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  AS ARTES PLÁSTICAS ENQUANTO ALTERNATIVA DE INCLUSÃO SOCIAL

Fábio Ramos da Silva UNESP-Presidente Prudente
Maria Peregrina de Fátima R. Furlanetti - UNESP-Presidente Prudente

É essencial que, antes de qualquer coisa, apresentemos a situação que move a existência deste trabalho que aqui será relatado.

Dentro de qualquer sociedade que a história do homem tem noticia, sempre existiram pessoas que mantivessem relativa paz, e outras pessoas que perturbassem a ordem. Daí a necessidade de criar um sistema judiciário que fiscalizasse todos aqueles cidadãos que fossem responsáveis por seus atos, lícitos ou ilícitos. Acontece que, nem todos, de acordo com este mesmo sistema judiciário, são responsáveis por conta de uma idade ainda limitada, para assumir seus atos, e mesmo assim precisam ser fiscalizados, preventiva ou punitivamente.

Neste contexto surgem algumas medidas sócio-educativas, entre as quais estão duas que nos interessam de forma especial, liberdade assistida, e prestação de serviço, com o intuito de acolher e supervisionar aqueles que se comprometem com a lei.

Essas medidas sócio-educativas, são constituídas por atendimentos individuais, grupais, familiares, orientações escolares, oficinas profissionalizantes e de outras naturezas, e é ai que nos deparamos com o tema específico deste trabalho, a atividade de artes plásticas.

O trabalho de Artes Plásticas no desenvolvimento do projeto de inclusão escolar começa a partir do primeiro contato com cada um dos meninos e meninas que estão compondo o grupo. Tudo porque cada manifestação corporal desses meninos e meninas pode ser entendida como arte quando se pensa o propósito desta ação e o contexto em que ela é colocada.

O que estamos na verdade tentando refletir, é a proposta de conscientização por parte de todos do grupo da amplitude do que realmente é arte, principalmente no que tange a arte contemporânea, onde os suportes artísticos são os mais variados.

Dentro desta visão de arte, podemos entender então que cada um de nós já é artista essencialmente, independente da sua formação técnica. Foi, portanto, desta linha de pensamento que começamos a desenvolver a nossa prática.

Cada encontro foi palco de uma tentativa de incentivo para que todas as pessoas do grupo se sentissem protagonistas desta história comum que esta sendo construída desde o primeiro instante. E essa história esta mesmo sendo construída da maneira mais expressiva possível, tentando caminhar através de uma proposta bastante espontânea, portanto da maneira mais artística possível. E mesmo que o início não nos permita ainda um bom resultado técnico e estético, estamos caminhando como artistas, como protagonistas de uma história comum e como nós mesmos em nossa contribuição pessoal.

Pretendemos com o tempo, contribuir para que cada participante do grupo desenvolva a consciência que ainda não é plena, deste protagonismo artístico que todo ser humano pode exercer dentro de qualquer ação que seja transformadora de sua própria realidade.

Essa contribuição pode e já está sendo feita de várias formas diferentes. Utilizando música, vídeo, desenho, argila e todo tipo de material ou técnica que possa servir de suporte para um trabalho expressivo.

Quando, à partir deste trabalho, começa-se perceber a queda de muitos paradigmas por conta de uma produção, que geralmente é surpreendente, surge então uma ampliação do horizonte a frente de qualquer profissional que se propõe a pensar uma orientação coerente, uma orientação que de fato se comprometa com cada um daqueles que são orientados como seres humanos. Vale aqui relembrar Paulo Freire:

A libertação, por isso é um parto. E um parto doloroso. O homem que nasce deste parto é um homem novo que só é viável na e pela superação da contradição opressores-oprimidos, que é a libertação de todos.

Na nossa prática, é em busca deste homem que estamos, em busca deste ser humano, que se liberta para libertar tudo o que está a sua volta, se liberta para transformar minimamente a sua própria realidade, de forma gradativa, e de preferência, sem a pressão exercida por toda uma situação de cobrança social, que precisa ser amenizada através de uma relativa mudança de postura.

Podemos afirmar tranqüilamente que, nenhuma dessas idéias defendidas até aqui, fazem sentido se na prática não existe um vinculo sincero entre orientando e orientador, educando e educador. É só através deste vinculo que a produção artística poderá de fato revelar, como tem revelado nesses últimos tempos de convivência com a medida sócio-educativa, aquilo que cada um dos nossos meninos e meninas tem a oferecer por suas próprias experiências pessoais.

Acontece que, o mais interessante dentro deste processo é a avaliação e exposição desta produção perante a comunidade. É neste momento que a comunidade começa então a quebrar velhos paradigmas que foram quebrados anteriormente por educandos e educadores na construção de seu vinculo. O preconceito existente começa a ser encarado de frente, na medida que a comunidade enxerga e compreende que tudo de “bom” que está presente naquelas obras, são fruto natural daqueles que foram quase condenados ao esquecimento a pouco tempo, e esta mesma comunidade choca-se também quando se depara com o que de “ruim” existe naquelas obras, entendendo que esse “ruim” é produção de si mesma.

MARTINS, José de Souza. Exclusão social e a nova desigualdade, São Paulo: Paulus, 1997

FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido, 17ª edição. Rio de Janeiro, Paz e terra, 1997

Freud, Sigmund. O mau estar na civilização; Edição Estandarte Brasileira; Rio de Janeiro: Imago, 1989;


 
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