Voltar    
  HISTÓRIAS DE LEITURA E A CONSTITUIÇÃO DE SUJEITOS LEITORES

Maria Emilia Ganzarolli - Universidade do Estado de Santa Catarina-UDESC

O presente texto é uma síntese do Projeto de Pesquisa intitulado Histórias de Leitura e a Constituição de Sujeitos Leitores, cujo objetivo central é investigar as histórias de leitura de estudantes dos cursos de Biblioteconomia- Habilitação-Gestão da Informação e Pedagogia- Habilitação - Séries Iniciais do Ensino Fundamental , tentando compreender a relação entre leitura, história de vida e a constituição de sujeitos leitores.

O estudo utiliza a história oral de vida, entrecruzada/complementada com relatos escritos, livros infanto-juvenis e fontes bibliográficas. Para as entrevistas foi estabelecido o número de seis estudantes, sendo três de cada curso, em razão das mesmas serem feitas em profundidade e pela característica qualitativa da pesquisa.

O bibliotecário e o professor são profissionais que trabalham com a leitura no exercício de suas respectivas profissões e estabelecem relações diferenciadas com a mesma. A leitura é a base para o trabalho do bibliotecário, independente do contexto onde irá atuar e, igualmente, para o professor que é uma referência importante na formação do aluno leitor e um profissional que trabalha estreitamente com a leitura e a escrita no cotidiano da sala de aula.

A proposta de investigar as histórias de leitura dos estudantes através de seus relatos autobiográficos, possivelmente, descortina as condições socioculturais de produção da leitura e da escrita e a compreensão da constituição de leitores. Assim, surgem indagações e questões que ficam veladas no espaço acadêmico, tais como: De que forma os estudantes de biblioteconomia e pedagogia se relacionam com a leitura? Como se delineou suas histórias de leitura, especialmente seus primeiros contatos com os materiais impressos ? Que tipo de literatura infanto-juvenil era lida ? Como liam ? Quais as apropriações feitas das leituras realizadas?

A compreensão das histórias de leitura a partir das lembranças da infância e adolescência dos estudantes das áreas de Biblioteconomia e Educação torna-se relevante na medida em que proporciona a discussão sobre a leitura, primeiramente numa perspectiva mais ampla, ou seja, discute o espaço que a leitura ocupa na trajetória de vida do estudante e, especificamente, da leitura na escola, na biblioteca, na família e em outras instâncias de socialização.

CONHECENDO O SUJEITO LEITOR

A pesquisa procura mostrar as singulares formas de contato com a leitura e as apropriações feitas do texto escrito, indicando as pistas para a compreensão da constituição do sujeito leitor. Certeau (1999) considera o leitor um caçador, alguém que explora, anda por caminhos desconhecidos, precisa utilizar táticas, a partir de estratégias para encontrar algo que tenha o sabor da descoberta, do inusitado, do inesperado dentro de um texto.

A leitura torna-se uma produção própria do leitor, é ele que inventa, modifica, “[...] cria algo não-sabido no espaço organizado por sua capacidade de permitir uma pluralidade indefinida de significações”.(Ibidem, p.38) E é justamente nessas significações que o leitor vai se construindo e produzindo os sentidos para a sua leitura. O leitor vai se envolvendo com a leitura, de forma singular, seu diálogo com o texto abrange o diálogo com variadas vozes e cenários. Ele faz suas sínteses, associações, comparações e vai formando novos caminhos, novos enfoques, novas formas de ver e sentir os espaços por onde circula, as pessoas com quem convive, sua vida cotidiana e , essencialmente, o seu estar - no -mundo.

O trabalho com a leitura e a formação de leitores aproxima os estudantes dos cursos de Biblioteconomia e de Pedagogia, cada um com suas particularidades e muitos pontos de encontro. Coletar as histórias de leitura “[...] pode levar o estudante a refletir sobre o contexto no qual está inserido, proporcionando uma reflexão, uma relação leitor-mundo mais adequada sobre a realidade que o cerca [...]” (NEVES, 1998, p.3) . A relação do leitor –mundo, se constrói no cotidiano, a partir das experiências, dos movimentos individuais de cada um, das percepções dos problemas, na busca de novas formas de interagir com o mundo e a própria vida, possibilitando ,talvez, as mudanças e rupturas necessárias.

HISTÓRIAS DE LEITURA VERSUS HISTÓRIAS DE VIDA

A história de leitura do estudante está entrelaçada a sua história de vida, como afirma Silva (2002, p.5) ao mencionar que quando delineamos a história de leitura , estamos “[...] de forma imbricada e portanto interacional, realizando a história de vida de cada sujeito envolvido[...]”. A história de vida reconstitui os fatos , os acontecimentos, as experiências vividas por um determinado narrador.

Thompson apud (Vidigal, 1994, p.32) procura dar um estatuto epistemológico a história oral ao ressaltar que ela “[...] pode ser usada para alterar o foco da própria história, abrir novas áreas de pesquisa, pode derrubar barreiras entre professores e alunos, entre gerações, entre as instituições educativas e o mundo ‘lá fora’ [...]”.

O trabalho com a história oral exige do pesquisador o conhecimento dos mecanismos da memória para subsidiar as análises das narrativas dos estudantes, pois a memória utiliza artifícios, acrescentando ou retirando elementos dos fatos narrados e apresenta características como a seletividade e a não linealidade. O narrador busca na memória os fatos já ocorridos, que são relatados no presente de forma diferente de como realmente aconteceram.

De acordo com Lacerda (2000, p.75-6), o trabalho com a memória, traz lembranças vividas tanto no âmbito pessoal, quanto das experiências vividas no grupo, e “ [...] com relação às histórias de leitura o mesmo acontece. As lembranças sobre o escrito pertencem ao universo individual [...] , mas também são resultado das experiências partilhadas [...]”,ou seja , ao narrar as histórias de leitura , o sujeito descreve suas experiências individuais e coletivas ocorridas em tempos e espaços diferentes, deixando entrever os elementos constitutivos de sua formação.

As pesquisas que abordam a leitura como tema de investigação vem crescendo nas duas últimas décadas do século XX, numa perspectiva interdisciplinar, ou seja, a leitura “[...] deixou de ser uma preocupação restrita ao campo da psicologia e ganhou um olhar interdisciplinar ao incorporar o interesse e estudo de outras áreas, como, Letras, Educação, Linguística, Comunicação, Sociologia, História, Biblioteconomia, etc.”(SILVA apud GROTTA,2000,p.2)

As discussões e reflexões sobre leitura também ganharam mais espaço e visibilidade nos Congressos de Leitura do Brasil (COLE), no trabalho desenvolvido pela Associação de Leitura do Brasil (ALB), nas publicações especializadas e nos demais eventos científicos.

Os trabalhos que discutem a formação de leitores associada a suas histórias de vida e de leitura, ainda são pouco explorados pelos pesquisadores no Brasil, porém, cabe enfatizar alguns exemplos como a pesquisa de Grotta (2000, p.9) que investigou “[...] na história de vida de quatro sujeitos, as experiências de leitura que foram significativas para a formação dos mesmos enquanto leitores”. Assim,a autora traz um olhar diferenciado para as singularidades que contribuem para a formação do sujeito leitor.

Dentro desta linha de pesquisa o trabalho de Santos(2000), enfoca as histórias de leitura e de vida de professores e alunos de uma instituição escolar, como uma referência e um ponto de partida para o trabalho pedagógico desenvolvido pela escola. Um dos resultados deste estudo apontou o “ [...] valor das histórias de leitura de cada ser na construção de seu percurso de ser-leitor”, tentando mostrar que a constituição do sujeito leitor está entrelaçada a sua história de vida.(ibidem,2000,p.8)

As pesquisas que procuram relacionar as histórias de leitura e as histórias de vida com a constituição de sujeitos leitores, buscam a reflexão sobre a leitura pelo viés do processo de formação do leitor, abordando questões ainda pouco investigadas que desvelam, possivelmente, aspectos que afetam essa formação numa perspectiva individual e coletiva. E, também, por outro lado, esses estudos não ficam atrelados ao lugar comum dos enfoques já debatidos sobre a formação do leitor, a promoção e o incentivo a leitura no contexto brasileiro , a leitura na escola, etc. , ao contrário, eles tentam trazer apropriações diferenciadas que possibilitam o surgimento de novas abordagens sobre a leitura na sociedade contemporânea.

REFERÊNCIAS

CERTEAU, Michel de.Ler:uma operação de caça.In: A invenção do cotidiano: artesdefazer. Petrópolis: Vozes,1994.p.259-273.

GROTTA,Ellen Cristina Baptistella.Processo de formação do leitor: relato e análise de quatro histórias de vida.(Dissertação de Mestrado.Universidade Estadual de Campinas- Faculdade de Educação)268f.2000.

LACERDA, Lílian Maria de.Memórias de vida, histórias de escolarização e de leitoras. Leitura:teoria &prática,v.19,n.35,jun.2000.

NEVES,Rogério Xavier.A leitura na formação do estudante universitário: uma história de leitura. In:CONGRESSO DA HISTÓRIA DO LIVRO E DA LEITURA NO BRASIL,1,1998,Campinas.Anais... Campinas:ALB,1998.CD-ROM.

SANTOS, Marizeth Fariados.Cada leitor,uma história.

Disponível em: www.filologia.org.br/vicnlf/anais/caderno06-04.Acesso em :15 out. 2003.

SILVA, Ana Lúcia G. Da. Histórias de Leitura na terceira idade:memórias individuais e coletivas.In :CONGRESSO BRASILEIRO DE HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO,2,2002,Natal.Anais...Natal:Ed.Núcleo de Arte e Cultura daUFRN,2002.CD-ROM.

VIDIGAL, Luís. Os testemunhos orais na escola: história oral e projetos pedagógicos. Lisboa: Asa, 1996.

 
Voltar