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  A CONSTRUÇÃO DA IDENTIDADE CULTURAL: ORALIDADE E LETRAMENTO ENTRE OS ÍNDIOS XAKRIABÁS

Carlos Henrique de Souza Gerken - UFSJ
Isis Aline Vale Teixeira - UFSJ

I – INTRODUÇÃO

Nesse texto pretende-se analisar um episódio de letramento que caracteriza um importante ritual tradicional que visa a recriação da memória coletiva da cultura Xakriabá. A investigação desse ritual faz parte de um esforço de compreensão de modos específicos de criação, armazenamento e transmissão de conhecimento em linguagem oral e gestual, e as transformações produzidas pela introdução da escrita entre os Xakriabás. Trata-se do projeto de pesquisa intitulado “Processamentos cognitivos em povos tradicionais indígenas: o caso da cultura Xakriabá” que foi iniciado em 2003 e constitui um dos desdobramentos teóricos do projeto de pesquisa “Sujeitos socioculturais na Educação Indígena em Minas Gerais: uma investigação interdisciplinar”, que tinha como objetivo principal compreender o processo de escolarização e apropriação da escrita, a partir da introdução do Programa de Implantação das Escolas Indígenas do Estado de Minas Gerais na Terra indígena Xakriabá (PIEI/MG) .

Parte-se do pressuposto que a compreensão do processo de apropriação da escrita entre os Xakriabás só será possível mediante um estudo mais aprofundado dos processamentos cognitivos pertinentes a um universo cultural mediado por estratégias orais de apropriação da escrita. Supõe-se a existência de processos de negociação de significados que envolvem o deslocamento e a construção de sentidos nas fronteiras demarcadas pela cultura oral. A idéia central que norteia as investigações é a de que as culturas de base predominantemente orais apresentam formas próprias de construção da memória, de raciocínio abstrato, de classificação de eventos naturais e sociais, que não podem ser reduzidas ao campo pragmático e utilitário, conforme a crítica de Lévy-Strauss (1976), Sahlins (1979), Oliveira (1997; 1998), dentre outros. Formas estas que estariam presentes tanto nas trocas cotidianas como nos processos de construção de conhecimentos especializados, criados e transmitidos em momentos rituais. Acredita-se que o estudo desses processos seja fundamental, uma vez que eles funcionariam como mediadores da interpretação dos significados compartilhados no interior da cultura, bem como do acesso a outras formas de linguagem com as quais os Xakriabás estão entrando em contato através da escolarização, da apropriação cultural da escrita e da introdução de sistemas de comunicação como o rádio, a televisão e a internet, possibilitados pela recente implantação da energia elétrica em várias aldeias.

A consolidação do projeto de escola diferenciada em curso, portanto, só terá êxito mediante o avanço da compreensão dos mecanismos de mútua interpretação que estão na base das representações e dos valores através dos quais as diferentes categorias de sujeitos Xakriabás interpretam e dão sentido à escola e aos processos de transformação que estão ocorrendo em seu universo sociocultural. Nesse sentido, visualiza-se a importância de estudar, de um lado, os rezadores analfabetos que são depositários do saber tradicional e de sua lógica de transmissão, e de outro, os professores, que assumem importância decisiva no cenário contemporâneo, não apenas porque representam uma nova categoria de sujeitos letrados, mas porque ocupam o lugar de intérpretes legítimos da cultura Xakriabá e lutam através da escola para que a sua identidade seja conhecida e preservada. O atual processo de apropriação da escrita entre os Xakriabás perpassa todos espaços culturais e sociais, desde as práticas cotidianas, até a organização política, econômica, social, religiosa e cultural. Embora se reconheça a importância do impacto da escolarização e da apropriação da escrita em todos esses espaços, especialmente no cenário político , para a exposição nesse texto, as análises serão delimitadas a alguns processos de apropriação da escrita no universo religioso.

No sentido de Durkheim, toda experiência do sujeito seria fundada pela sociedade. Haveria, portanto, uma anterioridade absoluta do social com relação a qualquer outra categoria. O indivíduo, seria uma construção social, através das experiências de socialização que definem as formas genéricas de reprodução da sociedade, seria, portanto, marcado pela existência compartilhada de referências lógicas que expressariam as suas formas de organização cotidiana. Os rituais determinariam as concepções de tempo. As divisões geográficas, as representações de espaço, as relações entre os sujeitos, as noções de causalidade, etc. Embora o autor faça uma distinção epistemológica entre as sensações e os conceitos, o que importa para a sua sociologia é o caráter lógico do segundo, que definiria a própria possibilidade de fundar o humano.

Qual seria neste modelo o lugar da linguagem? A linguagem seria produto da elaboração coletiva, “o que exprime é a maneira pela qual a sociedade, no seu conjunto, concebe os objetos da experiência. As noções que correspondem aos diferentes elementos da língua são, portanto representações coletivas” (Durkheim, 1989, p. 513).

Na palavra, portanto, encontra-se condensada toda uma ciência mais que individual; e ela me supera a tal ponto que não posso sequer me apropriar de todos os seus resultados. Quem de nós conhece todas as palavras da língua que fala e o significado integral de cada palavra? (Durkheim, 1989/1912, p. 513)

Durkheim (1989) defende que a religiosidade existe enquanto patrimônio simbólico de um grupo. Dessa idéia decorre o postulado de que toda experiência religiosa se funda na e pela sociedade. Ao permitir o contato, a convivência com o outro, possibilita a apreensão do ideal coletivo e se constitui num elemento central que possibilita a reprodução da realidade social, revelando conseqüentemente, as ambigüidades e polarizações que compõem a sociedade e seus processos de transformação.

Tomando como referência essa perspectiva, acredita-se que seja fundamental analisar como as práticas culturais que definem a experiência religiosa entre os Xakriabás, estão sofrendo transformações em função da introdução de novos elementos culturais, decorrentes do acesso à escolarização, da apropriação da linguagem escrita e do contato com novas tecnologias, especialmente o rádio e a televisão, proporcionados pela recente conquista da eletricidade.

Ressalta-se a importância de se estudar os modos de produção, armazenamento e transmissão de conhecimentos nos contextos religiosos em função da centralidade que eles adquirem na economia simbólica do grupo, atravessando os diferentes campos da vida cotidiana, desde a organização do espaço familiar, do trabalho, até a nova experiência da escolarização. No seu calendário anual destacam-se as mobilizações realizadas por ocasião da Semana Santa e da Festa da Santa Cruz, em meados de abril e maio. Para efeito da exposição nesse texto, a análise será limitada à Via-Sacra na Aldeia Barreiro Preto, ritual que integra as festividades da Semana Santa . A sua particularidade está em constituir-se num momento singular de criação, armazenamento e transmissão do conhecimento realizado em linguagem oral e gestual, mas que, ao mesmo tempo, incorpora modos particulares de apropriação da linguagem escrita, tornando-se, portanto, momento privilegiado para a investigação do letramento entre os Xakriabás .

O conceito de letramento passou a ser usado para distinguir os estudos sobre o “impacto social da escrita” dos estudos sobre alfabetização. Nessa perspectiva, a ênfase está no exame das mudanças políticas, sociais, econômicas e cognitivas relacionadas ao uso extensivo da escrita nas sociedades tecnológicas. Uma mudança na natureza dos estudos deixou de pressupor efeitos universais do letramento e passou a considerar que eles estariam relacionados às práticas sociais e culturais de grupos que usam a escrita, e que a oralidade poderia ser um objeto central de estudo na análise dessas práticas (Kleiman, 1995).

Constitui debate teórico interdisciplinar, não só por diferentes enfoques - psicológico, lingüístico, sociológico e antropológico - mas pelo intercâmbio entre eles. O foco psicológico centra-se nas conseqüências da aprendizagem e do uso da escrita nos modos de funcionamento cognitivo dos indivíduos. Porém, tem-se enfatizado também nas investigações o advento e disseminação da palavra escrita e impressa na conformação das instituições sociais e do desenvolvimento econômico; as características da expressão e comunicação oral ou da linguagem escrita; ou ainda a relativização da dicotomia oral/escrita (Ribeiro, 1999).

As relações entre oralidade e escrita devem ser analisadas numa abordagem que ultrapasse os limites do código e conceba ambas como conjunto de práticas sociais. Não devem ser consideradas processos antagônicos e separados, nem compreendidas sem se considerar suas interações e influências mútuas, uma vez que constituem modos de representação cognitiva e social que se revelam em práticas específicas. Embora cada uma dessas formas de apresentação da linguagem tenha a sua dinâmica e lógica interna, as diferenças devem ser vistas e atualizadas na perspectiva do uso e não do sistema (Viñao Frago, 1993; Marcuschi, 2000; Ong, 1998).

Tendo por base essas argumentações, privilegia-se, para a análise da Via-Sacra, a perspectiva sócio-interacionista proposta por Street (1995). Essa tendência da análise do discurso unida à investigação etnográfica constitui uma das melhores alternativas para a observação do letramento e da oralidade como práticas sociais na medida em que se preocupa com os processos de produção de sentido tomando-os sempre como situados em contextos socioculturais marcados por atividades de negociação ou processos inferenciais e com a análise dos gêneros textuais e seus usos na sociedade (Marcuschi, 2000).

Antes de prosseguir à análise da Via Sacra, serão descritos os pressupostos metodológicos e os procedimentos utilizados na pesquisa.

II Pressupostos, instrumentos, atores e locus da pesquisa

Os Xakriabás constituem um dos mais populosos grupos indígenas do Brasil. Residem num território localizado nos municípios de Itacarambi e São João das Missões, norte de Minas Gerais. Segundo dados da FUNAI (2003) a população local é de aproximadamente 6.500 habitantes, distribuídos em 26 aldeias e 3 sub-aldeias, localizadas em duas extensões de terra demarcadas pelo governo federal: A terra indígena Xakriabá, que totaliza 46.470 hectares e a Rancharia, que totaliza 6500 hectares.

Em função da complexidade que adquire o objeto de pesquisa adotou-se uma perspectiva metodológica de caráter interdisciplinar, que une pressupostos de pesquisa etnográfica em antropologia, e de pesquisa sócio-histórica em psicologia. Busca-se a análise integrada da sociedade e da cultura e a compreensão das relações entre a ação dos indivíduos e as situações históricas, institucionais e culturais nas quais ocorrem concretamente (Brandão, 2002; Wertsch; Del Rio; Alvarez, 1998). Dentre os principais procedimentos está a realização de entrevistas abertas com informantes privilegiados, a observação participante e o registro audiovisual de contextos rituais e cotidianos de vida e trabalho.

Um dos pressupostos mais importantes para a plena realização do projeto de pesquisa diz respeito ao esforço de compreender a cultura Xakriabá a partir de seu contexto de realização e através da decifração de sua própria lógica, isto é, do modo como ela pensa a si mesma e o mundo. Por isso, é importante realizar uma descrição rigorosa e a integração de elementos submetidos à pesquisa, além do conhecimento obtido através da vivência pessoal e de participação do investigador no contexto cultural (Brandão, 2002).

A intenção dos pesquisadores é realizar um trabalho de investigação mais aprofundado em todo território, no entanto, não foi possível até esse momento concretizar tal objetivo devido às condições das jornadas de campo (no máximo duas jornadas anuais de 10 dias, aproximadamente), da extensão do território e das condições de acesso às aldeias.

As investigações realizadas a partir de 2000 focalizaram as aldeias Barreiro Preto e Caatinguinha e revelaram a complexidade e riqueza dos fenômenos observados, que se referem à práticas socioculturais como a Via-Sacra, que será analisada nesse texto. A Aldeia Barreiro Preto foi eleita foco das investigações em função do conhecimento acumulado após cinco anos de pesquisa.

Nas duas últimas visitas de campo realizadas, entre os dias 23 e 30 de outubro de 2004 e 19 e 26 de março de 2005, o procedimento fundamental adotado foi a imersão no contexto de pesquisa por parte de um dos pesquisadores. Ressalta-se a conquista de um relacionamento de confiança entre os pesquisadores e a comunidade local, especialmente com as crianças, mulheres e os idosos, decorrente de um contato com os indígenas cuja aproximação ultrapassa os objetivos da investigação. É importante que haja sensibilidade para ouvir os sujeitos em situações diversas de contato, inclusive na comunicação por meio de cartas e bilhetes e em visitas domiciliares sem a preocupação imediata com registro dos dados. De acordo com Brandão (2002) “Não é recomendável envolver-se com o outro para conhecê-lo, mas esse envolvimento é a própria condição do conhecimento” ( p. 172).

Os Xakriabás levantam algumas hipóteses a respeito do trabalho a ser desenvolvido e é esse elemento que media a relação com os pesquisadores. É comum que questionem tanto acerca do trabalho quanto da vida pessoal dos pesquisadores, o que pode remeter a uma simples curiosidade em virtude de uma familiaridade já conquistada ou, por outro lado, insegurança em receber o desconhecido em casa.

Isso é extremamente significativo quando se remete à análise das entrevistas. É muito difícil realizar uma boa entrevista com o informante privilegiado já no primeiro encontro. Geralmente as pessoas se sentem desconfortáveis e intimidadas, por isso, o ideal é realizar várias entrevistas ao longo do tempo. Vale lembrar também que os sujeitos sentem-se mais à vontade quando são entrevistados em casa. Nesse caso, os pesquisadores se dirigem à casa de seus informantes privilegiados a cada jornada de campo, conversam e se familiarizam com ele, de forma que no momento oportuno a entrevista se torne menos tensa para ambos, e isso só é conseguido com tempo. Ressalta-se ainda a importância da entrevista aberta, de caráter informal e amigável, cujo contexto favoreça a emergência de histórias e memórias que podem constituir importantes materiais de análise, uma vez que expressam formas de significação e interpretação da realidade sociocultural (Bosi, 1994; Braga, 2002; Bruner, 1997; 2001).

O uso do gravador nas entrevistas é algo que tem sido atentamente observado. A importância desse recurso, assim como das gravações em vídeo, está em permitir a realização de leituras dos eventos distanciados do momento da coleta de dados, a observação detalhada dos elementos nele envolvidos e contribuir para a efetivação de um banco de dados com as entrevistas e imagens devidamente cotadas, que poderão ser consultados por outros pesquisadores futuramente (Souza, 2003). No entanto, acredita-se que os entrevistadores devem estar atentos ao fato do entrevistado não se sentir bem quando o gravador estiver ligado. Nesse caso, a entrevista deve continuar sem esse recurso, e, ao final, relata-se tudo o que foi conversado em diário de campo, que também constitui importante fonte de consulta, na qual podem ser anotados impressões, atividades e aspectos gerais das observações e entrevistas realizadas.

Para as entrevistas, foram escolhidas duas categorias de sujeitos: 1- os rezadores que assumem posição central na realização dos rituais; 2- pessoas mais jovens que participam da organização da Via-Sacra. A intenção era observar como as diversas categorias de sujeitos envolvidas na organização e realização dos rituais compreendiam os significados ali compartilhados e os seus processos de transformação. As entrevistas foram realizadas nas casas dos entrevistados e, sempre que possível, registradas em áudio e vídeo. Os investigadores buscaram realizar conversas informais, observando os padrões de interação entre as diversas categorias de sujeitos. Foram realizadas entrevistas com professoras, rezadores e alunos da escola indígena.

No próximo segmento do texto, será realizada a descrição da Aldeia Barreiro Preto, com o objetivo de identificar algumas características fundamentais para a compreensão da Via-Sacra.

2. 1 A Aldeia Barreiro Preto

A aldeia do Barreiro Preto constitui o terceiro maior contingente populacional da Terra Indígena Xakriabá, com aproximadamente 600 habitantes distribuídos em 112 famílias. Grande parte da extensão territorial da aldeia é cortada por estradas de terra que dão acesso também a outras aldeias. O principal meio de transporte é o cavalo e o jegue. A população também utiliza caronas oportunas nos carros da FUNAI, FUNASA e da Secretaria da Educação que circulam constantemente pelas aldeias. Alguns professores e funcionários da escola adquiriram recentemente automóveis e motocicletas, o que favorece o deslocamento dentro e fora da Terra Indígena.

O Barreiro Preto é sede de um dos três núcleos escolares da Terra Indígena Xakriabá, denominado Escola Estadual Indígena Xukurank, que aglutina e administra as escolas em várias aldeias. Atende na escola central a 180 alunos de 1ªsérie a 8ª série do ensino fundamental. A implantação do ensino médio é uma das principais reivindicações da população e está sendo negociada com a Secretaria de Educação do Estado de Minas Gerais.

Na região central estão localizadas a escola, a casa da comunidade e a casa da medicina. A casa da comunidade é um grande salão de alvenaria que foi construído pela comunidade para a realização de encontros, reuniões políticas, e é reservado também para os rituais religiosos que fazem parte da vida simbólica do grupo. A casa da medicina é resultado de um projeto organizado pelo CIMI dedicado ao resgate do saber tradicional dos Xakriabá sobre as práticas de cura com utilização de plantas medicinais colhidas na região. A produção dos medicamentos é realizada tanto por pessoas mais experientes, que aprenderam com seus antepassados, como pelos jovens que aprendem novas receitas através de livros e cursos organizados com o apoio do CIMI. Tal panorama caracteriza a Casa da Medicina como um espaço de aprendizagem importante para a aldeia na medida em que sintetiza conhecimentos da tradição com elementos novos transmitidos através do uso da leitura e da escrita. Há ainda na região central da aldeia uma mercearia, que possui diversidade de alimentos e produtos de higiene e uso geral. Normalmente as pessoas compram fiado e pagam no final do mês.

A maioria das casas é construída em alvenaria, mas existem também aquelas que utilizam técnicas tradicionais de barro trançado com madeira. Praticamente todas as casas possuem energia elétrica e água encanada. O esgoto é escoado para fossas construídas nos quintais.

A economia local é baseada em diversas atividades, sendo a principal a agricultura familiar, especialmente plantio de milho e feijão. No entanto, em função do aumento do período de estiagem e da queda da produção, tem aumentado nos últimos anos o número de jovens e adultos que migram temporariamente para São Paulo e Goiás para trabalharem em lavouras de cana em épocas de colheita. Os Programas governamentais de assistência social, como o “Bolsa Família”, têm sido fundamentais para a sobrevivência de famílias que não estão conseguindo reproduzir a sua força de trabalho através das atividades na agricultura e na pecuária de subsistência. A renda proporcionada por pensões e aposentarias também contribui significativamente para a sobrevivência das famílias.

A partir da introdução da escolarização, surgiram novas possibilidades de empregos, tanto no interior da escola, por exemplo, os professores, secretários, auxiliares de serviços gerais e merendeiras, como também fora da escola, por exemplo, os agentes de saúde. Esses profissionais são escolhidos pela comunidade e precisam dominar estratégias de registro e comunicação em linguagem escrita, por isso, são recrutados entre os alunos com maior escolaridade.

Outro aspecto que nos chamou atenção durante a última jornada de campo foi a instalação do telefone público na região central da aldeia no início de 2005. O aparelho é bastante usado pela comunidade, especialmente por aqueles que possuem parentes morando fora da Terra Indígena, e constitui atração, especialmente entre as crianças que, durante a estadia de um dos pesquisadores, questionaram inúmeras vezes: “cê tem número?”

Observou-se que a organização social da aldeia é baseada na estrutura familiar extensa e que todos os membros da comunidade possuem algum grau de parentesco. São tratados como tios, tias, primos, sobrinhos, cunhados, compadres e comadres. Os adultos mais velhos são reverenciados por todos com pedidos de bênçãos. Esta estrutura familiar possibilita um contato muito próximo das crianças com outros adultos e com crianças de outras idades, ampliando o universo de socialização primária desses sujeitos. Vale enfatizar que elas são livres para circular por toda vizinhança e que é comum acompanharem os adultos nas atividades diárias, na lavoura, nas rezas e nas visitas a amigos e parentes.

O pertencimento comunitário e familiar é um dos aspectos mais importantes no processo de aprendizagem da cultura da Aldeia Barreiro Preto, sendo caracterizado pelo contato constante entre pessoas de idades diferenciadas. Os filhos, ao se casarem vão morar em terrenos próximos à casa dos pais, de forma que a família é composta por várias gerações que convivem e se ajudam mutuamente. Esse costume parece estar fundamentado na importância dos mais jovens ajudarem aos mais velhos a realizar as tarefas cotidianas, ao mesmo tempo em que têm a possibilidade de aprender com os mais velhos os elementos simbólicos da tradição. Pode-se afirmar que se estabelece um contrato simbólico de reciprocidade em que os mais jovens são favorecidos com a experiência e os mais velhos, com a força e a disposição dos jovens na realização das atividades produtivas.

Em épocas de plantio e colheita, famílias inteiras se mobilizam na realização das atividades. Quando os homens estão trabalhando fora da aldeia, as mulheres se responsabilizam pelo cuidado dos filhos, das lavouras e do gado e são auxiliadas pelos parentes próximos.Tem se tornado bastante comum no cenário atual da aldeia Barreiro Preto que mulheres trabalhem fora de casa. As atividades desenvolvidas requerem o domínio de habilidades desenvolvidas a partir do domínio da leitura e escrita, como é o caso do ser professor, agente de saúde ou secretária escolar, no entanto, há também aquelas que requerem o domínio de habilidades tradicionalmente femininas, como é o caso das auxiliares de serviços gerais e das cozinheiras da escola.

Junqueira (1991) considera que é fundamental traçar um quadro de distinção entre as sociedades indígenas e as sociedades modernas industriais. Segundo a autora, a principal diferença reside no sentimento de vida comunitária existente nas sociedades indígenas que se apóia nas formas coletivas de organização do trabalho produtivo, na realização regular de festas e cerimônias, contatos com os amigos, visitas a parentes e em formas variadas de lazer e manifestação artística. Os Xakriabás se enquadram perfeitamente no universo descrito pela autora tanto pelas relações comunitárias que implicam em diferentes tipos de trocas materiais e simbólicas, com conseqüências nas formas de organização dos movimentos sociais, dos rituais e das relações com a sociedade circunstante.

A organização social é fortalecida pelas trocas ocorridas durante os rituais tradicionais, que são realizados por toda comunidade. Um processo lento de transformações nas práticas cotidianas vem ocorrendo nesse cenário, em função da introdução da escolarização sistemática e da emergência de novas formas de lazer e entretenimento, proporcionadas pela conquista da eletricidade. O acesso aos meios de comunicação, especialmente o rádio e TV, está provocando modificações sensíveis nos padrões de interação entre os sujeitos. A maioria das casas visitadas possui aparelhos de som e televisão. Pôde-se observar que os mais jovens gostam de ouvir música, especialmente, ritmos associados ao forró, muito presente no norte de Minas Gerais.

Apesar de estarmos conscientes de que o estudo das relações que estão sendo construídas pelos sujeitos com a televisão merece estudos específicos em função da complexidade do problema, julga-se necessário mencionar alguns aspectos desta relação em função de sua crescente importância no cotidiano dos sujeitos da Aldeia do Barreiro Preto e de suas interferências nos processos de produção e transmissão de conhecimentos. A relação que se estabelece com a televisão varia de acordo com a idade e o gênero dos telespectadores. Observou-se, por exemplo, que as rezadeiras mais velhas assistem programas matinais de culinária, além de missas em canais católicos como “Canção Nova” e “Rede Vida”. Entre os mais jovens, a preferência são as novelas e os filmes.

Vários informantes enfatizaram que a televisão, ao se firmar como um meio de entretenimento, interfere fortemente na realização de práticas culturais tradicionais. O horário das rezas e dos encontros é definido em função da audiência de novelas, outros preferem se ausentar às reuniões deixando de participar dos rituais e conversar com os amigos para ficar em casa assistindo à TV .

III LIÇÕES DE ESCRITA ENTRE OS XAKRIABÁS: particularidades da Via-Sacra na Aldeia Barreiro Preto

A Via-sacra é um ritual tradicional que integra as festividades da Semana Santa e acontece nas quartas, quintas e sextas-feiras santas. O local privilegiado para sua realização é o cemitério, que é previamente capinado e limpo. Toda comunidade se mobiliza para participar do ritual, apesar do sol forte das quinze horas numa região de clima semi-árido. No início da tarde os moradores começam a se aglutinar, aguardando o início das atividades de celebração, aproveitando para conversar com parentes e amigos e para colocar velas nos túmulos e rezar pelos parentes mortos.

Além da limpeza do cemitério, na preparação do espaço para celebração, são assinaladas 14 Estações, ao longo do perímetro interno do cemitério, em cartazes manuscritos e pendurados nas cercas. Essas estações serão percorridas durante o ritual e correspondem aos episódios da Paixão de Cristo.

As crianças são livres para percorrer o cemitério e ajudar os adultos na organização dos últimos detalhes para a celebração. Observou-se que há uma negociação prévia entre o rezador-chefe - Sr. J. - condutor do processo ritualístico, e o leitor - Sr. H. - que parece confirmar e “ensaiar” o que deverá ser lido publicamente aos demais presentes.

O ritual desenvolve-se da seguinte maneira: Ao sinal do Sr. J., todos os presentes se reúnem em torno da primeira estação. À frente está uma criança, que segura uma bandeira com a face de Cristo pintada, mais adiante estão o Rezador-Chefe - Sr. J. - e o leitor - Sr. H. - e, logo em seguida, toda comunidade. Em cada uma dessas estações, canta-se um trecho do ofício (um tipo especial de ladainha que conta a história da Paixão de Cristo), realiza-se uma leitura e canta-se um Bendito. Os benditos e ladainhas são formas melódicas caracterizadas pelo ritmo e pela repetição em diferentes vozes e tradicionalmente realizadas e transmitidas em linguagem oral e gestual. São praticadas pelos rezadores e acompanhadas por toda comunidade, inclusive as crianças. Algumas ladainhas são realizadas em fórmulas orais oriundas do latim. Estas são conduzidas pelos rezadores mais velhos e apenas um número reduzido de pessoas é capaz de acompanhá-las. Observou-se que, durante o ritual da Via-Sacra, algumas pessoas acompanhavam as rezas utilizando-se de anotações prévias dos benditos e ladainhas.

Sr. H. pode ser considerado “leitor oficial”, uma vez que adquire posição de destaque na condução do ritual ao assumir a responsabilidade de ler as orações. A leitura é realizada a partir do livro “Cartilha da Doutrina Cristã”, que data o início do século XX e incorpora tanto lições catequéticas, como lições de primeiras letras e aritmética. De acordo com informações obtidas, o livro constitui patrimônio sagrado do grupo e atualmente, está sob os cuidados do Sr. J., que afirma tê-lo ganhado, do antigo dono, que era o falecido Sr. F., respeitado rezador e conhecedor das tradições Xakriabás, sendo muito conhecido por alfabetizar e ensinar orações e outros conteúdos da tradição às pessoas da comunidade. É importante dizer que Sr. F. era pai da rezadeira D. G., avô do rezador Sr. H. e padrinho do rezador-chefe Sr. J..

O ritual está condicionado à presença do livro, o que demonstra o valor simbólico que ocupa no grupo. O jogo simbólico construído entre as fórmulas orais em latim, os benditos cantados pela comunidade e as leituras feitas por um único sujeito, num único exemplar antigo, demonstram os processos através dos quais a escrita está sendo assimilada simbolicamente.

Street (1995) defende que todo comportamento e conceitualização social que dá significado aos usos da leitura e escrita constitui prática de letramento. Tais práticas envolvem não somente situações reais em que o letramento é integral, mas também modelos populares acerca de tais eventos e concepções ideológicas sobre eles. Em primeiro lugar chama a atenção o fato de que o rezador que conduz os trabalhos não domina a linguagem escrita, mas é o guardião do livro. Ele conhece os conteúdos do livro, não porque os adquiriu por meio da leitura, mas sim pela participação em práticas de letramento, nas quais incorporou certos conteúdos ao assumir papel de ouvinte durante leituras. Uma das hipóteses que pode ser levantada é que, mesmo não dominando os processos de decifração que permitem ter acesso aos significados do texto escrito, Sr J. sabe, à semelhança das “Lições de Escrita de Lévi-Strauss” , que a posse do livro confere-lhe um poder que legitima seu saber oral. Isso porque o livro remonta a uma história de apropriação da linguagem escrita que não é mediada pela escolarização e cujos resquícios podem ser encontrados nas fórmulas orais oriundas do latim e no lugar que ele (o livro) ocupa na economia simbólica do grupo. Representa, portanto, o que Marcuschi (2000) denomina “letramento social”, que surge e se desenvolve à margem da escola.

Há, portanto, uma distinção bastante nítida entre a apropriação / distribuição da escrita e leitura ( padrões de alfabetização) do ponto de vista formal e institucional e os usos / papéis da escrita e leitura (processos de letramento enquanto práticas sociais mais amplas) (p. 20).

Por remontar essa história de apropriação da escrita no grupo, é que ele constitui herança simbólica e o seu lugar perpassa as hierarquias locais de poder e de saber. Assim, Sr. J. torna-se guardião do livro, não por saber ler e escrever, mas por ocupar lugar privilegiado numa cadeia de significações que legitima o saber criado e transmitido por meio da oralidade.

Em segundo lugar, a escolha do leitor não é feita com base em critérios de proficiência. É importante dizer que dentre os participantes do ritual, há várias pessoas com graus de proficiência maior no domínio da leitura e da escrita, como os professores e os alunos da oitava série. Durante a Via-Sacra, Sr. H. se esforça para realizar a leitura, escandindo sílabas, quebrando o ritmo, tropeçando nas palavras, mas conduzindo o ritual com autoridade, ao lado do Sr J..

De acordo com Calil (1994), a interpretação das práticas sociais supõe que as interações determinam os chamados papéis ou posições ocupadas pelos participantes em uma dada situação ou evento de leitura e escrita. Uma interpretação discursiva e sócio-histórica da noção de letramento não pode se restringir aos aspectos interacionais sem que antes se procure entender como as práticas discursivas determinam as possibilidades do dizer, posto que há uma relação intrínseca entre os sentidos e as formações discursivas em que são produzidas. O letramento pode ser considerado um aspecto interdiscursivo, estando relacionado a um certo tipo de circulação de enunciados ou universos de significação (universos de sentido / significação). Esses enunciados são postos em funcionamento em determinadas práticas que determinam as possibilidades do dizer.

Marcuschi (2000), por sua vez, afirma que na observação das relações entre a fala e a escrita deve-se estar atento ao fato de que ambas constituem modos de representação cognitiva e social que se revelam em práticas específicas. Além disso

“A língua, seja na sua modalidade falada ou escrita, reflete, em boa medida, a organização da sociedade. Isso porque a própria língua mantém relações com as representações e formações sociais” (p. 35).

A escolha do leitor se dá em função de uma lógica que demarca espaços numa estrutura de transmissão de saber e de poder e que, é importante ressaltar, não se estrutura no domínio da linguagem escrita. Se a proficiência em leitura fosse o critério de escolha do leitor, provavelmente teríamos a presença de professores e alunos nessa posição. O ritual da Via-Sacra, portanto, constitui-se num momento singular de aprendizagem da cultura da Aldeia Barreiro Preto, no qual os sujeitos se apropriam não só dos valores simbólicos compartilhados, mas sobretudo, das formas de funcionamento social do grupo, mais especificamente, as hierarquias de saber e de poder, que estão perpassadas pelos lugares ocupados pelo rezador, pelo leitor e pelo livro durante o ritual.

3. 1 Oralidade e escrita: as idiossincrasias do ensino das “Ladainhas em Latim”

Para Marcuschi (2000), mais importante do que identificar primazias ou supremacias entre oralidade e escritura tidas como simples modos de uso da língua, é esclarecer a natureza das práticas sociais que envolvem os seus usos. Esse movimento é fundamental porque tais práticas determinam o lugar, o papel e o grau de relevância da oralidade e das práticas de letramento numa sociedade e justificam que a questão da relação entre ambos seja posta num contínuo sócio-histórico de práticas sociais.

Observe os comentários a respeito do conhecimento das fórmulas orais oriundas do latim. De um lado temos as argumentações de Sr. J.- rezador-chefe - e de outro, as da professora A., uma das principais lideranças religiosas emergentes, responsável pela introdução de novos conteúdos na cultura da aldeia Barreiro Preto e pelo estabelecimento de novas formas de armazenagem dos conteúdos tradicionais por meio do registro escrito:

J: Aprendi oração em latim com Seu Manuel. Tem delas que o povo de hoje não sabe e fica difice de aprendê. Até acumpanhá a gente, eles ainda não aprendeu. Eu já tô com essa idade que eu tô e eu queria que eles aprendesse. Tem gente até que já escreveu, já tem as escrita, né?

I: Mas em latim?

J: Em latim, eu tenho o oferecimento da ladainha, essa é em latim. A ladainha também tem expricado e tem em latim.

I: Mas em latim o povo não sabe escrever, sabe?

J: Mas, e se fô vê o sentido da ladainha, qué dizê que a palavra que é expricada, que ela tem em latim, proquê a palavra de uma, que ela diga de um jeitio e quando é outra que vai sê expricada, já tá deferente.

S: Alguém aqui sabe, Seu José, a reza em latim?

J: A ladainha?

S: É!? Desse povo mais novo?

J: Esses ajuda a gente aí, tem uns que já sabe arguma coisa da ladainha expricada. Eu mermo num sei ela não, eu sei ela em latim”.

Recentemente, alguns professores e alunos têm investido na construção de novas formas de armazenagem e transmissão dos conteúdos tradicionais, a partir dos conhecimentos adquiridos no contato com a escolarização e com outras culturas. Dentre os inúmeros recursos usados, destaca-se o registro escrito dos benditos e ladainhas.

As ladainhas em questão são fórmulas orais oriundas do latim que constituem conhecimento tradicional, dominado por poucos rezadores analfabetos. Um aspecto importante a ser retomado na análise do status do conhecimento dessas fórmulas é que elas constituem patrimônio simbólico do grupo, sendo realizadas e transmitidas essencialmente em linguagem oral e gestual. Por outro lado, elas representam herança de uma apropriação da linguagem escrita na Aldeia Barreiro Preto não mediada pela escolarização, mas sim pelas práticas religiosas, através do contato com as missões católicas .

I: Você já aprendeu muitos benditos?.

A: Já sei quase todos!

I: Foi você quem anotou os benditos ou foi S.?

A: Foi eu, eu tenho algumas cópia também. Eu copiei tudo do Sr. J., sabe?! Eu tenho a cópia deles aqui.

I: Você foi lá na casa dele?

A: Fui. Eu e S., nós fomo lá o ano passado. Vai fazê um ano!

I: É!? E já deu pra aprender algumas rezas?

A: Deu! Só que assim, eu num rezo muito sozinha esses bendito não! Quando a gente reza, a gente reza acumpanhano, eu num aprendi tudo assim não!Tem uns que é em latim também.

I: É, aqueles em latim é complicado pra escrever?

A: Nossa senhora, é complicado!!! Tem um aqui oh, uma cópia, que eu não entendo como é que lê não. É cada um nome complicado que dava trabalho até pra gente escrevê!

I: E esses vocês ainda não conseguiram aprender?

A: Ih, não! A gente engasga muito no meio!” (Professora A., Barreiro Preto).

A escrita está sendo utilizada como auxiliar da aprendizagem e da memória e, ao mesmo tempo, tem possibilitado aos sujeitos pensar e refletir sobre os conteúdos que eles mesmos copiaram. No entanto, é importante enfatizar que esse aspecto da reflexão acerca da linguagem está presente tanto no discurso da professora A. ao ressaltar a complexidade das palavras que compõem as fórmulas oriundas do latim e da dificuldade em escrevê-las e aprendê-las, como também no discurso do Sr. J. ao diferenciar entre “ladainhas em latim” e “ladainhas explicadas”. Conforme enfatizado por Feldman (1995), o estabelecimento de um texto e a reflexão sobre ele não exigem necessariamente a escrita. Tanto nas culturas orais, quanto nas escritas, existem gêneros em que o importante são as próprias palavras, que podem ou não fazer parte de um sistema de interpretação. No entanto, existem diferenças entre o texto escrito e o oral, que parecem estar ligadas aos limites da memória, além de constituírem um problema de grau e não de espécie.

Na concepção de Sr. J. o registro escrito tem se tornado importante em função da dificuldade das novas gerações em apreender alguns conteúdos tradicionais. A exceção estaria justamente na aprendizagem das fórmulas oriundas do latim. A dificuldade dos “novos rezadores” em apreender essas fórmulas está associada à distância entre a sua composição e o português aprendido na escola e, mesmo não dominando as técnicas da leitura e da escrita, Sr. J. sabe disso. Ao mesmo tempo, a dificuldade deve-se, sobretudo, ao fato de que a herança simbólica do grupo incorpora não somente os conteúdos tradicionais, mas também os espaços de saber e poder, construídos e legitimados no processo de criação e transmissão desses conhecimentos.

A análise das “ladainhas em latim” aponta para uma importante relação da aprendizagem desses conteúdos culturais com a construção da identidade dos sujeitos na Aldeia Barreiro Preto. Maher (1998) concebe a identidade como um construto sociohistórico por natureza e, conseqüentemente, um fenômeno essencialmente político, ideológico e em constante mutação. Nessa perspectiva, a construção da identidade indígena decorre das relações sociais estabelecidas com outros sujeitos sociais e étnicos, com o objetivo de determinar as especificidades que estabelecem as fronteiras identificatórias e obter o reconhecimento e legitimidade dos lugares ocupados pelos sujeitos na estrutura social do grupo.O domínio das fórmulas orais oriundas do latim seria um elemento fundamental de reafirmação da posição de prestígio do rezador na hierarquia de saber do grupo, uma vez que a realização, armazenagem e transmissão desses conhecimentos estaria condicionada ao seu posicionamento enquanto mestre.

Além disso, elas só adquiririam sentido no interior do ritual, numa performance oral, que permitisse a apreensão do valor artístico e humano, e na qual o rezador, mais do simplesmente um transmissor, se tornasse reconstrutor de um conhecimento acumulado ao longo do tempo. Em outras palavras, a performance oral das “ladainhas em latim” possuiria a particularidade de colocar em jogo as características individuais do orador, responsável por presentificar a memória coletiva da cultura de seu grupo, num momento específico de transmissão do conhecimento.

“O contexto que torna a língua possível é também o contexto que permite ao indivíduo ser ele mesmo, e usar a língua de acordo com seus desejos pessoais. O usuário quer que a língua seja, ao mesmo tempo, a expressão de valores independentes, e uma expressão individual e pessoal de seu self” (Mey, 1998, p. 77).

IV CONSIDERAÇÕES FINAIS

O processo de apropriação da escrita entre os Xakriabás abrange todos os segmentos da vida dos sujeitos, perpassando as experiências no campo social, cultural, político, econômico e religioso A investigação da Via Sacra procurou demonstrar as características de um ritual que representa uma prática letrada mediada pela experiência religiosa. Em primeiro lugar, chama a atenção o papel do livro no interior do ritual. Ele constitui patrimônio simbólico do grupo, elemento fundamental para a realização da Via-Sacra. Sua particularidade está em remontar, simbolicamente, uma história de apropriação cultural da escrita mediada pelo contato dos Xakriabás com as missões católicas. O livro que catequiza é o mesmo que ensina as primeiras letras e insere os sujeitos num novo universo de significações.

O livro é guardado pelo rezador-chefe, condutor do processo ritualístico e que, curiosamente, não domina as estratégias da leitura e da escrita. Apesar de não saber ler e escrever, o rezador se legitima no domínio dos conhecimentos tradicionais realizados e transmitidos somente em linguagem oral e, o que é o mais importante, a posse do livro lhe confere um lugar privilegiado entre os membros do grupo. Da mesma forma, o leitor também ocupa lugar diferenciado e a questão fundamental a ser pensada é que a sua escolha não obedece a critérios de proficiência em leitura.

A análise do status das fórmulas orais oriundas do latim, um dos recursos simbólicos utilizados na transmissão de conhecimentos durante a Via Sacra, ajuda a compreender a particularidade dos usos da linguagem oral e escrita nesse contexto. Apesar de serem realizadas e transmitidas somente em linguagem oral, presentificam uma história de apropriação da escrita mediada pelo contato dos Xakriabás com as missões católicas. Além disso, a aprendizagem dessas fórmulas está intimamente ligada à construção da identidade cultural na aldeia Barreiro Preto, uma vez que elas só adquirem sentido na performance oral, no interior do ritual. Deve-se estar atento ao fato de que, estão em jogo não somente a transmissão dos valores simbólicos compartilhados, mas, sobretudo, das formas de funcionamento social, mais especificamente, dos lugares de poder e de saber, que se legitimam no processo ritualístico.

A análise da Via Sacra ajuda a compreender alguns dos significados atribuídos ao letramento na Aldeia Barreiro Preto, a partir da relação que os sujeitos estabelecem com a linguagem oral e a escrita. Assim, ao lado dos recentes processos de apropriação da escrita mediados pela escolarização e que têm gerado transformações nos diversos segmentos da vida dos Xakriabás, deve-se estar atento também às práticas de letramento que ocorrem à margem da escola. É significativo dizer que a história do letramento na Aldeia Barreiro Preto confunde-se com a própria história do grupo e está intimamente ligada aos processos de criação, armazenagem e transmissão de conhecimentos no universo religioso. Portanto, a importância da Via Sacra como instrumento de recriação da memória coletiva, da cultura da Aldeia Barreiro Preto está em remontar, durante o momento ritual, esta história particular de apropriação da escrita.

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