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  A “TRANSMISSÃO” FAMILIAR DA LEITURA E DA ESCRITA: UM ESTUDO DE CASO

Patrícia Cappuccio de Resende (CEALE/FaE/UFMG)
Ana Maria de Oliveira Galvão (UFMG)
Antônio Augusto Gomes Batista (CEALE/FaE/UFMG)

1. Apresentação
Esta pesquisa situa-se no campo da Sociologia da Educação, mais especificamente a respeito da família e de suas práticas de transmissão cultural. O estudo tem como objeto os modos pelos quais uma determinada família, ao longo de três gerações, tem buscado transmitir um conjunto de saberes, práticas e disposições que visam, evidentemente de modo não deliberado e consciente, assegurar o sucesso na escolarização das crianças nas três gerações e, no caso da terceira geração, também visam a construção de um “gosto” pela leitura e escrita. Pretende-se ainda compreender o modo pelo qual, nessa configuração familiar específica, os filhos se apropriam desses saberes, práticas e disposições.
Toma-se como objeto uma família de origens populares que iniciou um processo de mobilidade social (e de inserção no mundo urbano marcado por novos e distintos tipos de relação de trabalho) ainda na primeira geração e que está em acentuado processo de acumulação, ainda que extemporâneo, de capital econômico e cultural para a conquista de uma nova posição no espaço social.
Caracteriza-se, portanto, por uma considerável diferença de capital escolar entre as duas primeiras gerações. Enquanto a primeira geração estudada teve poucos anos de escolarização (4 a 6 anos), seus filhos (segunda geração) chegaram ao nível superior ou até mesmo à pós-graduação.
Dessa forma, o objetivo geral da pesquisa é descrever e analisar os modos pelos quais essa família, ao longo de três gerações, busca transmitir um conjunto de saberes, práticas e disposições que visam assegurar o sucesso na escolarização das crianças e, no caso da terceira geração, a construção de um “gosto” pela leitura e escrita e também descrever e analisar o modo pelo qual, em uma configuração familiar específica, os filhos se apropriam desses saberes, práticas e disposições.
Esse objetivo mais geral se desdobra em outros, que ajudam a responder o objeto da pesquisa, tais como: de que forma se configura a família pesquisada? Qual é o envolvimento dos pais e filhos com as práticas de leitura e escrita? Qual é o processo de mobilização da família na transmissão de saberes, práticas e disposições que visam assegurar o sucesso na escolarização das crianças das três gerações, e no caso da terceira geração, também visam a construção de um “gosto” pela leitura? Como os filhos se apropriam desses saberes, práticas e disposições e como vêem esse processo?
2. Pressupostos e diretrizes metodológicas
2.1 Fundamentação teórica
Para o desenvolvimento deste estudo, alguns conceitos desenvolvidos pelas pesquisas no campo da Sociologia da Educação serão utilizados. O primeiro deles é o conceito de configuração social desenvolvido por Norbert Elias e retomado por Bernard Lahire (1997). De acordo com Lahire, as explicações para o sucesso e para o fracasso são encontradas no modo como, em uma configuração familiar específica, os indivíduos se apropriam dos saberes, práticas e disposições transmitidas pela família (LAHIRE, 1997, p. 39-40). Lahire define configuração social como o “Conjunto de elos que constituem uma ‘parte’ (mais ou menos grande) de realidade social concebida como uma rede de relações de interdependência humana”.(LAHIRE, 1997. p.39-40)
Outro conceito a ser utilizado é o de mobilização familiar, à medida que um investimento familiar é necessário para que haja “conversão do capital cultural em capital escolar” (NOGUEIRA, 2003. p.150), conversão esta positiva para o sucesso na escola. Uma das possibilidades de abordar a mobilização familiar é entendê-la, conforme Viana, como um investimento escolar familiar. Para a autora esse investimento é:

“Um conjunto de práticas e atitudes voltadas intencionalmente para o rendimento escolar. Estas práticas e atitudes constituem-se, tanto de intervenções práticas (controle sistemático de atividades escolares, escolha dos estabelecimentos de ensino e das carreiras escolares, encaminhamento de atividades de reforço e para-escolares, comparecimento às reuniões pedagógicas e conselhos de classe, etc.), quanto de sustentação moral e afetiva (diálogos sobre a escola, apoio nos momentos mais difíceis)”.(VIANA, 1998, p.67)

Além do conceito de mobilização familiar, convém ressaltar a importância da mobilização dos próprios filhos na apropriação dos capitais familiares. Dessa forma, Nogueira refere-se ao sociólogo François de Singly que nos mostra que, se por um lado, a mobilização da família na escolarização dos filhos é fator que influencia o sucesso escolar, por outro, a mobilização dos filhos em se apropriar do capital cultural familiar também é importante para trajetórias escolares de sucesso (NOGUEIRA, 2003, p.151). Neste estudo, pretende-se investigar as duas faces da mobilização: a dos pais e a dos filhos.
No caso da leitura, quanto a sua transmissão na família, esta pesquisa baseia-se, principalmente, no clássico trabalho de Shirley Brice Heath (1986). Nesse último estudo, a autora aponta que a interpretação que as crianças fazem dos livros e a relação que estabelecem entre o seu conteúdo e o mundo não são naturais, e sim aprendidas, sobretudo no interior do grupo familiar.
De acordo com esse estudo, é nos eventos de letramento (como ouvir histórias antes de dormir, ler caixas de produtos alimentícios, placas, legendas na televisão e interpretar instruções de jogos e brinquedos) que as crianças aprendem a dar significado aos diversos tipos de escritos, formam-se como leitores, são inseridos no interior da cultura escrita e em suas formas específicas de construir e compreender significados.
Ainda no caso da leitura, foram utilizados os trabalhos de Singly sobre a apropriação da leitura como herança cultural. Suas pesquisas mostram que, ao contrário da herança econômica, a herança da leitura está baseada na resolução de um paradoxo: é preciso aceitar a herança e estabelecer, desse modo, uma continuidade entre o herdeiro e seus pais; ao mesmo tempo, porém, é preciso, em razão das implicações geradas, nas sociedades modernas, pela necessidade de construção de uma identidade individual, estabelecer distinções no interior da própria família, marcando diferenças entre uma e outra geração, entre os pais e os filhos.(SINGLY, 1996)

2.2 Metodologia
2.2.1 Os sujeitos da pesquisa : a caracterização da família

Primeira Geração

 

Geração 1 (Avós paternos)

Sujeitos

Sr. A

Sra. D.

Idade

71 anos

65 anos

Escolarização

4ª série do Ensino Fundamental

3ª série do Ensino Fundamental

Ocupação

Aposentado como mestre de obras da Mannesman

Dona-de-casa

Local de nascimento

Moeda – MG

Belo Vale – MG

Local onde passou a maior parte da vida

Belo Horizonte e Belo Vale

Belo Horizonte e Belo Vale

A primeira geração pode ser caracterizada de origem rural e pertencente aos meios populares. Na sua infância, Sr. A. morava na roça. A família tirava o sustento da terra. O pai era um pequeno agricultor e a mãe era dona-de-casa. Em suas memórias, ele recorda das dificuldades que passavam. Tinha 12 irmãos.
A família de Sra. D., sua esposa, tinha uma situação econômica um pouco melhor. Quando ela era criança, seu pai tinha algumas terras. No entanto, foi perdendo suas posses ao longo dos anos, de modo que quando ela se casou com Sr. A., sua família já passava por dificuldades financeiras. Ela tinha cinco irmãos.
Após o casamento, o Sr. A se tornou operário da Mannesman e Sra. D., dona-de-casa. Tiveram apenas dois filhos. A ascensão do Sr. A. dentro da empresa permitiu ao casal uma forte mobilidade social, cultural e escolar. Hoje, eles moram em Belo Vale.

 

Geração 1 (Avós maternos)

Sujeitos

Sr. I

Sra.R

Idade

Falecido em 1998 com 63 anos.

70 anos

Escolarização

4ª série do Ensino Fundamental

6ª série do Ensino Fundamental

Ocupação

Vendedor de consórcio médico hospitalar e posteriormente atendente e administrador de uma farmácia da família.

Dona-de-casa

Local de nascimento

Rochedo de Minas – MG

Juiz de Fora – MG

Local onde passou a maior parte da vida

Belo Horizonte

Belo Horizonte

 

            Pelo lado materno, a primeira geração estudada também realiza uma trajetória social ascendente, embora as posições sociais iniciais já se insiram num ambiente urbano e possibilitem um conjunto de laços sociais importantes.

O pai do Sr. I. era dono de um cartório, onde trabalhava como escrivão. Sua profissão não lhe rendeu ganhos expressivos. Sua mãe era dona-de-casa. O Sr. I. nasceu em Rochedo de Minas, interior mineiro, e teve 11 irmãos. Cursou até a quarta-série e saiu de casa quando tinha dez anos para trabalhar como atendente em uma farmácia.

A Sra. R., por sua vez, tem origem portuguesa do lado paterno. Seu pai veio para o Brasil e trabalhou como garçom. Com essa profissão, não conquistou uma boa situação financeira. Sua mãe, brasileira, era dona-de-casa. A Sra. R nasceu em Juiz de Fora e teve apenas dois irmãos, pois sua mãe se casou aos 36 anos. Ela cursou até a sexta-série.

O casal se conheceu em Juiz de Fora. Casaram-se e mudaram-se para Belo Horizonte, onde Sr. I trabalhou como vendedor de consórcio médico hospitalar. A Sra. R., eventualmente, costurava para fora. Atualmente é dona-de-casa. Tiveram sete filhos. A dinâmica pouco estável das vendas do pai impossibilitou uma situação financeira mais tranqüila. Sempre viveram em apartamentos alugados.

 

Segunda Geração

 

Geração 2

Sujeitos

Verônica

Antônio

Idade

39 anos

40 anos

Escolarização

Técnica em eletrônica, cursando Pedagogia na UFMG.

Técnico em eletrônica, licenciado em Matemática pela UNI-BH, pós-graduado em Educação Matemática pela UNI-BH, e mestre em educação pela UFMG.

Ocupação

Dona-de-casa, professora de aula particular de matemática.

Professor de matemática dos níveis fundamental e médio (rede particular e municipal – BH), professor do Ensino Superior (Curso de Pedagogia), coordenador e professor esporádico do curso de especialização em Psicopedagogia em uma universidade estadual.

Local de nascimento

Belo Horizonte

Belo Horizonte

Local onde passou a maior parte da vida

Belo Horizonte / Contagem

Belo Horizonte / Contagem

 

A segunda geração nasceu na cidade Belo Horizonte, resultado da migração dos pais. Verônica viveu toda a infância e juventude na região central de Belo Horizonte e Antônio em Contagem, no bairro das Indústrias. Eles se conheceram no Centro Federal de Educação Tecnológica de Minas Gerais (CEFET), onde estudaram e, após a conclusão do curso técnico, casaram-se.

O casal tem quatro filhos [7] : Eles moram na cidade de Contagem, região metropolitana de Belo Horizonte. A residência, herança recebida por Antônio de seus pais, localiza-se no bairro Jardim Riacho das Pedras, um bairro de classe média.

 

Terceira Geração

Geração 3

Sujeitos

Luísa

Ana

André

Adriana

Idade

14 anos

11 anos

2 anos

Seis meses

Escolarização

Cursando 8ª série do Ensino Fundamental

Cursando 5ª série do Ensino Fundamental

Não freqüenta a escola

Não freqüenta a escola

Local de nascimento

Belo Horizonte

Belo Horizonte

Belo Horizonte

Belo Horizonte

Local onde passou a maior parte da vida

Contagem

Contagem

Contagem

Contagem

Os quatro filhos nasceram em Belo Horizonte e passam a infância em Contagem. As duas filhas mais velhas vêm apresentando trajetórias escolares de sucesso segundo a escola. Luísa e Ana freqüentam uma escola particular de prestígio em Contagem e em Belo Horizonte, mesma instituição na qual trabalha o pai como professor de Matemática dos níveis fundamental e médio.

2.2.2 Procedimentos metodológicos
A coleta de dados foi feita por meio de entrevistas e da observação. As entrevistas com as segunda e terceira gerações. A escuta de mais de uma geração, explica-se, em primeiro lugar, da constatação, compartilhada entre historiadores, de que “uma dinâmica social se faz no mínimo em duas gerações, jamais em uma”. Além disso, em segundo lugar, o trabalho com a genealogia parece ser valorizado por pesquisas no campo da Sociologia da Educação, Laurens (citado por VIANA, 2003, p.48) afirma que “algumas práticas e significados escolares só se tornam compreensíveis quando colocados no contexto da genealogia familiar”.
Outros instrumentos utilizados para a coleta dos dados foram as Memórias produzidas pelo Sr. A., escritas originalmente com o objetivo de serem recordações para seus netos e o memorial que Verônica elaborou como trabalho acadêmico narrando a sua história de leitora, bem como seu papel de mãe-educadora.
As análises aconteceram concomitantemente à recolha de dados através da construção de um perfil sociológico.
3. O perfil
3.1 Primeira geração: reconstruindo as origens
3.1.1 Sr. A - pai de Antônio: trabalho para melhores condições de vida
O Sr. A. nasceu no município de Moeda, interior mineiro próximo a Belo Vale. Sua mãe era dona-de-casa e costurava para as crianças e marido. Seu pai era agricultor e produtor de leite.
Filho do meio, Senhor A. cresceu na roça, com seus pais e na companhia de 11 irmãos . Apesar de sempre ajudar no trabalho diário da roça, com o trabalho com a terra, Senhor A. recorda o interesse de seus familiares pela sua escolarização. “Sempre diziam, está chegando a época de você ir para a escola” (Memórias, p. 9). A partir da terceira série, para prosseguir os estudos, teve que mudar de escola. Andava 9 quilômetros até chegar à escola. Da escola, tem boas recordações, tirava boas notas e gostava da professora: “Tirei o diploma da quarta-série com média 8.” (Memórias, p.10). Depois disso, não voltou a estudar.
Depois que Antônio fala do hábito de sua mãe ler jornal, pergunto se ele se recorda de ver o pai ler. Ele diz que apesar de o pai ler, ele estava sempre mais ocupado com atividades do fazer.
Casou-se com Sra. D. e posteriormente conseguiu ingressar na Mannesman. Durante a década de 60, nessa empresa, foi ascendendo de posição até chegar a encarregado de obras. A ascensão na empresa possibilitou a compra de um lote no bairro Jardim Riacho das Pedras e posteriormente, em 1972, a construção de sua casa e a compra de um Fusca do ano. A mudança de bairro, do bairro das Indústrias para o bairro Jardim Riacho das Pedras, significava uma notável melhoria na qualidade de vida.
Mesmo satisfeito com o trabalho, Sr. A. pede demissão em janeiro de 1977. A explicação para a demissão seria o desejo de sua esposa de retornar a viver em Belo Vale. Inicialmente foi para Belo Vale com toda a família. Porém, depois de um ano, perceberam a necessidade que o filho mais novo tinha de estudar. A esposa voltou para Contagem com os filhos. “Tivemos que voltar para BH para o Antônio continuar seus estudos, pois ele tinha vontade de ser um profissional competente. Aqui em Belo Vale não tinha universidade” (Memórias, p. 40).
Não há como negar que a condição de separação temporária do casal (por oito anos) para que o filho mais novo prosseguisse os estudos está relacionada a uma situação econômica favorável. Ter dinheiro para manter duas casas em funcionamento possibilitou a transmissão de uma moral da perseverança. A esse respeito, Lahire pondera que:

“Para que uma cultura escrita familiar, ou para que uma moral da perseverança e do esforço possam constituir-se, desenvolver-se e ser transmitidas, é preciso certamente condições econômicas de existência específicas”.(LAHIRE, 1997, p. 24)

3.1.2 Sra. D. - mãe de Antônio: mobilização pelo estudo dos filhos.
Sra. D. nasceu e viveu boa parte da vida em Belo Vale, interior mineiro. Tinha cinco irmãos e era a mais velha entre as mulheres. Antônio definiu a mãe como o “suporte intelectual” da casa, embora tenha cursado apenas até a terceira série. Deixou a escola para ajudar a mãe no serviço da casa, não foi sua opção.
Sra. D. também parece mesmo ter grande importância nas questões educacionais dos filhos. Antônio relata que a escolha pelo CEFET foi incentivada pela mãe. Era uma idéia de que tinha que conseguir um trabalho, e que um curso técnico seria interessante para esse fim . Foi sua mãe quem o matriculou no Orville Carneiro, curso preparatório para a escola técnica, além de tê-lo levado ao primeiro dia de aula, já que se localizava numa região de Belo Horizonte não muito conhecida por Antônio.
Ainda em relação à mãe como “suporte intelectual”, Antônio comenta seus hábitos de leitura. Quando era solteiro, ele se lembra de a mãe se sentar na cozinha depois do almoço para ler o jornal. Esse hábito de leitura da mãe de Antônio também é recordado por Verônica.
O fato de a mãe ser leitora tem relação com a construção da identidade de Antônio como leitor. A esse respeito, Lahire diz que:

“O fato de ver os pais lendo jornais, revistas ou livros pode dar a esses atos um aspecto “natural” para a criança, cuja identidade social poderá construir-se sobretudo através deles (ser adulto como seu pai ou sua mãe significa naturalmente, ler livros...)” (LAHIRE, 1997, p. 20)

Depois que Antônio e Verônica se casaram, sua mãe voltou definitivamente para Belo Vale. O intervalo de tempo entre o término do curso técnico e do casamento foi de três anos.

3.1.3 Tios de Antônio: afastamento da família
Não parece ser na figura dos tios que Antônio encontra motivação para os estudos. Por parte de pai, seus tios logo que atingiam uma certa idade saíam de casa para trabalhar em São Paulo. Não os conheceu. Só conheceu a avó, mesmo assim, foi apenas um único encontro, quando foi com seu pai para São Paulo em uma viagem de férias.
Também por parte de mãe, nenhum irmão avançou nos estudos. As mulheres foram ser donas de casa e o único homem trabalhou na roça. Eram cinco tios.
A esse respeito, não é apenas pelo fato de não terem atingido níveis de escolaridade mais altos que os tios não motivaram Antônio para os estudos. Segundo Lahire, o contato estabelecido entre os membros da família é fundamental para que a transmissão do capital escolar, por exemplo, possa acontecer. Desse modo, mesmo que os tios tivessem alcançado um nível de escolaridade avançado, possivelmente não teria havido situações singulares que pudessem transmitir o capital escolar para o sobrinho. (LAHIRE, 1997, p. 37)

3.1.4 Sr. I - pai de Verônica: um leitor assíduo
O pai de Verônica nasceu em Rochedo de Minas. Ele teve doze irmãos. As dificuldades econômicas o fizeram sair de casa aos dez anos para trabalhar com seu irmão em uma farmácia no Rio de Janeiro. Era com muito sofrimento, segundo sua filha, que ele falava de sua saída de casa.
De acordo com Verônica, gostava de estudar. Completou a quarta-série “com honra ao mérito”, o que parece ser motivo de muito orgulho para ele e para a família: “... Deve ter com minha mãe ainda uma... louça... parabéns... honra ao mérito”. (Entrevista 2)
Depois de casado, passou a residir na região central de Belo Horizonte, trabalhava com venda de consórcio médico-hospitalar, o que corresponde hoje aos planos de saúde. Para isso, fazia constantes viagens.
Assim como no caso de Antônio, a família de Verônica também desfruta de um leitor. Nesse caso é a figura do pai que transmite aos filhos a idéia de leitura como algo natural e importante. A respeito das disposições do pai em relação à leitura, Verônica diz que sempre via seu pai ler. Ela recorda de o ver ler jornais e principalmente a revista Seleções.

3.1.5 Sra. R. - mãe da Verônica: grande mobilizadora para o estudo dos filhos
A mãe de Verônica nasceu em Juiz de Fora e teve dois irmãos. Cursou até a sexta-série na sua cidade natal. Segundo Verônica, a mãe parou de estudar por opção. Sra.R. fala para a filha que as razões do seu desligamento da escola são a falta de incentivo dos pais e problemas de saúde.
Depois de casada, foi morar em Belo Horizonte. Além de cuidar da casa e dos filhos, fazia algumas “costuras para fora”. Apesar de sua “baixa” escolaridade e do pouco envolvimento que tinha com a leitura, a mãe teve papel muito importante na escolarização dos filhos.
Essa importância não se manifestou pelo acompanhamento diário das atividades escolares. No entanto, seu investimento na escolarização dos filhos pode ser percebido de outras maneiras. Ela confeccionava os uniformes escolares e vestidos de quadrilha, que, segundo Verônica, ficavam muito “bem feitinhos”. Ela também costurou o quadro valor de lugar, material utilizado nas aulas de matemática.
O capricho com esses materiais evidenciava uma preocupação e uma valorização com a questão escolar que acabava preparando para uma boa escolaridade. Ao abordar sobre o cuidado com os cadernos, com a apresentação de exercícios, Lahire aponta que:“O ofício de aluno no curso primário, o tipo de ethos, de caráter que a escola exige objetivamente, podem ser parecidos com o ethos desenvolvido pelas famílias.” (LAHIRE, 1997, p.26) Nesse caso, a semelhança dos ethos significaria propensão a uma boa escolaridade.
Além disso, sempre que as crianças chegavam com alguma atividade diferente para ser feita, geralmente relacionada às artes, a mãe ajudava com muito interesse. Mesmo nas atividades extra-escolares é grande seu incentivo pelas artes. Queria que as filhas fizessem cursos voltados para a arte, como música, pintura, etc, mesmo em momentos em que os recursos financeiros não eram grandes.
Se o hábito de leitura não era forte durante seu tempo de casada em Belo Horizonte, a mudança para Sete Lagoas, resultado de um convite que uma das filhas fez para o pai de trabalhar em uma farmácia que ela montou, mudou suas disposições. Com mais tempo livre, já que estava apenas com a filha caçula, e com mais recursos financeiros, ela adquiriu o hábito de ler revistas sobre a área da saúde. Nessa época, Antônio tinha banca de revistas. Ele e Verônica constantemente levavam revistas para ela que as lia com muito interesse.

3.1.6 Os tios da Verônica: motivação, investimento e orientação quanto ao futuro educacional da sobrinha.
A influência dos tios de Verônica no seu processo de escolarização é decorrente das relações existentes na configuração de sua família. Conforme expõe Lahire:

“...as heranças – com sucesso ou fracassadas – não são nunca processos mecânicos, mas efetuam-se sempre, para a criança, nas relações concretas com outros membros da configuração familiar, que não se reduzem às figuras, normalmente sacralizadas e reificadas, do Pai e da Mãe.” (LAHIRE, 1997, p.105)

Desse modo, um dos tios por parte de mãe - são dois tios - teve importância significativa nos estudos da Verônica. Ele não chegou a fazer curso superior. Trabalhava em escritório, era chefe de seção. Por não ter casado, freqüentava muito a residência da Verônica para fazer as suas refeições. Na época que ela prestou concurso para o CEFET, foi ele quem pagou o curso Orville Carneiro. Foi ele também quem a influenciou pela escolha do curso técnico em eletrônica, já que tinha feito alguns cursos nessa área e julgava ser um bom campo.
Por parte de pai, eram 12 irmãos. Verônica não sabe por que razão o mais velho foi morar com outras pessoas e acabou tendo a oportunidade de fazer curso superior. Além disso, todos os filhos desse seu tio, logo que saíam da escola ingressavam na universidade, cursavam Engenharia ou Direito. Além de ter nesse tio e nos seus primos motivação para prosseguir os estudos, constantemente os filhos ouviam o pai se referir ao irmão com muito orgulho, o que possivelmente deixava nos filhos o desejo de um dia proporcionarem o mesmo orgulho que o pai sentia pelo irmão:

3.2 Segunda Geração: um salto na escolarização
3.2.1 Antônio: um leitor profissional
Antônio nasceu em Contagem, no bairro das Indústrias. Ele diz que sua infância foi “totalmente rua”, “era brincar o dia inteiro”. Ele é o filho mais novo, possui um irmão quatro anos mais velho.
Ele diz que a primeira residência onde morou, foi um barracão. Não havia água encanada, nem energia elétrica. Possuíram, mais tarde, uma televisão em preto e branco. A segunda casa, localizada no bairro Jardim Riacho das Pedras, possuía três quartos, copa com mobília, mas era modesta em termos de equipamentos. É nesta casa que Antônio mora hoje com a família.
Antônio conta que não tinha horário para fazer dever. Ele tem apenas uma lembrança de seu pai cobrando o dever de casa, nos fins da quarta série. Verônica o interrompe dizendo que sua sogra fala com muito orgulho de como seu filho era responsável, “não precisava falar nada...você sentava... fazia seu para-casa aí sim...você saía pra brincar”(Entrevista 1).
Na época da juventude, quando estudava no CEFET, Antônio escrevia constantemente poesias para a Verônica. Essas poesias estão guardadas numa pasta com plásticos que fica na mesinha do quarto do casal. As filhas têm acesso ao material.
Posteriormente, cursou Matemática no Unicentro-BH. Iniciou na área da pesquisa com um curso de especialização em Educação Matemática e recentemente concluiu mestrado na Faculdade de Educação da Universidade Federal de Minas Gerais. Sua entrada na área da educação significou também o início de leituras profissionais que continuam fazer parte de sua vida.
3.2.2Irmão do Antônio: o abandono dos estudos
O irmão de Antônio é quatro anos mais velho do que ele e teve um percurso escolar bem diferente. “Não avançou muito nos estudos...não se interessava muito pelo estudo.” “Foi até o Ensino Médio aos trancos e barrancos...não concluiu o Ensino Médio...embora seja uma pessoa assim...de leitura...de filmes.” (Entrevista 1)
A falta de interesse pelos estudos e seu fracasso na escola levaram-no a optar pela vida no sítio. Conforme Antônio relata na primeira entrevista, a colocação no mercado de trabalho estava difícil em Belo Horizonte/Contagem. Assim, o irmão foi morar no sítio em Belo Vale, para trabalhar com o pai na venda de leite para a Cooperativa Itambé.
Até hoje seu irmão reside no sítio. Casou-se com uma professora primária e teve dois filhos.

3.2.3 Verônica: grande mobilizadora no estudo dos filhos
Verônica passou a sua infância no centro de Belo Horizonte, em um apartamento alugado, muito simples. É a quinta filha de seis filhos. Sua infância foi praticamente dentro do apartamento. Sua rotina parece ter sido bastante organizada. Tinha horário de ir para a aula e depois para fazer as tarefas domésticas, que eram divididas com os outros irmãos. Quando tinha feito a sua parte na limpeza da casa, sentava e ia fazer as tarefas da escola. Depois disso era hora do lazer, que se constituía, muitas vezes, de brincadeiras dentro de casa (pular corda, maré, etc) ou um pouco de televisão que, na família, só podia ser assistida à noite.
Ela iniciou sua escolarização aos seis anos. Segundo conta em seu memorial, “era uma menina muito assustada, tinha medo de ser chamada à atenção, de me perder dentro da escola, de fazer as atividades erradas, da minha irmã esquecer de me buscar...” (MEMORIAL, p. 3) No entanto, o ingresso de forma tensa na escola não parece prejudicar seu desenvolvimento, pois conclui o pré-primário sendo considerada a melhor aluna da classe.
Contrariamente ao ambiente tenso da escola, Verônica lembra como o ambiente familiar era acolhedor. Em casa, mesmo antes de ingressar na escola teve o incentivo à leitura através de livrinhos que havia em casa ou mesmo de manchetes dos jornais.
A primeira série foi vivida de forma trágica por Verônica. “A professora D. Arízia era de um mau humor assustador, nervosa e exigente.” (MEMORIAL, p.3) O grande medo de Verônica era quando D. Arízia cobrava leitura oral de improviso. Ela nunca conseguia ler direito, gaguejava e tremia. Até que um dia levou escondido para a casa o livro de leitura e treinou bastante. Seus problemas com a professora acabaram.
O incidente com a leitura merece ser destacado, pois a figura da mãe tem papel relevante na superação da sua dificuldade. Quando Verônica apresentou problemas com a leitura, sua mãe, após ser chamada na escola, manifestou um sentimento de confiança na filha. Ao invés de uma incessante cobrança, ela soube lhe ouvir e acreditou em sua capacidade. A esse respeito, Lahire menciona que:

“A herança familiar é, pois, também uma questão de sentimentos (de segurança ou de insegurança, de dúvida de si ou de confiança em si, de indignidade ou de orgulho, de modéstia ou de arrogância, de privação ou de domínio...), e a influência, na escolaridade das crianças, da ‘transmissão de sentimentos’ é importante, uma vez que sabemos que as relações sociais, pelas múltiplas injunções preditivas que engendram, são produtoras de efeitos de crenças individuais bem reais”.(LAHIRE, 1997, p.172)

No Ensino Médio, Verônica estudou no Colégio Estadual Central. Certamente foi a possibilidade de estudar nessa escola que a levou posteriormente a optar em prosseguir os estudos em uma escola técnica, pois, quando estava no terceiro ano, representantes do curso Orville Carneiro (como já foi dito, trata-se de um “cursinho” que prepara o exame de ingresso nessa escola técnica) foram à escola falar um pouco sobre o CEFET. Verônica demonstrou-se muito animada, sobretudo com a possibilidade de sair empregada do curso técnico. Falou com a mãe que queria fazer curso no Orville Carneiro e pediu dinheiro para o tio.
Verônica conta que cresceu em meio a discussões sobre o futuro educacional das irmãs. Até o Ensino Fundamental, era a mãe quem escolhia as melhores escolas para os filhos, mesmo que isso significasse um gasto com vale transporte. No entanto, a partir do Ensino Médio, Sra. R. conferia mais liberdade aos filhos, pois entendia que os estudos podiam estar relacionados com um futuro profissional. Ela acredita que se deve trabalhar em algo que se goste.
Quanto às disposições em relação à escrita, em seu memorial, Verônica destaca o papel afetivo que a escrita apresenta na família. Como foi dito anteriormente, Antônio, por várias vezes, expõe seus sentimentos por meio de poesias. Da mesma forma, embora não com a mesma intensidade, Verônica também utiliza a escrita para expor seus sentimentos. Um exemplo é uma poesia que fez para a filha Luísa, dias após o seu nascimento. A relação afetiva com a escrita na família é, pois, algo importante ao se tentar compreender a transmissão de um gosto pela leitura e escrita.
Em relação às ocupações profissionais, depois de terminar o curso técnico em eletrônica, Verônica trabalhou como técnica por dez anos, recebendo um bom salário. Em 1995, já casada e com duas filhas, ela é demitida. Pensando em alguma alternativa de trabalho, já que a colocação como técnica estava a cada dia mais difícil, Verônica passou a dar aulas particulares em casa. Com isso, as filhas cresciam em meio a livros, alunos e assuntos sobre educação.
O trabalho com aulas particulares aguçou sua curiosidade em entender melhor o campo da educação. Hoje, ela está concluindo o curso de Pedagogia na UFMG.

3.2.4 Irmãos de Verônica: apoio mútuo
“O negócio era muito de irmão pra irmão também”.(Entrevista 2) Essa frase dita por Verônica revela bem a ajuda mútua dos irmãos no percurso de escolarização. Diante da impossibilidade de o pai de ajudar financeiramente, pagar um cursinho para os filhos que tentavam vestibular, era a ajuda dos irmãos que prevalecia. Foi o caso da filha mais velha, que teve ajuda de uma irmã para pagar seu cursinho.
Dos seis filhos, quatro fizeram curso superior. Duas ingressaram no Ensino Superior logo que saíram do Ensino Médio, concluindo os cursos de Administração e Letras. Verônica ingressou no Ensino Superior depois de dez anos que havia concluído o curso técnico. E T. ingressou após três anos, já que não foi aprovada nos dois primeiros vestibulares que fez.
O único irmão não terminou o Ensino Médio. Era considerado pela família como “o inteligente”. No entanto, conseguiu emprego durante o dia, foi estudar à noite e suas notas caíram. Envolveu-se com movimento estudantil. Foi reprovado no segundo ano do Ensino Médio e não fez o terceiro ano. Foi para o Paraguai fugido da ditadura. Hoje trabalha com artesanato.

3.3 Terceira Geração: a apropriação do gosto pela leitura e escrita
3.3.1 Um pouco da infância de Luísa e Ana
Verônica me diz que as duas filhas ingressaram na escola aos quatro anos, em uma escola particular de pequeno porte próxima à casa onde moram. Ela as levava e buscava na escola. Apesar disso, não era sua preocupação manter um diálogo com os profissionais da escola.
As meninas passaram a infância em meio a brincadeiras físicas e jogos educativos. Era comum se reunirem com os vizinhos para brincar de esconde-esconde, amarelinha, etc. Também brincavam muito com jogos de tabuleiro.
Não era só com os vizinhos que as filhas brincavam de jogos. O lazer na família se organizava muito em torno de jogos. Além disso, Verônica comprava: revistinhas de colorir e ligar pontos, palavras cruzadas e, sobretudo, lia muitos livrinhos, principalmente ao deitar.
Em relação à leitura antes de dormir, Verônica recorda que leram a coleção de Monteiro Lobato. Luísa se lembra de a mãe ler fábulas e contos clássicos. Segundo as filhas mais velhas, mesmo antes de saberem ler, a mãe lia para elas. Depois que aprenderam, acompanhavam a leitura. Pergunto de onde vêm os livros lidos por Verônica e Luísa me diz que eram comprados por sua mãe, mas não eram dados como presente.
Ana diz que elas também herdaram livros das tias, quando a avó se mudou de Belo Horizonte para Sete Lagoas. O hábito de ler antes de dormir continua. Atualmente, Verônica tem lido crônicas de Luiz Fernando Veríssimo para as meninas.
O hábito da mãe de ler histórias antes de dormir provavelmente tem relação com o êxito escolar das filhas. Um estudo de Heath sobre os modos como famílias de diferentes culturas do sudoeste dos Estados Unidos ensinam os seus filhos a atribuírem sentido ao que lêem aponta a leitura antes de dormir como uma forma natural de interação entre pais e filhos, importante para o sucesso escolar nas atividades de leitura e escrita. Segundo a autora, “As formas de apreender dos livros são uma parte de aprendizagem do comportamento, tal como comer, sentar, jogar, e construir casas”.(HEATH, 1987, p. 97) .
Desde cedo a mãe procurou desenvolver nas meninas noções de autonomia e de responsabilidade em relação aos compromissos escolares. Nesse caso, foram as formas de exercício da autoridade familiar que deram relativa importância ao autocontrole, permitindo que as crianças se apropriassem da noção de autonomia, propícia ao sucesso escolar. A autonomia é considerada, segundo Lahire, “como a capacidade de seguir sozinho pelo caminho certo e da maneira certa” (LAHIRE, 1997, p.28)
E ainda, embora Verônica não explicite, há uma preocupação em garantir que as filhas cumpram com seus deveres como estudantes, fazendo o “para-casa” e estudando para provas. Ela não faz um acompanhamento sistemático das atividades, mas cuida para que as crianças tenham tempo e um ambiente propício para o estudo.
Além da mobilização, fica evidente a preocupação da mãe quanto ao respeito às autoridades escolares na seguinte passagem, também do memorial:

“Embora a Pedagogia tenha me sensibilizado a ver mais facilmente as incoerências ou enganos dos professores, o discurso aqui em casa é que elas saibam relevar algumas pequenas injustiças. Se quiserem reclamar algum suposto erro de correção de prova que o façam com respeito e educação”.(MEMORIAL, p.15)

Tanto Ana quanto Luísa têm a mesma percepção dos pais como leitores. No caso do pai, elas enxergam a leitura como sendo parte da sua profissão. Ele é um leitor profissional. Ana não consegue diferenciar o que é leitura e o que é trabalho. Luísa fala da sala onde ficam os livros do pai com certa admiração. Ela achava “legal” aquele “monte de livros”, ficava olhando, lendo as capas e achava tudo muito curioso.
Quanto à mãe, ambas a filhas comentam das suas leituras acadêmicas para o curso de Pedagogia. Luísa também fala dos livros espíritas, que além de ler, servem para a mãe preparar palestras que são proferidas num Centro Espírita. O casal é praticante do espiritismo desde 1994.

3.3.2 Luísa: uma leitora herdeira que sonha em ser escritora
Em entrevista individual com Luísa, percebo que sua escolarização inicial tem semelhanças com a experiência de sua mãe. Ela tinha medo de ir à escola. Era comum ela chegar até a escola e chorar para não entrar. Diante dessa situação, Verônica permitia que ela voltasse para casa. O consentimento da mãe nas constantes faltas sugere uma volta ao seu próprio processo de escolarização. Como foi dito anteriormente, Verônica também tinha medo de ir para a escola. Entendia o medo da filha e permitia suas faltas.
Nesse estágio inicial o papel do pai assume grande importância, pois é ele quem interrompe as constantes faltas. Certo dia, após uma das insistências da filha mais velha de não querer entrar na escola, ele diz se ela voltar para casa ficará de castigo. Mesmo assim Luísa volta para casa. Segundo Luísa essa foi a última vez que ela faltou a aula por medo.
Além da preocupação do pai em garantir freqüência da filha na escola, Luísa lembra que ele sempre incentivou o estudo, elogiava as notas das provas e perguntava para a Verônica se as filhas tinham feito o “para-casa”. Todas essas atitudes demonstram a tentativa do pai em verificar o cumprimento às regras escolares. Para isso, “o pai parece exercer uma autoridade baseada não na violência física, mas na interiorização da legitimidade de suas palavras pelos filhos”.(LAHIRE, 1997, p.170)
Assim como no caso de Ana, são constantes os episódios de leitura e escrita na escola lembrados de forma positiva. Luísa gostava de ditado, era boa na leitura e na escrita na sala. Pergunto sobre sua alfabetização, se a escola indicava livros de literatura. Ela diz recordar apenas de cartilhas. Sobre o início de sua escolarização o único livro que ela lembra ter lido para a escola é o livro “Bebê Maluquinho”. Ela diz que não gostou muito, pois não se identificou com o livro. “(...) falava de bebê...não tinha nada a ver comigo”. (Entrevista 4) Nesse período, era a família que possibilitava o acesso à literatura.
Hoje, além de ler os livros literários selecionados pela escola, Luísa freqüentemente vai à biblioteca e escolhe um por conta própria. “Eu ... tô sempre com um livro rodando...sabe...e assim quando não tem nenhum livro pra ler eu pego dicionário e começo a ler [risos] ...que eu gosto de ler dicionário...”(Entrevista 4)
Referindo-se a família de modo mais amplo, ela diz que raramente ganha livros de presente. Lembra-se de dois episódios. Uma tia a presenteou com o Hary Potter e um tio com uma coleção de contos. Segundo Luísa, os familiares não têm o hábito de presentear com livros.
Também pergunto como é que Luísa faz suas escolhas na biblioteca. Ela diz que procura escolher os melhores autores, recorre aos autores mais comentados. Então questiono: Comentados por quem? E ela diz:

“Ah comentados...comentados pela mídia...não sei...o que eu escuto mais falar né...aí eu acho que/ é comentado pela minha tia que é professora...e tá sempre falando...aí (...)e comentados também na escola” (Entrevista 4)

Embora Luísa não tenha clareza sobre a origem dos seus conhecimentos a respeito de quem são os melhores autores, percebe-se que ela já está construindo uma disposição para a legitimidade cultural, no caso, a literária.
Quando fala de suas leituras, Luísa diferencia-se da mãe. Enquanto ela gosta de ler literatura, sua mãe gosta de livros espíritas e textos sobre educação. Essa diferenciação entre os gostos pela leitura sugere uma construção de uma identidade individual distinta da mãe. É o que DE SINGLY (1996) indica acontecer entre a maioria de estudantes leitores filhos de pais leitores.
Como foi dito anteriormente, o plano de Luísa é ser escritora. Saber desse seu desejo é fundamental para entender melhor os investimentos que ela faz para concretizá-lo. Conforme diz Elias,

“Para se compreender alguém é preciso conhecer os anseios primordiais que este deseja satisfazer. A vida faz sentido ou não para as pessoas, dependendo da medida em que elas conseguem realizar tais aspirações (...) os anseios não estão definidos desde os primeiros anos de vida, os desejos vão evoluindo, através do convívio com outras pessoas, e vão sendo definidos, gradualmente, ao longo dos anos, na forma determinada pelo curso da vida...” (ELIAS, 1995, p.13)

No caso de Luísa, os desejos foram sendo construídos ainda na infância, em parte por causa da escola, em parte por causa da família. Ela diz que a escrita entrou em sua vida através da escola. Até hoje a maioria de suas produções escritas estão vinculadas à escola, sejam elas atividades que todos os alunos fazem, ou concursos promovidos e/ou divulgados pela escola.
A família também tem sua importância na construção do anseio em ser escritora. Luísa assistiu a sua madrinha fazer concursos, tendo inclusive, ganhado alguns prêmios. O convívio com essa pessoa certamente foi importante, pois mostrou que ser escritora era algo concreto e possível.
Dessa forma, a construção do desejo de ser escritora ultrapassa a descoberta, pela menina, do prazer que essa atividade lhe provoca. Desde pequena ela teve demonstrações, principalmente da escola, de que ela tinha aptidão para a escrita. Exemplos dessas demonstrações são os prêmios recebidos em concursos de redação, os elogios das professoras e também as boas notas. A escola lhe ajudou a ter consciência de que era muito hábil na leitura e na escrita e que, portanto, valia a pena investir nessas atividades. A respeito disso, Elias nos diz que:

“(...) a consciência, qualquer que seja sua forma específica, não é inata a ninguém. No máximo, o potencial para formar uma consciência é um dote humano natural. Tal potencial é ativado e toma forma numa estrutura específica através da vida de uma pessoa com outros. A consciência individual é específica à sociedade”.(ELIAS, 1995, p.66)

3.3.3 Ana: uma aluna exemplar e admiradora da irmã
Consigo entender melhor a relação de Ana com a escrita e com a leitura quando ela fala da relação com a irmã mais velha e da sua vida escolar. É principalmente Luísa e a escola que a apresentam ao mundo das letras. Ora Ana aceita com prazer a introdução pela irmã nos mundos da escrita, ora ela apresenta certo receio. É com grande prazer que ouvia as histórias contadas pela irmã. No entanto, demonstra certa resistência quando a irmã propõe brincar de escolinha. Entendo que ela aprecia os momentos em que a escrita aparece “naturalmente” e rejeita quando a escrita acontece para avaliar seu desempenho.
A representação que tem da irmã mais velha se confunde em duas perspectivas quase opostas. Ora fala com certa ironia do fato de a irmã ter parado de brincar cedo devido aos seus compromissos com o estudo, ora fala com orgulho de a irmã ser uma aluna excepcional. Essa ambigüidade leva a pensar que, ao mesmo tempo em que ela quer se diferenciar de Luísa, pois continua achando que brincar é bom e que não é interessante uma pessoa estudar em excesso, ela admira a estudante comprometida que a irmã é. Ela “opta” então por uma posição intermediária: não pára de brincar, mas continua estudando e levando a escola a sério.
Em relação à formação de Ana como leitora e escritora, a escola aparece de forma bastante significativa. São vários os relatos de episódios de leitura e escrita dentro da instituição escolar ou para ela. “Surpresinha literária” é um desses episódios que é lembrado por Ana com gosto. Ela gostava das apresentações que havia sobre os livros literários.
O uso constante da biblioteca escolar também é algo marcante. Ela utiliza a biblioteca diariamente no turno diferente das aulas, sendo que nenhum colega de classe faz o mesmo. Pergunto quem freqüenta a biblioteca e ela me diz que a maioria são alunos do Ensino Médio. O objetivo de sua freqüência está relacionado com uma leitura e escrita para pesquisa e tarefas escolares, levando em conta que em casa muitas vezes o ambiente não seria dos mais propícios ao estudo devido a presença dos dois irmãos mais novos. São raros os momentos em que ela procura a biblioteca para uma leitura desinteressada.

3.3.4 André: crescimento em meio aos livros e ao estudo
Entre os filhos, André é o único menino. Nasceu quando Ana já tinha nove anos. Tem dois anos e adora ouvir os familiares lendo histórias para ele. Diferentemente das irmãs mais velhas, André conta com todos os familiares para ler os livrinhos. Em uma das visitas em sua casa, presenciei Verônica lendo dois livros de literatura infantil para ele. Ela começava a frase e ele completava. Sabia de cor os dois livrinhos. Ambos os livros eram antigos, da época em que as meninas eram pequenas.
André ainda não vai para a escola. A mãe pretende matriculá-lo quando ele tiver quatro anos. Gosta de brincar com as irmãs. Ele também gosta de ver o filme da Branca de Neve. No entanto, conforme foi relatado pela própria Verônica sobre sua repulsa à televisão, ela proibiu o filho de ver o filme. Diz que emprestou a fita para o vizinho. Presenciei o menino acordar e pedir para ver o filme. Vi Verônica negar, justificando que a fita estava emprestada. É provável que sua atitude esteja relacionada a uma preocupação que tem de ver outros prazeres da infância, entre eles o prazer das histórias escritas, serem inibidos pelo prazer imediato provocado pela televisão.
Assim como suas irmãs, ele cresce cercado de livros. Em uma estante na sala, na parte de baixo, estão os seus livrinhos de literatura. De todos que vi não consegui identificar nenhum que tenha sido comprado depois de seu nascimento. Ana me diz que são de quando ela e Luísa eram pequenas. Além de ter contato com seus próprios livros, ele presencia os pais lerem e também as irmãs. Segundo a mãe, quando ele vê as meninas lendo, pergunta: “Tá estudando?”.

Conclusão
A pesquisa proposta pretendeu compreender os modos pelos quais uma família, ao longo de três gerações, tem buscado transmitir um conjunto de saberes, práticas e disposições que visam assegurar o sucesso na escolarização das crianças nas três gerações e, no caso da terceira, também visam à construção de um “gosto” pela leitura e escrita. Pretendeu-se, ainda, compreender o modo pelo qual, em uma configuração familiar específica, os filhos se apropriam desses saberes, práticas e disposições. Tratou-se de um estudo de caso com uma família de origem popular e hoje pertencente às camadas médias.
Para apreender os traços sócio-culturais da família que estavam relacionados a essa transmissão, além das observações nos momentos de visita à residência da família, foram feitas análises de entrevistas, de um pequeno livro de Memórias e de um Memorial. Os longos relatos permitiram compreender os aspectos da ordem moral familiar, as formas familiares da cultura escrita, as condições e disposições econômicas, as formas de autoridade familiar e também as formas de mobilização familiares quanto à escolarização.
Alguns traços na configuração familiar no caso pesquisado demonstram características interessantes. O primeiro é a uma forte mobilização para a escolarização das crianças que está presente desde a primeira geração. Esse investimento familiar está, em todas as gerações, mais relacionado com a figura da mãe. São as mães que mais se preocupam com a escolha dos estabelecimentos de ensino, com as tarefas escolares, com o comparecimento em reuniões na escola.
Em segundo lugar, em todas as gerações nota-se uma ordem moral doméstica baseada no bom comportamento e no respeito às regras escolares. Esse traço se fortalece da primeira para a segunda geração. Na primeira geração, na maioria das vezes, é a mãe quem procura cobrar um comportamento dos filhos condizente com as expectativas da escola. Já na segunda geração, tanto a mãe quanto o pai procuram transmitir aos filhos noções de autonomia e de respeito aos professores (eles próprios, além disso, são professores).
Em terceiro lugar, não há como desconsiderar as disposições econômicas. Esse traço pode ser visto de dois ângulos diferentes: o primeiro é a escolarização como estratégia para um futuro melhor, perspectiva presente principalmente na primeira geração. O segundo são as possibilidades de estudo que a ascensão familiar da primeira geração permitiu à segunda, e por sua vez, esta vem permitindo à terceira geração.
No entanto, vale ressaltar que nenhum desses aspectos indica causas únicas para o sucesso das crianças nas duas gerações mais escolarizadas e para o gosto pela leitura no caso da terceira geração. “O caso só pode ser entendido nas relações de interdependência dentro do contexto familiar”.(LAHIRE, 1997, p.40).
Dessa forma, sobre as relações entre os membros da constelação familiar, percebe-se, ao longo das gerações, uma disponibilidade de tempo e oportunidades de socialização da mãe com os filhos. A respeito disso, Lahire diz que:

“A presença objetiva de um capital cultural familiar só tem sentido se esse capital cultural for colocado em condições que tornem possível a sua ‘transmissão’. Ora, nem sempre isso acontece. As pessoas que têm as disposições culturais susceptíveis de ajudar a criança e, mais amplamente, de socializá-la num sentido harmonioso do ponto de vista escolar nem sempre tem tempo e oportunidade de produzir efeitos de socialização”.(LAHIRE, 1997, p.338)

Além disso, o apoio moral, afetivo e simbólico também está presente na família. Foram diversos os relatos de momentos de suporte em relação às atividades escolares, seja ajudando em providenciar algo que a escola pediu, transmitindo confiança no filho que estava com dificuldades e até mesmo demonstrando orgulho com a aprovação do filho em um concurso. Ou seja, “a herança familiar é, pois, também uma questão de sentimentos”. (LAHIRE, 1997, p.172)
Enfim, no caso da terceira geração, cabe também ressaltar a relação afetuosa que a escrita assume. Tanto nos momentos de leitura, através dos momentos de leitura de histórias antes de dormir, quanto nos momentos de escrita, através das poesias escritas para expressar os sentimentos.

Referências

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