, sua importância, abrangência e como pode atingir outras realidades, bem como questionados no que esperavam, o que gostariam de saber, interesses...
Após a emissão das idéias, os alunos deveriam produzir (redigir, compor e expedir mensagens com focos citados anteriormente), e em seguida avaliar coletivamente a produção firnal. As mensagens sempre foram enviadas na língua-mãe dos alunos.
O próximo passo foi trabalhar a correspondência recebida: ressaltar dados componentes do corpo da carta para posteriormente chegar ao conteúdo propriamente dito. Previamente, a professora preparava o texto, as fotos e imagens enviadas em cartazes com letras maiores para que todos os alunos pudessem ver tudo com nitidez. Com a leitura em francês, o texto foi apresentado e traduzido pelos alunos através do vocabulário adquirido. Em seguida, apresentado em português e estabelecida a discussão sobre o texto.Os passos seguintes foram ler, refletir, comentar, produzir e responder. Comentários, comparações e análise dos conteúdos permitiram o desdobramento em atividades pedagógicas futuras. O texto em francês está representado a seguir com sua tradução.

Texto 1
Lundi 17 novembre
Bonjour!
Merci de nous avoir écrit.
Nous sommes 21: 8 garçons et 13 filles.
Nous habitons à Vernouillet & prés de Paris & la capitale de la France.
Vous avez de la chance d’habiter au bord de la mer!
Nous, nous sommes en automme, et vous?
Quel âge avez-vous?
Nous avons essayé de deviner si vaus êtes um garçon ou une fille.
Les filles: Thalia, Monyke, Dayane, Amanda, Alexsandra, Luana, Rosenilda, Ismênia, Priscila.
Les garçons: Jackson, Lucas, Ewerton, Alan, Yuri, Carlos, Pedro Yan, Matheus, Wellington, Ricardo.
A vous de jouer avec nos prénoms!
Zilan – Yasmine – Anissa – Dalila – Karim – Mélissa – Souliman – Alexis – Alexandre – Rayane – Johan – Anissa – Inès – Célia – Elodia – Eliz – Emelynn – Maryam – Florent – Cynthia.
A bientôt
Nous vous envoyons notre photo de classe, avec nos 2 maîtresses: Madame Loque et madame Ballon.

Tradução
17 de novembro de 2003
Bom dia.
Obrigado por escrever-nos.
Nós somos 21, 8 meninos e 13 meninas.
Moramos em Vernouillet, perto de paris, a capital da França.
Vocês têm muita sorte de morar pertinho do mar.
Agora é o outono na Europa, e vocês?
Quantos anos têm?
Tentamos adivinhar se vocês são um garotão ou uma garota.
Uma garota: Thalia, Monyke, Dayane, Amanda, Alexsandra, Luana, Rosenilda, Ismênia, Priscila.
Um garotão: Jackson, Lucas, Ewerton, Alan, Yuri, Carlos, Pedro Yan, Matheus, Wellington, Ricardo.
Vocês talvez possam jogar com os nossos nomes:
Zilan – Yasmine – Anissa – Dalila – Karim – Mélissa – Souliman – Alexis – Alexandre – Rayane – Johan – Anissa – Inès – Célia – Elodia – Eliz – Emelynn – Maryam – Florent – Cynthia.
Até já.
Mandamos a fotografia de nossa aula, com nossas duas professoras; Sennhora Lonque e Senhora Ballon.

As oportunidades não foram desperdiçadas: mensagens contendo os mais diversos conteúdos foram enviadas. As novidades da escola, a apresentação dos alunos (com idade, sexo, preferências de disciplinas e brincadeiras, etc., festividades da escola, trechos de livros, as características da escola e da localidade na qual está inserida, etc. Os alunos tiveram a oportunidade de fazer desenhos, construir textos, dentre eles, pode-se demonstrar a seguir os primeiros textos elaborados com o objetivo de se apresentarem.

Texto 2
28 de novembro de 2003.
Amados colegas, bom dia!
Gostamos muito de receber a sua mensagem. Ficamos felizes em saber que todos acertaram o jogo dos nomes. Aqui houve grande empenho, porém tivemos algumas dúvidas.
Dividimos assim:
Garotos: Filan – Souliman – Alexis – Alexandre – Johan – Mickaël - Florent – Elodia (A nossa dúvida foi Elodia)
Garotas: Jasmine – Dalila – Karin – Mélissa – Rayane – Inês – Celia – Eliz – Emelynn – Maryan – Cynthia – Anissa. (Vocës tem duas alunas chamadas Anissa?)
Vamos providenciar as nossas fotos, aguardem. Por enquanto vão algumas fotos de nossa cidade. Como aqui é verão, estamos enviando fotos de nossa praia urbana mais bonita. Chama-se Praia de Boa Viagem.
Gostaríamos de saber se sua escola é pública ou privada. Falem-nos sobre ela.
Um beijo,
Nossa turma.

A partir do desenvolvimento do projeto, os alunos despertaram o interesse e o entusiasmo pela coreespondência principalmente a eletrônica. A ansiedade por novas mensagens, tanto para o envio quanto para a recepção, desenvolveu o desejo de confeccionar novos textos e explorar outros conteúdos para apresentar aos colegas do intercâmbio. Isso influenciou bastante na atividade intersala, já que os alunos se tornaram mais concentrados, interessados e entusiasmados, conhecendo e explorando novas práticas e formas de linguagem, inclusive havendo o envolvimento com questões culturais, como se observa a seguir:

Texto 3
19 de dezembro de 2003
Amados colegas, bom dia!
Eu me chamo Alexsandra, sou uma menina e tenho 6 anos. Gosto de brincar de academia. Sou branca, olhos castanhos. Também moro no Jardim Beira Rio, bairro do Pina.
(...)
Eu me chamo Roberta Thalia, tenho 7 anos. Sou uma menina que gosta de desenhar, escrever, brincar. Sou morena dos olhos pretos.
Eu me chamo Janicleide, tenho 7 anos. Sou uma menina e gosto de brincar. Sou loira , tenho os olhos verdes e sou muito levada.
Estamos no verão.
O sol daqui é uma delicia!
Espero que todos tenham gostado das fotos que mandamos de nossas praias e de nossa cidade.
Vamos ficar de férias em 30/12/03 e retornaremos em 11/02/04.
Estamos desejando a todos desta Escola um Feliz Natal e um Ano Novo repleto de amor e paz.

Dessa forma, a aquisição de novas palavras, a alfabetização e o desenvolvimento da leitura foram notórios. Logo, o projeto permitiu o sociointeracionismo, a proposta interdisciplinar de ensino e o uso de novas tecnologias da comunicação e informação como instumento na construção de um saber contextualizado e compartilhado.

Considerações Finais

Um projeto como o MMM funciona como um ótimo e eficaz suporte para a alfabetização e o desenvolvimento dos estudantes tendo em vista que a língua passa a ter um significado especial: as crianças percebem a importância de ler e escrever dentro de um contexto, percebendo, assim, a escrita como prática social.
Interrogações como O que escrever? Por que escrever? Para que escrever? Para quem escrever? despertam a necessidade de aprender para descobrir o que está sendo enviado para os outros colegas. Além disso, o sistema escrito passa a ser refletido pelos estudantes com o propósito de uso da norma culta da língua, considerando o interlocutor.
A experiência foi exitosa tanto para os discentes como para os docentes, repercutindo em novas oporunidades como esta que ora fomos convidados, sem contar com as inúmeras possiblidades de novos horizontes nos sonhos e na realidade da vida das crianças participantes.

Bibliografia

MARCUSCHI, Luiz Antonio. Gêneros textuais: definição e funcionalidade. In: DIONISIO, A. P. et al. (orgs).
Gêneros textuais e ensino. Rio de Janeiro: Lucerna, 2002.

ABREU, Lília Santos. O Chat educacional: o professor diante desse gênero emergente. In: DIONISIO, A. P.
et al. (orgs). Gêneros textuais e ensino. Rio de Janeiro: Lucerna, 2002.

BACKHTIN, Mikail. Estética da criação verbal. São Paulo: Martins Fontes, 1997

BACKHTIN, Mikail. (Volochinov). Marxismo e filosofia de linguagem. São Paulo: Hucitec, 1988.

Anexo


Turma da professora Nadjane (Escola Professor Solano Magalhães – Brasil)


Turma das professoras Yannick e Delphine (Ecolege Gerard Phillipe – França)

 
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