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  A PESQUISA QUALITATIVA NA EJA DO CAMPO: TRANSFORMANDO O ESTAGIÁRIO EM EDUCADOR POPULAR-

Profa Dra. Maria Peregrina de Fátima Rotta Furlanetti - Faculdade de Ciências e Tecnologia de Presidente Prudente/UNESP

A nossa preocupação sempre esteve voltada para uma educação que privilegiasse a cultura, e suas experiências pessoais como potencialização, assim, a escolarização e a alfabetização representa o pensamento crítico de uma política emancipadora.

A forma, ou o caminho que nos leva a investigar as hipóteses de conhecimento de cada turma para a escolarização ou de alfabetização nos leva a compreender a especificidade de cada educando. E este trabalho nos faz entender as características da prática pedagógica e nos conduz a revisão e a modificação de conceitos.

Nestes anos de trabalhos desenvolvidos na extensão universitária estivemos nos questionando sobre como desenvolver pesquisa acadêmica que tivesse valor científico dentro da extensão. Fazendo uma reflexão sobre o nosso trabalho, sobre o que é a didática e o que é pesquisa qualitativa traçamos um paralelo entre a metodologia da didática e a metodologia de pesquisa qualitativa com o trabalho que desenvolvemos na extensão universitária.

Com esse encaminhamento encontramos CUNHA (1995) que traça um paralelo entre a metodologia da didática e a pesquisa qualitativa explicitando:

a metodologia da pesquisa qualitativa propõe aprofundar a complexidade dos fatos sociais nas suas relações e interdependências. Não se preocupa, apenas, com os dados evidentes, mas sim com as representações dos “sujeitos cotidianos”.

A metodologia Didática (reconstruída), esclarece a autora:

Coloca o conhecimento do cotidiano escolar como ponto de partida para planejar ações que permitam transformá-lo. Recupera a história dos alunos como fator principal para entender suas representações. ‘Reconhece que a prática e os saberes que podem ser observados no professor e aluno é resultado da apropriação que eles fazem da prática e dos saberes históricos-sociais’.(Cunha,1989:39)

A nossa reflexão sobre pesquisa passa pela compreensão de que a pesquisa qualitativa responde às nossas ansiedades quando lembramos LÜDKE E ANDRÉ (1986:11) que declaram que a análise dos dados tende a seguir um processo indutivo, sem preocupação de comprovar hipóteses formuladas a priori, onde os dados coletados são predominantemente descritivos e complementando elas afirmam que a pesquisa qualitativa tem o ambiente natural como sua fonte de dados e o pesquisador como principal instrumento.

CUNHA (1995) explicita que a pesquisa qualitativa é aquela que procura estudar os fenômenos educacionais e seus atores dentro do contexto social e histórico em que acontecem e vivem, recuperando o cotidiano como campo de expressão humana.

Com a reflexão do trabalho pedagógico de sala de aula vemos nossos alunos buscarem na teoria elementos que possam colaborar e explicar a sua prática e muitas vezes acabam chegando a conclusões diferentes de algumas teorias. A partir do saber e dos conhecimentos de nossos educandos iniciamos o desenvolvimento das atividades que desafiam as hipóteses deles –educandos e alunos bolsistas graduandos.

Estamos em constantes desafios, pois temos duas tarefas que se complementam: formar o educador e escolarizar pessoas numa perspectiva da Educação Popular. Assim, buscamos sempre nas dúvidas de nossos alunos, os desafios para uma prática pedagógica que leve em conta os interesses e as necessidades de seus educandos, assim como o questionamento de nossas próprias certezas.

Explica CUNHA que a Metodologia Didática dirige seus esforços para a construção de um ensino com pesquisa, em que a capacidade de fazer perguntas (duvidar) é mais valorizada do que a de dar respostas. Comparando com a Metodologia da Pesquisa Qualitativa define-se, sobretudo pela capacidade de questionamento não admitindo resultados definitivos, estabelecendo a provisoriedade metódica como fonte principal da renovação científica. (Demo apud Cunha 1995:104)

Os questionamentos para se iniciar uma pesquisa começam na prática da sala de aula, quando o aluno universitário tem a oportunidade de vivenciar o planejamento, o diagnóstico, a elaboração, avaliação de uma aula para reiniciar o novo planejamento, diagnóstico e elaboração da sua próxima aula que é baseada na resposta dos educandos: respostas orais e escritas.

VEIGA (1995) salienta que ensinar não significa apenas ir para a sala de aula transmitir conhecimentos, mas é também um meio de organizar as atividades para que o aluno (bolsista e alfabetizando) aprenda e produza conhecimentos.

Acreditamos que a formação de professor se inicia com a teoria e a prática, práxis, para poder colocar em dúvida as verdades que aparecem como imutáveis através das teorias estudadas nas aulas de graduação. Aprendem que existem diversas formas de reflexão em relação aos diferentes aspectos da prática pedagógica e orientam-se a respeito de quão diversas características existem relevantes a situações concretas de sua prática sabendo que tem que estudar o específico modo de expressão de cada situação.

Para compreender a situação, muitas vezes, há necessidade de rever e modificar as teorias, o conceito, estudando as características que se tem em comum e as suas especificidades.

Queremos mostrar a importância de um trabalho voltado para o cotidiano da sala de aula dentro da Universidade, isto é, lugar onde os futuros educadores possam discutir, refletir e buscar novas alternativas para o desenvolvimento de uma aula. O trabalho de extensão universitária nos permite vivenciar, experimentar, junto com os educandos e bolsistas a prática pedagógica dialógica, pois se constroem conhecimentos numa relação de parceria e do aprender.

Concordo com CUNHA (1995) quando afirma que a redefinição da didática nos leva a rever as nossas convicções sobre os processos de ensinar e aprender e conseqüentemente, à experimentação de alternativas metodológicas, o que nos aproximou do paradigma do “ensino como pesquisa’ ou da ‘pesquisa como princípio educativo.’”.

Nossos alunos bolsistas ao final de cada seis meses são levados a redigirem relatórios sobre o seu trabalho, sobre as reuniões a qual participam, sejam eles encontros pedagógicos semanais, os fóruns, os congressos e seminários através de suas anotações e registros de todas as atividades refletindo e dialogando com as leituras pertinentes. Esses relatórios acabam sendo um instrumento de reflexão e de pesquisa para si mesmo ou para outros bolsistas que começam um novo trabalho. Esta prática tem nos auxiliado a rever nossos passos, a reconstruir sistematicamente a cada ano a nossa metodologia de trabalho.

ANDRÉ (1995) contribui com a nossa reflexão entre extensão e pesquisa quando afirma que a pesquisa do tipo etnográfica se caracteriza pelo contato direto do pesquisador com a situação pesquisada porque permite reconstruir os processos e as relações que configuram a experiência escolar diária.

O nosso trabalho se desenvolve principalmente fora da instituição escolar, pois somos chamados a atuar em setores que estão atendendo uma população excluída desse sistema. Entretanto os educandos querem que lhes dêem um ambiente escolar dentro das instituições que estamos trabalhando, mesmo nas salas de aulas no campo, hoje eles não falam mais que vão para a sala de aula, mas para a escola

Ao mesmo tempo fazemos uma reflexão sobre a instituição que iremos atuar, sejam elas associações, empresas, cooperativas, movimentos sociais, ou assentamentos para compreender o dinamismo do lugar onde teremos que atuar. Portanto, temos que estudar e discutir como se dará a organização do trabalho pedagógico, como se dão as estruturas de poder e de decisão da instituição, ou dos próprios assentamentos rurais, os níveis de participação de seus agentes, disponibilidade de recursos tanto humanos como de materiais, temos enfim que conhecer toda a rede de relações que se forma e transforma o fazer diário.

Com uma visão institucional-pedagógica que abrange todas as situações de ensino nos envolvemos com os objetivos, conteúdos do ensino, as atividades e o material didático, a linguagem, os meios de comunicação e as formas de avaliar.

Com o Movimento dos Trabalhadores Sem-Terra - MST, iniciamos, em 1999, os trabalhos participando de encontros, visitando os assentamentos de nossa região, dialogando com os militantes ao mesmo tempo em que procuramos estudar e refletir sobre a luta pela terra.

Após um ano iniciamos nossos “verdadeiros encontros” dentro da universidade, e, coletivamente programamos todas as atividades para iniciar o convênio com o PRONERA-Programa de Educação de Adultos para a Reforma Agrária e para cada nova atividade a ser realizada com os alfabetizandos reuníamos com os parceiros avaliando e diagnosticando para planejar as capacitações com os monitores alfabetizadores, desta forma as avaliações que os coordenadores militantes faziam sempre foram positivas, pois atendíamos as necessidades dos monitores e dos alfabetizandos. Discutíamos desde a compra de materiais pedagógicos, materiais de consumo, transporte, alimentação até os espaços utilizados para acontecerem as capacitações.

Durante as capacitações as monitoras levavam seus filhos, estas capacitações tinham um período de três a cinco dias, como as monitoras não tinham com quem deixá-los levávamos alunas do curso de habilitação de educação infantil que ficavam com essas crianças e o MST levava uma monitora, que era chamada de cirandeira, para acompanhar as nossas estagiárias, ao mesmo tempo em que a “cirandeira” discutia e estudava sobre educação infantil. Esses momentos com as crianças eram chamados de Ciranda.

Durante dois anos trabalhamos nos assentamentos do Pontal do Paranapanema com 21 salas, 21 monitores e uma média de 300 alfabetizandos, assentados na zona rural.

Desenvolvemos em nossa região o Fórum de Educação de Jovens e Adultos do Oeste Paulista - FEJAOESP onde temos como objetivo discutir essa modalidade de ensino com todas as pessoas interessadas da região ao mesmo tempo em que socializamos o conhecimento da universidade, pois acreditamos que temos como dever ouvir e falar sobre EJA. Temos tido uma freqüência grande dos dirigentes de educação nos encontros dos Fóruns. Com eles temos discutido, principalmente, sobre as salas de alfabetização de jovens e adultos da zona rural. Um lugar não considerado, inicialmente, como fazendo parte do município, pois houve um período de negociações com o INCRA – Instituto de Terras e Colonização da Reforma Agrária e a Fundação ITESP- Instituto de Terras do Estado de São Paulo até que os assentamentos estivessem instituídos.

Como fizemos parte do Programa Nacional de Educação para a reforma Agrária-PRONERA, conhecíamos as limitações de tal programa e juntos com os dirigentes de educação da região pudemos concluir que não há programas de intervenção sem a contribuição dos municípios, pois as pessoas fazem parte como cidadãos daqueles municípios, mesmo sendo pessoas que vieram de outros estados, outras cidades. São os municípios, por exemplo, que possuem a estrutura física para as salas de alfabetização, o transporte, a merenda e a demanda social.

Com estas discussões, muitos dirigentes mudaram seu modo de ver o estudante jovem e adulto da zona rural, pois para estes bastava oferecer o ônibus escolar para chegar até a sala de aula na cidade. Hoje temos no município de Rancharia uma “Proposta de Ensino Rural para os Assentamentos”, onde as monitoras que trabalhavam como voluntárias foram contratadas pelo prazo de um ano para dar continuidade ao trabalho desenvolvido através do PRONERA. Mesmo com a mudança da secretária de Educação do município esta Proposta tem continuidade. Este espaço conquistado em nossa região é importante porque temos uma mostra de que os alunos do campo devem ficar no campo e pessoas com experiência de professoras em alfabetização para o campo sejam valorizadas.

A extensão deste trabalho onde continuamos assessorando duas salas de escolarização e alfabetização, com duas educadoras. Este trabalho tem a parceria do ITESP- Fundação do Instituto de Terras do Estado de São Paulo, que mantém uma estagiária da área de Pedagogia, e que graças a essa parceria podemos chegar aos assentamentos e monitorar as orientações pedagógicas. Alguns resultados alcançamos, graças à garra das educadoras, do ITESP, na pessoa da assistente social, e da comunidade.

Os primeiros passos foram difíceis, pois iniciamos o trabalho, em 2003, com as educadoras voluntárias, em salas de aula precárias, onde tudo faltava, luzes, água, banheiros, etc.e, compreendemos com a boa vontade política da Secretária de Educação. Hoje, têm sala de aula reformada, ônibus que passa somente para os educandos jovens e adultos, e as educadoras contratadas. O trabalho pedagógico foi avaliado pelas educadoras como sendo importante e necessário, e pelos educandos que avançaram na aquisição da linguagem escrita.

O trabalho se resumia em atender as necessidades das educadoras de acordo com os problemas que apareciam na sala de aula, bem como se buscava nas teorias de ensino e aprendizagem de jovens e adultos as respostas para seu fazer pedagógico. Para isso tínhamos encontros semanais de estudos e de discussões de como transformar os conhecimentos teóricos em práticas pedagógicas coerentes com as necessidades culturais daquelas pessoas. As estagiárias que acompanharam o processo estão desenvolvendo pesquisa, pois novos questionamentos apareceram como: As relações de gênero nos assentamentos; A importância do planejamento das atividades didáticas e um estudo sobre A Educação de Jovens e Adultos do campo.

A cada Fórum temos a participação dos bolsistas organizando, elaborando, convidando e discutindo o próximo tema a ser debatido, já teve discussões sobre a Educação no Campo, A educação no Presídio, O Brasil Alfabetizado, A adolescência e a juventude em seus múltiplos aspectos em conflito com a lei.

Para nossos alunos bolsistas fazerem parte de toda esta discussão é uma das formas de se profissionalizarem pois, acreditamos quando PERRENOUD (1992) nos alerta de que nos alerta de que para ser profissional, o que não acontece espontaneamente, seria preciso que se participe do universo político e pedagógico e que não basta ações que prepare professores competentes no sentido técnico, é necessário um profissional que conheça para que sistema está trabalhando e reflita sobre quais ações pedagógicas/políticas podem encaminhar para as possíveis transformações.

Durante estes anos o trabalho de extensão universitária possibilitou a oportunidade de vivenciar a realidade da política do Brasil na área de Escolarização e Alfabetização de Jovens e Adultos. Todos estagiários participaram escrevendo e apresentando trabalhos em Congressos, divulgando seus trabalhos e seus novos conhecimentos, assim como elaboraram Seminários dentro da Faculdade de Ciência e Tecnologia – UNESP- apresentando novos estudos.

Concordamos com ANDRÉ, 1995:113, que o estudo da dinâmica de sala de aula, precisa levar em conta, pois, a história de vida de cada indivíduo que dela participa, assim as condições específicas em que se dá a apropriação dos conhecimentos. Afirma ainda que devemos considerar a situação dos alunos, desde seu processo cognitivo, procedência econômica, linguagem, imaginário, também, não podemos esquecer da situação concreta do professor: suas expectativa, seus valores, suas concepções e toda as forças institucionais, estrutura administrativa, rede de relações inter e extra - escolar que nos dará a compreensão de como se vem concretizando o nosso trabalho.

SILVA (1995) corrobora para a nossa reflexão sobre pesquisa e extensão quando declara que :

Partindo do princípio de que a pesquisa científica, para cumprir seu papel social, necessita sair do mundo acadêmico, ou seja, pesquisar problemas de relevância para a população e encontrar formas de socializar os resultados com a comunidade interessada,....definir coletivamente o objeto de estudo a ser desvelado, de tal forma que possibilite ao pesquisador/participante a construção de um novo saber, resultante dos achados da pesquisa em confronto com o conhecimento teórico historicamente acumulado.


Para finalizar queremos declarar o Educador Popular é aquele:

• constrói-se a partir de sua história de vida e de seu comprometimento com a sua formação e com aqueles com os quais está envolvido.

• que se envolve política e socialmente com a sua realidade para que, interpretando-a, possa transformá-la .

• A formação passa por momentos de prática, onde os futuros educadores entram em contato com diferentes situações de sala de aula, para que possam ser analisadas junto com outros mais experientes.

• Se envolve politicamente com os educadores resgatando suas histórias e trajetórias escolares.

Podemos salientar que nossos estagiários passam por um processo de estudos e reflexões e acreditam que ser um professor não basta, porque se encontram em seus trabalhos como educadores populares.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ANDRÉ, Marli E.D.A. A construção da pesquisa etnográfica para a construção do saber didático. In: OLIVEIRA, M.R.N.S. (org.), Didática: Ruptura, Compromisso e Pesquisa. São Paulo, Papirus Editora, 1995. p.109-119.

CUNHA, Maria Isabel da. A Pesquisa Qualtativa e a Didática. In: OLIVEIRA M.R.N.S. (org.), Didática: Ruptura, Compromisso e Pesquisa. São Paulo, Papirus Editora, 1995.

FREIRE, Paulo. A importância do ato de ler em três artigos que se completam. 15ª ed. São Paulo, Cortez, 1986.

VEIGA, Ilma P.A A Construção da didática numa perspectiva histórico-crítica de educação : Estudo Introdutório. In: Oliveira, M.R.N.S.(org.), Didática: Ruptura, Compromisso e Pesquisa. São Paulo, Papirus Editora, 1995.

 
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