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  CAPAS, PREFÁCIOS E DEDICATÓRIAS IMPRESSAS: CERIMÔNIAS DE APROPRIAÇÃO DAS OBRAS DE ANTÔNIO ALVAREZ PARADA

Larissa Frossard* - UERJ

Este estudo pretende fazer uma análise dos elementos intermediários que compõem as obras de um professor e escritor macaense que contribuiu intensamente para a construção da memória da cidade de Macaé. Antônio Alvarez Parada era professor. Conhecido carinhosamente por todos como professor Tonito, era macaense, nascido em 27 de dezembro de 1926. Lecionou química, física, espanhol e matemática no Ginásio Macaense, no Colégio Estadual Luiz Reid e no SENAI, onde também foi diretor. Recebeu a medalha do Mérito Municipal de Macaé e título de Benemérito do Estado do Rio de Janeiro. Foi membro fundador da Academia Macaense de Letras. Primogênito de imigrantes espanhóis que se instalaram na cidade através de atividade comercial e se integraram à sociedade macaense, teve um papel importante no que se refere às pesquisas históricas de Macaé. É pois, na atividade de pesquisador que tem início a publicação da maior parte de suas obras, já que apenas um de seus seis livros publicados em vida não faz referência à cidade .
Para tanto, busca-se examinar as capas e os textos que entremeiam as obras e entender as relações estabelecidas entre quem ilustra, quem apresenta e a quem se dedica cada livro publicado. As obras que serão analisadas neste estudo são: Coisas e Gente da Velha Macaé (1958), ABC de Macaé (1963), Histórias da Velha Macaé (1980), Imagem da Macaé Antiga (1982) e Meu nome, crianças, é Macaé (1983), e os dois livros póstumos: Histórias Curtas e Antigas de Macaé (1995), onde estão reunidas em torno de mil crônicas em dois volumes, textos originalmente publicados no Jornal O Debate, no período de 1978 a 1985. Que relações podem ser estabelecidas entre as capas, os títulos e os textos? Quem são as pessoas que ilustram e apresentam seus livros? Que relações têm elas com o escritor? Quem são os colaboradores e suas fontes de pesquisas? Responder a estas questões contribui para os estudos sobre o livro e a leitura na medida em que traz análises de elementos que compõem as obras de um escritor e, de certa forma, colabora para a análise de sua trajetória.

TONITO: UM AUTOR LOCALISTA

Paulo Knauss (2004) , em trabalho recente sobre Macaé , oferece leituras múltiplas da história desta cidade, por meio dos vestígios do passado da sociedade local. O livro é uma coleção de imagens, de documentos variados, acompanhados de pequenos textos que se apropriam de trabalhos de escritores da cidade, como Tonito, no sentido de tomar como análise a construção da memória coletiva e o desenvolvimento do processo histórico de Macaé. Antônio Alvarez Parada tem sido considerado por pesquisadores macaenses como um dos mais importantes escritores da cidade: “No campo da literatura, o município de Macaé tem produzido escritores de renome – Godofredo Tinoco, Antônio Parada, Alberto Figueiredo Pimentel, entre outros (KNAUSS, 2004, p.117)”. Ressalta ainda que Tonito se distinguia no cenário intelectual por sua produção memorialística:

Um outro importante suporte de identidade de uma comunidade é a produção de seus memorialistas. O processo de construção de identidade desta cidade e de seus habitantes deve muito a alguns de seus ilustres escritores. Os nomes de Godofredo Tinoco e Antônio Alvarez Parada se destacam na historiografia da cidade de Macaé. (...) Durante toda as suas vidas de cidadãos, estes escritores e construtores da memória local, produzem registros diversos – depoimentos, artigos de jornais, livros, ensaios – sobre acontecimentos e práticas sociais do passado da região, contribuindo para a constituição de um acervo precioso da memória local. A imagem nostálgica de Macaé como um balneário tranqüilo é elaborada, por exemplo, através dos escritos de Antônio Alvarez Parada. A memória de um tempo que não volta mais eternizou-se através de sua pena, indicando pistas para que seus conterrâneos de hoje demarquem as suas identidades a partir do confronto com a Macaé das plataformas de petróleo, sintonizada com os dois lados do progresso (KNAUSS e GABRIEL, 2004, p.121).

O livro pode ser considerado, de acordo com Pierre Nora (1977), como um lugar de memória já que se constitui num suporte físico da memória. Assim são compreendidos os livros de Antônio Alvarez Parada pois desempenham a função explícita de apresentar aos leitores uma dada noção do que foi a história de Macaé, representando a cultura, a geografia, a economia, enfim a história da cidade, contribuindo no espaço intelectual da sociedade macaense para a produção de uma memória local.
Em discurso proferido na Assembléia Legislativa, em decorrência da homenagem de Cidadão Benemérito do Estado do Rio de Janeiro, em 25 de março de 1985 e posteriormente publicado no jornal O Debate, fala sobre os vieses que nortearam sua trajetória pessoal e profissional:

O primeiro amor é a sala de aula. Onde ganhei e ganho a vida. Amando como somente pode ser amado quem nos ama ainda mais. (...) O segundo amor é Macaé. Amor sem freios, sem medidas. Amor de admiração. Amor de filho. Amor de gratidão (...) O terceiro amor, os que me conhecem sabem quem é. Amor primeiro e único. Amor, amor. Não necessito citá-lo. Ele está em mim e isso me basta.

Fazendo uma análise da trilogia amorosa de Tonito encontramos em primeiro lugar a sala de aula, espaço destinado a sua principal atividade profissional: professor, iniciada em 1950 quando descobriu, ao aceitar um convite do professor Miguel Ângelo, do antigo Ginásio Macaense, para lecionar química e física, que esta seria a carreira que desejaria seguir. Macaé segue a ordem sendo o motor que fará com que desenvolva outras dimensões de sua trajetória: de pesquisador, escritor, jornalista e historiador . A dedicação à escrita e, conseqüentemente a produção de suas obras é resultado desta admiração pela cidade. Exemplo disso pode ser observado através de seus livros, pois todos têm o nome Macaé compondo seus títulos e expressam sua paixão pela cidade. Maria Bernadete Almeida Castro Alvarez, a Detinha, completa a trilogia, como amor primeiro e único, sendo sua companheira durante, aproximadamente, 40 anos de convivência. Hoje ela é a guardiã de seu arquivo pessoal: o seu escritório.
Antonio Castillo Gómez (2001) considera o livro enquanto uma produção cultural, por aquilo que pretende enunciar e que de fato representa para quem lê: “Cada producción cultural, um cuadro o um libro, enuncia también una determinada imagem de aquello que representa, la cual se constituye em la medida que existe um sujeto receptor de la misma, ya sea el espectador de um cuadro o el lector de um texto cualquiera” (p.113).
Os significados e atribuições de sentidos dados por Antônio Alvarez Parada em suas obras resultam num processo de conhecimento tecido nas esferas cotidianas, a partir das pesquisas e dos contatos com as pessoas que participavam de sua atividade enquanto escritor e jornalista, e pressupõem um poder que exercita na medida em que trazem em seu bojo, os discursos que orientam as significações dos textos produzidos e transformados em livros.

CAPA: PRIMEIRO CONVITE À LEITURA

A capa de um livro sugere um sentido prévio à leitura de um texto. Em sua maioria, é composta pelo título e nome do autor, podendo ter outros elementos, como subtítulos, ilustrações, nome da editora, data de publicação, edição, entre outros.
Maria Teresa Santos Cunha (1999), em estudo sobre a leitura de formação, analisou as linguagens expressas pelas capas, títulos e disposições tipográficas, apresentando questões importantes para serem levantadas na análise do objeto livro:

As imagens que estampam as capas dos livros podem ser decifradas como um conjunto de signos, como um suporte para representações ideológicas; a linguagem dos títulos aguça a imaginação e faz pensar em seu conteúdo, e a linguagem das disposições tipográficas pode dar uma organização mais ou menos clara à leitura. Isso nunca escapa aos leitores... (p. 51)
A partir de sua pesquisa e da entrevista informal realizada com o editor/livreiro , a autora concluiu que as capas e os títulos tinham o objetivo de seduzir o público, ressaltando uma correspondência com a obra publicada. Neste sentido, várias linguagens estão inscritas em sua materialidade, que se tornam evidentes quando se analisa qualitativamente o aspecto físico do livro. O texto só pode ser lido através de seu suporte e sua compreensão estará influenciada pelas formas escolhidas pelo autor para atingir o leitor. A imagem que tem o livro desencadeará os sentimentos de recusa ou de atração que ele exerce desde o primeiro contato, ou seja, as capas e conseqüentemente seus títulos reforçam a significação do texto.
Dos sete livros analisados neste estudo, três têm as capas simples, trazendo como informação apenas o título e o nome do autor: Histórias da Velha Macaé (1980), e os dois livros póstumos: Histórias Curtas e Antigas de Macaé .

Capa – Histórias da Velha Macaé (1980)
Capa – Curtas e Antigas de Macaé (1995) – Volume I
Capa – Curtas e Antigas de Macaé (1995) – Volume II

 


As outras quatro obras têm capas que não seguem ao mesmo padrão, mas possuem respectivamente relação direta com o conteúdo temático dos livros.

Capa – Coisas e Gente da Velha Macaé (1958)

Coisas e Gente da Velha Macaé (1958), seu primeiro livro, tem como autor de capa João Paulo Cantuária que utilizou as cores preta e vermelha, no fundo branco, para brincar com as letras, traçar retas e desenhar em torno do título. As imagens são diversas e representam personagens como escravos e heróis da história, jornais, igreja, entre outros. O próprio desenho do jornal, com o nome O Século nos remete uma das fontes que o autor utilizou para produzir seus escritos.
No final de cada crônica escrita, que no total são 34 (trinta e quatro) o autor faz referência às fontes, e o jornal O Século é uma delas. As crônicas têm temas diversos que falam da cultura local, como a Lenda de Sant’ Ana, o Teatro Santa Isabel, O carnaval de 1866, Anúncios Curiosos em Velhos Jornais, Inauguração do Telégrafo, Os Leilões em Macaé, etc; de personagens que ultrapassam a história da cidade, como Jean de Léry, Gondomar, Saint-Hilaire, D. Pedro II, Princesa Isabel, Conde D’ Eu, entre outros, e de gente da cidade, como Bellegarde, Motta Coqueiro, Chico do Padre, Chico Diogo, Agenor Caldas, Dona Irene e tantos outros personagens da velha Macaé.

Os jornais dos séculos XVIII e XIX são suas principais fontes de pesquisa, como O Século, O Autonomista, O Regenerador, O Rebate, O Jornal de Macahé, O Constitucional, O Telegrapho, O Monitor Macaense, além de obras como de Antão Vasconcellos, Jean de Léry, Alberto Lamego, Auguste de Saint-Hilaire e Gil de Mantuá.
ABÊCÊ de Macaé (1963), guia informativo e turístico, editado cinco anos após o primeiro livro, foi lançado em comemoração ao sesquicentenário da cidade. Podemos supor que, por esse motivo, o autor da capa, Denildo Ribeiro de Siqueira, companheiro da rede ferroviária, utilizou as cores e os símbolos da bandeira da cidade para desenhar a capa. No centro, vê-se a palmeira macaba apoiada nos desenhos do rio e do mar.

Capa – ABC de Macaé (1963)
Bandeira de Macaé

 

Capa – Imagem da Macaé Antiga (1982)
Imagem da Macaé Antiga (1982), além do título, tem a foto da cidade, convidando o leitor a admirar e conhecer outras imagens da Macaé antiga. A fotografia da capa traz a principal rua da cidade em 1908, com o Bonde da Cia de Ferro Carril, na Avenida Rui Barbosa, conhecida por todos, até hoje como Rua Direita. No interior do livro existem mais 25 (vinte e cinco) fotografias, todas acompanhadas de um texto explicativo: A Alfândega, O Cais do Rio, A Praça Washington Luis, O Solar Monte Elíseo, O Teatro Santa Isabel, O Carnaval de Rua, entre outros. Na própria capa está exposto que o texto e o arquivo fotográfico pertencem ao autor.
Meu nome, crianças, é Macaé (1983), última obra publicada em vida, destinada às crianças, como já indica o próprio título, não traz informações explícitas sobre quem desenhou a capa. Porém, no canto inferior direito da capa, verticalmente, pode-se ler uma assinatura que tudo indica ser de José Cláudio.

 

Capa – Meu nome, crianças é Macaé (1983)

 

É uma capa bastante colorida onde no centro, um desenho que sugere a imagem de Macaé associada aos elementos

naturais, rodeado por imagens que caracterizam momentos distintos da história desta cidade. A representação, através de desenhos, de figuras diversas em volta de uma natureza paradisíaca parece estar ligada a uma necessidade de apresentar muitas das mudanças importantes pelas quais a cidade passou. O porta-retrato no centro, com a imagem colorida sobreposta a um fundo acinzentado, reforça a intenção de apresentar a cidade de forma nostálgica. Em volta dele, imagens tricolores que trazem a história (bustos, trem a vapor, caravela, padre, carta, etc).
De certa forma, podemos sugerir que os títulos foram escolhidos em função do que o autor gostaria de evidenciar, sintetizando, em palavras simples, a necessidade de exprimir, de maneira clara e objetiva, os conteúdos temáticos dos mesmos. Curioso que, de certa forma ele traça, através dos títulos, a perspectiva de que não existe uma história única, existem histórias.


APRESENTANDO OS LIVROS AOS LEITORES

Vários são os textos que têm a função de apresentar o livro aos leitores: os prefácios do próprio autor ou de um crítico; as orelhas, contracapas ou badanas; frontispícios ou introduções; prólogos; posfácios; notas, apêndices ou anexos; informações bibliográficas ou quaisquer outros sinais que mantenham relação com o livro. Suas funções são múltiplas e podem influenciar a recepção do texto, ou seja, são mediadores entre o leitor e o livro. Chartier (apud CUNHA, 1999, p. 57) afirma que “qualquer compreensão de um texto, não importa de que tipo, depende das formas com as quais se apresenta à leitura”. O que nos interessa, neste sentido, é entender como as obras de Antônio Alvarez Parada são apresentadas aos leitores.
Monique Le Moing (1996) ao descobrir, na Casa de Rui Barbosa, os arquivos do memorialista Pedro Nava, interessou-se por seus escritos aliados ao mistério que envolvia a sua morte. Esses fatos motivaram a defesa de sua tese sobre as memórias deste importante literário brasileiro, levando a reconstruir, a partir dos seus escritos, seu percurso pessoal. Na segunda parte do livro , originado deste estudo, a pesquisadora analisa sua escrita traçando o seu caminho, seu modo de escrita, priorizando a criação de sua obra, interessando-se ao mesmo tempo pelo fundo e pela forma do processo de escrever. Assim, constrói uma viagem através das obras do escritor Pedro Nava trabalhando sobre a citação, os adágios, os exergos, as epígrafes, a perigrafia, ou seja, as notas, os títulos, as ilustrações (p. 103), apresentando dimensões interessantes que norteiam a análise destes elementos nas obras de Antônio Alvarez Parada.
Em apenas dois livros Antônio Alvarez Parada faz uso de epígrafes nas folhas anteriores ao texto do livro propriamente dito: “Todos cantam sua terra, também quero cantar a minha” (1958, p. 9) e “ Esquecer a própria história é perder a consciência de si mesmo” (1980, p. 7). Ambas nos ajudam a compreender duas características marcantes deste escritor: o bairrismo e sua abordagem histórica, respectivamente. O bairrismo refere-se à defesa dos interesses de sua terra e sua concepção histórica está ligada ao estudo dos objetos do ponto de vista da origem e de desenvolvimento, vinculando-os às condições concretas que o acompanham. Tonito amava a sua terra, defendia e fazia questão de enaltecer todas as características interessantes e marcantes de Macaé e, por esse motivo, trazia à tona todos os fatos que pudessem colaborar para a preservação da memória da sua cidade.
Todas as obras têm textos de apresentação, que podemos considerar como prefácios. Tonito não utiliza a palavra prefácio, mas intitula os textos introdutórios , todos de sua autoria: Uma explicação, Duas palavras, Ponto Parágrafo, Palavras e Esclarecendo. Apenas um entre estes cinco livros tem um texto com o título PREFÁCIO e é escrito por Herivelto Ferreira do Couto: Histórias da Velha Macaé (1980). Nos dois livros póstumos temos quatro textos introdutórios : Mensagem da Petrobrás – EM RESPEITO À MEMÓRIA, Valorizando o merecimento, por Gilson Corrêa da Silva, Nota explicativa, escrita pelos revisores e Histórias Curtas e Antigas de Macaé – Apresentação, escrito pelo ex-aluno, Nelson Mussi Rocha.
A primeira epígrafe citada neste estudo faz parte do texto Uma explicação, onde o autor deixa clara sua intenção ao escrever sobre a cidade. Essa explicação é seguida por um poema de Alcindo Brito escrito para a cidade de Macaé e tem como título Minha Terra (1958, p 11-12).

Não é um livro definitivo e, o que mais importa, ao pretende sê-lo. É mais a conseqüência de um desejo irresistível e incontrolável, qual seja o de levar para o papel, em letras impressas, (...) a respeito do passado de sua terra (...). É finalmente, uma obra modesta com a qual pretende o autor iniciar um ciclo de livros sôbre as coisas macaenses, sempre com um único objetivo: o “conhece-te a ti mesmo”. (1958, p.10)

Duas Palavras obedece ao mesmo espírito que presidiu o anterior: “revelar aos macaenses, mais ainda, a sua terra, sempre em busca do ‘conhece-te a ti mesmo’. Desta feita, porém pretendo servir também àqueles que nos visitam, de quando em vez, fazendo dêste livro um pretenso guia informativo e turístico” (1963, p.5).
Ponto Parágrafo inicia justificando que “cansativo e inútil seria enumerar as causas de tão longo hiato. Que espero que não se repita para o restante do muito com que ainda pretendo contar, desafinadamente embora, a terra em que nasci e a quem tanto devo (1980, p. 9), já que dezessete anos se passaram depois da segunda obra escrita. O texto segue com o prefácio de Herivelto Ferreira do Couto onde, poeticamente desenha a atividade intelectual deste importante cidadão macaense: Antônio Alvarez Parada:

O vasto conhecimento histórico de Macaé, acumulado em decênios de pesquisa metódica (...) confere a Antônio Alvarez Parada não só uma agigantada autoridade, mas uma erudição especializada ímpar, colossalmente sólida, variada e profunda, povoada e comprovada em obras que antecedem, em copiosa colaboração jornalística, conferências e cursos tão apreciados em toda Macaé contemporânea. Diante deste verdadeiro enciclopedista de Macaé (...) ao invés de construir (...) um vasto e monumental painel histórico (...) o autor tenha preferido concentrar-se pacientemente, como um miniaturista, nos detalhes desta história, compondo um mosaico (...). A única idealização que não logrou escapar é a que está implícita e evidente em cada crônica, em cada página: o seu espírito localista, o amor a Macaé, causa primeira e final de seu fecundo trabalho. (1980, p. 11-12)

E Herivelto Ferreira do Couto termina o prefácio deixando claro que os macaenses são devedores por mais esta contribuição cultural de Antônio Alvarez Parada e que, os leitores, poderão aproveitar o estilo do autor que temperam “agradavelmente um possível sabor de viagem entre ruínas” (1980, p.13).
Palavras segue o ritmo dos outros textos que apresentam seus livros, com tom simples e esclarecedor: “Passado por mim há muitos anos sendo vasculhado, permanentemente envolvido pela irresistível atração de conhecer detalhes, investigar pormenores, esclarecer fatos, eliminar dúvidas, enfim, tentar compor um painel dos anos pregressos da vida macaense” (1982, p. 9), e onde também deixa claro seus dois objetivos: “resta-me desejar possa este trabalho atingir o duplo objetivo orientador de sua elaboração: ser agradável aos que vierem conhecê-lo e não deixar perder-se, mesmo parcialmente, a memória visual de Macaé” ( 1982, p.10).
Os livros que possuem outros textos além das apresentações do autor e dos prefácios são os que Antônio Alvarez Parada teve algum apoio financeiro, ou seja, só a partir da sua quarta publicação, em Histórias da Velha Macaé (1980) ele agradece a Prefeitura Municipal de Macaé, na figura do então prefeito Carlos Emir Mussi, no texto de apresentação escrito por ele. Na obra seguinte, Imagem da Macaé Antiga (1982) a prefeitura o apóia novamente e, o prefeito escreve antecedendo a apresentação da obra, deixando impressa a importância de Antônio Alvarez parada para a sociedade macaense:

(...) Imagem da Macaé Antiga, o sue mais recente trabalho, traz à luz os tempos e imagens perdidas em nossa memória, memória viva, forte e representativa da nossa infância. (...) O livro é um resgate do passado, despertando a nossa responsabilidade social (...). A legenda explicativa em cada foto, detalhando os aspectos históricos, revela a preocupação maior desse homem-professor, pedagogo nato, consciente de seu tempo, da sua atuação como cidadão que participa e faz a história de Macaé (p. 7).

Em Meu nome, crianças, é Macaé (1983) , na apresentação, Antônio Alvarez Parada afirma a participação de uma empresa no financiamento da edição da obra:

Ele, o livro, surgiu pelo desejo da Petrobrás participar, cada vez mais, da vida de Macaé. É uma forma encontrada por ela – a mais nova macaense – de integrar-se a essa condição. Que esse desejo, e agradeço à Petrobrás fazer-me seu instrumento, possa atingir seu objetivo (p. 5).

Interessante observar que na época da instalação desta empresa, década de 1970, o autor foi combativo na imprensa, colocando-se contra à sua instalação. Na década de 1980 sua resistência é vencida, pois a Petrobrás, reconhecendo nele a importância como pesquisador da história de Macaé, encomenda esta obra, direcionada para o público infantil. As duas obras póstumas, Histórias Curtas e Antigas de Macaé (1995), também tiveram o apoio da empresa para a publicação.
Os quatro textos introdutórios das duas obras póstumas enaltecem, a todo tempo, a figura do historiador macaense. Na mensagem da Petrobrás, intitulada EM RESPEITO À MEMÓRIA, a Assessoria de Comunicação da empresa inicia o texto:

Quando um cidadão, por iniciativa própria, resolve dedicar seu trabalho, seu tempo, seus conhecimentos, enfim, sua vida, ao registro dos fatos, acontecimentos e dados históricos, culturais e sociais de sua cidade, este homem apenas por esta dedicação, merece todo respeito de seus concidadãos (1995, p. 3).

E desenvolve o restante da mensagem descrevendo a atuação do escritor, professor e historiador macaense; da satisfação da empresa em estar apoiando mais este trabalho; do empenho da viúva Maria Bernadete, dos ex-alunos, colegas e admiradores de Tonito em não pouparem esforços para tornar concreto o desejo de publicar mais obras; e finaliza a mensagem homenageando-o com a primeira estrofe do Hino Oficial de Macaé, da autoria dele.
Gilson Corrêa da Silva desenvolve sua escrita traçando a trajetória de Antônio Alvarez Parada em palavras emocionantes:

Às vezes, quando ficava debruçado na janela do Bemge, (...) e via o Tonito passar do outro lado da rua, me assomava a convicção de que ali caminhava uma pessoa meio eqüidistante do que se possa imaginar ser um simples e vulgar mortal (...). Ao vê-lo caminhar sentia um certo encanto em ficar olhando aquela figura altiva, mas sem arrogância; despretensiosa, mas sem demonstrar fingida simplicidade; elegante, mas sem a mesmice engalanada e frívola a estufar-se por aí como um bibelô sem rumo. (...) Professor, que sempre se soube ser aqui de nomeada, suas aulas não representavam sinonímia de enfado e aborrecimento, (...) a modéstia sem pré se fez estampar sem sua personalidade. (...) No Senai, extinta escola cuja finalidade era fornecer profissionais para a Estrada de Ferro da Leopoldina, quiseram os fados que ele, de formação clássica pudesse integrar-se perfeitamente ao seu corpo docente (...). Fazia questão de enquadrar-se como simples ferroviário (...). Na Macaé de antigamente (...) Tonito pertencia a essa aristocracia freqüentadora de um fechadíssimo Tênis Clube e que socialmente só se entrosava entre si. Depois de haver, com brilhantismo, cursado o primário no colégio das irmãs Meirelles, (...), foi terminar o ginásio no Salesiano, em Niterói. O Instituto Lafaiete o acolheu em seguida, transferindo-se, com seu fechamento, para o Santo Inácio, (...) Todos aqui em Macaé sabíamos disso; disso dele ser aluno brilhante, especial, atrevendo-lhe um futuro promissor a honrar lá fora a conterraneidade de todos nós. E então aconteceu: Uma estafa intermitente o acometeu, obrigando-o finalmente a voltar aos pagos, interrompendo o que certamente teria sido uma magnífica carreira estudantil como sustentáculo de projetos mais ambiciosos. De repente, comecei a divisar Tonito metido num macacão azul, vendendo combustível num posto de gasolina. (...). Mas, antigamente, em Macaé, quase não existia automóvel... E foi daí que o olho clínico do professor Miguel Ângelo entrou no cenário de sua vida, convidando-o para lecionar no antigo Ginásio Macaense. (...) Mas também não há como descartar as possibilidades bastante óbvias de haver consumado suas diretrizes básicas, (...) , nas extensivas virtudes de detinha, fiel e dedicada companheira (...). Quem há de negar que o carinho, a dedicação, a harmonia ensejada entre os dois não tiveram incisiva participação no ânimo e nas metas alcançadas pelo saudoso professor, conferencista e homem de letras? (...) (1995, p. 5-7).

Os revisores em seguida escrevem NOTA EXPLICATIVA sobre algumas das dificuldades encontradas nas transcrições das crônicas e, logo na página seguinte, um ex-aluno, Nelson Mussi Rocha, faz a apresentação da obra com o próprio título do livro, HISTÓRIAS CURTAS E ANTIGAS E MACAÉ, descrevendo pessoas, coisas e fatos abordadas nas crônicas escritas e segue escrevendo:

A História de Macaé e Antônio Alvarez Parada, o nosso inesquecível Tonito, se entrelaçam, se condensam, são sinônimos. E podemos afirmar isto, sem sombras de dúvidas, ao conhecer as obras já editadas por este autor, outros trabalhos inéditos, ainda não editados, somam-se na certeza desta afirmação. Nas sua obras, Antônio Alvarez Parada deu aos leitores, e aos macaenses em especial, o privilégio de conhecer a História de Macaé na visão de quem ama realmente a sua terra natal. (...) Curtas e Antigas, apenas adjetivam a grandeza e a atualidade de cada momento, proporcionando aos leitores, especialmente aos da terra, que nas asas da saudade e nas lembranças dos lugares, fatos ou vestígios do tempo e das estórias de seus antepassados, irão reviver e se deslumbrarem entre a fantasia, a lenda, o encantamento e a realidade, o ontem e o hoje. A cada história curta e antiga, o leitor irá trilhando um caminho de informação histórica, popular, em prosa ou verso, criativo e versátil, de linguagem e estilo simples e com clareza, e mais ainda, mil vezes acrescido pela dedicação, pelo amor, pelo bom humor e pela saga de um verdadeiro macaense contador de histórias macaenses (1995, p 9-10).

Os textos intermediários que compõem as obras póstumas constroem uma certa apologia a Tonito. Um homem perfeito. Adorado. Professor exemplar. Guardião da história e da memória de Macaé. Será que Tonito, em vida, teve tanto reconhecimento quanto depois de morto? Quando e como essas imagens foram construídas? Como foi manipulada a memória de Tonito após a sua morte? Questões que merecem investigação mas que não serão abordadas neste texto.

AGRADECENDO E DEDICANDO...

As dedicatórias também têm relação estreita com os temas abordados nos livros e se destinaram a pessoas diferentes e, ao que parecem, escolhidas com muito cuidado. Todas as obras têm dedicatórias impressas.
O primeiro livro, publicado em 1958, o escritor homenageia a memória de seu pai e de sua irmã Pilar, falecida precocemente aos 25 anos. Logo abaixo, a dedicatória é extensiva à sua mãe Artêmia Parada Alvarez e à sua esposa, Maria Bernadete Almeida Castro Alvarez.
ABÊCÊ de Macaé é dedicado à cidade, supostamente porque foi lançado no mês de aniversário de Macaé, julho de 1963: “À minha terra pelo seu 150º aniversário” e “aos macaenses, na pessoa de meu sobrinho e afilhado Cesáreo Alvarez Parada Junior (1963, p. 3). Foi um livro que contou com o apoio financeiro da Prefeitura Municipal de Macaé, na pessoa do então prefeito Antônio Benjamin.
Histórias da Velha Macaé é dedicado exclusivamente à sua esposa: “Para Detinha, com o amor de toda uma vida” (1980, p. 5). Maria Bernadete utiliza esta mesma dedicatória nas obras póstumas, que foram organizadas por ela a partir dos documentos deixados em seu arquivo pessoal, e repete: “ Meu Tonito, a glória é sua. Dos Macaenses. Estou feliz. Como você mesmo escreveu em “Histórias da Velha Macaé”: Com o amor de toda uma vida” (1995, p. 11).
Imagem da Macaé Antiga traz na dedicatória a importância que ele dá à fotografia enquanto documento histórico: “Aos fotógrafos macaenses de ontem, que fixaram a imagem da Macaé do passado. E aos de hoje que a estão gravando para o futuro” (1982, p. 5). Antônio Viñao Frago (2001) faz observações e reflexões importantes sobre a cultura escrita e descreve na fotografia “o seu caráter de vestígio fossilizado de um espaço e de um tempo da realidade” (p. 26), apresentando que ela não é um simples reflexo da realidade, mas uma interpretação dela. A fotografia, neste sentido é tratada por Antonio Viñao Frago como uma das modalidades da linguagem, “uma modalidade que exerce o seu império face a outras pela sua capacidade de fossilizar, no espaço e no tempo, sob forma de vestígio, como a fotografia, a realidade à qual sempre remete” (2001, p.28).
Em Meu nome, Crianças é Macaé não podia ser diferente: as dedicatórias são destinadas “às crianças de hoje e de amanhã” e faz alusão aos seus sobrinhos “macaenses de berço” e “macaenses de adoção” (1983, p. 6 ).

PALAVRAS FINAIS

PALAVRAS FINAIS é o título do posfácio presente em ABÊCÊ de Macaé (1963), que é direta ao leitor e foi escolhido para orientar as conclusões provisórias deste trabalho:

SE DEPOIS DE TUDO O QUE LEU, VOCÊ SE PERGUNTAR: “– MAS O QUE ÊSSE MOÇO VIU PARA ELOGIAR TANTO A SUA CIDADE? O QUE É, AFINAL, QUE MACAÉ TEM, ASSIM DE ESPECIALMENTE BOM?” A RESPOSTA É UMA SÓ: “ – TEM O MACAENSE”. ÊLE É QUE LHE DÁ GRANDEZA E VALOR, MEU INCOMPREENSÍVEL AMIGO.

Neste sentido, podemos afirmar que ser macaense motivava Antônio Alvarez Parada para a atividade da escrita. Escrita esta que o condecora como um importante intelectual na construção e preservação da memória e da identidade da cidade. As dedicatórias impressas, em sua maioria, são dirigidas às pessoas que marcaram a sua trajetória pessoal. As capas sugerem sentidos prévios à leitura dos textos e apresentam uma certa intenção em deixar inscrita a sua forma de pesquisar, correspondendo à significação das obras. Os prefácios, além dos outros textos que compuseram suas obras, evidenciam a sua importância para a sociedade macaense e deixam claras as intenções do autor em fazer, com sutileza, convites à leitura.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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